labby_ Gabriele Lima

Ulrike se tornou uma sereia solitária após ser expulsa de seu cardume. Sentenciada pela sua curiosidade, teria o seu destino guiado pela morte e solidão. Porém ela conhece Agnete Hermansen, uma humana que vivia solitária em um penhasco. Com o passar do tempo, ainda morando juntas, Ulrike descobre que a mulher lhe ofereceu muito mais que um lar e comida, e sim uma nova vida e sentimentos. [Também postada no Wattpad]


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01. A Praia da Sereia

A esperança de Ulrike de ter um dia bom já tinha se perdido a dias atrás. Desde aquela noite seus dias se passavam do mesmo jeito: solitários, confusos e doloridos.


Sua última refeição fora pequenas ostras, e isso já fazia mais de doze horas. Estava faminta e cansada sem um cardume para chamar de seu, mas mesmo assim, ela continuava com uma parte da sua antiga rotina. Precisava de algo de seu comum para se sentir pelo menos estável, mesmo que estivesse longe disso.

Por isso estava ali. A praia era até pequena, era como se fosse um buraco ligado ao mar. Suas laterais estavam fechadas pela terra, havia somente um morrinho que servia como um caminho para cima. Rochas de todos os tamanhos estavam espalhadas por todo o ambiente, até mesmo no mar.

A areia fazia cócegas sob seus dedos, suas pernas nunca doeram tanto nas outras vezes em que havia usado sua forma humanoide. Ulrike já perdera a conta de quantas vezes tinha perdido o equilíbrio e ido ao chão. Andar era muito difícil. Ela se perguntou se os humanos amaldiçoaram os deuses por terem lhes criado com aquelas aberrações cumpridas. Seria uma ousadia, mas não impossível.

Mas apesar de todas as quedas e dores sua habilidade em caminhar havia evoluído muito. A sereia já estava suada o bastante para ser um incômodo quando o vento tardio e frio de outono batia em seu corpo. Um suspiro pesado saiu de seis lábios. Seria o último treino do dia, a exaustão já tornava difícil respirar.

Colocou um pé para frente e recomeçou.

Os tropeços eram por causa de sua condição física, ela sabia disso. Então do jeito que estava indo era impressionante.

Ulrike tentou acelerar e começou a correr desajeitadamente. Ela sentiu-se bem, estava fazendo algo realmente legal. Aprendeu a fazer alguma coisa desde o início sozinha. Sem nunca ter realmente alguém que a compreendia.

O vento bateu em sua pele suada a arrepiando por completo.

Suas pernas cederam e seu corpo foi ao chão. Não dava mais, chegara ao seu limite.

Não conseguia mais correr, não tinha forças o suficiente para ter uma boa caçada. Sua única alternativa era se arrastar de volta para o mar e voltar para a pequena e medíocre caverna subaquática, que agora chamava de lar, e se render ao cansaço.

Um som ecoando pela praia vazia chamou sua atenção. Levantou a cabeça, olhando para a paisagem além das pedras do local.

Sentiu seu corpo travar. Era um ser humano, aparentemente uma fêmea.

Ela estava além dos limites da costa, em pé sobre uma queda de quase três metros na terra. Olhava atentamente para Ulrike, sua boca se movia e o som de sua voz se fincava no cérebro da sereia.

Adrenalina percorreu sua corrente sanguínea. Foi descoberta por um local.

Por aquele momento esqueceu de toda a dor, levantou o corpo e começou a correr enquanto engatinhava. Seu coração batia em uma velocidade que nunca conseguira sentir.

Uma onda bateu forte contra seu corpo, mas ela não parou. A voz agora estava mais alta.

Coberta de medo transformou seu corpo. Suas pernas deram lugar a uma cauda, escamas e guelras se espalharam pelo restante de sua pele.

Pegou impulso com os braços e deslizou para dentro da água. Assim desaparecendo da vista humana.


.



Fazia três dias que Ulrike não saía da água.

Quando estava fora da caverna em que morava, ficava escondida entre as rochas na costa. Sentada entre as rochas, ela aproveitava o calor do Sol e o toque da superfície fria em sua pele e analisava a estrada.

Aquela mulher fora a única que já tinha visto passar por aquele lugar. Ela caminhava por ali na metade da manhã e voltava do mesmo jeito ao por do Sol.

Não fazia muito tempo que o Sol passou por seu auge, isso significava que Ulrike poderia aproveitar por um tempo a praia.

Devagar, para não machucar a sua cauda, deslizou para descer das rochas. Enquanto nadava para raso transformou o corpo.

Um vento frio bateu contra si. Ulrike suspirou.

Tudo à sua volta estava tão calmo. Era o momento perfeito apenas para aproveitar a pouca tranquilidade que a vida tinha a oferecer.

A sereia respirou fundo.

Não estava com vontade de andar, cair, correr para então cair novamente.

Sentia a sua mente borbulhando. Estava cansada de tentar.

