shsaine S.H. Saine

Meu nome é Sandra Merottini, tenho dezenove anos e eu sou uma garota lobisomem. Esta história começa pouco depois que eu entrei para uma universidade americana. Jamais havia pensado que iria encontrar outra pessoa da mesma espécie que eu, e muito menos que esse encontro mudaria todo o rumo da minha vida. Leonard era para mim apenas um crush, porém, do nada, nossos destinos se cruzaram e com ele eu vivi a mais louca aventura que uma garota de dezenove anos poderia viver. E é justamente o começo dessa nossa jornada maluca juntos, que eu vim aqui contar para vocês.


Подростковая 18+.

#romance #werewolf #misterio #vampires #vampiros #ficção #misticismo #lobisomens
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O Encontro

Tudo aconteceu quando eu entrei para a universidade. Novo ambiente, novas amizades. Porém, como sempre, tudo muito monótono. Infelizmente, eu não podia fugir daquele lugar. Havia prometido a minha mãe que me cuidaria e que ficaria onde estava, sob a proteção dos meus tios. Mas promessas podem ser quebradas por conta de acontecimentos inesperados, não podem?

Bem, eu não tive alternativa senão quebrar a minha...


1.


Tédio. Aquele lugar era um tédio completo.

Eu nunca havia imaginado que um dia eu viveria na pele a palavra que meus primos americanos tanto falavam. Eu achava que eles estavam sempre exagerando, querendo atenção extra da mãe deles, como criancinhas mimadas. Mas não. Realmente, aquilo era entediante. A cidade, as casas todas iguais, as pessoas rosadas com a mesma cara... Enfim, desde que eu me mudei para os Estados Unidos, nada mais conseguia me empolgar. Nem as baladas, nem os shoppings, nem os shows, nada. Tudo parecia sem graça em relação ao meu lindo país deixado para trás, e minha cidade, São Paulo.

O problema era que eu não tinha escolha.

Ou eu vivia longe, ou...

Bem, minha mãe preferia não imaginar o que ia acontecer. Então ela me mandou para esta pequena cidade, próxima a Chicago. E eu havia vivido lá por dois anos sem encontrar nenhuma distração, até que o dia de me mudar para uma universidade chegou. E mais uma vez isso não me parecia grande coisa.

Eu esperava mais uma vez me sentir como a excluída do grupo, a estranha, a imigrante, pois era assim que sempre me tratavam por lá. E esperava novamente não fazer grandes amigos e nem me apaixonar por ninguém. Entretanto, parece que o destino não estava bem de acordo com as minhas expectativas...

Eu conheci Leonard na terceira semana de aula. Quer dizer, eu não o conheci de fato, porque nós não nos falamos e nem nos tocamos de qualquer forma. Nós apenas nos olhamos, daquele jeito que você olha para uma pessoa, sentindo que queria que tal olhar significasse muito mais do que “Você pode sair da frente da porta para que eu possa passar, por favor?”. E ele passou por mim, entrando no auditório, e meus olhos o seguiram até o lugar onde ele se sentou, enquanto meu coração saltitava no peito, ridiculamente.

Ele era, sem sombra de dúvidas, o cara mais gato que eu já tinha visto na vida.

Sua pele era clara, manchada com pequenas sardas. Seus olhos tinham uma tonalidade esverdeada intensa, enquanto que seus cabelos eram cor de cobre, escorridos de tão lisos, e compridos até quase a cintura.

E se existe algo capaz de me atrair, realmente, é um homem com cabelos compridos. Para mim, eles representam certa rebeldia, um romper com os padrões comuns. Cabelos longos têm um toque de boemia, te fazem pensar na possibilidade de se esquecer da vida enquanto se corre os dedos por entre as mechas.

Ah, como eu adoraria ter corrido meus dedos pelos cabelos do Chris Hemsworth nos primeiros filmes dele como o Deus Thor...

Contudo, agora havia os cabelos de Leonard. E sua barba aparentemente macia, circundando seus lábios rosados, abaixo de seu nariz pontudo. E em conjunto havia ainda um corpo bem delineado, escondido embaixo de uma camisa preta do AC/DC, calça jeans larga, meio desbotada, e tênis All Stars. Perfeito. Será que ele existe mesmo? Ou estou tendo uma alucinação? Eu me perguntei, subitamente me lembrando de que eu havia saído da sala para beber água.

Aquilo parecia uma ótima idéia naquele momento. Meus hormônios estavam me tirando do sério.

Enfim, retornei para a sala quando consegui me recuperar, e vi que ele ainda estava lá. E durante todos os quarenta minutos seguintes da aula eu fiquei olhando-o à distância.

Se eu contasse isso a uma das minhas colegas de quarto americanas, elas diriam que eu deveria procurar ajuda psiquiátrica, pois ficar perseguindo alguém com os olhos ali não era normal. Eu não via nada demais nisso, contudo. Afinal, não era como se eu fosse cercá-lo um dia em um beco e atacá-lo, certo?

Embora não fosse uma má ideia...

Portanto, eu continuei apenas olhando-o de longe. Eu o via nas aulas (nós fazíamos apenas três ou quatro matérias juntos), o via no refeitório e, não raro, também o observava caminhando pelo Campus. Isso se estendeu por alguns dias, até que finalmente eu concluí que, como eu não tinha coragem para ir falar com ele e ele parecia não fazer a menor ideia da minha existência, era melhor esquecê-lo de vez.

