Countdown to The Authors' Cup 2020. Sign up now for chance to win prizes!. Читать далее.
Короткий рассказ
2
3.4k ПРОСМОТРОВ
Завершено
reading time
AA Поделиться

CASACO DE FRIO


O ganhei em meu décimo segundo aniversário e nunca mais o tirei. Foi entregue diretamente a mim enquanto eu estava em meu quarto, deitado em minha cama e ouvindo o vento soprar lá fora. Havia sido um aniversário tradicional (um bolo, velinhas e pastéis) e já era noite quando meu pai chegou em casa, exausto do trabalho como vigilante. Ele trazia consigo um embrulho escurecido, amarrado com barbantes e um sorriso alucinando no rosto.
Entrou no quarto acompanhado por minha mãe, que vinha logo atrás apertando as duas mãos sobre o peito, algo que a mim, lembrava uma oração em silêncio. Ele se aproximou e beijou-me a testa, depois sorriu um pouco mais e me desejou feliz aniversário. Em seguida, rasgou o embrulho e o tirou de lá; um casaco tradicional, acinzentado e de boa aparência. Disse-me que aquele era o meu presente, e logo pediu permissão para me vestir com ele.
— Quero colocar em você, — disse, segurando o casaco e sorrindo aquele riso estranho para mim.
— Tudo bem.
— Tem certeza disso, César? — era minha mãe, visivelmente preocupada.
Meu pai respondeu sem olhar para ela.
— É claro que tenho. O velho me disse que iria funcionar, e acreditei nele.
— Mas que velho é este, César? Quem surge desta maneira e diz que…
— Não sei, porra! Só acredito nele e isso basta. E se lhe faz sentir melhor, o nome dele era Calebe ou algo assim. Agora posso vestir o meu filho?
Fez-se um breve instante de silêncio, e após isso minha mãe preferiu se retirar, sacudindo a cabeça negativamente.
Encarei os olhos de meu pai (brilhantes por conta de algo que talvez fosse esperança) e daquela vez foi a minha vez de lhe interromper.
— Quem lhe deu esse casaco, pai?
— Não o conheço. Ele apenas sabia, não imagino como, que hoje era seu aniversário. Sabia também sobre… Bem, sobre seus braços.
Meu pai sempre se referia a minha deficiência daquela mesma maneira; olhando para baixo e apontado sutilmente com a cabeça para o local onde meus dois braços deveriam estar se tivesse nascido com eles.
Percebendo que ele estava ansioso e nervoso demais, abaixei o meu tronco e pedi-lhe para me vestir. Ele o fez com imensa ansiedade, fazendo meu corpo frágil se sacudir e quase tombar para um dos lados.
— Ficou perfeito! — falou, admirado com o fato daquele casaco caber perfeitamente em meu corpo. — Foi feito para você, sob medida. O velho tinha mesmo razão. Agora, mexa.
Fiquei confuso com aquele pedido.
— Mexer exatamente o quê?
— Seus braços. O velho disse que seria possível. Vamos, mexa.
Pensando se tratar de uma inapropriada piada de mal gosto, sorri de nervoso e estava prestes a dizer como estava me sentindo quando a manga direita do casaco se ergueu de repente. Assustado, tombei para o lado e fiquei encarando o meu braço (meu?) Apontando para cima.
Ao fundo, escutei a gargalhada de meu pai.
— Funciona! Meu Deus! Não é que realmente funciona?