Devagar ele se sentou no chão e passou a encarar a imensidão de água à sua frente.

O som das ondas batendo era tão interessante e diferente. Quando se estava submersa tudo era visto de uma forma muito mais limitada.

Ulrike deixou seu corpo cair para trás e admirou o céu. Aquela sim era uma infinidade, seres que realmente lutavam para viver. Viver do jeito que queriam, conquistavam a felicidade.

Eles não se escondiam nas sombras enquanto esperavam seu povo ser salvo pelos deuses. Aqueles mesmos deuses que permitiram que as outras criaturas as empurrassem para o nada, aqueles deuses que não tiveram um pingo de misericórdia.

Isso nunca aconteceria.

Ulrike sabia que as sereias não tinham força e coragem para ousar ir além, e também sabia que ninguém viria ao seu resgate. Afinal, elas eram as únicas criaturas do mar.

Fechou os olhos, implorando por algum conforto em sua alma perturbada.


.


Os sons estridentes dos pássaros a acordaram.

Ulrike abriu os olhos devagar. Ela sentia que sua pele estava aquecida, o céu estava laranja.

Tempo demais passou, mas ela não sabia o quanto. O Sol estava prestes a se pôr.

A sereia grunhiu amaldiçoando. Isso não devia ter acontecido, aquela humana ou qualquer outra pessoa poderia tê-la visto. Tê-la pega.

Gemeu frustrada e se sentou no chão. Tinha que sair dali o mais rápido possível.

Enquanto se levantava algo chama sua atenção.

Era pequena e brilhante. Estava praticamente escondida atrás de duas imensas rochas que ficavam perto das laterais.

O jeito que ela refletia a luz solar parecia a chamar, era tão brilhante. Seu coração se acelerou, sua boca salivou, algo pareceu se ascender em sua cabeça. Ulrike não sentia aquilo há muitos anos, décadas talvez. Era um dos instintos mais antigos de uma sereia.

A metros de distância dela estava uma pedra preciosa, uma riqueza.

Em passos lentos e contidos ela se aproximou. Era do tamanho de sua unha do dedo mindinho.

A sereia levou o pedrinha até o nariz e inspirou fundo. À sua frente estava um diamante puro.

Ele valia muito para qualquer espécie. Seu preço lhe daria dinheiro e outras coisas que os humanos adoravam, e eram perfeitas para os sobrenaturais enfeitiçarem. Seja com uma bênção ou uma maldição. Mas aquela peça nunca fora maculada com magia.

Ulrike gemeu em deleite, em suas mãos havia um valioso minério da terra, que era ainda por cima puro.

Ela se esqueceu de tudo que pensava a segundos atrás, precisava saber se havia mais daqueles por perto.

Levantou a cabeça e inspirou fundo.

Ela sentia muitos cheiros diferentes à sua volta, mas um chamou a sua atenção. Era próximo, forte, velho e delicioso.

Diamantes.

Ulrike olhou para a esquerda, havia um vão entre os rochedos, pequeno, mas o suficiente para seu corpo passar. Apertando a pequena pedra na palma da mão ela passou.

Ao lado do rochedo estava uma entrada escura e totalmente coberta. Ela inspirou mais uma vez, era de lá que o cheiro vinha.

Ela piscou forte os olhos, sentindo os mudar. Não existia nada que a escuridão escondesse agora.

O ambiente era realmente apertado, somente seu corpo cabia ali. Às vezes algumas pedras saltadas das paredes ficavam no meio do caminho, assim roçando em sua pele, mas poucas chegaram a lhe arranhar.

A sensação de ir fundo em alguma exploração que não era no fundo da água era estranha, porém muito boa. Não se limitava a ruínas do próprio povo, ruínas aquelas que já estavam perdidas a tantos séculos.

Mas aquela gruta tinha uma presença mais nova, as pessoas não entravam ali a anos. Uma e meia talvez.

A cada passo que dava sentia os diamantes mais e mais próximos. Porém também sentia o fim da pequena gruta se aproximando.

Aquilo a intrigou.

Sereias ouviam apenas histórias do mundo. Ulrike não sabia o que a aguardaria no final, poderia ser um daqueles dragões gigantes que as anciãs diziam que guardavam os tesouros da superfície. Assim como elas faziam no mar.

Talvez ela devesse ter pensado melhor nisso.

Fechou os olhos e inalou mais uma vez. Ali era abafado, não circulava muito ar, sentia-se o cheiro das pedras valiosas e o frio. Nada vivo.

Os barulhos também eram inexistentes.

Ok, não havia nada ali com ela. Nada com que se preocupar. Ulrike ainda não se sentia preparada para ter alguma interação com outras criaturas.

Nem se lembrava direito como fazer isso, parecia que a reunião do cardume fora a muito tempo atrás. Realmente uma outra vida.

Ela parou de andar. Tinha chegado ao final, e o que viu realmente fora uma surpresa.