E talvez eu tivesse conseguido, se não fosse por aquela manhã insana.

Os acontecimentos se sucederam numa fração de segundos.

Era intervalo de almoço e o corredor estava apinhado de gente, saindo das salas e rumando para o prédio anexo onde ficava o refeitório. Eu passei pela grande porta do meu bloco acompanhada de mais umas vinte pessoas, e notei a cabeleira alaranjada inconfundível de Leonard pouco à frente, parando a minha atenção nela por alguns instantes.

Então, veio o primeiro disparo e o primeiro grito.

Todos nós nos abaixamos por reflexo, e entre as pessoas ouviu-se o grito “Ele tem uma arma!” e a confusão se espalhou pelos jardins. Outros disparos vieram, todavia, não mais vindos de uma única direção.

Eu fiquei onde estava, estática, boquiaberta, sem acreditar que estava presenciando um massacre escolar americano.

Por sorte, armas de fogo nunca me assustaram. Você pode até dizer “Bem isso deve ter a ver com o fato de que ela nasceu e cresceu numa das cidades mais violentas do Brasil e bla bla bla”, mas eu te digo que existem motivos muito mais concretos para que eu não temer ser atingida por uma bala. Uma delas é que balas simplesmente não podem me ferir do mesmo jeito que ferem as pessoas comuns. Assim, naquele momento, eu tentei pensar ao invés de fugir. Eu precisava achar os atiradores e pará-los antes que eles acertassem mais alguém.

E no único segundo que eu tinha para decidir o que fazer antes de agir, eu aceitei que não tinha outra forma de fazer tal coisa, senão do jeito errado.

Eu dei um salto, rápida feito um raio, no meio da multidão desvairada, e procurei pelos atiradores, concordando comigo mesma que, se eu fosse veloz o bastante, ninguém notaria que eu estava peluda como um pastor belga de três metros de altura. Meus olhos, agora muito mais agudos, buscaram pelos alvos e eu encontrei um dos garotos com uma arma na mão, apontando para outro estudante. Eu pulei até ele, e ele não teve tempo de reagir quando eu o acertei na cabeça, o fazendo cair desmaiado. Ainda havia sons de tiros, e eu me apressei rumo ao próximo a ser abatido. Entretanto, para minha surpresa, alguém chegou antes de mim.

Outro ser como eu. Enorme. De pelagem avermelhada.

Se eu não estivesse tão preocupada em não deixar as pessoas guardarem minha imagem, eu teria novamente congelado. No entanto, eu não podia. Sobrava um atirador. E com toda a minha ira, eu pulei na direção dele, e logo ele também estava no chão. Eu retornei depressa para minha forma humana, vendo as minhas roupas enfeitiçadas por rituais mágicos antigos voltando a se ajustarem em mim, ainda que naquela hora, isso tivesse sido um pouco inútil. Os jardins já estavam completamente vazios.

Só havia mais uma pessoa lá além de mim.

Leonard.

E de um jeito muito mais ágil do que eu jamais conseguiria ser, ele havia parado do meu lado.

“Você... você é um...” eu apontei para ele, totalmente abismada. O garoto sorriu para mim. Seu sorriso era ainda mais encantador do que eu havia imaginado.

“Sim, e pelo visto você também é!” ele disse com um sotaque diferente, e eu ainda não conseguia acreditar que estávamos tendo aquela conversa. De repente, o som alto de sirenes interrompeu-nos “Acho melhor irmos embora.” Leonard sugeriu, e pegou minha mão. Eu corri até onde havia largado a minha bolsa, apanhando-a e, às pressas, nós saímos dali. Eu o segui sem fazer idéia para onde estávamos indo, e foi só quando ele entrou num outro prédio da faculdade, que eu me toquei que estávamos em seu dormitório.

Oh, meu deus, ele está me levando para o quarto dele! Pensei, e senti um frio no estômago. E no minuto seguinte, lá estávamos nós, entrando pela porta.

“Espero que ninguém tenha nos visto.” ele soltou minha mão e fechou a porta rapidamente “Vamos ficar aqui só o tempo das coisas se acalmarem lá embaixo.” decidiu por nós dois. Entretanto, eu estava curiosa demais para dar uma de boa menina, e ficar quieta no meu canto.

“Esse seu sotaque... Você é de onde?” perguntei, e os olhos verdes incandescentes dele se viraram para mim.

“Cork.” ele respondeu, mas eu continuei com a mesma cara de antes, não fazendo ideia de onde ficava esse lugar “Irlanda.” ele completou, e eu soltei um gritinho.

“Oh, você é irlandês!” falei, achando o máximo. E, dessa vez, foi ele quem fez uma careta do tipo essa-garota-é-maluca-ou-o-quê? “Desculpa... é que eu sempre quis conhecer um irlandês.” justifiquei, sem graça.

Leonard esticou a mão para mim “Agora você conhece. Leonard McPhill, prazer em conhecê-la.”

Eu apertei a mão dele “Er, eu já sabia o seu nome...” eu disse, e recebi de novo um olhar estranho. Estava realmente passando um atestado de louca ali “É que nós fazemos Sociologia juntos... e Psicologia da Cultura, e Introdução à Antropologia...” eu me expliquei de novo, olhando para o chão.

“Eu sei. Eu me lembro de você. Sandra, não é?”

“Você sabe o meu nome?” eu quase dei um salto de espanto.

“Você responde à lista de chamada, não?” ele contestou.