Minha adolescência chegou de repente, e tão logo passou como um raio diante de meus olhos. Conforme meu corpo começou a crescer, o casaco o acompanhou simultaneamente, alinhando-se perfeitamente às minhas medidas. Nunca o tirava para lavar (não possuía cheiro algum, era como não estar vestindo nada) e só o retirava de meu corpo na hora de tomar banho.
Aquela altura, já havia tocado em mais coisas que qualquer pessoa deste mundo, sempre usufruindo da maravilhosa sensação de sentir a textura do mundo pela primeira vez na vida. Minha pele era macia, bem diferente das paredes que constituíam a minha casa, e algumas dessas coisas eram frias e outras quentes. Para mim, absolutamente tudo era uma novidade — com exceção, é claro, daquilo que já havia tocado.
Em menos de duas semanas, pintei a casa onde ainda vivia com minha mãe. Ela escolheu uma cor verde fraca, pois dizia que aquela teria sido a cor escolhida por meu já falecido pai. Enquanto pintava, o rosto dela obtinha uma mescla de felicidade e pavor, pois via o pincel subindo e descendo segurado por uma mão invisível. Alguns vizinhos também reparavam naquilo, e chocados preferiam virar o rosto e seguir com suas vidas. Com o tempo, minha história e minha nova vida acabaram deixando de ser uma surpresa, e todos passaram a ignorar que estavam conversando com alguém de braços fantasiosos. Alguns até sugeriram que eu me tornasse uma espécie de mágico, algo que descartei imediatamente. Segui com os meus estudos e acabei me formando em medicina, e meses depois consegui meu primeiro emprego em uma clínica local. De princípio, todos recuavam o corpo quando me viam realizar algum exame; qualquer aparelho simplesmente flutuava na direção das pessoas, e confesso que aquilo me fazia sorrir.
Durante os verões, meu corpo pagava um preço bastante alto. O suor era em excesso, e não foram poucas às vezes em que tive de me sentar para não desmaiar. Minha mãe sugeriu que eu deveria abri-lo, colocar um zíper no peito e transformá-lo em um casaco mais leve. Ela até se ofereceu para fazer o trabalho.
Contrariado, recusei. Preferia sufocar com o calor do que estragar o casaco. Para mim, qualquer coisa que pudesse interferir na construção natural do casaco, poderia tirar os seus poderes. Imagine um mágico sem sua cartola mágica, e terá a visão do que estou tentando dizer. Mais e mais anos se passaram, e minha mãe Wilma Santos decidiu se juntar a meu pai, em um céu já repleto de familiares meus. Ela deixou a casa em meu nome (algo que já havia mencionado em vida que faria), e consegui um bom dinheiro com a venda da mesma alguns meses depois. Naquela época já possuía minha própria residência, uma casa grande que tinha até uma piscina nos fundos, uma exigência pontual de minha noiva Sofia. Esta eu havia conhecido no trabalho, em uma de suas consultas mensais. De início, seu medo diante de minhas mãos mágicas foi maior que seu interesse particular. Apenas em sua terceira visita ao consultório, é que sua mente foi capaz de administrar o seu corpo, então fiz para ela o truque da rosa que flutuava sozinha e seus olhos brilharam. Em um curto espaço de tempo, começamos a namorar e a falar em casamento e até em filhos.
— Quero ter dois, — falei, enquanto jantávamos em um restaurante chique onde o garçom nunca entendera de onde surgira a gorjeta que larguei em suas mãos.
— Um casal?
— Exatamente. Minha mãe iria adorar. E eu em fazer.
— Fabrício Santos, seu safadinho, — resmungou ela, e ambos sorrimos a luz de velas.

O desejo de me tornar um pai seguia apenas como um sonho (algo não impossível, mas ainda distante de uma realidade), e por mais que os plantões noturnos estivessem me afetando, eram os remédios controlados que importunavam o meu sono. Estava dormindo de três a quatro horas por dia, perdendo peso e ganhando olheiras monstruosas debaixo dos olhos. Em um dos plantões mais exaustivos que tive de enfrentar, quem me levou até em casa foram os meus braços; acabei dormindo no meio do trajeto, e minhas mãos guiaram o automóvel e me deixaram diante do portão de casa com segurança. Acordei no meio da manhã seguinte, com Sofia batendo na janela segurando uma xícara de café. Olhei para ela assustado, erguendo rapidamente a cabeça do volante.
— Se está pensando em ser pai de gêmeos, é bom tratar de trabalhar um pouco menos, querido.
— Acredita que acabei dormindo em algum ponto da estrada?
Ela disse que sim e sorrimos, entramos e fomos diretos para cama.

Acredito que tenha sido deste mesmo jeito. Em uma parte qualquer da estrada, talvez no quilômetro doze ou no quinze, onde ficava aquele posto que vendia gasolina mais barato e tinha ótimos salgados.
Provavelmente acabei dormindo mais uma vez (vinha dormindo seguidamente enquanto dirigia), e o casaco não teve como evitar. Ele não teve culpa em nada que acontecera, já que o outro veículo é que acabara me acertando em cheio na traseira. Acabei morrendo instantaneamente, dormindo atrás de um volante com sonhos nunca realizados, imagens que foram se distanciando cada vez mais até que se tornassem apenas um borrão no escuro. Meu velório foi desastroso e sinistro, já que meus braços não paravam de se mexer no interior do caixão lacrado. Por um simples pedido meu à Sofia, fui enterrado vestindo meu velho casaco de frio, que provavelmente estava bagunçado e sujo com meu sangue. Toda essa tragédia aconteceu há cerca de dois anos, e até hoje sinto meus braços mágicos se movendo sobre meus restos mortais. Ainda sou capaz de sentir as coisas, lembrar, de algum modo, do tato ao encostar em cada um destes objetos ou rostos. Lembro dos traços finos de Sofia. De como seu maxilar se movia quando dava risada. De como sua cintura tremia quando fazíamos amor. Ou da textura sedosa de nossos lençóis. Toquei em tudo que pude enquanto tive vida e vesti meu casaco de frio, e guardei em minhas memórias de defunto cada uma delas. Só lamento nunca ter tido a chance de segurar em meus braços mágicos algum filho meu.
Aí está uma sensação que jamais saberei como é.

10 июня 2020 г. 19:04:34 1 Отчет Добавить Подписаться
2
Конец

Об авторе

Прокомментируйте

Отправить!
Leandro Severo Leandro Severo
Rapaz... que bagulho bizarro esse dos braços ficarem se mexendo no caixão. Oh imaginação que me dá medo essa tua. E as duas frases finais foram de cortar o coração
~

Больше историй

Finding Eden Finding Eden
Angels Of Three Angels Of Three