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David Cassab


Um mistério envolvendo obras de arte .


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Os Cavalos

Na verdade eu não sei nem como começar a escrever sobre isso. Eu sei que devo anotar tudo, ver se assim exorcizo meus demônios internos, demônios de quatro patas e que relincham...

Sempre fui fã de detetives e romances policiais. Enquanto meus amigos jogavam bola na rua, brincavam de amarelinha, pega pega e tudo mais, eu estava sempre absorto em um romance do Sherlock Holmes ou da Agatha Christie. Auguste Dupin? Não fazia muito meu estilo a escrita assustadora do Edgard Allan Poe. Embora eu tivesse mais medo da cara dele em qualquer retrato do que seus contos. Se eu soubesse o que me reservava ....

O tempo passou e essa fixação se tornou forte, fui crescendo mas não abandonava os livros de detetive. Encontrei ainda jovem uma classe de filmes italianos chamada "Giallo", fiquei ainda mais apaixonado pelo gênero, alugava várias vezes a mesma VHS, e assim foi discorrendo minha vida.

Decidi então me especializar e fazer disso minha profissão: seria um detetive particular.

O grande problema é que no Brasil isso era um trabalho informal, e também teria que ir morar em São Paulo para poder estudar, mas nada disso me desanimou.

Me mudei e comecei meus estudos, no começo eu trabalhava em uma loja de tintas para poder ir arcando com o curso e as despesas de morar sozinho.

O tempo foi passando, e comecei a distribuir folhetos de quintal em quintal com os dizeres: " Detetive particular, para casos extra conjugais, fraudes, estelionatos e todo tipo de crime insolúvel ".

Mas como disse, no Brasil detetive não é uma profissão muito procurada, somente em casos de relacionamentos extra conjugais.

Foi assim que dia após dia fui me infiltrando nas ruas de São Paulo, conhecendo cada beco, cada rua escura, cada casa de serviços íntimos, e muitos outros lugares onde a lei não chegava, onde o dinheiro falava mais alto, a propina governava e o pecado dançava lambada com um abutre em cima de um túmulo profanado.

Nessas idas e vindas apanhei, bati, quase morri e sei que tenho anos de estrada para contar, mas o foco não é esse, e sim o que aconteceu em Londres.

Logo que me desliguei da loja de tintas para trabalhar como detetive, eu comuniquei tudo abertamente com a dona da loja, ela se chama Maria,mas por respeito a chamava de dona Maria. Eu disse que sairia para um trabalho informal de detetive, mas que um dia iria para fora do país para me aperfeiçoar e talvez trabalhar em coisas mais sérias. Ela sempre foi muito severa porém justa, ao contrário do seu marido e sócio, o vagabundo do Wellerson ( isso não é um nome abrasileirado e sim um nome anglo saxão, depois fiquei sabendo), o cara era um mulherengo e beberrão, a luxúria sentia vergonha daquele cara. Dona Maria ficou com um cartão meu de detetive, e percebi que talvez um dia poderia tê-la como cliente, ela desconfiava do marido mas nunca ia à fundo para saber.

Os anos passaram, e um dia recebi um telefonema da dona Maria no meu escritório, ela queria marcar uma consulta e sua voz parecia preocupada no telefone. Fingi ter uma agenda lotada e marquei para meio dia, em um restaurante, na esperança que ela me pagasse um almoço.

Cheguei um pouco atrasado, como de costume, e ela já estava lá me esperando. A impressão era de que ela havia envelhecido uns dez anos de uma vez, estava mais pálida, semblante caído, havia algo de peso nela, mas eu já imaginava o que era.

Me sentei, logo puxei assuntos triviais, perguntei do velho, perguntei da loja, mas ela apenas respondeu como monossílabos e logo entrou rispidamente no assunto:

— Lucas, eu sei que você adoraria conhecer Londres, você já me disse, estarei indo para lá daqui alguns meses, farei a viagem dos sonhos do Wellerson, mas suspeito que não será uma segunda lua de mel, pelo menos não comigo. Eu escutei umas conversas e mexendo nos bolsos dele achei umas coisas comprometedoras. Creio que ele levará a amante junto disfarçadamente.