“Sim, claro!” eu sorri, nervosamente “É que eu nunca pensei que você prestaria atenção ao meu nome e... à dona dele.”

“Parece que você estava errada.” o ruivo disse com um ar misterioso, e eu me senti derretendo “E você? É de onde?” ele devolveu a pergunta.

“Sou brasileira. De São Paulo.” respondi com orgulho.

O garoto ergueu as sobrancelhas, assombrado “Sério? Eu também nunca tinha conversado com uma brasileira... E não sabia que existiam lobisomens por lá.” comentou.

Eu dei de ombros “Bem, lá tem vários outros bichos além de macacos, diferente do que todos pensam. E, sim, tem lobisomens também.” falei, ainda sem graça diante dele.

“Hm.” Leonard fez com a garganta “Agora estou vendo que sim.” concordou.

Nós voltamos a ficar em silêncio por algum tempo, ouvindo o barulho ainda alto das sirenes lá fora. O irlandês então se sentou na beirada da janela para ficar espiando sem ser visto, e bem devagar, eu fui me aproximando dele para olhar também.

Assim, ficamos acompanhando, calados, o pandemônio que se tornara o campus.

Não demorou muito para que o meu celular tocasse, e a voz da minha tia surgisse aflita do outro lado, dizendo que estava vendo tudo pela televisão. Eu me afastei ligeiramente da janela e a tranquilizei, dizendo que nada tinha me acontecido e que não era para ela se preocupar, pedindo ainda que dissesse o mesmo para minha mãe, caso ela ligasse.

Mais tarde, a mãe de Leonard também ligou e eu o vi conversar rápido com ela, meio constrangido. Ele tornou a se sentar perto de mim, e eu me vi estranhamente nervosa na presença dele, sem saber se era por causa de sua aparência fascinante, seu perfume entorpecente, ou se era pelo jeito como ele me olhava de vez em quando, desviando os olhos logo após.

Será que ele poderia, em alguma dimensão, ou realidade além do meu imaginário, estar igualmente interessado em mim?

Não. Isso era ilógico demais, até mesmo para uma garota possuidora de genes de lobos... Entretanto, talvez não fosse exatamente impossível, pensei. Eu não era a garota mais feia do mundo, era? Talvez, até pudesse ser considerada desejável. Mas será que eu poderia ser desejável para ele?

Bom, era possível que eu estivesse exagerando um pouco também. Ele não era o garoto mais lindo do mundo, certamente. Era só o mais lindo para mim. Era tudo o que eu mais gostava, reunido numa pessoa só, além de ser da mesma espécie que eu. Contudo, sempre que eu perguntava para as minhas colegas de sala sobre qual era o menino mais bonito das nossas turmas, elas nunca se mostravam tão empolgadas em relação a ele quanto eu.

Mas não podemos confiar no gosto da maioria das garotas, não é? Nem sempre elas sabem reconhecer um semideus, quando se deparam com um.

E lá estava eu, flertando com aquele gostoso das terras celtas.

Os minutos foram se passando meio arrastados, comigo me odiando por ser tão covarde e não conseguir puxar mais assunto com ele, ou pelo menos dar um pouquinho a entender que eu estava interessada. Por sorte, o tumulto diminuiu e as viaturas da polícia e as ambulâncias começaram ir embora. Os sons de desespero e dos carros de reportagem continuavam, e nós não sabíamos como as coisas iam ficar dali para frente, apesar de não estarmos nos importando tanto assim.

Nem ele, nem eu, parecíamos nos traumatizar com aquele tipo de tragédia.

“Acho que já dá pra você ir agora.” ele disse, de súbito, após termos ficado com o olhar fixo um no outro por mais alguns segundos outra vez.

Eu concordei com a cabeça e fui me levantando em direção à porta.

“Uh, certo. Será que você pode...?”

“Abrir para você... Claro.” ele me seguiu.

Antes de sair, entretanto, eu parei para me despedir.

“A gente se vê, por aí.”

“Com certeza.” ele deu um sorriso amarelo “Nas aulas.”

Eu suspirei. Estava claramente levando um fora.

“Okay.” concordei “Então... Até!” disse, procurando sair o mais rápido possível. Eu não havia andado quase nada, no entanto, quando Leonard me chamou de volta.

“Hey, Sandra?”

Eu me virei de imediato e o vi se aproximar de mim com um ar hesitante “Que foi?” perguntei confusa.

“Desculpe, é que eu... eu apenas... Queria de um beijo seu, antes que fosse embora.” declarou, olhando nos meus olhos.

Minhas sobrancelhas estavam arqueadas, espantadas com a coragem e fofura contida naquele pedido.

“Oh, okay.” eu consegui responder, meio em choque, e o garoto se moveu na minha direção.

Sem que eu esperasse, Leonard levou a mão envolta da minha cintura e me puxou com força, pressionando seus lábios contra os meus. De início, eu senti apenas a maciez deles, a temperatura quente, o aroma delicioso. Depois, veio o toque irresistível de sua língua, estimulando a minha a afundar ainda mais em sua boca. Temendo que aquilo não estivesse de fato acontecendo, eu o prendi pelo pescoço, numa tentativa desesperada de evitar que ele evaporasse, e que minha teoria de que ele era apenas uma miragem criada pela minha cabeça fosse confirmada.

Contudo, ele era bem real, e quando eu dei por mim, estávamos voltando para seu quarto.

