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dissecando Edison Oliveira

Quantos andares tem aquele edifício? Onze ou doze? Este é apenas um dos pesadelos de Elisa, uma gestante que vive constantemente em um mundo de paranoia.


Короткий рассказ 13+.
Короткий рассказ
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PEQUENOS PAVORES



A vida de minha irmã, sempre — ou quase sempre — me causou arrepios. Ela se casou com o sujeito que conhecia desde a época da escola, começaram a namorar, noivaram e até chegaram a casar. Eles viveram um bom tempo, juntos. Tempo o suficiente para também sofrerem um ao lado do outro. Quando ela engravidou, todos ficamos contentes; fizemos planos, compramos presentes, marcamos a data para o chá de bebê, e então Elisa perdeu a criança. Isso com cinco meses de gestação. Na época, foi um verdadeiro sofrimento, uma coisa lamentável, uma dor que se alastrava pelo corpo sempre que ia visitá-la. Algum tempo depois, Elisa me ligou e disse com a voz embargada que tinha boas notícias. Perguntei o que era, mas, no fundo, já sabia que se tratava de uma nova gestação.
Elisa já estava com dois meses de gravidez, alegre e me telefonando toda semana para que opinasse sobre possíveis nomes que ela e Ruben estavam cogitando para o bebê. Dávamos risada quando algum nome excêntrico surgia na linha, e logo depois um silêncio se instalava, caía como um véu sobre nós dois. Certamente porque lembrávamos de nossos pais, e em como eles ficariam felizes com tudo aquilo. Quando Elisa chegou no sétimo mês de sua segunda gestação, alguma coisa dentro dela simplesmente parou de funcionar. Foi como reviver um enorme pesadelo, com as mesmas perturbações, angústias idênticas e lágrimas semelhantes. Durante aquele período, Elisa ficou quase incomunicável. Também foi quando começou a me dar mais arrepios.

Cerca de dois meses após perder o segundo filho, Elisa passou a se aprofundar em pesquisas na internet.
Era comum que ela pesquisasse sobre mundos externos, forças ocultas e significado dos números e das cores. Tais pesquisas fizeram com que seu comportamento mudasse, a deixando obcecada, agressiva e inevitavelmente assustada. Ela passou a colocar a culpa pela perda dos filhos na numerologia, no oculto e em um edifício que nem ao menos existia. Raramente saía para se divertir, e Ruben já não sabia mais o que fazer para tentar ajudar naquela situação. Por vezes ele me telefonava, me pedia conselhos e chorava antes de desligar.
Quando as coisas andavam cada vez mais esquisitas (com Elisa pedindo para o marido pintar a casa inteira na cor cinza, por exemplo) recebi a notícia de que minha irmã estava grávida pela terceira vez. Foi um impacto para todos nós, afinal, Elisa não estava com sua cabeça em um momento sadio. Ainda assim, ficamos contentes, obviamente, não poderia ser de outra forma.
Quando sua gestação chegou no terceiro mês, Elisa me telefonou e de imediato percebi que sua voz estava fraca. Imediatamente pensei no pior; o histórico dela não era nada favorável, e não me espantaria nenhum pouco se ela me dissesse que sua gravidez tivesse sido interrompida mais uma vez. Por fim, não tinha nada a ver com o bebê, mas sim, com Ruben.
Ele estava com câncer.

Encontraram tumores em sua cabeça, após alguns exames mais detalhados que ele fizera após sua enxaqueca não aliviar nunca. Coisas do tamanho de ovos, minha irmã me dissera. Disse a ela que sentia muito, que deveria ter fé e que tudo acabaria bem, aquela coisa que se roteiriza em nossa cabeça, pois falamos sempre a mesma merda quando nos deparamos com uma situação fodida.
Não tive tempo de ir visitá-lo. Meu trabalho sempre ocupou parte da minha vida (para não dizer que a roubou por completa), mas estive em seu sepultamento, abraçado em minha irmã que chorava praticamente sem parar, algo que me fez lembrar de nossa infância, quando eu costumava protegê-la e acalmá-la sempre que escutava os trovões em um dia de chuva.
Ela disse que estava com ele no fim. Segurava a sua mão, enquanto conversavam sobre o possível nome do bebê. Elisa revelou que era difícil olhar para Ruben naquele estado, pesando trinta quilos e cagando na roupa de cama.
Também me confessou que não havia aprovado o horário escolhido para o enterro; segundo ela, três da tarde era péssimo, pois três, era um número negativo. Foi então que a obsessão de minha irmã pelos números piorou.

