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CM Winter


Em um futuro distante, uma nova Era do Gelo começou. Neste mundo congelado, os humanos sobreviventes precisaram mudar todo seu estilo de vida. Com menos água líquida disponível e novas porções de terra reveladas, novos países e colônias surgiram. Reinados voltaram a ser o principal tipo de governo, e a dinastia Craworth, na América do Norte, já governa há varias gerações. Durante a viagem de apresentação do futuro Rei, a passagem da Comitiva Real por uma vila de caçadores em um extremo isolado do reino muda por completo a vida de uma das moradoras da cidadezinha. Evelyne Jones, sem saber, acaba por salvar a vida do Príncipe Herdeiro de uma criatura mutante das florestas de taiga da região. A recompensa pelo feito é a realização de seu sonho de ir embora do lugar onde nasceu, mas se tornar a Guardiã pessoal do Príncipe que salvou logo se mostraria uma tarefa complicada, ainda mais para uma garota de cidade pequena convidada a morar no Palácio. Intrigas políticas, segredos e relacionamentos complicados esperam a plebeia na Corte mais cobiçada do mundo.


Ficção científica Para maiores de 18 apenas.

#romance #eradogelo #scifi #fantasia #ficcaocientifica
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Em progresso - Novo capítulo Todas as Sextas-feiras
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1. Vilarejo da Caça

Assim que o sol nasceu, já estava vestida e pronta para me juntar aos meus amigos na trilha do bosque congelado. Aqueles primeiros momentos de sol, quando os animais, herbívoros e carnívoros, estavam saindo de seus abrigos da noite anterior, era o melhor horário para se caçar. Ali, tão longe da Capital, onde os veículos de suprimentos chegavam com raridade, a caça diária era quase a nossa única fonte de alimento o ano inteiro.

Desde que essa Era do Gelo começou, o planeta em que a humanidade surgiu já não era mais o mesmo. Tudo havia mudado quando a neve tomou conta das cidades. Nada mais havia restado além de florestas de coníferas, campos de tundra, os animais resistentes às temperaturas baixas que agora cobriam quase todo o planeta e as ruínas do que um dia foram os prédios de uma grande cidade. Poucas pessoas haviam sobrevivido às mudanças climáticas, e nós, descendentes desses seres humanos, lutávamos para viver nos pequenos vilarejos congelados construídos sobre a neve que cobria o mundo. Cada dia era uma batalha por sobrevivência nos cantos mais remotos do Reino, principalmente para aqueles que não tinham tanta resistência às temperaturas abaixo de zero. Já que a economia da eletricidade que chegava até nós ficava reservada aos poucos dias festivos que tínhamos, a expectativa de vida em vilas como a minha diminuía, afinal, os muitos jovens e os velhos eram sempre os primeiros a morrer. Os primeiros anos de vida eram um teste da natureza, algo de que não podíamos mais fugir, testando quais humanos eram fortes o bastante para continuar vivendo. Pela primeira vez em milênios, a humanidade voltava a se submeter às leis da seleção natural. Mesmo assim, alguns jovens saudáveis e já adaptados ao frio como eu, aprendiam a caçar no momento em que passassem com saúde da fase mais crítica da infância. Pessoas como eu e meus amigos, os caçadores, éramos responsáveis por alimentar toda a cidade, vendendo as presas para o único açougueiro que tínhamos. A exclusividade com ele rendia aos caçadores uma porção de carne de boa qualidade todas as semanas e sem pagar nada, e o fato de ter alimento garantido me fazia esquecer o fato de que algumas famílias nem sempre tinham como pagar aquele homem. De qualquer forma, eu não era nenhum tipo de político, não era minha responsabilidade cuidar de todo mundo.

Apenas a Capital, lar da família real deste reino, vivia em abundância, onde a tecnologia e a ciência ainda prosperavam, graças aos investimentos concentrados ali. Muitos eram os jovens que sonhavam em chegar à Capital, mas eram poucos os que conseguiam, e estes, jamais voltavam a dar notícias.

Eu mesma gostaria de ir embora do lugar onde nasci, não nego. Nunca havia visto um jardim sequer, não havia vivido um único dia em que tudo que minha visão alcançava não fossem ruínas aparecendo do chão coberto de camadas intermináveis de gelo. Estava cansada de ver tudo em branco e preto, cortados pelo vermelho de uma fogueira do lado de fora de alguma casa, mas ir embora era um privilégio muito restrito.

Ainda não havia conhecido outra vida além da cidade de cabanas e os túneis subterrâneos que impediam as pessoas de congelar no pior do inverno, e, no entanto, eu seguia lutando pela vida que eu sonhava ter um dia longe daquele lugar.

