antonia-noronha1588257786 Antónia Noronha

[DESAFIO MONSTROS INK 2020] Aquele seria o último ano que Eleonor e os seus amigos iriam festejar a noite de Halloween juntos. Mas a descoberta de uma misteriosa caixa faz colocar tudo em causa. Seria aquela também a sua última noite?


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#boo
Conto
2
5.1mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

A caixa

Era o dia de Halloween.

Todos os anos, o nosso grupo juntava-se para o festejarmos. Éramos conhecidos como "os sete". Lembro-me do dia em que todos nos conhecemos. Foi numa festa de Halloween quando tínhamos apenas sete anos. O nosso grupo era composto por mim, pela Madalena, a Sofia, a Alice, o Afonso, o Raul e o Francisco, mas todos o tratávamos por Tito. Éramos grandes amigos desde aquele dia em que nos conhecemos. Onde estava um de nós, geralmente estavam os restante seis.

Eu gostava de todos os meus amigos e não conseguia imaginar a minha vida sem eles! Mas tinha uma proximidade diferente com a Madalena. De todos, ela era a mais ponderada, a mais adulta e com uma visão mais consciente das coisas. Sentia-me bem em conversar com ela quando tinha algum problema ou simplesmente precisava de desabafar! Ninguém sabia, mas a Madalena era a minha melhor amiga, dentro do nosso grupo.

Nesse ano, a festa de Halloween tinha um sabor agridoce. Era o último que passaríamos juntos, pois no ano seguinte cada um de nós iria para cidades diferentes para continuar os estudos. Pelo menos, para mim, este ano seria diferente. A Madalena tinha optado por ir estudar para uma faculdade longe de todos nós e eu sentia-me um pouco nostálgica, não iria ter a minha melhor amiga perto de mim… Mas como ela dizia, sempre tínhamos as tecnologias para nos vermos e falarmos. Mas no fundo, sabia que não iria ser o mesmo. Ela iria encontrar outros amigos e eu morria de medo de a perder.

Reunimos todos em minha casa para discutir o que havíamos de fazer para ser uma comemoração de arromba.

- Olhem, na universidade vão fazer uma festa! - Disse o Raul. - Que acham de irmos para lá dançar e beber até amanhã? E também poderíamos conhecer umas universitárias... - Questionou ele, fazendo um sinal maroto com as suas sobrancelhas e piscando o olho. – E tu poderias sair desse convento Eleonor!

- Oh Raul, olha que tiveste uma excelente ideia... Beber uns copos e engatar umas meninas! - Disse o Afonso, sorrindo.

- Epah, vocês só pensam nessas merdas, fogo! - Resmunguei.

- Oh Eleonor, lá porque decidiste ser freira, não quer dizer que o resto do pessoal não possa molhar o bico! - Disse o Raul, chateado.

- Para vossa informação, - Expliquei. - Estive falando com a Madalena e a Sofia. Os meus pais estão a viajar e só regressam daqui a uma semana. Teríamos a casa só para nós. Que acham de ficarmos por casa, vermos uns filmes, comermos pizzas e doces... E claro, não pode faltar umas cervejas e uns shots! - Sugeri. Os rapazes torceram o nariz em forma de reprovação.

- Já que é para fazermos a despedida da nossa infância, então porque não sermos crianças uma última noite? - Questionou a Alice.

- Que queres fazer? - Perguntou a Madalena.

- Vestir uns disfarces e ir para a rua assustar os miúdos! - Respondeu o Tito, empolgado. - E depois, com o avançar da noite, íamos às escondidas atirar ovos para as casas e enrolar papel higiénico nas árvores! - Continuou ele a rir-se.

- Ai Tito! Quando é que vais deixar de ser criança? Já não tenho idade nem paciência para essas coisas! – Disse a Sofia.

No fundo, o Tito estava mortinho para ir para a rua fazer das suas, mas ele também era perdidamente apaixonado pela Sofia e não iria perder uma oportunidade para tentar conquistá-la.

- Pois, realmente a Sofia tem razão. O melhor mesmo é ficarmos por aqui. Eu até tenho uma boa selecção de filmes de terror e conheço um sítio que vende umas pizzas muito boas! – Disse o Tito, mudando de opinião.

- Pronto, então está decidido por maioria. Ficamos cá em casa. – Respondeu a Madalena, sorrindo.

De seguida, começamos a dividir tarefas. O Afonso, o Raul e a Alice ficaram encarregues de tratar da comida, das bebidas e dos doces para distribuir pelas crianças que fossem lá a casa. A Sofia e o Tito ficaram entretidos a preparar a parte mais tecnológica da noite, ou seja, reunir escolher os filmes e preparar o sistema de som lá da sala. A Madalena, por sua vez, questionou onde estavam os efeitos de Halloween para enfeitar a casa e animar ainda mais o ambiente. A sugestão era excelente! Fomos de imediato procurar no sótão onde normalmente os meus pais guardavam todo o tipo de coisas.

Eu estava a remexer numas caixas velhas, quando encontrei uma caixa de madeira pequena. Fiquei curiosa porque nunca a tinha visto antes.

- Encontraste alguma coisa interessante? – Questionou a Madalena, encostando-se a mim e colocando as suas mãos na minha cintura.

Aquele toque, aquele cheiro do perfume frutado da Madalena fez com que me arrepiasse e o meu coração batesse mais rápido. Não é que esta tenha sido a primeira vez que ela me tenha tocado e abraçado ou que eu tenha sentido o seu perfume frutado. Mas desta vez senti algo diferente! Provavelmente por causa de todas aquelas emoções que sentia por a Madalena ir para longe.

- Não. De Halloween não encontrei nada. Mas isto… Nunca vi cá em casa.

Mostrei a caixa à Madalena. Nessa altura os restantes membros do grupo reuniram-se a nós.

- Que tens aí Eleonor? – Perguntou o Tito, que era o mais curioso do grupo.

- Era o que estava a dizer à Madalena. Não faço a mínima ideia. – Respondi.

Sentámos no chão do sótão numa roda. Coloquei a caixa no meio de nós. Nenhum se atrevia a tocar e muito menos a abrir. Estivemos assim, em silêncio, cada um a pensar no que poderia estar lá dentro. Eu queria abrir, mas e se não fosse para ser aberta? E se fosse alguma coisa privada dos meus pais?

