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David Cassab


Acontece outro mistério como o de Londres, mas agora em Trinidad e Tobago.


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Carta ao Sr. Lucas Garcia

Caro Sr. Lucas Garcia, meu nome é Dasha Yaneed, sou jornalista e aspirante a escritora, resido em Trinidad e Tobago, região do Caribe. Eu acompanho a revista O Chamado, na qual você postou um artigo sobre sua experiência em Novembro de 1998.

Eu gostaria de compartilhar com você um acontecido na cidade do Porto de Espanha, onde se localiza o National Museum and Art Gallery, há dois meses.

No início, achei uma história peculiar, e como sou completamente cética, acreditei que poderia fazer dessa história perturbadora mais um conto para publicar na minha antologia de contos. Mas tudo mudou quando eu li seu artigo, porque depois disso eu fui pesquisar mais e levar um pouco mais a sério toda essa bizarrice. Vamos aos fatos.

Em 12 de Janeiro de 1999, chegou em nossa cidade um navio trazendo algumas obras de arte europeias para exposição em vários museus do país, incluindo o National Museum and Art Gallery. É uma época um pouco mais fria, o que não atrai tanto os turistas como os meses seguintes. Mas mesmo assim é um local muito movimentado e de grande diversidade cultural e religiosa. Dentre as obras haviam muitas obras de autores menos conhecidos, obras que flertavam um pouco com o gótico, com a era vitoriana, tinha até uma pintura de realismo fantástico que retratava os crimes do Jack Estripador. Mas o que chamava atenção eram as obras medonhas de Edvard Munch. O Grito, Inveja, Ansiedade, Vampiro e Noite Estrelada, foram essas perturbadoras obras que compunham um hall da galeria.

Contudo, dentre essas havia um quadro que eu vi antes dos eventos macabros, mas deixarei sua descrição mais abaixo quando a história desenrolar, para que haja um melhor entendimento do que aconteceu aqui.

Existe na nossa região um empresário milionário, dono de uma rede de resorts e hotéis de todas as categorias. Desde pocilgas até os cinco estrelas, ele investiu pesado no turismo, o que fez que sua grana multiplicasse. Dotado de uma ambição de nível gigante, uma inveja que devorava ele mesmo e todos a qual ele direcionava esse sentimento, Philip Tuvalu era um homem um tanto persona non grata por toda a região caribeana, não só em Trinidad e Tobago, mas aonde se pode imaginar.

Tuvalu era já de uma idade madura, e era casado com uma senhora amável, embora muitos dissessem que ela era louca. Seu nome era Fermina Tuvalu, era religiosa, praticando o hinduísmo, adoradora fiel do deus Hayagriva, um deus antropomórfico, possui cabeça de cavalo, e é considerado o deus do "despertar da consciência".

Seu marido nunca respeitou sua religião, porém não se incomodava com a quantidade de altares no seu casarão, dezenas de estátuas de Hayagriva, e também as sessões de meditação de Fermina. O certo é que ela dizia ter visões com seu deus continuamente, mas essas visões pareciam ao outros pesadelos, pois ela acordava ofegante, assustada, à beira de um colapso nervoso. Era comum os criados acordarem com os gritos da patroa, e Tuvalu sempre se mostrava irritado com esses pesadelos, porém para Fermina aquilo eram visões e manifestações de Hayagriva, ela se sentia privilegiada com o que presenciava no mundo dos sonhos.

Havia mais um comportamento de Philip que incomodava a todos: sua maneira de tratar mulheres como se fossem seu objeto. Ele devorava com os olhos qualquer mulher que lhe fosse atraente, qualquer que fosse sua idade, ou independente se estava acompanhada ou não. Sempre fazia gracinhas grotescas, dirigia ofensas e às vezes palavras obscenas contra várias delas em público. O homem se sentia poderoso, e ninguém queria algum problema com ele, pois é certo que muitos de seus inimigos ou concorrentes desapareceram de Trinidad e Tobago, era claro que que o responsável era o crápula do íbis escarlate.

Existe em nossa região um pássaro um tanto exótico, que é conhecido como íbis escarlate, e todo mundo sabia, inclusive as autoridades, que Philip os criava em cativeiro e contrabandeava para outros países. Ele já havia no passado sido preso por esses crimes, mas pagou fiança, comprou o sistema jurídico e tudo acabou em nada.

No dia em que o navio chegou com as obras de arte, ele estava no porto fazendo algumas negociações sérias que necessitavam de sua presença. Ele tentava subornar o capitão do navio a levar suas "mercadorias" no retorno à Europa.

Foi quando ele notou uma bela mulher inglesa que lhe chamou atenção. A mulher parecia ser uma pintura vitoriana, como ele disse ao seu motorista depois, ele não se conteve e tentou se aproximar em meio à multidão apertada. A mulher ia se escorregando e com classe, quase que flutuando ela se esgueirava de Philip. Ele com seus modos de um bisão, gritou mandando a mulher esperar, o que a fez sorrir, estava com óculos de sol redondos, vestia-se toda de preto e trazia um lenço à cabeça. Ela olhou nos olhos de Philip e lhe entregou entre os cotovelos incessantes da multidão, um bilhete, e desapareceu entre as docas.

Philip abriu então e viu que estava marcado um encontro com a bela mulher no National Museum and Art Gallery, no dia em que estaria aberta a exposição de Edvard Munch. O velho achou ter tirado sorte grande, contou vantagem com os amigos, e nem fez questão de esconder da esposa, que como a maioria, também temia o porco do marido.

