antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Nina escreve em seu diário, o seu cotidiano, suas alegrias e frustrações, as alucinações de sua mãe e seus próprios pesadelos.


Dram Tüm halka açık.

#diário #378 #pesadelo
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O diário

Querido Diário

Meu nome é Nina Oliveira Kowalski. Hoje é 03 de setembro de 1996. Tenho 17 anos. Ganhei você de minha tia Deise no meu aniversário. Você será meu confidente secreto.

Hoje o dia está lindo, ensolarado. O sol volta a brilhar depois de vários dias nublados e friorentos. Os dias sombrios me deixam meio triste, mas agora, com a primavera chegando, com dias ensolarados, estou mais animada.

Minha cidade é pequena, de casas antigas, centenárias, a maioria sem jardim, com a porta diretamente na calçada, de ruas estreitas, com alguns prédios de comércio, e um antigo moinho. No final da tarde, eu costumava ficar sentado na porta para esperar meu pai chegar do trabalho.

Com a volta do chefe da casa, o jantar se transformava numa festa. A mãe queria saber como foi o trabalho dele e o pai queria saber as novidades do dia.

Nos fundos de nossa casa, tem um pequeno quintal, com um pé de goiabeira e uma laranjeira. Minha mãe fazia geleia e doces das frutas. Num dos cantos do terreno ficava o forno para assar pão e o peru nos fins de ano.

Depois que meu pai morreu, ela deixou de fazer pão e geleias. E até festa de fim de ano. Parece que uma parte dela também morreu. Foi um período bem estranho aquele. Não me lembro muito bem daquele dia que meu pai faleceu. O nome dele é Olímpio Oliveira. Ele era dentista.

O nome de minha mãe é Irena Kowalski. Ela é filha de imigrantes poloneses. Veio para o Brasil ainda bebê.

Com 7 anos comecei a estudar no colégio do município. Aos 15 anos conclui o ensino fundamental. Papai morreu, eu tinha 12 anos.

Mamãe começou a receber uma pensão, mas como o dinheiro não chegava, decidiu abrir um ateliê de costura para completar a renda e poder me matricular num colégio particular de ensino médio. Fiquei meio chateada por ela ter que se sacrificar por mim e até pensei em arranjar um emprego. Ela disse que não precisava, que eu era ainda uma criança.

Não penso mais como uma criança e até guardei minhas bonecas porque não brinco mais com elas.

O que eu tenho para te contar hoje é só. Agora preciso lavar a louça do almoço.


Hoje é 08 de setembro de 1996

Como eu não tinha nada para fazer, a mãe me convidou para ir junto entregar um vestido que ela fez para a dona Madalena, viúva do açougueiro, Ariovaldo. Mateus é o nome do filho dela. Ele é meio estranho. Deve ter e minha idade. Não é feio, até que é bonitinho, mas nunca vi ele com uma namorada. Talvez porque é muito tímido. No colégio não conversava com ninguém. Ficava afastado lendo os livros dele. Não se enturmava.

O que eu quero te contar, Querido Diário é o seguinte; ontem, quando fomos a casa do Mateus levar o vestido da mãe dele, fiz uma loucura!

Enquanto dona Madalena e a mamãe foram para o quarto experimentar o vestido, fiquei na sala lendo uma revista de fotonovelas que encontrei numa estante. Em certo momento, notei que Mateus estava escondido no corredor, me espiando. Fingi que não vi, continuei a ler a revista. Fiquei meio incomodada, sei lá, me deu a louca, larguei a revista levantei a blusa e mostrei os seios pra ele. Não sei, mas acho que o pobre rapaz teve um treco. Ouvi um gemido e ele sumiu de vista.

Fiquei admirada comigo mesma, pela coragem de mostrar meu corpo. Ao mesmo tempo, fiquei satisfeita de ter feito algo tão atrevido.


11 de setembro de 1996

Noite passada, não consegui dormir direito. Acordei com os gritos de mamãe. Corri para lá. Acendi a luz e a vi sentada na cama olhando apavorada para a parede. Disse que tinha um bicho ali. Olhei, procurei pelos cantos e não encontrei nada. Acalmei mamãe, falei que foi um pesadelo, que era só um sonho mau.