- Olhem, vocês são todos uns medricas! – Disse o Afonso, indo até à caixa de joelhos.

Enquanto ele tentava abrir a caixa, olhávamos com atenção. Uns tinham medo, outros morriam de curiosidade. Afonso pegou na caixa. Abriu o trinco da mesma e levantou a tampa. Ele ficou sério por alguns segundos. Só pensava que tinha dado merda. Mas depois ele começou a rir-se descontroladamente.

- Tanta coisa para nada! – Disse o Afonso, quando finalmente conseguiu falar.

Ele mostrou o interior da caixa. Não tinha nada de especial. A parte de dentro era forrada de veludo preto. Havia um símbolo na parte de dentro da tampa da caixa que parecia queimado no próprio tecido. Esse símbolo era estranho. Parecia um símbolo do infinito e, no meio deste, havia uma espécie de cruz com uma linha vertical e duas horizontais. A base da caixa estava dividida em três compartimentos. No da esquerda havia uma carta de um rei de espadas. No da direita havia uma espécie de pedra vermelha. No meio havia um papel com aspeto velho e gasto com coisas escritas.

O Afonso tirou e observou cada um dos objectos. Depois passou aos restantes para vermos também. Primeiro chegou a mim a pedra. Tinha uma forma de losango e era de um vermelho transparente, mas muito bem polido e brilhante. De seguida veio parar às minhas mãos o papel que estava no meio da caixa. Estava tentando ler o que lá estava escrito, quando a Sofia me passou a carta do Rei de espadas. Como estava com as mãos ocupadas, agarrei na carta com a mão que tinha a pedra, ficando ambos juntos. Então comecei a murmurar o que estava escrito no papel:


Mergulho no fundo do lago do mundo das sombras…

Exploro a escuridão eterna das almas perdidas à tua procura…

Mostra-te a mim! Revela-te a mim!

Vem até a mim, pois és o senhor dos senhores!

És o rei dos reis!


Neste momento, as janelas do sótão abriram-se com grande agressividade para trás! Todos nós nos assustamos e gritámos. A Madalena, que estava à minha beira, agarrou-se ao meu braço, apertando-o com força. A Madalena sempre teve medo de tudo o que era estranho e desconhecido. Mas depois nada aconteceu. Todos nós começámos a rir do que havia acontecido. Mas a Madalena mantinha-se apreensiva e com medo, não largando o meu braço. Apercebi-me que ela estava assustada, parei de rir e, instintivamente, abracei-a.

- Oh Madalena, foi só o vento! Nós abrimos as janelas da sala. Deve ter feito corrente de ar porque a porta do sótão está aberta. – A Sofia tentava acalmar a Madalena. Mas ela ainda estava muito nervosa.

- Olhem, esqueçam lá os enfeites. Vamos para baixo que já está quase na hora de jantarmos. – Disse, aos restantes.

Deixei-os descerem primeiro, ficando para trás com a Madalena.

- Então, ainda estás muito assustada? – Perguntei, abraçando-a, sentido o seu coração acelerado contra o meu peito.

- Sabes que não gosto nada destas merdas! Arruma tudo e vamos para baixo! – Resmungou a Madalena, descendo as escadas do sótão.

Aproximei-me da caixa sorrindo e pensando que iria sentir muita falta da Madalena e dos seus nervos quando deparada com coisas que ela não sabia explicar. Ajoelhei-me e arrumei a carta do Rei de espadas e o papel. Preparava-me para arrumar a pedra, quando voltei a olhá-la novamente.

- Esta pedra é muito bonita… - Pensei. – Acho que a vou levar comigo para baixo. Sempre posso fazer uma prenda para a Madalena como recordação antes de ela ir para a universidade. – Decidi, sorrindo e colocando a pedra no bolso do meu casaco.

Juntei-me aos outros na sala. As pizzas já tinham chegado. O Raul foi buscar umas cervejas e uns sumos ao frigorífico. Começámos a ver os filmes e fomos comendo. Lá de vez em quando uns miúdos batiam à porta para pedir doces. E nós íamos à vez distribui-los. Mas quando era a vez da Alice, do Tito, do Afonso ou do Raul irem à porta, faziam de tudo para assustar os miúdos, menos quando eles vinham acompanhados por adultos.

- Já estou um pouco farto de ver filmes! – Disse o Afonso exasperado.

- Que sugeres então? – Perguntou a Madalena.

Neste momento a sala ficou às escuras. A Madalena gritou com toda a força que tinha em seus pulmões e pendurou-se ao meu pescoço, com medo. Senti-me a sorrir por dentro. Eu não sei porquê, mas pensar que ela preferiu se abraçar a mim do que aos outros, fazia com que me sentisse bem! Seria eu também a pessoa preferida dela no grupo?

- Vou vos contar a história de uma menina, - Começou o Tito, fazendo uma voz rouca e colocando a lanterna do seu telemóvel acesa por baixo da sua cara, dando-lhe um ar assustador e continuou. – Que estava no sótão. Ela chamava-se Madalena e borrou-se de medo quando as janelas se abriram!

Todos começaram a rir, à excepção da Madalena.

- Oh Tito, vai à merda! – Disse a Madalena levantando-se e indo para a cozinha.

- Boa Tito! Continuas a mesma criança de sempre! Vê se cresces! – Resmunguei completamente zangada e fui atrás da Madalena.

Quando cheguei à cozinha, ela estava encostada ao balcão chorando. Aproximei-me dela. Toquei no seu braço e ela levantou a cabeça. Ela continuava assustada e a chorar.

- Eu gosto muito dele, mas às vezes apetece-me dar-lhe uma tareia tão grande até o matar! – Disse a Madalena, procurando conforto nos meus braços.

- Não ligues… Ele não passa de uma criança! – Disse, tentando acalmá-la. Desviei-me dos seus braços, olhei-a nos olhos e sorri.

Senti um calor por dentro. Provavelmente seria das cervejas que eu já tinha bebido. Mas havia outra coisa… Não conseguia desviar os meus olhos dos olhos da Madalena. Subitamente senti aquele calor a ser substituído por uma dor no peito! Não era muito forte, mas foi o suficiente para levar a mão ao peito e soltar um pequeno gemido.