Na noite anterior Fermina teve um sonho, que ela mesma me contou depois de uns dias quando eu li o seu artigo e fui atrás de algumas respostas, seu sonho foi um tanto peculiar.

Ela sonhou com Hayagriva, mas pouco á pouco ele foi se tornando apenas um cavalo, sem traços humanos, e de repente dele mesmo começaram a sair outros cavalos, como que se fosse tentáculos, mas iam crescendo e se formando com patas e rabo, eram assustadores. Eles possuíam cores diferenciadas que saíam umas das outras, se misturavam a ponto de Fermina não saber mais qual era o original. Eram quatro, na ponta esquerda estava o vermelho, um vermelho forte e escuro, parecia ser aveludado, era de pelagem grossa, a crina era espessa e caia sobre os assustadores e penetrantes olhos, ao lado estava o amarelo, era pálido, semblante caído, tinha algo de deprimente naquele animal, mastigava como se tivesse algo na boca, mas aparentemente nem dentes ele tinha, depois vinha o preto. Esse era o mais perturbador, pois sua densidade se misturava com o céu escuro, sem lua e sem estrelas, era difícil até discernir seu semblante, mas havia um brilho nos olhos, como bolas de vidro, e havia o branco, ele reluzia de tão branco, porém sua claridade não se misturava com a escuridão do preto. Eles coexistiam ali, mas era um efeito quase que inexplicável. Em meio a relinchos e bufadas, ela ouvia uma voz que dizia:

— Philip Tuvalu foi julgado e sentenciado. Morte!

A voz se repetia e se misturava com seu próprio eco, ela acordou assustada e viu o marido se penteando em frente a penteadeira. Foi a última vez que ela o viu.

Ele saiu para seu encontro amoroso, e o que relato aqui foram pontos que recolhi de várias testemunhas que estavam no local, e que presenciaram o fato.

Ao entrar na galeria, Philip procurou então a ala combinada, e lá olhando os quadros ele aguardava a bela mulher, foi quando ele se postou em frente a um quadro, que agora irei o descrever como eu mesma pude ver.

Era um quadro relativamente grande, não possuía molduras, tinta a base de óleo aparentemente, e nele existiam quatro cavalos pintados. Estavam na mesma ordem e disposição do sonho de Fermina. Eram assustadores, como se estivessem misturados, gêmeos siameses, suas cores eram muito vivas, excepcionalmente o vermelho, que parecia ser de alto relevo. Não havia paisagem atrás dos animais, apenas um céu escuro, sem nenhum luminar. E o ponto que você pôde verificar em sua visão ao encontrar Lameck, estavam presente as iniciais A.C.

Bom, quando Philip viu o quadro, seu semblante mudou, começou a suar, havia cheiro de medo em seu corpo, começou a tremer, mas parecia não conseguia desviar-se da hipnose do quadro. Ele ensaiava um grito que não saía, contorcia o rosto, e quando foram tentar socorrê-lo ele apenas pedia por ar, pois estava sendo sufocado com os relinchos daqueles animais.

Algumas pessoas o levaram para fora para tomar um ar fresco, mas nada resolvia. Ele continuava delirando, falando sobre os cavalos estarem rodando em volta dele, querendo pisoteá-lo. Foi quando se súbito ele deu um grito, como se tivesse sido apunhalado e ali, no chão, ele expirou.

No hospital, foi solicitada uma autopsia, e para o espanto e terror dos médicos legistas, havia uma marca enorme de ferradura de cavalo no peito esquerdo de Philip Tuvalu. Foi um corre corre, e dando continuidade na assombrosa autópsia, foi verificado que mesmo com a marca da ferradura, não havia ossos quebrados, nem tecido muscular atingido. Apenas a marca. E era uma marca recente, não podia ser um acidente velho e aquilo uma marca antiga. Continuando a autópsia verificou-se que haviam trombos na artéria coronária, que irriga o músculo do coração, ou seja, infarto.

Eu já havia visto o quadro antes, mas logo que ele faleceu, eu fui até o museu para revê-lo e extrair mais alguma informação, mas não estava mais lá. O pior é que ninguém sabe o paradeiro do quadro, a obra não estava nem na nota de transporte, e ninguém sabe quem era o responsável por ela.

Passados alguns dias eu estive com a viúva, ela me contou o sonho e me mostrou o bilhete que ele recebeu da mulher loira, eram esses os dizeres:

" Me encontre na ala de exposição do artista Edvard Munch, em frente ao quadro dos cavalos

Anne Charlote, ansiosa para tê-lo."


2 de Maio de 2020 às 16:07 2 Denunciar Insira 1
Fim

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Kaline Bogard Kaline Bogard
Olá! Que história fascinante. Parabéns pelo tom que escolheu para desenvolver a trama, essa ideia de um "conto que é contado", não a ação acontecendo em tempo real. A medida que as informações são passadas, conseguimos contruir uma boa imagem dos personagens, principalmente esse Philip... que sujeito, hum? A trama tem suspense e mistério na medida certa, cada palavra nos faz querer saber o que acontece. E o final... não fecha, mas abre várias possibilidades interessantes. Seu Português é de excelente qualidade, o uso de palavras mais rebuscadas não torna a leitura arrastada, pelo contrário, é apenas um aparato que enriquece a história. Mais uma vez, parabéns.

  • D C David Cassab
    Olá, muito obrigado pelo feedback, que bom que gostou. Então existe outro conto que antecede esse que se chama Cavalos, eu pretendo escrever quatro contos que se interligam, e no final fechar toda a história, o primeiro é narrado pelo destinatário desta carta do segundo conto, talvez te interesse. 2 weeks ago
~

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