evannalarue Evanna La Rue

"Acho que eu passei muito tempo negando as coisas. Negando a curta história de vida da minha irmã, negando meus sentimentos e minhas vontades. Eu era um borrão desde que ela morrera e sempre me contentei com isso. Mas as coisas mudam quando alguém te mostra uma nova perspectiva. Em partes, foi isso que Lucas fez. Ele viu coisas em mim que eu mesmo não via e que as pessoas a minha volta não se esforçaram para ver. Eu gostava do modo como ele me olhava, como se eu fosse o personagem mais interessante do mundo. Talvez eu devesse ter notado que isso não era comum, não era assim que as amizades nasciam."


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #drama #gay #lgbt #dram #lgbt+ #258
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Capítulo 1

Não é como se eu pudesse, realmente, esquecer o que havia acontecido. Todos os dias, desde meus 12 anos, ela é a primeira coisa que me passa na cabeça. Todos os dias, desde os meus 12 anos, ela é a última coisa que me passa na cabeça.


Não foi diferente hoje, e nem seria amanhã. E como em todos os dias, eu ignorei a dor e levantei da cama. O despertador ainda não havia tocado. Peguei meu celular e vi as horas- 5:30h. Ainda faltava uma hora e meia para que tivesse que ir à escola. Sintonizei uma rádio de rock no celular. Tocava Giz, do Legião Urbana. Sempre detestei essa música, mas continuei ouvindo na esperança de que a próxima fosse melhor. Começou a tocar infinita Highway. Desliguei o celular.


Não é como se eu não pudesse escolher minhas músicas, mas acho que não me acostumei com essa ideia. Escutar o que eu quiser, na hora que quiser. Assistir o que eu quiser, na hora que quiser. Parecia errado. A monotonia do rádio e da falta de escolha me deixavam mais confortável. Eu poderia lidar com a falta de escolhas. Com muitas, no entanto, eu acabava me perdendo. Isso vale para a música, para os livros e para a vida como um todo.


Eu li isso em um livro uma vez, acho que era do Machado de Assis: “Há muitos modos de afirmar, há só um de negar tudo”. Gosto do modo como isso soa, a negativa é mais tangível do que uma coleção de afirmativas.


Acho que sou novo demais para pensar assim. Tenho 16 anos, eu deveria estar pensando em garotas ou em alguma série de Tv, provavelmente. Ou em futebol. Talvez pagode? Não sei, nunca vou entender como a mente dos garotos da minha idade funciona. Pode ser porque eu nunca quis, de fato, participar de nada. Não depois de perder ela. Acho que me interessar por algo me dava a impressão de estar seguindo em frente, sendo uma nova pessoa que ela jamais conheceria. Então eu estaquei, mudo o mínimo possível. Sigo como um robô tentando deixar tudo em ordem para quando ela voltar. Ela não vai voltar, é claro.


E então vem. A dor. A falta de ar. As lágrimas. E eu finjo que está tudo bem. Porque se você olhar sob alguma perspectiva (alguma afirmativa opcional) está mesmo tudo bem. Agora. Antes, também. E então eu escolho uma das alternativas, uma das afirmativas opcionais, e acabo negando tudo. A dor, o que aconteceu, o nome, a história. Sou uma negação rodeada de afirmativas opcionais.


Levanto da cama e procuro o livro que eu estava lendo ontem a noite- Dom Quixote. Ler me ajuda, é um modo diferente de negar tudo. Quando leio, posso fugir da minha realidade, é como um alívio. Acho que é melhor do que usar drogas, antidepressivos ou álcool. Livros são inofensivos, até certo ponto.


Desde meus 12 anos, eu não saio de casa sem um livro e nunca estou a menos de 1 metro de um deles. Minha mãe sempre gostou disso. Quando vem visita em casa ela diz coisas como “é um menino tão inteligente, vive lendo!”. Eu poderia estar lendo um livro de contos eróticos que ela não saberia. Nessa hora alguém (só por educação) pergunta o que eu estou lendo. “Bukowski”, eu respondo. Porque os Russos sempre parecem melhores do que os brasileiros ou os americanos. E também porque a maioria das pessoas já ouviram falar de Bukowski mesmo nunca tendo lido. Não posso julgar, também nunca li nada do velho. Mas também nunca li contos eróticos, então acho que está tudo bem.


Saio da cama quando o relógio toca às 6:30. Sei que minha mãe já está acordada porque ela faz muito barulho pela manhã. Sei também que meu pai não deve estar em casa, já deve ter saído para trabalhar antes de o sol raiar.


-Ei, meu menino. Dormiu bem? - Ela diz assim que entro na cozinha.


Minha mãe foi linda algum dia. Antes de tudo, antes de quebrarmos. Seus cabelos eram castanhos e volumosos, poderiam ser bonitos se ela se importasse mais. Os olhos eram quase pretos e amendoados. Tristes. Mamãe sempre teve um olhar triste, antes ou depois. Mesmo nas fotos de criança seus olhos pareciam carregar as marcas de quem acabara de chorar. Acho que os olhos definem nosso destino. Eles sabiam de tudo, antes de mamãe. Me perguntei se eu tinha olhos tão tristes quanto os dela.


-Dormi. - Respondi, me sentando na cadeira ao seu lado. - Cadê o pai?


-Já foi trabalhar. Teve pesadelos?


-Não. - Menti.


-Você está mentindo. - Ela sorriu, mas seus olhos ainda estavam tristes.

-Talvez.


-Animado para o primeiro dia de aula?


-Não.


-Isso foi verdade.