Ao caminhar pelo centro da cidade em minha rota até a floresta de coníferas, toco mais uma vez na ponta da tocha de metal de uma estátua muito antiga, hoje já quase escondida sob tantos metros de gelo abaixo de nossos pés. Aquela estátua era a única coisa que tinha testado de uma grande cidade que um dia havia existido antes da construção da minha vila. As ruínas de prédios altos hoje se escondiam em neblina e vento no horizonte, e mal dava para ver suas sombras em dias mais escuros.

Naquela manhã em específico, a trilha construída no meio da floresta reunia mais caçadores do que de costume. Uma festa para receber a realeza na cidade nos motivara a conseguir mais carne para o banquete da Prefeitura durante a noite. O Príncipe Herdeiro logo receberia a Coroa de seu pai já velho demais para reinar, e segundo a tradição, o jovem visitava cada cidade e vila pertencente ao seu reino para apresentar-se para seus futuros súditos. Eu achava uma bobagem, mas eram as regras do atual modelo de governo. O Rei havia feito isso décadas antes, assim como seus antecessores, e com certeza os filhos do Príncipe um dia fariam o mesmo. Não era algo que eu deveria me preocupar em ver de novo pelo menos nos próximos 30 ou 40 anos, se sobrevivesse até lá, é claro.

A programação para receber o Príncipe gerava um tumulto incomum na cidade de cabanas, mas nada se comparava a movimentação no subterrâneo, e para fugir dos preparativos, juntei-me aos meus amigos para uma caçada no bosque que serviu de ponto principal para a construção dessa vila. E a floresta, apesar de jovem, já era a coisa mais importante ali, pois era a natureza que nos garantia continuar vivendo, e por isso aquela área era protegida com a vida dos próprios Caçadores. A atividade rendia tanto dinheiro quanto comida para o jantar. Muito mais útil do que qualquer recepção supérflua para um príncipe que nem mesmo sabia quem era.

Derek e Tarren me esperavam ansiosos pelas notícias do dia. Diferente de mim, aqueles dois gostavam de qualquer motivo que rendesse uma festa. Nós costumávamos ser um trio inseparável em qualquer situação, mas achei melhor nos dividirmos pela manhã. Minha explicação aos dois era que nos ajudaria a cobrir mais área florestal se cada um fosse para uma direção, mas a verdade é que eu não queria escutar o falatório incansável sobre seus planos para a noite, além do fato de que sabia que não pegariam animal nenhum, agitados como estavam. Os animais selvagens eram escassos por aqui, mas espertos, e somente silêncio e paciência me dariam uma chance de garantir o almoço de hoje. As armadilhas que montei na noite anterior, armadas no caminho que decidi seguir sozinha, não tinham dado muito certo, apenas havia garantido dois roedores decapitados pelo sistema de guilhotina que eu havia criado. Uma invenção minha, e apenas minha, feita para diminuir o sofrimento dos animais no lugar de serem amassados ou sufocados como de costume. Além do fato de que jogar algo pesado sobre o corpo de um daqueles animais menores que pegávamos com as armadilhas noturnas quebrava os frágeis ossos e prejudicava a qualidade da carne.

Pouco depois de verificar todas as minhas armadilhas, encontro uma trilha de pegadas. Um cervídeo, eu diria. De grande porte, mas era difícil ter certeza da espécie apenas pelas marcas de seus cascos no gelo. Ninguém tinha certeza do que encontraria naqueles bosques durante a Era Glacial, pois a evolução havia criado criaturas estranhas nos últimos séculos. Segui as pegadas para longe da trilha, esperançosa de encontrar uma boa e gorda presa para o banquete.

Infelizmente, eu não era a única atrás daquele animal. De trás dos pinheiros, percebi o movimento de uma das feras não identificadas que eu sabia viver ali. A criatura lembrava um pouco a forma de um urso, mas com certeza já não o era há gerações. Ele espreitava um grande alce alimentando-se das folhas baixas de uma árvore próxima. Devido ao gelo, os herbívoros maiores já não tinham pasto como alimento, e muitas espécies tão altas quanto um alce norte-americano desenvolveram um pescoço mais longo do que eram antes ao longo de gerações, mas no geral, o animal ainda era o mesmo, e a carne, saborosa como sempre. Aquele espécime saudável e gordo era um achado raro, e eu estava com muita sorte. Já podia imaginar tudo que eu podia fazer com aquele animal depois do abate, embora ainda me sentisse mal por precisar fazer isso.

Escalei uma árvore em busca do ângulo perfeito para disparar uma flecha naquele alce, torcendo para que a fera ali perto não notasse a concorrência. Talvez por minha total concentração no que fazia, não notei a presença de outro ser humano até ele estar próximo demais. O homem estava distraído, obviamente um forasteiro, e não viu nem o alce nem a fera o espreitando de longe. Infelizmente, ela o notou, e percebi a agitação da criatura. Ela havia mudado de ideia, tinha uma nova presa, eu sabia.

