zep0rtugal Zé Portugal

A história onde o autor é o personagem principal. Com medo da sua segurança ser comprometida, ele vendo a sua vida a dar uma volta de 180º graus, ainda tem esperança de que tudo não passe de um pesadelo. Enquanto não vê a vida ficar de volta ao que era antes, o personagem se refugia em 3 coisas (álcool, cigarro, e a escrita), até ter atitude suficiente para fazer a escolha que poderá mudar a vida dele para melhor.


Histórias da vida Todo o público.

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Em progresso - Novo capítulo Todas as Segundas-feiras
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Uma noite de decisão

Eram precisamente 22 horas, eu tinha acabado de jantar. Soube-me tão bem aquele frango assado da churrasqueira no fundo da rua, já fazia uns dias que eu não comia uma refeição quente. Na verdade, eu já não comia direito desde que a minha mulher saiu de casa. 0 casamento já não andava para a frente à pelo menos uns 5 anos, desde que aceitei este maldito emprego.

Trabalhava e ainda trabalho de terça a domingo, das 8 às 8 todos os dias com exceção de terça-feira, que é a minha única folga na semana, e com isso tinha me esquecido do mais importante, da minha família. Claro que o facto de eu ter aceitado o trabalho, foi acordo entre nós dois na época, mas isso se deu porque a dificuldade financeira tinha entalado as nossas vidas contra a parede. Comigo a trabalhar na empresa, em poucos meses essa questão monetária havia ficado resolvida, mas eu nunca tinha estado tão afastado da minha mulher. As discussões que antes eram por causa das contas a zeros, hoje eram pelo motivo da nossa intimidade, enquanto casados, estar a inexistente há demasiado tempo.

Não, ela não saiu de casa há meses, só passou duas semanas, mas ela faz me tanta falta. Lembro me até hoje do dia em que a conheci, do dia em que a pedi em namoro, do dia em que lhe fiz uma surpresa, o tão esperado pedido de noivado (foi na praia preferida dela), e eu nunca irei conseguir esquecer o tamanho do sorriso dela no momento ela gritou um “SIIIM”! Foi um daqueles sorridos, chamados de – sorriso de orelha a orelha. Foram os meses mais tensos das nossas vidas, pois ambos estávamos a lutar para que aquele casamento corresse como ambos tínhamos planeado enquanto jovens. Felizmente tinha dado tudo certo e a festa correu 1000 vezes melhor. Eu confesso que naquela última noite eu nem dormi direito, pensei a noite toda a tentar imaginar em como ela iria estar vestida, em como seria o vestido, aquele vestido que ela tinha escolhido para ser a memória de um dos dias mais felizes da nossa vida. Quando consegui por fim fechar os meus olhos por um pouco de tempo, acordei com um baralho que ecoou o quarto, era o despertador, e finalmente tinha chegado o dia em que lhe ia colocar um anel no dedo anelar esquerdo e a poder chamar de – minha esposa. E aqueles pensamentos que não me saíram da cabeça naquele dia e naquela noite, até hoje eles permanecem.