Quase um mês após a morte de Ruben, Elisa arrumou as suas coisas e se mudou para uma cidadezinha chamada Pedra Negra, alguns quilômetros de onde morava e a um dia e meio de viagem de onde eu residia.
No início, achei a ideia um tanto preocupante. Não queria que ela ficasse tão isolada, distante de meus olhares e enfiada num apartamento de segunda. Por outro lado, talvez novos ares lhe fizessem bem, e mesmo que a convidasse para dividir a casa comigo, continuaria sozinha, já que meu emprego de repórter para um jornal online raramente me deixava numa residência fixa.
Na mesma noite de sua partida, peguei o telefone e liguei para ela. Quatro chamadas depois, sua voz surgiu do outro lado da linha, fraca e um tanto nervosa.
Perguntei se estava tudo bem, e ela respondeu uns segundos depois.
— Um pouco. Não. Quer dizer, eu não sei, Glauco. As paredes aqui são amarelas, e isso não me serve.
— Ainda com a história da cor cinza?
— Cinza protege. Amarelo traz dinheiro. Não quero nada além de proteção. Vou precisar de muita coragem se quiser ter esse bebê em segurança.
Fechei os olhos e acariciei a testa.
— Precisa parar com essa neurose, mana. Isso pode prejudicar a sua gestação, você sabe disso.
— O que sei é que o Ruben morreu no dia 10, do mês 4, de 2005. Some tudo isso e terá doze. Dois mais um, três. Três é horrível. Minha primeira gestação durou cinco meses, e a segunda sete. Sete mais cinco, doze. Outra vez. Dois mais um, Glauco. E quanto ao edifício, o que você me diz?
Não lembrava mais da história do edifício. Elisa havia importunado o marido durante meses, dizendo que havia um edifício diante da residência dos dois, uma coisa com cor de ferrugem que simplesmente nascera do chão, do dia para a noite. Tentei lembrar de algum detalhe a mais, mas a minha cabeça havia começado a girar e minha preocupação estava subindo de nível.
Sem saber muito o que dizer, falei:
— O que tem o edifício?
— Me seguiu até aqui. Passei o dia contando os andares dele, Glauco. Onze. Um mais um, dois. Dois não é três, então é bom. Ontem ele estava com doze, e me senti apavorada. Tive que jogar metade de meus copos fora. Fiquei com apenas alguns. Oito, na verdade. Isso significa que estou me saindo bem. Contei todos eles, e sabe quantos eu tinha? Vinte e um! Dois mais um, de novo. E este edifício… ele era uma clínica no outro século, Glauco. Faziam abortos naquela coisa. E adivinha atrás de quem eles estão? Da sua irmãzinha. Já levaram outros filhos meus. Não vão levar este. Estou indo bem. Conto até onze antes de dormir, e também quando acordo. Evidentemente pulo o número três. Quando bebo água, conto quantas piscadas meus olhos estão dando, pois, se piscar os números ruins, preciso encher o copo e contar outra vez, até me livrar do três. Nada que tenha este número maldito é bom. Às vezes, ele vem acompanhado. Escondido atrás de outro, ou na frente, mas não importa, porque ele é péssimo. Preciso pintar as paredes de cinza. Todas elas. Pode vir me ajudar?
Mesmo se não pudesse, teria dado um jeito. Elisa não estava nada bem, e era meu dever protegê-la, orientá-la em meio aquela escuridão. O poço onde ela estava se enfiando era fundo, repleto de demônios do passado, obsessões e angustia, algo que de um modo ou de outro começava a me afetar.
Conferi rapidamente a minha agenda mental e disse a ela que no fim de semana iria até o seu apartamento para ajudá-la. Ainda lhe escutei por mais alguns minutos (coisas sobre números ruins, edifícios fantasmas e demônios devoradores de bebês), antes de me despedir. Então, antes que a ligação terminasse, Elisa me pediu um favor.
— Qual? — perguntei, um tanto receoso.
— Venha com roupa cinza, — ela pediu, e a ligação se encerrou.