Mais calma, voltou a deitar-se, virou para o lado e dormiu. Deixei a luz do abajur acesa e voltei para o meu quarto. Demorei a pegar no sono pois mamãe havia me dado um grande susto

De manhã, quando ela me chamou para tomar café, perguntei sobre o sonho e ela respondeu que não se lembrava de nada.


22 de setembro de 1996

Domingo

Minha tia Deise, irmã de meu pai, veio passar o dia conosco. Depois do meio dia, saímos para fazer um piquenique no campo. A ideia foi de mamãe. O dia estava lindo, cheio de sol, os campos floridos, as árvores com uma roupagem nova, vistosa. As cores cinzentas do inverno foram substituídas por folhagens coloridas.

Foi um dia alegre, agradável. Pouco antes de voltar, como era um lugar isolado, mamãe e Deise fizeram a loucura de tomar banho no rio. De lingerie. Eu não entrei porque não sei nadar. As duas mergulharam e ficaram um tempão lá embaixo. Até fiquei preocupada, achando que tinham se afogado. Mas voltaram à superfície e saíram do rio rindo. Como duas adolescentes sem juízo, diria minha avó.


28 de setembro de 1996

Mamãe pediu para eu ir na padaria para comprar pão e frios. Quando eu estava voltando, avistei Mateus vindo em minha direção. Ele caminhava de cabeça baixa, quando chegou perto de mim, estendeu a mão e me entregou um pedaço de papel dobrado. Quando peguei, meio confusa com a atitude dele, Mateus não esperou e seguiu caminhando, apressado. Desdobrei o bilhete e li o que ele havia escrito. Era uma poesia, em uma linha simples; Nas Ondas dos Teus Cabelos Navega Meu Coração.

Até fiquei com pena do Mateus. Eu gosto dele, mas não pra namorar. Ele me parece frágil, indeciso. Quero alguém como o John Travolta, bonitão, valentão, tudo ão. Joguei fora a poesia do Mateus. Na rua vou ignorá-lo. Se ele vier por uma calçada, vou pela outra.


03 de outubro de 1996

Mamãe voltou a ter pesadelos horríveis que a deixaram abatida. Falei que ela precisa ir ao médico, mas ela disse que não se achava doente. Jurou ter visto bichos. Achava que eles se escondiam no sótão e vinham à noite ao seu quarto. Falei com tia Deise, contei o que estava acontecendo. Deise mandou um conhecido carpinteiro vistoriar a casa, principalmente o sótão. O homem disse que não encontrou nenhum bicho, nem mesmo uma barata. Diante dessa situação, resolvemos insistir com mamãe para ir ao médico.


24 de outubro de 1996

Foi um trabalhão marcar consulta com um especialista pelo SUS, mas conseguimos. Mamãe consultou com um psiquiatra. O médico receitou uns calmantes para dormir e agora, fazem duas semanas que ela não tem pesadelos.


8 de janeiro de 1997

Hoje de manhã, mamãe foi a São Paulo comprar tecidos para suas costuras. Pensei que ela iria me levar junto, mas disse para eu ficar e arrumar a casa. Disse que iria com Deise, elas ficaram de se encontrar na avenida Paulista. Eu a acompanhei até o ponto do ônibus para a capital. Quando estava voltando, encontrei Gloria Brando e o namorado dela, o Tom Vieira. Glorinha foi minha melhor amiga no colégio e continua sendo, embora pouco a gente se vê. Eles estavam indo pescar e me convidaram para ir junto. Em princípio eu não queria ir, mas como Glorinha insistiu tanto, acabei indo.

Além dos caniços, eles levaram algumas garrafinhas de cerveja numa sacola de pano.

Chegando ao rio, a primeira coisa que o Tom fez foi abrir uma garrafa de cerveja e me oferecer. Recusei dizendo que bebida com álcool me fazia mal. Uma vez bebi um copo de chope numa festa. Fiquei mal, fiz um fiasco danado vomitando no banheiro.