- Estás bem Eleonor? – Perguntou ela preocupada.

- Sim, foi só uma pontada no peito. – Respondi sorrindo.

Novamente do nada, aquela dor voltou, mas agora mais forte, em outros sítios, em todo o meu corpo! Sentia alguma coisa a pressionar-me de fora para dentro! Fiquei sem forças nas pernas e caí prostrada de joelhos no chão da cozinha!

- Eleonor? O que tens? – Perguntou a Madalena, ajoelhada ao meu lado.

Eu não conseguia responder. Todo o meu corpo doía! Sentia algo, alguma coisa a aproximar-se de mim, pressionando o meu corpo, tentando entrar dentro do meu corpo! Eu tinha muito medo!

Deitei-me de costas no chão. Senti todo o meu corpo a arquear! A dor era insuportável! Agora sentia algo a queimar-me o antebraço direito, parecia que alguém tinha pegado numa estaca de ferro quente e me tivesse ferrado!

- Chamaste-me, eu vim!

Ouvi esta voz. Não sabia de onde ela vinha! Aquela voz era grotesca, gutural, profunda e grave! Eu fechava e apertava os olhos com força na esperança daquilo tudo ser um sonho extremamente real! Sentia algo a entrar dentro de mim! A descer pela minha garganta! Pareciam espinhos a rasgarem-me por dentro! Tentei gritar, mas sentia-me a sufocar! Voltei a fechar os olhos com força na esperança de tudo terminar!

- Eleonor! Que se passa? – Gritou a Madalena novamente, a agarrar-me pelos ombros.

Queria mexer o meu corpo, mas sentia-me presa! Tentava perceber o que se estava a passar e acordar daquele pesadelo!

- Não vale a pena gastares o resto das tuas forças! Agora, tu és minha! Tu libertaste-me! – Gritava aquela voz fazendo eco na minha mente.

Também gritei! Eu estava assustada! Eu só queria acordar!

- Eleonor! Acorda! – Ouvi a Madalena gritar ao longe.

Finalmente consegui me libertar e me mexer! Num pulo sentei-me no chão. Tentava respirar! Sentia o suor a escorrer pela minha cara! A minha garganta ainda arranhava! Olhei à minha volta. Já estavam todos à minha beira, completamente assustados! Abracei-me ao pescoço da Madalena com força, completamente aterrorizada!

- Então, que se passou? – Perguntavam todos ao mesmo tempo.

- Não sei, mas foi muito estranho! O que se está a passar comigo? – Questionei, a chorar, assustada.

- Chamaste-me, eu vim! És minha! Libertaste o mal! – Ouvi novamente a voz. Encolhi-me, tapando os ouvidos.

Neste momento senti novamente algo dentro de mim! Mas desta vez tentava subir, tentava vir ao de cima! Voltei a fechar os olhos com força para afastar aquela sensação!

- Não vale a pena resistires! Este corpo é MEU!

Senti uma dor a dilacerar-me por dentro, a empurrar-me para um canto do meu corpo! E do nada senti que as coisas tinham ficado calmas. Abri os olhos.

- Eleonor? O que se passa com os teus olhos? – Perguntou Raul, aproximando-se de mim.

- A Eleonor já não está aqui! – Disse.

Sentia a minha boca a mexer-se, mas não era eu quem pensava ou falava aquilo! Era aquela voz dentro de mim que parecia que possuía o meu corpo e a minha mente! Senti-me a sorrir, mas, acima de tudo, senti uma maldade a crescer dentro de mim!

Então, sem qualquer controlo e em segundos, levantei-me e enfiei a minha mão no peito do Raul, como se o meu braço fosse uma espada, sem qualquer dificuldade! E muito menos sem qualquer sentimento de remorso…

Enquanto o Raul gritava de dores, os outros gritavam aterrorizados. Senti a minha mão, que continuava dentro do peito do meu amigo, a fechar-se em torno de algo sólido, mas esponjoso. Quando a retirei, reparei que estava cheia de sangue! Na minha mão, trazia o coração do Raul! Então gritei com toda a força que tinha! Mas da minha boca, em vez de saírem gritos de terror, eram soltas profundas gargalhadas diabólicas!

Sem qualquer controlo, levei o coração do Raul à boca e comecei a comê-lo! No fundo, sentia-me completamente enjoada! Mas aquela voz, aquela presença que me controlava parecia estar a comer a melhor refeição do mundo!

Os meus amigos estavam completamente aterrorizados e não sabiam se haviam de olhar para o corpo do Raul ou se para mim a comer e a lambuzar-me com aquele repasto. Lembro-me de sentir um gosto a ferro na minha garganta à medida que engolia o coração. Aquela presença levou os meus dedos à minha boca e lambeu o resto do sangue!

Quando levantei o meu olhar, os meus amigos simplesmente gritaram e fugiram para perto da porta das traseiras! Sempre sem ter controlo do meu corpo, levantei o meu braço e consegui apanhar o braço da Alice! Voltei a rir diabolicamente olhando nos olhos aterrorizados dela!

Tentei puxá-la para mim, mas ela soltou-se. Sentindo uma raiva descomunal a crescer dentro de mim! Rapidamente agarrei na Alice pelo pescoço e levantei-a do chão! Ela debatia-se para se libertar das minhas mãos e eu sentia que aquela presença estava a adorar senti-la assim, vulnerável e à minha mercê! Ela adorava ainda mais sentir a pulsação forte e acelerada no pescoço da Alice! Adorava sentir que tinha controlo da vida dela! Então, já farta daquele jogo, senti a minha mão a apertar com mais força! O corpo da Alice estremeceu e esperneava e eu ria-me descontrolada e doentiamente!

Crac!

Senti os ossos do pescoço da Alice a cederem e a partirem-se na minha mão! Todos os restantes tentavam abrir a porta das traseiras! Instintivamente, fiz um gesto com a minha cabeça, como se estivesse a dar a volta à chave, trancando a porta. Eles, aos gritos, continuaram a tentar abrir a porta, mas sem sucesso. Então, continuando a gritar, eles fugiram na direcção oposta e tentaram sair pela porta da frente.