Ele fechou a porta atrás de nós ainda me comprimindo entre os braços, me beijando com um ardor que eu jamais experimentara antes. Ofegante, eu o empurrei contra a parede, e senti suas mãos descerem desinibidas pelos contornos do meu corpo, me causando arrepios. E eu não tentei conter o curso delas, pois não estava dando a mínima se ele ia me julgar por aquilo ou não. Afinal, era tão maravilhoso tê-lo daquela forma, após ter idealizado aquilo tantas vezes, que eu não queria reprimir nada.

Seus lábios rumaram então para o meu pescoço, e sua barba causou cócegas na minha pele, me fazendo encolher os ombros.

Ele se afastou de leve, e me olhou, achando graça.

“Seu cheiro... é o melhor cheiro que eu já senti.” comentou com um meio sorriso.

“Obrigada. Também gostei do seu...” eu devolvi meio tímida, e ele voltou a me incendiar com seus beijos. A língua dele ia e voltava dentro da minha boca, num ritmo delirante, quando, abruptamente, ele parou o beijo e me olhou sobressaltado “Leonard?” eu perguntei, porém, ele não teve tempo de responder.

Seus olhos se fecharam e ele caiu desmaiado nos meus braços.

“Leonard!” eu tentei segurá-lo, mas ele era bem mais corpulento que eu. Eu tive que escorregar com ele pela parede e o colocá-lo sentado no chão “Leonard! Acorda!” eu bati no rosto dele, e tentei sacudi-lo. Nada aconteceu. Eu comecei a entrar em desespero “Leonard!”.

Foi então que eu vi uma pequena aranha passando ao nosso lado.

Ela era marrom, sinuosa e, para mim, totalmente apavorante.

É vergonhoso confessar, mas o fato é que eu tenho pânico de aranhas. Não importa se elas são minúsculas e insignificantes às vezes, eu as odeio. E naquele momento, na minha cabeça aracnofóbica, a única coisa que me ocorreu foi que aquela aranha era muito venenosa e que ela havia picado Leonard enquanto nos beijávamos.

Claro, tinha que ser uma aranha para tornar o meu sonho num pesadelo. Isso acontecia com tanta frequência...

Com muita raiva, eu tirei a sandália que estava usando e pressionei a sola sobre a criatura. Ela morreu esmagada, obviamente e, satisfeita, eu voltei para o lindo homem desvanecido junto à porta.

Eu precisava salvá-lo, era tudo o que eu conseguia pensar.

Assim, eu me levantei e usei minha força sobrenatural para erguê-lo junto comigo. É claro que eu não ia convencer a ninguém, carregando Leonard no colo pelos corredores, que eu era halterofilista, contudo, não tinha outro jeito. Eu precisava tirá-lo dali. E sem hesitar mais, eu rumei com ele para a enfermaria.

O local estava uma loucura, como era de se esperar. Pessoas passavam mal, outras choravam, outras balbuciavam coisas desconexas. Os auxiliares de enfermagem até tentavam dar assistência a todos, mas isso parecia impossível. Tentando não chamar muita atenção, e falhando vergonhosamente, eu parei perante um deles. Era um garoto indiano, de óculos de grau com armações grandes e escuras, e estava tão perdido quanto os pacientes.

“Você poderia me ajudar, por favor?” eu disse, com os dentes trancados pela força que exigia o peso de Leonard. Ele ficou pálido quando notou que eu estava carregando um homem apagado nos braços.

“Venha cá! Deite-o aqui! O que aconteceu?” ele me perguntou, aflito, me ajudando a colocá-lo sobre uma maca.

“Eu acho que ele foi picado por uma aranha...” eu disse rápido, rezando para que ele me desse algum crédito.

“Uma aranha?” ele estranhou.

“Sim, uma aranha! Estava no quarto dele, era marrom e pequena, mas aposto que era muito venenosa! Vocês têm antídotos para aranhas aqui, não têm?” eu arrisquei, e tive sorte por ter conseguido expressar todo o meu desespero, porque ele realmente levou em consideração o que eu dizia.

“Acho que não... Mas eu posso ver!” disse, prestativo, e saiu para falar com um dos enfermeiros de verdade. Eu voltei-me novamente para Leonard e reparei que ele estava acordando.

“Shh, fique quietinho, okay? Vai tudo ficar bem.” pedi passando a mão na testa dele, vendo-o recobrar a razão aos poucos.

“Onde estamos? O que aconteceu?” ele perguntou, desorientado.

“Estamos na enfermaria. Você desmaiou. E eu acho que foi uma picada de aranha. Um enfermeiro já está vindo cuidar de você e…”

“Você disse... Picada de aranha?” ele me focalizou melhor.

“É. Eu a vi! Mas não se preocupe, eu já a matei. Ela não vai mais ser um problema.”

“Ficou louca?” ele me interrompeu “Aonde alguém como nós desmaiaria com uma picada de aranha? Não!” ele parecia estar muito certo sobre o que havia lhe acontecido agora, e eu finalmente me dei conta que aquela ideia era mesmo absurda.

“Desculpe, é que eu pensei...”

“Não, Sandra! Vamos sair daqui. Eu já estou bem.” ele começou a se levantar.

“Mas o garoto foi...” indiquei o auxiliar.

“Então vamos embora antes que ele volte!” ele me cortou de novo, já saindo. E eu tive que ir atrás dele.