Pintamos todas as paredes de cinza, e Elisa até começou a rasurar o teto. Parou após eu insistir que parasse, e quando escutou o degrau da escada estalar. Enquanto ela preparava algo para lancharmos, me dei a liberdade de ir até à janela para espiar o tal edifício (algo que naturalmente eu sabia ser ilusório), e ver o que de fato existia diante de sua quitinete.
Assim que me aproximei da janela, pude concluir o que de fato já esperava; tudo que havia era um terreno baldio imenso, com grama alta e sacos de lixo espalhados pelo campo. A coisa mais assustadora que observei, foi um rato enorme se esgueirando pela mata. Estava sacudindo a cabeça quando Elisa me chamou e eu me virei, ainda segurando o pincel.
— Não está vendo ele, não é? — ela perguntou, me estendendo um sanduíche com bacon e queijo.
— Escute, não foi para isso que vim até aqui. Vim para lhe pedir que volte para cidade comigo. Lá estaremos mais próximos, poderemos conversar e…
— Não importa para onde eu vá, — me interrompeu ela, puxando uma cadeira para sentar. Só então notei que ela não possuía mais o seu sofá. — Essa coisa aí da rua vai aonde eu for. Porque descobri seu segredo, e agora sou escrava dele.
— Que houve com seu sofá?
— Joguei fora. Ele era marrom, que é uma cor abominável, e também possuía três lugares. Uma combinação monstruosa.
— Elisa, ouça, isso não está certo. Precisa mudar essa situação, ou vai acabar enlouquecendo neste lugar, sozinha.
Ela me disse que nada iria mudar; primeiro, porque ela descobrira o “esconderijo astral” dos demônios famintos. Segundo, aquele lugar a estava escravizando, a obrigando a realizar contagens absurdas, manipulando sua cabeça com distorções numéricas demoníacas, algo que ela já havia descoberto como interromper momentaneamente após a realização de tarefas pequenas, porém incômodas. A orientei a pedir ajuda profissional (conhecia um psicólogo muito bom, um amigo de infância que não me cobraria um só centavo), mas Elisa não parecia querer me escutar.
Ela apenas olhava na direção da janela, e quando bebia seu suco de abacaxi, piscava controladamente e às vezes nem isso fazia. Este amigo me dissera por telefone que Elisa deveria estar sofrendo de algum transtorno (talvez TOC), algo que, segundo ele, afetava algumas mulheres durante a gravidez. Elas temiam pela vida do bebê, e criavam ilusões confusas e perturbadoras para proteger a criança de alguma situação potencialmente perigosa. Confesso que aquilo fez um tremendo sentido para mim, mas não faria nada em relação à Elisa. Ela ainda olhava para o lado de fora, toda vestida de cinza, descabelada, uma cópia distorcida do que um dia fora a minha irmã.
— Posso me mudar para mais perto, se não for problema para você — falei, esquecendo completamente do meu sanduíche.
— Não quero lhe trazer problemas. Você tem seu trabalho, não pode parar com a sua vida para tentar consertar a minha. Só um minuto… — ela se levantou, aproximou-se da janela e começou a contar. Fez isso em voz alta, e notei que ela pulava do dois para o quatro, mesmo que estivesse enxergando o terceiro andar.
Ela ficou ali por quase dez minutos, contando debaixo para cima e depois no sentido inverso, os olhos acompanhando alguma coisa que apenas ela era capaz de enxergar, ou o que achava que era capaz. Observando aquilo tudo, uma dor me mordeu o peito, e senti vontade de chorar, de abraçar a minha irmã e puxá-la daquelas trevas que estavam cada vez maiores.
Quando o sol começou a descer, deixando o céu com aquelas cores uniformes, de roxo e laranja, disse a ela que estava na hora de partir. Elisa ainda estava diante da janela, e se despediu sem ao menos me olhar.
Mais tarde, ela me telefonou e explicou porque eu não podia ficar com ela no mesmo apartamento.
— Porque comigo e o bebê, são dois. Com você seria três.