Não conseguia entender como aquele garoto de pele bronzeada caminhando na minha floresta podia estar tão concentrado no aparelho em suas mãos que não sabia o perigo que corria. Ele não tirava os olhos da tela, nem mesmo quando uma das bestas mutantes que rondavam essas terras demonstrava interesse em atacá-lo.

Porém, eu fixava meus olhos na criatura agora. Sabia que se atirasse na fera, perderia minha melhor presa em anos, mas eu poderia deixar o garoto ser atacado?

Tiro uma flecha do estojo, posicionando-a no arco e mirando entre as folhas da árvore. Ouço o zumbido quando disparo e logo a criatura estava morta, sangue escorrendo de onde a lâmina a perfurou, bem entre seus olhos amarelos.

Vendo o sangue manchar a neve branca no chão, me despeço silenciosamente do alce, já correndo do barulho que causei no bosque silencioso em início da manhã.

Desço da árvore, percorrendo a distância até o forasteiro, e fico indecisa entre xingá-lo por sua idiotice ou perguntar se está bem. Decido fazer os dois, e meto um tapa em seu rosto antes que ele tente se explicar.

— Por que me bateu? - Ele exclamou, incrédulo.- É maluca?

— Você é idiota? - Questionei-o sem me importar em demonstrar minha raiva, nem mesmo me afetava o fato dele ter o dobro do meu tamanho. Eu sabia me impor. - Eu tinha um banquete bem ali, mas eu tive que dispensar o alce para salvar sua vida porque não consegue olhar por onde anda. Não percebe que isso é um bosque florestal, e não a Quinta Avenida, ou a Capital?

— Você me bateu porque teve que me salvar?

— Sim. Caso não tenha percebido, estamos no território de uma vila de caçadores. - Respondi-o no mesmo tom.- O que pegarmos hoje será para o banquete de todos. Mas eu não esperava que entendesse, pela sua cara não é daqui.

— Não sou mesmo, mas o que te dá o direito de me bater sem nem me conhecer? - Ele parecia mesmo magoado, mas não demonstrava sentir dor, apesar de esfregar a mão no lado do rosto marcado pelos meus dedos.

— A partir do momento em que salvei sua vida, faço o que quiser. - Disse.- Agora eu vou te levar de volta para a cidade, assim eu posso voltar ao trabalho sem correr o risco de encontrar outro forasteiro onde não devia estar.

— Eu me perdi. - O garoto tentou se explicar, seguindo-me pela estrada.- Nem notei que tinha ido tão longe.

— Percebe-se.

A cidade ficava há poucos quilômetros, mas o caminho de volta pela trilha pareceu uma eternidade com a matraca solta daquele homem tentando falar comigo obstinadamente. Eu o empurrei entre as pedras mais altas quando chegamos à clareira que separava a civilização do bosque, permaneci ignorando seus resmungos e continuei monossilábica até passarmos das primeiras casas habitadas da região.

— Sugiro que volte para onde quer que esteja hospedado, eu sinceramente não ligo, desde que não volte para o bosque enquanto eu estiver lá. - Afirmei, já perto do centro do vilarejo.- A Prefeitura fica seguindo a rua à direita, pode fazer suas perguntas lá. Preciso garantir meu almoço.

— Esses animais pendurados na sua cintura já não são alimento suficiente?

Eu o avaliei bem de cima a baixo. Aquele homem definitivamente não pertencia àquele lugar, mas de onde ele vinha, se não sabia como viviam as pessoas nas cidades mais isoladas? Como podia ser tão ingênuo?

— Com uma alimentação quase inteiramente baseada em carne, não. Nem de longe. - Respondi mesmo assim.- Além disso, preciso cumprir uma cota mensal com o açougueiro. Boa sorte com seu caminho de volta para casa, forasteiro. Vai precisar.

— Nem vai me dizer seu nome?

— Não. - Sorri.- Mas talvez te veja essa noite, no banquete, se estiver vivo até lá.

— Muito engraçado.

Dou as costas a ele, seguindo as marcas de nossas pegadas no gelo de volta à floresta. Não daria o trabalho de respondê-lo. Ele tirou minha melhor presa, agora teria que me contentar com os trocados que me dariam pelos cervos magros que eu provavelmente encontraria. Ainda bem que gravei bem as feições daquele homem, porque ele me devia sua vida. E um dia eu iria cobrar. Ah, se ia.

28 de Abril de 2020 às 01:08 0 Denunciar Insira Seguir história
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