Nós passamos pelo tumulto ainda presente no campus e voltamos para seu quarto. Leonard estava cambaleando ainda quando se jogou sobre a cama, e eu me sentei ao lado dele na beirada, me sentindo uma completa idiota.

“Você vai me contar o que foi aquilo, afinal?” resmunguei, contrariada. Leonard deu um suspiro, e esticou o braço para tocar minha mão.

Ele apertou-a forte, me olhando aturdido “Desculpe ter falado com você daquela forma... Eu fui muito grosseiro e geralmente não sou assim.”

“Okay. Eu te perdoo. Agora me fala o que foi aquilo que aconteceu!” insisti.

“Eu não suportei a vontade de provar esses seus lábios carnudos e te beijei... Algum problema nisso?” ele respondeu casualmente.

Eu fiz uma careta para ele “Ha ha. Muito engraçado. Mas não era disso que eu estava falando.”.

Leonard, porém, levou meus dedos à boca e os beijou “Que tal se a gente deixasse a conversa para depois, e continuássemos de onde paramos?” sugeriu sedutoramente, me puxando para seu peito.

“Sem essa!” eu tentei recusá-lo, sem muito entusiasmo “Eu quero saber o que fazer com você, caso você desmaie outra vez enquanto me beija...”.

“Me coloque deitado e espere que eu acorde sozinho. Só isso.” ele aconselhou sorrindo de canto e, em seguida, rolou na cama comigo.

O peso de seu corpo sobre os meus pulmões roubou parte do meu fôlego e em seguida, seus lábios vorazes completaram o trabalho. Sem perceber, eu o deixei se acomodar em meio às minhas coxas, estreitando ainda mais a distância entre nós, e me rendendo ao seu charme.

As mãos de Leonard voltaram a me tocar, voluptuosamente, arredando minha blusa para massagear os meus seios, e meus quadris se moveram sem que eu conseguisse controlá-los, se esfregando na dureza que ia se formando entre as virilhas dele.

Logo, passamos a nos despir, e a boca do irlandês peregrinou por outras partes do meu corpo, me causando tremores. O meu raciocínio, que sempre ficara muito aquém dos meus instintos, enfim, abandonou-me totalmente quando eu senti o corpo quente dele se atrelando ao meu. Por fim, tudo naquele quarto resumiu-se a murmúrios e gemidos de prazer.

Eu acordei sorrindo no dia seguinte, e me espreguicei feliz sob o edredom da cama dele. Não conseguia me lembrar de uma noite melhor do que a anterior, talvez, porque nunca tivera uma tão boa. Foi pena que, rapidamente, notei que havia algo errado no meu sonho perfeito.

Para a minha infelicidade, eu estava completamente sozinha no quarto.

“Leonard?” eu o chamei, meio desolada, mas ele não estava lá. Eu esperei alguns segundos, e levei um susto quando subitamente a porta se abriu, e ele entrou por ela.

“Bom dia!” disse animado, vindo se sentar ao meu lado “Eu trouxe o nosso café da manhã.” completou me mostrando o pacote do Dunkin’ Donuts que tinha na mão. Meu coração quase pulou de alegria, e eu me sentei também, cobrindo parte do corpo com o lençol.

“Wow... Agora só falta você ter adivinhado qual é o meu preferido!” eu disse abrindo o pacote, e procurando a minha rosquinha predileta.

“Bavarian Cream, não é? Ta aí dentro!” ele sorriu, cheio de si. Meu queixo caiu ao constatar que realmente havia uma.

“Você só pode estar brincando! Como você...?”

“Eu sou adivinho.” brincou ele, me dando um beijo doce. Nós então passamos a tomar o nosso café da manhã fazendo gracinhas um com o outro. Leonard havia acabado de passar recheio de morango no meu nariz e me dado uma lambida sob protestos violentos, quando, num clique, a expressão dele congelou.

Em um único segundo, seu copo de café havia voado para o chão, e eu tinha uma arma engatilhada e apontada para minha cabeça.

Eu prendi a respiração imediatamente e meus olhos se fixaram em sua face.

Os olhos verdes de Leonard estavam vazios, sem nem um rastro daquele calor que eu havia visto neles há menos de um minuto atrás.

Era como se não fosse mais ele quem estava ali.

“Leonard?” eu o chamei, com toda a calma que consegui juntar em meio à tensão que parecia capaz de me fazer vomitar tudo o que havia comido “Leonard, por favor, abaixe essa arma... Vamos conversar...” pedi, todavia, ele simplesmente continuava me olhando sem emoção, como uma escultura de mármore “Leonard, sou eu. Sandra. Se lembra de mim? Se lembra disso?” eu arrisquei, deixando o lençol cair e tentando tirar a atenção dele do meu rosto.

E como eu esperava, seus olhos se moveram para baixo.

Um segundo. Esse foi o tempo exato que eu precisei para agarrar o pulso dele, empurrando a arma para o lado, e me jogando sobre seu corpo, prendendo seus braços acima de sua cabeça. Eu estava prestes a dá-lo uma cabeçada e desacordá-lo, quando o ouvi gritar meu nome.

“SANDRA!” ele ofegou apreensivamente sob mim. Eu o observei por algum tempo ainda, antes de soltar seus pulsos.

“Leonard? É você?”

“Sandra, o que eu fiz?” ele me perguntou com os olhos arregalados.

“Você me apontou uma arma!”

“Eu não atirei, atirei?” ele lufou.

“Eu acho que eu nós não estaríamos tendo essa conversa, se você tivesse...” eu respondi com ironia, mas fui pega de surpresa com um abraço dele.