Foram os melhores anos da minha vida, e só de pensar que perdi tudo o que tinha com ela (o dito casamento perfeito), parte o meu coração em milhões de pedaços todas as noites. Até hoje quando eu chego do trabalho pelas 20 horas, e só mastigo alguma coisa, porque nem comer direito eu consigo, só me vêm as lágrimas aos olhos, pois o que antes era uma casa cheia de amor e alegria, hoje são só meia dúzia de paredes tristes, vazias e sem sentimentos. Deito-me e fico a rebolar na cama vezes e vezes sem conta, pois a insónia decide me atacar todas as santas noites. No inico parecia coincidência, mas agora parece mais uma espécie de “ritual”, pois todas as noites, desde que ela foi embora, acordo pelas 2 horas e 30 minutos e como não consigo mais ficar deitado, eu levanto-me, visto o meu robe, encho dois dedos de whisky num copo, agarro meu maço de tabaco e la venho eu para a varanda pensar na vida, pensar no que poderia ter feito diferente, pensar no como seria se ela ainda tivesse aqui. Todas as madrugadas pela mesma hora, fico eu aqui sentado numa cadeira baratucha inclinado sobre uma mesa mais barata ainda que tinha comprado para colocar de propósito na varanda. E no que antes parecia ter sido dinheiro gasto desnecessariamente, hoje quer faça sol ou quer faça chuva, todas as noites eu venho-me sentar aqui e fico parado a olhar para uma folha de papel e uma caneta que sempre trago junto comigo, e numa tentativa de me ajudar a passar por tudo isto, ponho-me a escrever o que me vem na mente. E como sempre aparecem os mesmos pensamentos, eu acabo por começar a escrever exatamente sempre as mesmas coisas, sempre acabo por escrever o mesmo texto, as mesmas lamentações, os mesmos erros cometidos, as mesmas suplicas e as mesmas rezas, na esperança de que quando eu me voltar a levantar, no momento que olhar para trás eu a veja ali, eu veja a minha amada esposa a minha espera para nos deitarmos, o problema é que isso nunca acontece e eu vejo esse pesadelo com um fim cada vez mais distante.

Eu tenho que me levantar cedo todos os dias e amanhã não é diferente, mas como eu não consigo dormir a exaustão irá me atacar como tem acabado todas as manhãs, ao ponto de eu nem me conseguir concentrar direito no que eu tenho para fazer, e por vários dias consecutivos o meu chefe já me tem chamado atenção diversas vezes pela minha ausência no trabalho. Talvez seja porque eu fico sempre como diz o dito popular, com a cabeça na lua. E de tantas vezes que me tem chamado a parte para falar comigo sobre o mesmo assunto, ontem, pelas 11h53, foi a última vez que ele disse que ia avisar, e as suas palavras foram exatamente estas: “se isto voltar a acontecer, tu estás despedido”. E como podem imaginar, o meu mundo tinha acabado de ruir mais um pouco, eu já havia trocado o amor a minha vida por um emprego reles, e agora estaria a prestes a perder o mesmo emprego reles que me só me ajudou a perder a minha mulher.

Então esta noite já não se trata de uma noite como as anteriores, hoje tratasse de uma noite que estou a fazer exatamente o mesmo que nas outras, só que agora existe uma pequena grande exceção, dentro de poucas horas poderei perder o meu único sustento, o meu único ganha pão. Tudo parece estar a dar errado, e na minha cabeça só me aparecem as mesmas perguntas: “como que um homem consegue perder tudo em menos de um mês? Como que eu, que sempre penso que estou a fazer tudo da melhor forma possível, neste mesmo momento vejo-me do lado do abismo?”. Sim, eu sei que a culpa disto é minha, mas sempre que eu penso em uma forma de resolver esta situação toda, nada me ocorre, nenhuma solução me passa pela cabeça, e acabo por me sentir como se a cada passo que eu fosse dar, vou acabar por cair de uma vez por todas num poço sem fim, e por último irei acabar por perder as forçam que me restam, as forças que ainda tenho para me segurar aqui em cima.

Então, depois de tanto matutar sobre estes assuntos, depois de bater a cabeça na parede demasiadas vezes todos os dias pelo mesmo motivo, amanhã com um pouco resto das forças que me restarem, irei dar o meu máximo no emprego, e quando chegar no fim do dia, vou pedir uma folga extra ao meu chefe e tentar resolver tudo com ela.

Eu nunca fui um homem religioso, mas a partir deste exato momento terei de lançar todas as minhas forças em Deus. Aquele de quem eu questiono a existência à tantos anos, agora, talvez seja a minha única esperança, porque sinceramente, se tudo isto continuar assim, eu não sei como será o meu fim.

28 de Abril de 2020 às 22:16 1 Denunciar Insira Seguir história
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Continua… Novo capítulo Todas as Segundas-feiras.

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Eduardo Cezar Eduardo Cezar
Que melancólico! Gostei...
May 05, 2020, 00:53
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