Depois de beber a garrafa inteira, Tom se sentou na raiz de uma árvore, tirou papel e fumo dos bolsos e começou a fazer um cigarro. Glorinha se sentou ao meu lado, na beira do barranco e ficamos conversando em voz baixa. Ela me perguntou se eu já tinha beijado alguém. Respondi que eu ainda não tinha encontrado o garoto ideal, que não tinha pressa em ter um namorado.

Glorinha me chamou de boba, romântica e ingênua. Que era para eu ser mais aberta, espontânea, e me perguntou se eu não queria beijar o Tom, se eu não queria fazer sexo com ele, que ela deixaria. Disse que iria gostar muito de assistir.

Fiquei chocada com as palavras da minha amiga. Nunca imaginei que ela iria me propor tal coisa. Claro que eu anseio pela minha primeira vez, mas não dessa forma. Indignada, fui embora, deixei os dois lá, bebendo cerveja e fumando cigarro de maconha.

Mal cheguei em casa a mamãe também chegou. Estava pálida, nervosa. Disse que um homem no ônibus mexeu com ela. Um homem muito feio, com cara de lagarto. O motorista do ônibus, vendo que ela estava muito nervosa, fez a volta e a trouxe até a porta de casa.

Mamãe ficou alucinada, andava de um lado para o outro, e de vez em quando olhava pela janela para ver se o demônio estava lá fora. Só se acalmou depois que lhe dei um calmante para tomar.


9 de abril de 1997

Querido Diário

Por falta de ânimo passei um bom tempo sem conversar com você. Mamãe ficou pior e os remédios já não fazem efeitos. Tia Deise, como responsável por ela, já que eu sou menor de idade, decidiu interná-la numa clínica de repouso em São Paulo. Na verdade, um hospital para doentes mentais. Quem paga é o marido dela, ele é gerente de uma metalúrgica e ganha bem.

Tia Deise vendeu a nossa casa e eu fui morar com ela. O dinheiro ela colocou no banco em meu nome para eu poder pagar um curso pré-vestibular no ano que vem. Eles moram num apartamento, confesso que não estou gostando nem um pouco de estar aqui. Preferia ter ficado sozinha na minha casa, a casa da mamãe. Tenho esperança de que ela vai melhorar, embora os médicos tenham dito que será difícil ela recuperar a razão.

No edifício onde vim morar, as pessoas passam uma pela outra e mal se cumprimentam. Parece que as amizades são fingidas, que eles desconfiam um do outro. Outra noite, ouvi sons estranhos, como se alguém estivesse mexendo na porta do meu quarto.


7 de maio de 1997

Noite passada acordei com alguma coisa puxando o lençol. Tive a impressão de eu era um rato muito grande. Deise e Marcelo acordaram com meus gritos. Marcelo olhou em todos os cantos do quarto e não encontrou nada. Concluímos que foi apenas um pesadelo. Fiquei com muita vergonha.


13 de julho de 1997

Ontem, domingo, fomos visitar mamãe na clínica. Apesar da pintura vistosa, da decoração moderna, cheia de vasos com flores coloridas, senti uma grande opressão naquele lugar.

Logo que entramos na sala onde mamãe estava, vi que havia um homem de pé junto dela, com uma mão em seu ombro. Levei um choque quando vi o rosto dele, um rosto avermelhado, escamoso, cheio de caroços e os olhos eram azuis e profundos como o mar. Virei a cabeça para não olhar para ele e tentei voltar, mas tia Deise me empurrou gentilmente. Voltando a olhar, vi que o homem havia desaparecido.

Mamãe não me reconheceu e eu chorei muito por isso. Ela quase não falou, quando disse alguma coisa, foi algo sobre um vestido que ela tinha que fazer para ir a uma festa.

Quando estávamos saindo de lá, notei que o homem de cabeça vermelha nos seguiu. Agora ele está ali, do outro lado da janela, pedindo para eu abrir e ele poder entrar...


27 Nisan 2021 13:05:45 0 Rapor Yerleştirmek Hikayeyi takip edin
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Son

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