Leonard pressionou a cabeça contra o meu peito tremendo, parecendo um filhote assustado. Eu o abracei de volta, alisando seus cabelos macios.

“Está tudo bem, Leonard... Já passou.”

“Eu poderia… eu poderia ter machucado você!” ele gaguejou, atordoado, ainda me apertando com força.

“Sim, mas não machucou.” eu tentei acalmá-lo “Está tudo bem agora, e você já pode me contar o que está havendo.”

“Não!” ele me soltou tão subitamente quanto havia me agarrado “Eu preciso ir embora.” ele disse, me tirando de cima dele.

“Ir embora para onde?” eu disse, quando ele me jogou na cama “Do que você está falando?” Mas ele não me respondeu. Apenas abriu o armário, apressado, e puxou uma mochila de lá de dentro, passando a colocar algumas roupas dentro dela “Leonard, por favor!” eu implorei “Fala comigo! Me diz qual a relação do seu desmaio de ontem com essa sua atitude estranha de agora!”

Ele negou com a cabeça, e falou cheio de urgência “Sinto muito, mas eu não posso te dizer. Preciso que vá embora. Eu não deveria ter feito você ficar ontem... Foi idiotice minha.” disse, sem olhar para mim.

Um emaranhado de emoções angustiantes foi se criando e fechando a minha garganta. Rejeição, desilusão, confusão. Todas juntas e em níveis insuportáveis. Por fim, eu não me segurei mais, e me levantei atrás dele.

“Mas eu fiquei... E preciso de uma explicação. AGORA!”

Ele então parou na minha frente e eu notei uma tristeza profunda em seu rosto “Não dá, Sandra.... Me desculpe. Eu não queria que fosse assim, juro. Mas se eu não sair daqui rápido, posso acabar machucando alguém de verdade.”

“E pra aonde você vai?” eu miei.

Ele desviou os olhos “Ainda não sei... Vou deixar para descobrir quando estiver na estrada.”

“Me deixa ir com você!” eu pedi, sem pensar.

Leonard parou e sorriu pra mim, em descrença “Ir comigo? Sem nem saber para onde eu vou?”

“É. Faz tempo que eu estou querendo fugir dessa universidade... Já provou a comida do refeitório? É horrível!” eu fiz cara de nojo, por brincadeira, forçando-o rir. Ele avaliou o meu pedido, dando um suspiro.

“Pode ser que eu não volte nunca mais...” argumentou, acariciando minha bochecha.

“Eu não me importo.” repliquei, fazendo uma expressão de súplica.

Ele levou alguns segundos antes de responder “Certo. Mas nós não temos tempo para você fazer as malas.” disse, sorrindo de leve.

“Eu posso superar isso.” sorri de volta, e me joguei sobre seus ombros, abraçando-o. Leonard beijou os meus cabelos, mas logo me fez largá-lo.

“E é melhor você se vestir também. Eu não posso sair andando pelo Campus acompanhado de uma mulher completamente nua...” zombou ele, e eu fiz o que ele me pediu às pressas, apanhando também a minha bolsa. Nós saímos da faculdade, agora realçada pelos cordões de isolamento amarelos, e pegamos o carro dele, uma pick up Hilux preta, no estacionamento.

Leonard acelerou o motor vigorosamente, e em alguns minutos não só a faculdade como todo o meu mundo havia ficado para trás outra vez.

**

Nós já estávamos na Interestadual quando eu me dei conta de que nenhuma palavra havia sido dita.

Eu olhava para Leonard e o via super focado na estrada, como se esta não fosse uma linha reta de asfalto, perfeitamente plana, sobre a qual até um cego poderia dirigir sem problemas. Eu então me remexi e arfei várias vezes para ver se ele notava que eu estava ali, tudo sem sucesso. Até que, finalmente, ele falou comigo, de um jeito meio seco.

“Você quer colocar uma música?”

“Não.”

“Quer parar pra comer alguma coisa?”

“Não.”

“Para ir ao banheiro?”

“Não!”

“Então por que está se remexendo tanto?”

“Por que eu estou esperando você me dizer o que eu quero saber!”

“Ah não, Sandra” ele gemeu “De novo, não…”.

“Sério, Leo, até quando você vai ficar fazendo esse mistério?”

“Não vai te fazer bem algum saber, vai por mim.”

“Mas eu tenho o direito! Foi nos meus braços que você desmaiou, foi pra minha cabeça que você apontou uma arma!” eu enumerei, olhando para ele “Caramba, eu já sei que você é um lobisomem, que outro grande segredo você pode ter?” gritei, por fim. Todavia, o silêncio dele continuou. Nem um olhar, nem uma palavra “Okay. Para esse carro!” ordenei, decidida.

“O quê?”

“Eu disse para o carro! PARA!” repeti aos berros, e o vi encostando. Sem dizer mais nada, abri a porta da pick up e desci, batendo-a trás de mim.

“Sandra, volta para cá, por favor!” ele gritou lá de dentro. Eu apenas me afastei para perto da estrada e estiquei um dos braços, pedindo carona. Não levou nem um segundo para Leonard vir falar comigo “O que você pensa que está fazendo?”

“Voltando para a Universidade. É isto que eu estou fazendo.” rosnei.

“O quê? Mas eu pensei…”

“Eu não vou seguir com você sabe-se-lá-para-onde sem que você confie em mim para me contar o que está acontecendo!”