Havia uma caveira, um ser humano morto a muito tempo. Ainda usava roupas, mas a parte de cima dela estava manchada. Um marrom quase preto em volta de um rasgo nos tecidos. Sangrou até morrer.

Ulrike se aproximou e tocou seu ombro, apenas com as pontas dos dedos. Fora um toque suave, mas o suficiente para os ossos caírem um pouco para o lado.

Ela recolheu a mão assustada.

Ali o cheiro era mais forte, o que procurava estava ali, com aquele humano.

Nas mãos dele estava um tecido diferente, escuro, preso em seus dedos. Ele morreu querendo levar aquilo consigo, era valioso.

A sereia se abaixou e tentou tirar aquilo de seus dedos. O barulho dos ossos estalando enquanto se soltavam um do outro era horrível, macabro.

O tecido se fechava à sua própria volta, e só tinha apenas uma abertura, como se fosse uma caverna pequena que poderia levar o que quisesse, para onde fosse.

Ulrike esticou as aberturas e sentiu sua saliva se juntar dentro de sua boca. Ela levou a mão para dentro e agarrou alguns, levantando a mão um pouco e os soltou. Ouvindo-os bater um contra o outro.

Ah, eram tantos diamantes.

Levantou-se novamente e encarou o morto. Ela acenou para ele em respeito. O homem morrera cumprindo um dever, manteve as jóias a salvo.

Ulrike colocou a gema que encontrou na praia junto com as outras e se virou para a saída. As levaria para a própria caverna, eram suas agora.

O céu estava mais escuro, um laranja escuro reinava neles. As nuvens estavam belamente coloridas, laranjas com rosa claro. Era tão belo.

As águas cristalinas refletiam toda aquela luz, parecendo a chamar para voltar ao conforto de suas correntezas quentes.

Gostava de como era a terra, mas seu corpo doía. O chamado das jóias a fez esquecer por algum tempo toda aquela situação, mas o cansaço acabou por voltar com tudo para seu corpo.

Naquele momento só descansar um pouco, queria que toda aquela situação acabasse logo.

Seus passos para sair do meio das rochas foram lentos, calmos até.

Mas quando finalmente teve visão do resto da praia se amaldiçoou por estar calma. Tinha esquecido completamente da humana.

Ela estava parada no meio da areia com o corpo virado para os rochedos onde Ulrike havia acabado de sair, mas o rosto estava para o mar. Seus cabelos eram da mesma cor do pôr do Sol e se balançavam com o vento. Era lindo de se ver.

Mas ainda sim era um ser humano. Uma ameaça.

Assustada, Ulrike se moveu para trás e bateu as costas na pedra com força. A sereia gemeu de dor, assim chamando a atenção para si.

A mulher se virou surpresa olhando para ela, mas sua expressão logo mudou para um sorriso, o que a assustou ainda mais. Ela deu passos em sua direção.

Ulrike mudou seus dentes, os deixando mais finos, e rosnou para ela. A humana estancou no lugar que estava e recuou um passo assustada, tentou falar alguma coisa em seu idioma, mas a sereia rosnou de novo, dessa vez mais alto e inclinando o corpo para frente.

A humana levantou as mãos e deu dois passos para trás, se rendendo. Abaixou um pouco o corpo e colocou a mão em alguma coisa que carregava, era grande e parecia ser feita de plantas secas.

De lá ela tirou, uma por vez, três formas arredondadas vermelhas, e as colocou sobre a areia. Levantou-se mais uma vez e mais alguns passos antes de para e ficar olhando Ulrike e depois as coisas na areia, e então repetia isso mais uma vez.

Ela está entregando algum tipo de oferenda, Ulrike pensou.

Devagar, ainda encarando a humana, — que mesmo longe não deixou de ser uma ameaça — a sereia se aproximou daquilo na areia. Abaixada, pegou uma delas com cuidado e a cheirou.

Tinha um cheiro que Ulrike nunca havia sentido antes, doce, úmido e saboroso. Receosa, ela mordeu um pequeno pedaço.

O gosto era bom, incrível podia se dizer.

Apressada, ela pôs as três dentro da caverna de tecido e a segurou firmemente. Voltou a ficar de pé e foi caminhando de costas até o mar, sem nunca tirar os olhos da humana. Essa agora que a encarava fascinada.

Quando a água já estava em seus joelhos, Ulrike parou de andar e focou seus olhos em um ponto do rosto da mulher, seus olhos.

Eram de um cinza escuro e intenso, como o mar em um dia de tempestade. Mas não eles não se encaixavam devidamente na comparação de um temporal, já que passavam tamanha gentileza.

A sereia soltou o ar pelo nariz, como se estivesse bufando, ainda lhe olhando nos olhos.

Então virou-se e mergulhou, desaparecendo mais uma vez da vista daquela humana.


20 мая 2021 г. 22:09:37 0 Отчет Добавить Подписаться
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