the-creation-of-abapobee Paulina Praxedes

Uma viagem não significa necessariamente transportar-se fisicamente de um lugar até outro. Uma viagem pode significar transportar-se em memórias, sejam suas, de outras pessoas ou de parte de você. Ao longo de trinta dias embarcarei em uma "sem fim" sobre o primeiro amor, infância, beijo, família, pessoa favorita, medos, decepções, músicas, filmes, adolescência, amor, futuro, perdas, sonhos, viagens, morte, liberdade e outras coisas. Você vem comigo?


Conto Todo o público.

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Dia um: aquele sobre o primeiro amor

Clarice se sente confusa e desconfortável pra falar sobre isso, porque quase sempre revirar o passado implica em reabrir feridas e apertar gatilhos que têm impacto aqui e agora. Clarice não sabe começar um texto sobre seu primeiro amor porque ela ama tão rápido, que depois se questiona se algum dia já amou ou se era fogo causado pela carência e imaturidade.

Clarice pensa. E se seu primeiro amor foi aquele garoto bonitinho da escola? Aquele que a fazia suar frio, que todas as meninas também gostavam. Aquele a quem ela enviou cartinhas calorosas "anonimamente" e depois as teve devolvidas porque ele achou uma palhaçada e nunca mais ela quis escrever cartas que depois pudessem ser enviadas. E ela se lembra do quanto foi embaraçoso, mas hoje ela ri até de sua estupidez de garota de 10 anos.

E mesmo depois do episódio das cartas devolvidas, Clarice seguiu gostando dele. Quando passava muito tempo sem vê-lo na escola, fechava os olhos e tentava se lembrar de como ele era. De seus olhos, seu cabelo, aquele sorrisinho. Hoje ela acha uma bela estupidez porque ele é um estúpido.

Mas naquele tempo tudo durou mais de um ano até que eles começaram a estudar juntos. Claro que ela tomou atitude e se aproximou, mas com o tempo foi deixando de gostar... Aquele sentimento lindo que a alimentava e a aquecia por todos os dias durante muito tempo foi se esgotando até que Clarice baniu o garoto da escola para o terreno da indiferença e seguiu sua vida. Nunca mais o viu. E por isso tem dúvidas se ele foi seu primeiro amor ou não.

Depois disso teve uma segunda pessoa. Era diferente. Clarice jamais o conheceu. Viviam longe e foi rápido. Só tiveram tempo pra dizer que se gostavam, e então ela estragou tudo e cada um seguiu seu rumo. Algumas vezes ele voltou apenas para balançar com ela, mas ela não sabe se ele de fato voltou, porque ele nunca veio. Então como alguém que nunca veio pode voltar?

Muito tempo depois do garoto da escola e do segundo garoto, ela gostou de outro. E para esse outro, escreveu ela várias letras e palavras. Sua melhor era de "escritora" foi gostando desse outro. Ela teve experiências mais concretas e menos ideais do que com o primeiro garoto. Clarice beijou. Clarice brigou. Clarice teve borboletas no estômago. Clarice chorou. Clarice sorriu. E depois de um certo tempo, Clarice voltou a abrir as portas do terreno da indiferença e baniu o outro pra lá. E nunca mais o viu. E por isso Clarice tem dúvidas se ele foi o seu amor. O seu primeiro? Ou o seu segundo? Ou jamais o foi?

Talvez outra pessoa tenha existido. Ela também está banida e também nunca mais foi vista. E é provável que Clarice tenha se machucado, pois de fato cometeu um erro ao confundir duas palavras e dois sentimentos. O erro foi, em grande parte, dela por falar tudo o que der na telha e por não ponderar. Também por criar expectativas. Todavia, não importa, ela decide quem irá banir. E bane todo mundo.

E o que para ela é amor? Algo que pode ser definido enquanto vive? Ou pode ser definido como tal mesmo depois de ter banido pessoas para o terreno da indiferença? Ou amor é amor quando ninguém é banido para o terreno da indiferença? Ou o amor é quando ninguém se precipita a dizer tudo o que der na telha?

Se essas questões fossem questões objetivas de vestibular, Clarice criaria uma quarta opção: TODAS AS ALTERNATIVAS ACIMA. Para que, logo em seguida, se contradissesse adicionando a letra E: NENHUMA DAS ALTERNATIVAS. E, então, a assinalaria. Entretanto, teria a questão ou até mesmo a prova anulada por ter rasurado o gabarito.

E se as questões fossem de uma prova dissertativa? Com certeza ela citaria Augusto dos Anjos ou Charles Baudelaire e deixaria que eles conversassem e os corretores entendessem que ela não sabe o que é amor, também não sabe quem de fato ela amou, nem quem seria a primeira pessoa, nem se um dia ela, de fato, amou. E perceberiam também que ela nem conhece poemas de amor, porque tantos poetas para citar, optou por aqueles que não falam de amor. E levaria um zero.

Mas a verdade é que Clarice não precisa rotular nada. É bom pensar no espectro de possibilidades que respostas que ela deixou para si mesma. E o mundo não a entenderia, diria que ela está cuspindo no prato que comeu, mas as coisas não são bem assim. E tanto faz. Se nem ela entende a sua bagunça interior, por que outra pessoa seria obrigada a entender?

30 de Abril de 2020 às 04:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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