Ouvi-os a gritar novamente. Eu ria-me perdidamente como se fosse uma louca! De alguma maneira eu, ou quem me tinha possuído, tinha conseguido trancar também a porta da frente e todas as janelas só com a sua mente!

Estavam todos fechados lá dentro! Todos fechados comigo e aquela presença!

Dirigi-me à sala, sempre com o corpo da Alice suspenso pelo pescoço na minha mão e a balançar à medida que andava. Eles estavam num canto da sala, encolhidos de medo! Olhei no fundo dos olhos do Afonso. Enfiei a minha mão no peito da Alice!

A Madalena gritou de medo. Olhei para ela. Olhei no fundo dos seus olhos! Por momentos, senti a minha mão a enfraquecer e a abrir-se em torno do coração da Alice. Tive a sensação que estava a voltar a ter poder sobre o meu corpo! Eu queria parar! Não queria que a Madalena sofresse!

- Nem penses que te deixarei controlar! – Gritou-me aquela voz na minha mente.

Senti-me a perder o pouco controlo que ganhara! Apertei novamente o coração da Alice e arranquei-o. Novamente senti nojo daquela refeição que aquela presença fazia! E a par do meu nojo, apercebia-me do prazer dessa presença em comer aquele órgão!

Então, voltei a sentir uma dor muito profunda! Uma dor por todo o meu corpo! Caí de quatro no chão juntamente com o corpo inanimado da Alice! Parecia que todos os ossos do meu corpo estavam a se partir! Era uma dor que me dilacerava por inteiro! Olhei para Madalena. Senti-me novamente com controlo sobre mim, à excepção daquelas dores dilacerantes! Tentei gatinhar até perto dos meus amigos, até perto da Madalena!

- A…ju…dem…me! – Supliquei, balbuciando e esticando a minha mão completamente ensanguentada.

Todos fugiram de mim! Então olhei em frente. Olhei para o espelho grande que estava no hall da entrada! Não conseguia acreditar no que estava a me acontecer! Os meus olhos estavam vermelhos! Eu estava completamente suja! Parecia que tinha tomado um banho de sangue! Sentia uma dor insuportável nas minhas costas, de cada lado dos meus ombros! Voltei a olhar-me no espelho. O meu rosto estava a mudar! A minha boca e o meu nariz tinham desaparecido e parecia que tinham sido mordidos e arrancados por um animal! No lugar deles tinha um buraco negro e os meus dentes tinham ficado compridos e afiados! À medida que o meu cabelo desaparecia, surgiam dois cornos que começavam no início da minha testa e cresciam para trás, curvando-se para dentro ficando as duas pontas perto uma da outra, perfeitamente alinhadas! Eu estava completamente aterrorizada! O que se estaria a passar com o meu corpo?

Senti dores dilacerantes em cada lado dos meus ombros! Voltei a ficar prostrada no chão! Então senti a pele das costas a rasgar! Soltei gritos de agonia e de dores! Olhei novamente para o espelho completamente arregalada com aqueles olhos vermelhos a olharem de volta para mim. Eu tinha duas cabeças a saírem das minhas costas! Uma de cada lado! Elas eram extremamente esqueléticas, parecia que apenas tinham uma camada de pele fina em cima do crânio! Nenhuma das cabeças tinha orelhas ou nariz!

Uma cabeça parecia um morto vivo, com a pele da face começando a rasgar da podridão! Não tinha olhos, mas sim trepadeiras com espinhos que saíam pelos olhos e voltavam a entrar pela parte de trás da cabeça, simulando um movimento contínuo! Desviei o olhar para a outra cabeça. Esta rodava sobre uma coluna vertebral sem pele e via os músculos a contraírem de cada vez que a cabeça se mexia! A face era muito semelhante à outra cabeça, no entanto não tinha os lábios! Tinha dois dentes afiados, um de cada lado de uma língua comprida, e no maxilar superior tinha quatro dentes, sendo os dois das pontas mais afiados! Em cima da sua cabeça estavam dois cornos redondos que se enrolavam para trás, tal como os de um carneiro!

Do nada aquelas dores desapareceram todas! Senti o meu corpo a bater de frente no chão completamente esgotado! Fechei os olhos. Ainda tentava recuperar o fôlego quando me senti a ser invadida por uma raiva tão profunda! As dores tinham me abandonado e apenas havia ficado uma vontade enorme de matar!

Cheguei-me mais perto do espelho, arrastando-me pelo chão. Olhei-me com aqueles olhos vermelhos que pareciam cuspir fogo! Senti algo no meu braço e olhei. Tinha um símbolo queimado no braço! O mesmo símbolo que estava na caixa que abrimos horas antes!

Levantei-me e desviei-me do espelho. As minhas roupas eram, aos poucos, substituídas por um manto rasgado me cobria o peito e desciam até ao joelho. Na minha cintura tinha uma corda vermelha com ossos pendurados! Os meus ténis transformavam-se numas sandálias de estilo romano, fechadas à frente como uma espécie de escudo e amarradas com cordas, que se entrelaçavam na parte de trás da minha perna!

Olhei para os meus braços. Estavam mais largos, mais musculados! As minhas mãos eram mais fortes e as minhas unhas eram pretas e extremamente compridas!

- Enfim, em casa! – Sussurrei, pausadamente com aquela mesma voz gutural, profunda e grave, sorrindo num esgar de maldade.

Aquela presença havia tomado conta totalmente do meu corpo! Sentia-me impotente, sem força ou qualquer controlo dos meus gestos ou pensamentos! Eu já não era a Eleonor! Eu era aquela presença que me possuiu e que transformara o meu corpo num monstro! Era como se eu estivesse aprisionada dentro do meu corpo e havia alguém a comandar. Aquela coisa ordenava que fizesse e pensasse em todas aquelas coisas maquiavélicas e diabólicas. E, completamente de mãos e pés atados, via tudo aquilo completamente aterrorizada e em sofrimento! Nada do que eu fazia neste momento, era do meu livre arbítrio!