“Sandra...” ele soltou o ar desanimado “Okay, para com isso.” disse abaixando o meu braço e me tirando da beira da estrada “Vamos conversar.”

“Você vai me contar a verdade?” eu o instiguei, e o vi esfregando o rosto, outra vez atormentado. Eu continuei esperando, apenas.

“É complicado.” ele enfim começou “E você não vai acreditar.”

“Me testa!” eu pedi pousando as mãos na cintura. Ele bufou de novo.

“Ta certo.” disse, fazendo uma longa pausa “Eu conheço os caras que atiraram nas pessoas ontem.” comentou, aguardando a minha reação.

“E? Eles faziam matéria com você? Eram seus amigos?” ela arriscou.

Ele sacudiu a cabeça “Não exatamente. Eu... eu deveria ter feito aquilo junto com eles.” soltou, franzindo a testa. Eu tentei processar a informação, sem conseguir, entretanto.

“Como é?”

Ele se enrolou um pouco “Eu deveria... ter pegado a arma que estava no meu bolso e atirado também... Mas eu resisti.” ele concluiu, com um estranho sorriso no rosto.

“Eu ainda não estou entendendo nada, Leonard.”

Ele me olhou por alguns instantes e voltou a respirar fundo “Desde o primeiro dia de aula... quer dizer, eu não me lembro direito de nada do que aconteceu no primeiro dia, mas, desde o segundo dia, eu venho recebendo ordens na minha cabeça. E eu faço coisas... coisas das quais eu geralmente não me lembro depois, mas que as pessoas juram que fui eu. Até que ontem, eu ouvi a ordem ‘sacar a arma e atirar contra os alunos’ mas eu não obedeci. Eu não fiz o que ele me mandou fazer, entendeu?” Leo me indagou, agitado.

“Ele?” eu devolvi, meio zonza agora.

“Sim.” o garoto assentiu “Eu o chamo de ele, porque é uma voz masculina, muito longe... E não, eu não estou louco! Alguém implantou alguma coisa na minha cabeça naquele dia. Eu tenho flashes de memória. Eu me lembro de estar em algum lugar estranho, e daqueles garotos estarem lá também!” ele se apressou em dizer.

“Você está tentando me dizer que você foi vítima de alguma experiência esquisita e que alguém está tentando robotizar você?”

“Viu? Eu disse que você não ia acreditar!” ele balançou os braços, voltando para o carro.

“Não, espere!” eu fui até ele, e vi que ele estava muito encabulado com a história toda para ser invenção “Por que você não procurou ninguém? Por que continuou no Campus?”

“Como eu ia dizer isso pra alguém, Sandra? Quem ia me levar a sério? Era mais fácil acreditarem que eu sou um lobisomem!” ele rebateu “E eu precisava continuar lá. Eu achava que eu ia encontrá-lo pessoalmente um dia, e que ia poder fazê-lo reverter essa coisa à força. Mas agora não dá mais… Se eu não conseguisse resistir de novo... eu poderia...” ele esfregou os olhos novamente, como se tentasse dissipar a hipótese criada em sua imaginação, e se recostou na porta do carona.

“Okay, não vamos pensar nisso.” eu disse me aproximando dele e pousando a cabeça em seu peito “Então foi ele que te mandou atirar em mim?” inquiri.

O irlandês anuiu “Ele me mandou me livrar de quem estava comigo, e sair... Mas eu não consegui apertar o gatilho.” suspirou.

“Eu fico feliz que você não tenha.” brinquei “Mas... e quanto ao desmaio?”

“Eu andei desmaiando ultimamente, do nada.” ele confessou “Deve ser um sobrecarga do meu cérebro de lobisomem, eu acho...” brincou de volta, e eu ri com ele, sentindo os ânimos se acalmando entre nós. Leonard passou a acariciar meus cabelos, e eu me apertei ainda mais contra ele.

“Vai dar tudo certo, Leo... Nós vamos encontrar uma solução.” eu disse baixinho, e o senti mais relaxado.

“Obrigado, Sandra.” ele me fez olhá-lo “Eu estou feliz em estar dividindo isto com alguém.”

“E você relutou tanto... À toa!” eu tripudiei um pouco mais, fazendo-o sorrir, e recebendo um beijo em resposta. Seus lábios se delongaram nos meus por mais tempo do que eu esperava, e suas mãos escorreram das minhas costas para a minha cintura e, depois, dos quadris para as coxas... O beijo esquentou a esse ponto, e ele levantou de leve a minha saia. Quando seus dedos me tocaram um pouco acima, ele parou, divertindo-se.

“Você está sem nada por baixo?”

Por reflexo, meu rosto se figurou numa expressão de quem acaba de cometer uma travessura “É que não deu tempo de procurar...” respondi, mordendo a ponta da unha. Leonard soltou uma risada.

Nós voltamos a nos beijar daquele jeito gostoso, e ele se afastou do carro para abrir a porta traseira. Eu compreendi imediatamente suas intenções, e entrei, me deitando no banco de trás. Ele entrou em seguida e após fechar a porta deitou-se de improviso sobre mim.

E assim, nos minutos que se seguiram, nós consolidamos nossas pazes recém feitas.

“Okay. Agora eu quero preciso sobre antes!” eu disse, cheia de energia, ajeitando a saia sobre o banco da frente, enquanto ele arrancava com a pick up outra vez, e nós voltávamos para a estrada.