Aquilo não me chocou, o velho era um bastardo mesmo, mas eu tinha ali a chance de um trabalho que eu receberia em dinheiro, não teria que quebrar uns braços por aí, e ainda por cima conheceria Londres. Poderia quem sabe ir no museu na Baker Street 221 B, seria uma oportunidade única para alguém que estava filando um almoço.

— Olha dona Maria eu não tenho dinheiro para uma viagem dessas e também tem os documentos ...

— Não se preocupe, tudo será por minha conta. Inclusive sua estadia. Tenho amigos influentes em cargos federais e os documentos saem logo, preciso apenas da sua discrição.

— Mas, a senhora não acha que podemos pegar ele por aqui? Poderia te poupar um trabalhão.

— Não, se confirmar lá, eu já o deixo na casa do irmão dele, e nem trago aquele traste para cá de novo...

Mal sabia que não ia mesmo.


O certo é que tudo foi se resolvendo e em seis meses estava indo para Londres. Devido a amante do velhote a viagem atrasara, mas ele sempre botava a culpa na loja, o bom foi que isso ajudou e eu arrumei meus documentos sem ele nem desconfiar, e por grande sorte as datas bateram e viajamos no mesmo voo.

Partimos dia dezoito de Novembro de 1998, eu nunca voara, senti enjoo e tontura, foram quase vinte horas de tortura, procurava não chamar atenção do velho, mas duvido que se lembraria de mim no meio de tantas belas aeromoças.

Chegamos em Heathrow, e de lá nos dirigimos para um hotel perto do Museu Britânico, onde houve uma exposição de obras de arte famosas. Estavam lá O Pesadelo, do Henry Füssli e também o Silêncio, As três bruxas de Macbeth, o monstruoso Saturno devorando seu filho do Francisco Goya, iria estar o Ivan, o Terrível, e seu filho Ivan de Ilya Repin e um que eu já tinha visto em um livro da Divina Comédia, o Lúcifer de Francesco Scaramuzza. Entre essas, outras obras menores, mas não menos assustadoras.

Cada um foi para o seu quarto, mas ficou combinado que à partir do dia seguinte que já era sexta feira, dia vinte, eu seguiria o velho depois das sete da noite, porque era o horário que ele dissera ter marcado para sair com seu irmão, fui então para meu quarto para descansar da viagem, porém eu não havia visto sinal de nenhuma garota brasileira conosco até ali nas redondezas, embora haviam várias no avião.

Logo pela manhã eles foram ver as exposições, eu nunca havia me interessado por quadros (depois posteriormente pesquisei muito sobre), então tomei um trem e fui até a Baker Street, ver o museu do Sherlock Holmes.

Como combinado, as sete da noite eu estava do outro lado do hotel esperando por Wellerson, e não demorou muito para o sujeito sair e ir andando sentido museu, discretamente e vestido como um genuíno gentleman, eu então como combinado segui o indivíduo.

Ele andava com passos rápidos, parecia ansioso, um tanto exagerado para um cara que traia a mulher a tanto tempo, foi andando, entrou novamente no museu, andava sempre olhando para trás, arfante, e com olhos que esbugalhavam. Em um momento até achei que ele me viu, mas matutando lembrei que como era um velho ignorante, era mais fácil ele me xingar ou subornar, em vez de correr.

Ele entrou no hall onde havia aqueles quadros que mencionei, foi aí que vi o quadro do Francesco Scaramuzza e reconheci o Lúcifer devorando Judas no seu castigo gelado.

Eu fiquei um pouco distante, pois ele poderia tanto sair daquele corredor para outro, como poderia voltar e dar de cara comigo, isso era um tanto perigoso.