Dias se passaram, semanas ficaram para trás, noites geladas faziam o amanhecer ficar ainda mais belo, e Elisa parecia cada vez mais mergulhada nos próprios delírios.
Já não atendia mais aos telefonemas, e só se comunicava por e-mails ou raramente por cartas. Em uma dessas cartas, terminou dizendo que tudo estava em ordem (temporariamente) e se despediu apenas com a palavra SORTE, porque BOA possuía três letras e aquilo era uma blasfêmia.
Livrou-se de seu celular, pois descobriu que o seu número, sem contar o código de área, somado dava o valor exato de trinta. Como já deve saber, três mais zero…
De todo modo, Elisa seguiu me enviando e-mails, alguns mais sombrios do que outros, como este:

“Sei que já está muito tarde, mas veja o que andei descobrindo;
Estou fazendo cada vez mais anotações, e sigo escapulindo
do número ruim. Você sabe a que me refiro. Não vou digitá-lo
aqui, pois só de pensar na hipótese meus ossos tremem.
Parei para analisar o nome completo de Ruben, e veja:
RUBEN MAGALHÃES ALMEIDA; some e dará vinte e um. Dois mais
um da aquele valor. O edifício tinha doze andares ontem.
Acho que não estou fazendo o suficiente. Acredito que nunca
estarei. O edifício parece me chamar, e às vezes, consigo
escutar os bebês chorando lá dentro. Vejo fetos sendo
jogados pelas janelas, e antes que caiam no chão, são
abocanhados por enormes urubus com duas cabeças. Tento
apagar essas imagens, mas os bebês choram alto demais, e os
urubus crocitam enquanto batem suas enormes asas. Adoraria
falar um pouco mais, mas preciso contar os andares”.

Após receber diversos e-mails com essa atmosfera caótica, disse para Elisa que precisava vê-la, talvez para pintar alguma parede que estivesse faltando (um truque improvisado de um irmão desesperado) ou até mesmo para discutirmos sobre qual seria o nome do bebê, já que não fazíamos ideia se seria menino ou menina. Um dos últimos pedidos de Ruben foi para Elisa, para que ela não perguntasse aos médicos o verdadeiro sexo da criança.
Marcamos para uma sexta-feira nublada, de céu acinzentado (devia ser um alívio para Elisa olhar para cima) e quando entrei no apartamento meus tornozelos petrificaram, assim como o resto de meu corpo, meu coração e minha alma.

Liberaram a minha entrada quinze minutos depois de minha chegada. Fazia um pouco de frio, chovia e nada naquele lugar me deixava a vontade. A clínica Mãe de Deus, um local que servia de lar para inúmeros pacientes com problemas psicológicos, também era o novo lar de minha irmã.
Enquanto caminhava pelo amplo corredor pouco iluminado, escutava alguns gritos que vinham de quartos próximos, um som que certamente jamais iria me acostumar. Pensava também em tudo que havia acontecido (as paranoias, demônios como vizinhos de frente), e às vezes, imagens de Elisa em seu antigo apartamento me atingiam com tudo no peito, me deixando zonzo. Elisa deitada no chão, nua, coberta de tinta cinza e com um cabide enfiado entre as pernas arreganhadas.
Quando me pegava pensando em coisas assim, sentia calafrios, bem como sempre sentia quando lembrava de minha irmã. Me perguntava se ela poderia estar ao menos uma vez com a razão; se de fato ela via aquelas coisas, e de como fez o que pôde para proteger o bebê daquelas criaturas. Quando parava e analisava, me arrepiando toda vez que o fazia, conseguia enxergar algumas verdades ou fragmentos dela espalhadas pelo piso.
Entrei no quarto de Elisa (estava internada no número doze, algo que sempre era acobertado devido ao seu estado permanente de paranoia) e ela me cumprimentou com um sorriso doce, algo que me remeteu a nossa infância mais uma vez. Sentei-me a seu lado, coloquei a minha mão sobre a sua e conversamos um pouco. Falamos da vida, de coisas ruins e de tudo que espreitava o nosso mundo bem de perto, observando com olhos brilhantes. Em determinado momento, finalmente consegui perguntar o que estava preso em meu peito, uma coisa que me fazia rolar na cama durante a noite, me causando pesadelos.
— Por que fez aquilo, mana? Por que abortou daquela forma, se já estava no nono mês de gravidez?
Acompanhei uma lágrima escorrer pela sua bochecha, e num tom assustadoramente sereno, ela me respondeu:
— Era minha terceira gestação. E três é ruim.

21 февраля 2020 г. 22:54:31 1 Отчет Добавить 2
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Wesley Deniel Wesley Deniel
Pesado. Paranóico. Muito bom ! Como sempre, segue surpreendendo. Meus parabéns.
~

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