Ouvi algo a arrastar-se no andar de cima. Lembrei-me que eles estavam presos no andar de cima. Voltei a sorrir com maldade, pensando nas diversas maneiras com que me iria deliciar a matá-los!

Comecei a subir as escadas. Estava tudo às escuras. Havia um silêncio mortal que era quebrado pelos meus pesados passos nas escadas. Chegando ao andar de cima, instintivamente levantei a cabeça e comecei a farejar. Eu conseguia sentir o cheiro do medo!

Do nada, ouvi o Afonso a gritar. Olhei para o lado de onde vinha a voz dele. Ele bateu-me violentamente na cara com um pedaço de madeira! Mas não sentia nada! Então, ele continuou a bater-me e sempre com mais força! Eu só me ria descontroladamente!

Numa das vezes que ele avançava para me bater, estiquei a mão e consegui segurar no pedaço de madeira por uma das pontas. Olhei nos olhos dele e sorri maquiavelicamente! Arranquei aquele pedaço de madeira das suas mãos e sem qualquer esforço enfiei-o mesmo no meio da sua cara, acabando por trespassar a sua cabeça! O Afonso morreu instantaneamente! Enquanto o seu corpo caía no chão, ajoelhei-me. Fechei a minha mão com força e apunhalei o peito dele, retirando mais um coração. E novamente o comi!

Ouvi um choro ao longe. Reconheci imediatamente aquela voz… Era a Sofia e vinha do sótão! Levantei-me e caminhei até lá, calmamente. Sorri pensando no pavor que eles deveriam estar a sentir à medida que ouviam os meus passos a subir, pouco a pouco as escadas do sótão!

- Estou a chegar! – Sussurrei com aquela voz que não era a minha, mas que saía da minha boca!

Eu subi para o sótão. O Tito estava à frente das raparigas, como se estivesse a protegê-las. A Sofia e a Madalena, ao me verem desfigurada e transformada naquele monstro gritaram e abraçaram-se aterrorizadas! Lembro-me de rir descontroladamente.

- Deixa as miúdas em paz! Nem penses em chegar-te perto delas! Eu não deixarei que lhes faças mal! - Gritou o Tito, nervoso, mas com coragem.

- Tu pensas o quê? Que consegues protegê-las de mim? – Perguntei, com uma voz profunda e grave. – Vê só como tu és um fraco!

Dito isto, estiquei o meu braço com a mão aberta para cima. Olhei para a Sofia que tremia abraçada à Madalena. Fechei a minha mão num movimento rápido. E mais rápido voou o corpo da Sofia para perto de mim!

- Não! Sofia! - O Tito e a Madalena gritaram ao mesmo tempo.

O corpo da Sofia estava suspenso no ar, à minha frente! Olhei-a nos olhos! Ela estava a morrer de medo! Ainda com a mão fechada, rodei o meu pulso, lentamente. E a cabeça dela começou também a rodar! Ela gritava de dores! Eu no fundo sofria, mas aquela presença que agora me dominava, sorria porque sentia prazer em provocar sofrimento!

O corpo da Sofia estremecia como se estivesse a ter convulsões! As cabeças dos meus ombros riam-se como duas hienas loucas! Então voltei a apunhalar o peito da Sofia, retirando o seu coração e comendo-o. Abri a minha mão rapidamente e com um simples gesto de levantar os dedos para cima, atirei o corpo dela às cabeças das minhas costas, que com as suas bocas lutavam como como dois animais selvagens por um pedaço de carne. Cada uma das cabeças puxava pelo corpo da Sofia, com tanta força que acabou por se rasgar ao meio. Elas rapidamente devoraram os restos do corpo da Sofia! Eu sentia o sangue a respingar e a esguichar nas minhas costas a cada dentada daquelas cabeças esfomeadas!

Tito, soltando um grito desesperado e de dor, completamente descontrolado, começou a vir rapidamente na minha direcção determinado e com sede de vingança de tudo o que eu tinha feito. Então sorri e caminhei também rapidamente até ele. O Tito levantou o punho para me bater, mas antes que pudesse fazer alguma coisa, bati com a palma da minha mão na sua cara com toda a força! Em segundos, a cabeça do Tito rebolava no chão do sótão à luz da lua!

Soltei uma gargalhada doentia ao mesmo tempo que me ajoelhava e enfiava a minha mão pelo seu peito a dentro! Novamente comi mais um coração dos meus amigos!

Quando terminei, lembrei-me que ainda faltava mais uma pessoa. Olhei em frente com os meus olhos vermelhos! Vi a Madalena a chorar, completamente aterrorizada! Limpei o sangue que me escorria da boca com as costas da mão. Eu estava muito perto dela, conseguia até sentir o cheiro do seu perfume frutado.

- Não! Por favor! Não me faças mal! – Suplicou a Madalena, chorando compulsivamente com medo.

Lembrei-me do quão doce e frágil ela era. Parei de caminhar na sua direcção e sorri. Mas agora com carinho. Eu sentia aquela raiva, aquela maldade a baixar a sua guarda. Lembrei-me do quanto ela era importante para mim! Mas novamente perdi o controlo e continuei a caminhar na sua até ela.

O meu ser não queria que aquilo acontecesse, mas aquela presença levantou a Madalena do chão apenas com uma mão pelo pescoço! Sentia-me completamente desesperada! Aquela presença não podia matar a Madalena!

- Eleonor… - Disse a Madalena, com muito custo.

- A Eleonor já desapareceu! – Gritou aquela presença completamente enraivecida.

- Eu sei que tu ainda estás aí! – Gritou a Madalena, olhando bem fundo daqueles olhos vermelhos. – Eu sei que ainda está aí a rapariga que eu amo e sempre amei!

Eu fiquei confusa. Que ela ama e sempre amou? É certo que nós éramos inseparáveis e ela sempre se preocupou comigo. Ela sempre esteve mais perto de mim e me abraçou mais do que às suas outras amigas. Mas ama-me de amar? Eu também não perdia uma oportunidade de estar sozinha com ela. Os seus toques e os seus abraços davam-me arrepios, mas daqueles bons! E aquele perfume frutado deixava-me sempre hipnotizada!

Estava a pensar nisso quando me senti a ser puxada por uma força surreal, como se fosse sugada para dentro do meu ser! Fechei os olhos com força! Parecia que estava a cair como naqueles sonhos que costumava ter.