Passados alguns minutos, nada de nenhuma garota, então me aproximei um pouco mais e vi que ele estava vidrado em um quadro de forma retangular, com formato de paisagem, e de relance eu podia ver que na tela estavam pintados quatro cavalos, mas não vi direito, pois logo um funcionário anunciou que iria fechar o museu.O meu inglês de revistinha de banca de jornal até que prestava.

Foi quando algo começou a me perturbar, Wellerson passou por mim com olhos vidrados como de um boneco de cera, tive tanto cuidado e ele passou do meu lado e nem tive tempo de me esconder, tive a impressão de me perder no tempo no instante que de relance vi a pintura. Certo é que ele saiu em disparada, sentido ao metrô da estação Tottenham Court Road, e eu continuei o seguindo, mas ele fugia de algo que eu não via, mas podia sentir.

O medo não estava estampado apenas nos olhos dele, mas nas suas pernas, nos braços, o jeito que balançava a cabeça ao caminhar, havia algo de errado, ele olhava para trás, olhava para mim e não me via, trombou em vários transeuntes sem nem sentir, entrou em uma ruela, e olhando para trás guinchou umas palavras esganiçadas:

— Pare de relinchar e bufar sua aberração! Saia de perto!

Ele entrou correndo na estação, mas parece que aí seu terror se multiplicou, foi então que ao se aproximar o vagão de trem, o velho transtornado soltou um berro fantasmagórico e pulou na linha do trem. Eu nunca tinha visto aquilo, o corpo rodopiando entre o vão, o maquinista puxou os freios, mas aí vem o que me perturbou e perturba cada dia mais: o trem parou e no final do seu barulho ensurdecedor dos freios raspando ferro com ferro, as faíscas saindo, eu pude ouvir o som sombrio de um relincho.


Peguei um táxi e me dirigi ao hotel, encontrei dona Maria aflita olhando o jornal, a notícia já passava ao vivo. O caso era algo notável, e logo as autoridades procuraram pela viúva. Eu disse que vi, que não pude fazer nada, mas não contei a ela do estranho comportamento do marido, apenas disse que ele não havia me visto, e lhe informei o trajeto todo.

Ela entrou em contato com o cunhado que foi prestativo, mas pediu que minha estadia fosse segredo para a família do falecido, me pediu para não ir ao velório, mas me disse algo que me deixou um tanto curioso e apavorado ao mesmo tempo.

— Quando fomos aquela exposição, ele viu um quadro, eu não reparei muito, todo aquele ar sombrio me fez passar mal, então fiquei sentada. Ele ficou o tempo todo apenas olhando o mesmo quadro, parece que queria possuí lo, tinha olhos de cobiça saltando da órbita, algo perturbador, parecia que toda sua luxúria destilava em suor, eu estava com fome e insisti para vir embora, ele grasnou, reclamou, mas veio, eu tive a impressão que ele voltaria lá à noite, mas só pensava na moça que deveria estar chegando.

— A senhora lembra algo do quadro?

— Era um quadro com os quatro cavalos do Apocalipse de João.


Fiquei perturbado naquela noite. Não dormi e tive recorrentes pesadelos com o velho Wellerson rodando e tendo o corpo esfarelado, as faíscas do freio e o som do relincho. Eu nunca fui muito de acreditar no sobrenatural. Eu queria ser o Sherlock Holmes e não o Scooby Doo.

Acordei e me dirigi até ao Museu Britânico. Dona Maria havia me dado a passagem do avião, os cheques e eu partiria as sete da noite, até lá poderia dar uma olhada no quadro. Entrei e fui até o corredor, achei todas aquelas perturbadoras pinturas, mas nem Saturno devorando uma criança me pareceu tão horrível quanto a cena real que presenciei. O mais estranho foi que para minha surpresa não achei o quadro dos cavalos, e o pior — quando procurei os funcionários, ninguém havia sequer visto um quadro assim. Nesse momento um gosto amargo tomou minha boca, pensei que ia desmaiar, e andando para um lado e para o outro, logo apareceu ele...