“Sobre antes?” ele perguntou, também parecendo mais bem humorado agora.

“É. Antes de tudo isso. Antes de você entrar na universidade.”

“Você quer saber a história da minha vida?”

“Isso! Eu já sei que você nasceu na Irlanda, mas, por que você saiu de lá?” investiguei, curiosa.

“Hum... Não é bem uma grande história, eu acho. Eu nasci em Cork, meu pai era fazendeiro, e eu o ajudava quando não estava na escola. Mas aí, ele e minha mãe se separaram, e eu nunca soube ao certo o motivo... Só sei que minha mãe ficou com muita raiva, e a melhor maneira que ela encontrou de se vingar, foi me afastando dele. Então nós viemos morar nos Estados Unidos. Pronto, fim da história.” ele concluiu.

“Só? Seu pai não veio atrás de você? Você não tem irmãos?” quis saber mais.

“Eu tenho irmãs agora... Minha mãe se casou de novo e eu tenho uma irmã de seis e outra de dez anos. Mas meu pai, eu nunca mais vi. Ele é apegado demais às terras dele para vir atrás de mim.” explicou.

“E vocês não se falam?” eu retruquei.

“Às vezes, sim. Nós nos falamos muito na época em que eu descobri o que eu era... Eu logo notei que não poderia ter partido do lado da minha mãe, e então tentei fazer ele me dar alguma pista de que era do lado dele, mas ele percebeu onde eu estava tentando chegar com aquelas perguntas e me contou toda a história. Eu ligava pra ele sempre que tinha uma dúvida, mas aí, as dúvidas foram desaparecendo e hoje a gente só se fala nos aniversários e outras datas festivas.”

“Hum... que pena.” eu concluí, tristonha.

“E você? Por que você saiu do Brasil?” ele me surpreendeu ao demonstrar saber mais sobre mim do que imaginava novamente.

“Bem, meu pai estava tendo problemas com uns... caras, e eles ameaçaram descontar em mim. Minha mãe ficou meio desesperada com a história e me mandou para cá, para morar com a minha tia, irmã dela, que é casada com um americano. Mas a gente se fala bastante, e ela diz que quando tudo estiver resolvido, eu vou poder voltar a morar lá... Eu só não sei se eu vou querer mais.”

“A gente se acostuma, não é? Com a vida aqui.” ele refletiu.

“É. Mas nunca é como a sua casa...” eu acompanhei sua reflexão.

“Verdade. Sua herança vem do seu pai também?” ele prosseguiu.

“Não… Eu acho que vem dos dois. Eu cresci sabendo que me transformaria algum dia. Não foi nenhum choque, ou algo do gênero.”

“Você tem sorte.”

“É, tenho mesmo.”

O assunto pareceu morrer por hora, e nós ficamos quietos por alguns minutos. Leonard, todavia, recobrou a fala de súbito.

“Hey, eu estava pensando...”

“No quê?” eu me endireitei no banco para ouvir.

“Nós podíamos passar em uma dessas lojas e comprarmos algumas roupas, e calcinhas, para você.” ele disse, rindo para mim.

“Eu pensei que você gostasse que eu estivesse sem!” eu zombei, rindo também.

“Eu gosto! Só estou com medo de você sentir frio aí embaixo à noite.” ele devolveu.

“Okay, então… Vamos fazer compras! Eu deixo você escolher minhas lingeries!”

“Uau, que privilégio...” ele arrematou, e eu fiz língua para ele. Nós voltamos a ficar calados, porém fui eu quem quebrou o silêncio dessa vez.

“Posso te perguntar outra coisa?”

“Pode.”

“Já pensou para aonde vamos?”

Leonard mordeu os lábios antes de responder “Não. Só sei que preciso ir para o mais longe possível dele...”

“Hmm.” eu voltei a ficar quieta, mas não estava totalmente satisfeita “E isso seria mais para o lado do México ou do Canadá?”

Ele me lançou um olhar lupino “Qual deles você prefere?”

“Eu acho que o México seria mais divertido!” admiti.

“Então vamos para o México!” ele resolveu. Contudo, ainda tinha uma última coisa que eu queria lhe pedir.

“Me promete uma coisa?”

“O quê?”

“Que não vai nunca mais apontar uma arma para mim?”

Mais uma vez, seus lindos olhos verdes encontraram os meus.

“Eu prometo que não vou mais fazer aquilo. Mas se eu fizer...” insinuou, com uma expressão travessa.

“Não! Você prometeu!” eu ri.

“Se eu fizer, você usa a tática o lençol de novo, okay?” ele disse, rindo, e eu levei alguns segundos para me lembrar do que ele estava falando, até que fiquei pasma.

“Você se lembra!” o acusei.

“Eu sempre me lembro de certas partes! E essa parte foi inesquecível!”

“Seu cafajeste!” estapeei o braço dele e notando que ele não sentira nada, bati de novo, várias vezes. Leonard gargalhou alto, e depois segurou meu pulso, me puxando para dar-lhe um beijo. Eu neguei, fazendo de charme, até que cedi, e ele ficou com sorriso bobo pregado na face por mais meia dúzia de milhas.

A nossa viagem prosseguiu e, a cada minuto, eu olhava para ele, como se quisesse confirmar que ele ainda estava ali, e que eu estava realmente prestes a cruzar o país com o garoto dos meus sonhos.

16 февраля 2021 г. 17:23:35 1 Отчет Добавить Подписаться
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