Abri os olhos. Olhei para o meu corpo, para os meus braços, para as minhas mãos. Toquei no meu corpo e nas minhas costas. Eu já parecia uma pessoa normal novamente!

- Bem-vinda ao meu mundo! – Cumprimentou-me aquela voz gutural, profunda e grave. Mas agora já não a ouvia dentro da minha mente, sim cá fora.

Olhei para o lado e assustei-me! Era como se a criatura em que eu me tinha transformado, havia saído de mim e estava ali ao meu lado!

- Que faço aqui? Porque me fiz todas aquelas coisas aos meus amigos?

- Não foste tu! Fui eu! Tu és uma fraca! – Respondeu aquela criatura, agressivamente, encostando as suas caras junto à minha.

- Quem és? O que queres? Matar-nos a todos? – Questionei, ganhando coragem e enfrentando aquela criatura.

Ela sorriu e apontou para um local distante de nós. Virei a cabeça e olhei na direcção que aquela besta apontava.

Parecia um precipício! Vi umas pessoas com asas, pareciam anjos! Elas arrastavam outro anjo e amarravam-no a um poste. De seguida, trouxeram uma rapariga, imobilizaram-na, enfiaram a mão no seu peito e arrancaram o seu coração! O anjo que estava preso, gritava e, desesperado, chorava um choro de dor e sofrimento face ao que estava a ser obrigado a testemunhar! De seguida, os anjos avançaram para perto do que estava preso. Colocaram-se atrás dele e, fazendo força, arrancaram as suas asas! De seguida, pegaram no corpo inanimado da rapariga e atiraram-na de lá de cima! E, por fim, desamarraram o anjo sem asas e também o empurraram, deixando-o cair no abismo!

- Eu não percebo... – Murmurei, confusa.

- Eu era o anjo que estava preso! Eu era um anjo guerreiro enviado à terra com a missão de destruir o mal! Um dia, apaixonei-me perdidamente por uma humana. - A voz da criatura mudara. Agora estava mais calma e calorosa. - Ela era linda! Era pura! E amava-a profundamente! Era um amor proibido e, quando Deus descobriu, ordenou que fossemos capturados! Como castigo, fui obrigado a ver a minha amada a morrer e a ser-lhe roubado aquilo que ela tinha de mais puro em si, o seu coração! De seguida, Deus decretou a sentença mais atroz que um anjo poderia receber, ficar sem asas! Acabei por ser expulso do céu e caí no fogo do inferno. Então, prometi a mim mesmo que me iria vingar da morte da minha amada, porque perdê-la foi muito mais doloroso do que me terem arrancado as asas!

- Mas quem és tu? - Perguntei novamente.

- Eu sou Boriseros Gadeon, o demónio guerreiro, destruidor do amor! Regressei aos céus, numa suplica de vingança, mas fui aprisionado numa caixa! E esta noite, ao fim de milhares de anos, tu libertaste-me!

- Mas eu não queria nada disso! Não queria matar os meus amigos e muito menos quero matar a Madalena! – Gritei.

- Também não queria que matassem a mulher que eu amava! Mas ninguém teve misericórdia! Nem por mim e muito menos por ela! Temos de terminar o que começámos!

Senti-me a ser puxada novamente, a cair como naqueles sonhos! Abri os olhos. A Madalena continuava a chorar e aquele demónio continuava a apertar o pescoço dela! Olhei para o meu braço. O meu corpo havia se transformado novamente naquela criatura! Ela aterrorizada, chorava. Sentia aquele demónio a levantar o meu outro braço, tentando fazer à Madalena o que já havia feito aos meus amigos. Mas desta vez, eu não ia deixar! Reuni todas as forças que conseguia e tentava travar uma luta de mentes com aquele demónio. E, aos poucos, apercebi-me que conseguia começar a ter mais controlo sobre o meu corpo.

- Não tens força para me enfrentar Eleonor! – Gritou a voz de Boriseros Gadeon dentro da minha cabeça.

Então voltei a perder o controlo! Sentia-me completamente esgotada! O corpo da Madalena começava a tremer! Consegui perceber que ela estava a ter dificuldade em respirar! As suas lágrimas caíam do seu rosto para o chão do sótão e eu sentia uma tristeza de morte! Sentia-me tão impotente! Eu via Boriseros Gadeon a preparar a sua mão para arrancar o coração da Madalena!

- Eu tenho de fazer alguma coisa! – Pensei para comigo, completamente desesperada!

Senti o meu braço a ganhar balanço para perfurar o peito da Madalena ao mesmo tempo que Boriseros Gadeon ria doentiamente dentro de mim!

Fechei os olhos com força. Eu não era capaz de ver aquele demónio a matar a Madalena! A minha mente foi invadida por todas as recordações, por todos os momentos que havia vivido junto dela. O som das suas gargalhadas quando eu lhe contava alguma piada, a forma do seu sorriso, como ela cheirava bem e eu adorava que ela me tocasse! E num mar de memórias com a Madalena, comecei a chorar…

- Eu… amo… te… - Sussurrou ela, suspirando e suplicando por ar.

Não, Boriseros Gadeon não poderia fazer aquilo! Eu não me daria por vencida tão facilmente! Então, tentei buscar forças onde nem sequer sabia que as tinha e tentei puxar o meu braço de volta para trás! Mas eu estava a fazer um esforço sobrenatural para enfrentar a força daquele demónio! Sentia o meu braço a tremer, como se tentasse puxá-lo para mim e alguém o puxava para fora!

- Tu não tens poder nenhum contra mim! Não passas de uma humana! – Voltou a gritar Boriseros Gadeon.

- Tenho muito mais força do que tu! Este corpo é MEU! E tu não vais matar a Madalena! Quero que saias do meu corpo e que voltes para o fogo do inferno de onde voltaste! - Gritei em plenos pulmões para o meu interior, mas gritei suficientemente alto para que aquele demónio ouvisse!