Ele tinha traços semitas, uma barba crespa, vestia um belo terno preto, com ombreiras que o deixavam com as costas ainda mais largas. Tinha o rosto bem cerrado, sobrancelhas grossas e protuberantes, se aproximou como se fosse dono do museu, pigarreou e com um inglês perfeito ( pelo menos para mim que aprendi nas revistinhas de turismo) soltou palavras roucas e ríspidas:

— Escute garoto, talvez você procure por algo que não está mais aqui. Era uma obra de arte diferenciada. A arte manifesta afetos das almas que as concebem, a arte faz almas conversarem. O que se passou aqui foi que uma arte concebida por uma alma aflita, com ardor de vingança acabou cruzando com uma alma carregada de vício e culpa. O pecado transbordava o cálice daquele homem. Toda uma tortura foi espalhada com tinta na tela dos cavalos do Apocalipse, e aquela alma que sentia medo do julgamento não pôde resistir o terror da verdade.

— Mas quem é o senhor?

— Desculpe a falta de educação, tantos anos e não aprendo... Meu nome e Lameck e estou aqui apreciando as obras de arte. Vi que procurava uma em especial, e como sei que é curioso não quis deixar que a curiosidade o matasse.

— O que tinha de aterrorizante no quadro? Como sabia que ele viu o quadro e se matou?

— Isso é uma história comprida... Você tem que voltar ao Brasil, o que posso te adiantar é que nem tudo é o que parece ser neste mundo. Existem forças que você desconhece garoto. O quadro é uma representação simbólica, algo feito de alma. Estão lá os quatro cavalos: o amarelo da morte, o vermelho do sangue, o preto da escuridão e o branco da paz. Mas a forma com que foram concebidos e interpretados o fazem ser especiais, uma espécie de frenesi, onde os cavalos parecem um sair de dentro do outro, as cores se misturam, o amarelo não é nenhum amarelo canário, está mais para uma amarelo morte, pálido, como um corpo em decomposição, temos o vermelho sangue, não como sangue de galinha, compõe -se de um sangue cor de vinho, escuro, empapado, como de uma ferida aberta, o negro é tão escuro que os olhos se perdem, a mente se esvai, fenece a força de viver, e a paz do branco é de uma calmaria desesperadora, daquela que lhe dá falta de ar...

Enquanto ele dizia isso, meus olhos se escureceram, e eu podia ver o quadro, era tenebroso como ele mesmo dizia, todo o torpor daquele momento me transcendia a vida, um desolador vazio me tomava, um gosto de sangue e o cheiro de morte, pude olhar como se o quadro tivesse se materializado ali, olhei fixamente e vi as iniciais A.C. Quando despertei Lameck havia desaparecido sem deixar rastros, e já estava dando a hora de pegar minhas coisas e voar para longe do desespero de Londres.


Já no Brasil, pesquisei muito sobre quadros nas bibliotecas, sobre eventos sobrenaturais, sobre a bíblia, mas tudo em vão. Continuarei pesquisando, tenho poucas informações, mas consigo chegar lá. Eu preciso. Existe um mistério, alguma ligação, porque Wellerson estava lá justo quando o quadro estava? Ou o quadro foi parar lá por causa dele? Esse caso abalou todo meu ceticismo. Tenho pesadelos vívidos com o quadro e sempre posso ver as iniciais A.C. Mas não desistirei, vou encontrar mais sobre esse mistério. Deveria ter lido mais o Poe ....


P.S


Procurei dona Maria para ver se ela soubera algo da moça, qualquer pista, e ela me disse que só conseguiu o nome dela: Anne Charlotte...

28 de Abril de 2020 às 04:03 0 Denunciar Insira 3
Fim

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