Comecei a perceber, a sentir que Boriseros Gadeon começava a perder a sua força face à minha resistência! Aproveitando este momento de fraqueza, um momento único em toda aquela noite, e, num movimento rápido e forte, virei o meu braço para mim e enterrei a minha mão no meu peito! Arranquei o meu coração para fora! Caí inerte no chão. Primeiro de joelhos. Depois de costas no chão. Vi Madalena também a cair no chão ao meu lado.

Ainda com uma réstia de vida, ouvi Boriseros Gadeon a gritar de raiva ao mesmo tempo que estava a sair de mim e a ser puxado para dentro da caixa novamente! Ainda com uma réstia de vida, retirei a pedra do bolso do meu casaco e entreguei a pedra à Madalena.

- Na caixa… - Disse, já sem forças. – Mete… na caixa…

Ela assim o fez rapidamente e regressou para a minha beira. Ela colocou a minha cabeça sobre os seus joelhos. Ela estava a chorar. Eu sentia as suas lágrimas a caírem sobre o meu rosto.

- Eu sempre te amei Eleonor! – Disse Madalena, debruçando-se sobre mim, beijando-me e roubando o último suspiro da minha vida.

À medida que sentia a minha vida a sair de mim, lembrava-me do primeiro dia que tinha conhecido a Madalena, do quanto tínhamos vivido juntas, do quanto eu gostava de estar com ela… Antes de fechar os olhos por completo, olhei para o fundo dos olhos de Madalena e sorri, ao mesmo tempo que sentia uma lágrima a escorrer-me pela minha face.

Senti-me a cair numa escuridão, num sono de morte! Mesmo no escuro conseguia perceber que caía perdida e novamente como naqueles sonhos. Mas parecia que nunca acordava! Caindo naquela escuridão, comecei a chorar compulsivamente! Eu sentia uma dor no coração, mas não era bem uma dor física! Algo por dentro estava a doer, a dilacerar-me! No fim, eu havia ganho àquele demónio, mas no fundo, eu havia perdido!

- Encontraste alguma coisa interessante? – Ouvi a Madalena a perguntar, encostando-se a mim e colocando as suas mãos na minha cintura. Senti o seu perfume a deixar-me hipnotizada.

Abri os olhos. Eu estava de volta ao sótão. Estava de dia. Olhei para a Madalena. Seria um dejá vu?

- Madalena? – Perguntei completamente surpreendida, sorrindo e chorando de alegria, ao mesmo tempo que a abraçava. – Deixa-me olhar para ti!

- Oh meninas! Vocês que arranjem um quarto, vá lá! – Gritou Tito, entrando pelo sótão, seguido por Sofia, Alice, Afonso e Raul.

Eu pensei que talvez tudo o que havia acontecido não tinha passado de um pensamento muito estranho, ou da lembrança de um sonho que havia tido naquela noite.

- Que tens aí Eleonor? – Perguntou Tito.

Ele apontava para as minhas mãos. Baixei o olhar. Era a caixa onde estava preso Boriseros Gadeon e que eu tinha libertado! Instintivamente olhei para o meu antebraço direito e lá estava, a marca do símbolo queimada na minha pele! Tudo tinha sido real! Mas como teria voltado ao normal? Olhei para a Madalena e ela olhava-me de volta, sorrindo.

- É uma velha caixa meu amigo! - Respondi, sentindo-me nervosa. Eu tinha de voltar a arrumar aquela caixa e nunca mais lhe tocar! - Vamos para baixo. Em vez de pizza apetece-me comer um churrasco! Que me dizem? – Perguntei, empurrando todos para baixo.

Sentei-me no chão do sótão a olhar para aquela caixa. Fiquei sempre assombrada por aquela dúvida. Por querer saber o que é que tinha acontecido. E de vez em quando olhava e tocava no meu braço queimado. Como é que tudo tinha voltado ao normal? Ou pelo menos a algumas horas antes? Como é que eu tinha conseguido derrotar Boriseros Gadeon?

- Em que pensas? – Perguntou a Madalena, em pé ao meu lado.

Olhei para cima, para ela. Ela olhava-me nos olhos e esticou a sua mão. Agarrei-me para me levantar. Ela puxou-me de propósito com um pouco mais de força. Eu acabei por me desequilibrar e apoiei-me contra o corpo dela. Comecei a rir-me.

- Esta brincadeira nunca fica velha! – Disse-lhe.

A Madalena estava séria e olhava-me profundamente nos meus olhos. Passou a sua mão pela minha face e pelos meus cabelos. Puxou o meu rosto para perto do seu e beijou-me suavemente. Aquele beijo sabia a surpresa, mas acima de tudo a amor…

- Que fazes? – Perguntei, lembrando-me do outro beijo.

- Tu és a rapariga que eu amo e sempre amei! – Respondeu-me ela, sorrindo.

Larguei os braços da Madalena sem jeito e fui arrumar a caixa rapidamente. Lembrei-me da vida de Boriseros Gadeon, do quanto ele sofreu quando perdeu a sua amada e do quanto eu sofri na possibilidade de matar a Madalena. Levei a mão à minha cabeça! Finalmente tinha percebido como tudo tinha voltado ao normal!

Um sacrifício de amor, de um coração apaixonado! Na realidade, a tristeza que sentia pela partida da Madalena não era porque ela iria para outra cidade longe de mim ou porque ela iria fazer novos amigos e me esquecer! Eu gostava mesmo dela! Mais do que uma amiga! E não a queria perder! Então, entreguei o meu coração apaixonado em troca do coração da amada de Boriseros Gadeon!

- Em que pensas? – Voltou a Madalena a perguntar, tornando a pôr as suas mãos na minha cintura e puxando-me para junto de si.

Voltei a sentir aquele perfume frutado que sempre me hipnotizou e que agora me atraía para ela. Sorri olhando nos seus olhos.

A Madalena beijou-me novamente e correspondi com amor! Um amor tão puro e tão forte capaz de enfrentar a força de um demónio guerreiro e de o enviar de volta para o inferno!

28 de Maio de 2020 às 14:18 15 Denunciar Insira Seguir história
6
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, Antónia! Somos do time de Comunidade da Embaixada Brasileira do Inkspired, responsáveis pelo desafio Monstros Ink., e ficamos muito felizes com a sua participação; é sempre bom ver essa disposição para a escrita. Bom, vamos lá! A história se passar em pleno Halloween confere uma atmosfera boa à história, um clima de terror confortável ao redor dos amigos e amigas. É bom presenciar um clima “festivo” desses em que, ao redor, estão as pessoas com quem nos sentimos confortável estar; A Caixa nos concedeu esse clima. Em muitas histórias a perspectiva se concentra em personagens diferentes daqueles que têm seu corpo possuído, então vemos apenas os atos que essa possessão gera. A Caixa surpreendeu-nos nesse ponto; a perspectiva se concentra na personagem que é possuída, na Eleonor, que luta mentalmente contra Boriseros Gadeon à medida que tem seu corpo alterado pela criatura. A transformação de Eleonor em Boriseros Gadeon foi um mix de horror e ansiedade, porém, tal transformação também trouxe as vestes do demônio, o que não fez muito sentido. Assim adentramos nas partes que merecem maior atenção, vejamos: Em uma das falas dos amigos de Eleonor, dá para concluir que ela tinha alguma ligação com religião, pois algo sobre ser freira é dito, mas não dá para entender bem se a família possui uma ligação forte com alguma religião. Saber também alguma coisa de seus pais ajudaria a contextualizar mais a história, já que a caixa foi encontrada no sótão da casa deles. Ou ao menos algo sobre mudança recente para a casa que tinha donos religiosos, algo que explicasse um pouco mais sobre a caixa. A possessão, percebemos, foi muito rápida, o que não concedeu todo o potencial de suspense que a história poderia ter. Pequenas nuances como começar a sentir fome descomunal por carne ou agir estranho na frente dos amigos poderiam estender esse período de possessão. Há também a justificativa do demônio para Eleonor em um outro plano. Essa justificativa não nos pareceu fazer muito sentido, já que, a nosso ver, seres sanguinários não parecem o tipo que precisam explicar o que fazem e o porquê de o fazerem. Por isso, alguma história rápida, uma lenda sobre o símbolo que eles encontram na caixa (talvez eles pesquisassem na internet e descobrissem alguma história sobre o símbolo) pareceria mais verossímil. Uma dica que nosso time dá: monstros permanecem monstros se a eles não lhes forem conferidos local de fala nem de perspectiva. Se, de alguma forma, passamos a conhecer o monstro, seja por suas falas ou explicações, ele perde parte da essência que faz uma história de terror ser de terror: o medo daquilo que não se conhece. Bom, aqui chegamos ao final. Nós, do time de Comunidade da Embaixada Brasileira do Inkspired, ficamos muito contentes com sua participação, pois assim nos concedeu a chance de ler A Caixa.
CC C Clark Carbonera
Nossa, enquanto eu lia tua história, me sentia como se visse um filme de terror. Podia bem ser o roteiro de um! A relação de amizade entre as personagens foi muito bem posta no início e a possessão...tremendamente bem descrita! A história do anjo me lembrou Paraíso Perdido (amo), e estou maravilhada pelo final feliz (acho que é a primeira participante do desafio a fazer isso!) A ideia do monstro também foi muito boa, muito grotesca mesmo (deus que me livre de sonhar com um bicho desses...). Parabéns, acho que tua história merece mesmo estar entre as finalistas!
June 11, 2020, 16:16

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Antes de mais muito obrigada por teres lido a minha história e a teres comentado! Fico muito feliz e satisfeita por teres gostado, por teres achado que as descrições bem feitas. Mas acima de tudo quero agradecer por achares que a minha história, o meu primeiro desafio de escrita, mereça esse tipo de destaque, de ser uma das finalistas. Acredita que depois de ler o teu comentário fiquei muito feliz! Boa sorte para ti no desafio! :) June 11, 2020, 16:28
  • C C C Clark Carbonera
    Imagina, Antónia! Fiz o comentário porque de fato gostei da sua história. Mesmo que tenha sido o seu primeiro desafio, é sempre bom podermos ter esse contato com outros autores/leitores, até porque no mais das vezes não nos aceitamos como bons criadores de mundos (hahaha pelo menos eu sou assim!). São nesses momentos que podemos ter a visão um pouco mais clara e perceber como somos criativos. Os desafios são ótimos para nos desafiarmos! June 14, 2020, 14:49
Rodrigo Borges Rodrigo Borges
oh, é uma perspectiva interessante a de quem narra. adoraria comentar mais, mas irei me resguardar até a entrega dos resultados!! muito boa a participação ^^
June 08, 2020, 21:37

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Muito obrigada por ter lido :) Aguardarei pelo seu comentário após a entrega dos resultados. Novamente, muito obrigada! June 08, 2020, 21:41
  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Será que me poderia dizer quando e como saberemos os resultados do desafio? Sendo o meu primeiro desafio, os nervos têm me desafiado nestes dias hahahaha muito obrigada June 17, 2020, 14:19
Filipe Rocha Filipe Rocha
Uma história de arrepiar com um fim surpreendente. Muito original, parabéns!
June 07, 2020, 16:29

Melissa Leal Melissa Leal
Darling..... eu.... caramba eu senti exatamente tudo, a sensação de ter seu corpo tomado! Você escreve muito bem! É nessas horas que agradeço a minha imaginação )^o^( Sweety te desejo boa sorte no desafio. ♡
June 06, 2020, 02:04

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Muito obrigada por ter tirado um tempinho para ler a minha história e por achar que tenho uma boa escrita! :) fico contente por saber que tenhas gostado! O teu comentário deixou-me mais descansada pois tinha receio que as descrições não estivessem realistas o suficiente. Novamente muito obrigada! :) June 06, 2020, 06:50
Lucas Alcântara Lucas Alcântara
Que conto incrivel, com uma temática macabra e final emocionante. Boa sorte no concurso
June 04, 2020, 22:04

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Muito obrigada por ter tirando um tempinho para ler a minha história. Fico contente que tenha gostado! June 04, 2020, 22:57
Eduardo Cezar Eduardo Cezar
Eu adorei sua história, sorte a minha que a li durante o dia... boa sorte no desafio! Muito legal, parabéns.
June 03, 2020, 17:58

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Estou muito contente que tenha gostado! Muito obrigada pelo seu comentário! Boa sorte também para si :) June 04, 2020, 06:21
~