-Foi. - Sorri.


-Você pode tentar pegar alguma aula extra esse ano?


-Não.


-Por favor, Bruno.


-Por favor, Maria.


-Olhe para mim. - Eu olhei. - Vamos fazer um acordo.


-Mais um? - Minha mãe sempre teve essa mania de acordos. Mas não eram exatamente isso, era só um tipo de recompensa. Eu fazia o que ela queria e ela me dava algo em troca. Era só o pior jeito do mundo de se lidar com uma criança ou com um adolescente. - Você pega uma aula extra depois da aula e eu não te obrigo mais a ir a Igreja aos domingos.


A ideia me pegou de surpresa. Mamãe sempre me obrigou a ir à Igreja e eu sempre reclamei, muito. Porque não gosto do cheiro, das pessoas, nem do padre. Também não gosto das músicas ou do modo como mamãe vira outra pessoa quando está lá. Gosto muito menos do que eu tenho que ser quando estou lá.


Ela devia estar querendo muito que eu fizesse algo pela tarde, que eu fizesse amigos e parasse de andar por ai como um robô. Ela queria que eu me encontrasse.


Eu não posso, mamãe. Eu já estou perdido. Não conseguiria me encontrar nem que eu quisesse, e eu não queria. Porque parte de mim era ela e vê-la em mim era só um lembrete de que não a veria jamais.


-Tudo bem. - Respondi. Porque esse era um dos raros casos em que uma afirmativa gera menos respostas do que uma negativa.



***



A escola onde eu estudava não tinha muitas aulas extras. No período da tarde ou você assistia a um plantão de dúvidas, ou praticava algum esporte. Eu não sei o que mamãe queria de mim. Pensei seriamente em fingir que fazia algo só para ela não me encher o saco. Eu poderia ficar em casa a tarde toda e ela não notaria.


Mamãe estava sempre fora, mesmo que não trabalhasse. Ela era advogada antes, mas agora ela vivia para a caridade. Ela se reinventou, era uma nova pessoa, uma pessoa melhor. Não mais feliz, só mais estável e acessível.


A cidade onde eu morava era pequena, todos se conheciam. Todos sabiam meu nome e minha rotina. Isso me incomodava um pouco. Era como se todos estivessem me olhando, esperando pelo momento em que eu surtaria, assim como mamãe fez.


E o primeiro dia de aula era sempre ruim. As pessoas sorriam demais, se abraçavam demais e me olhavam demais. Eu sei que era a fofoca, sempre seria. Já faziam 4 anos, mas eu ainda era aquele Bruno. Não aconteciam muitas tragédias na cidade. Talvez não acontecesse outra como aquela pelos próximos 20 anos.


Não posso me reinventar assim. Não posso sorrir ou chorar. Eu não tenho espaço e nem forças. Não sou outro Bruno, nem um Bruno qualquer. Sou aquele.


Aquele? É, o que perdeu a irmã.


Em todos os começos de ano, quando os professores fazem a gente falar sobre o que aconteceu nas férias, eles arregalam um pouco os olhos quando eu digo meu nome. “Meu nome é Bruno Bernardi. Nas férias eu passei o dia todo em casa lendo”, eu disse em uma das aulas. A professora era nova, e arregalou um pouquinho os olhos. Tenho certeza de que tudo que ela ouviu foi “Meu nome é Bruno Bernardi. Em uma dessas férias eu perdi minha irmã”.


Eu odiava os eufemismos. “Sua irmã foi para o céu”, “sua irmã está em um lugar melhor”, “sua irmã partiu”. Minha irmã morreu. Por que ninguém fala sobre isso? Nunca. Está nos olhares das pessoas enquanto eu caminho pelos corredores e também nos olhares dos meus pais quando eles me dão bom dia. Mas não usamos a palavra morte e muito menos dizemos Carol.


Acho que o problema foi a forma como ela morreu. Carol foi estuprada e depois morta. Não tinha a ver apenas com morte. Ela não apenas morreu. Antes de morrer, ela foi violentada. Ela não morreu como Carol, morreu como apenas mais uma garota, uma estatística. Violentada: eu odeio essa palavra. Acho que tem a ver com identidade. O que você sente quando escuta isso? Você pensa em estupro, pensa em alguém tirando algo de você? Eu penso em identidade. Não é uma questão apenas de força física, é uma questão de quem você é e do momento em que te tiram tudo isso. Carol foi violentada. Eu fui violentado. Meus pais foram violentados. Tiraram nossa identidade. Somos o castigo, mas não fizemos nada de errado.


O estupro é como uma forma de negar tudo. Porque não resta mais nada depois. Te roubam, e depois dizem para você se reinventar, superar. Não dá, não agora. Não quando não sobrou nada.


Ainda lembro do dia em que aconteceu. Eu tinha 12 anos, Carol foi na casa de uma amiga, ela já tinha 16. Carol era linda, graciosa, inteligente, estava sempre sorrindo. Ela era meu porto seguro, era aquilo tudo que eu queria ser quando crescer. Isso não vai acontecer. Porque ninguém em casa tem identidade. Somos estatística e estamos permanentemente rachados ao meio.


Minha mãe teve um colapso. Ela não comia, não bebia e não levantava da cama. Meu pai não sabia o que fazer. Lembro do olhar perdido que ele tinha. As vezes ele fixava seus olhos em um ponto por muito tempo. Acho que ele estava tentando não pensar.


No fim das contas, não pensar funcionou. Não sei quando foi que aconteceu, minha vida é um borrão desde que Carol morreu. Tiraram os quadros dela da casa e fizeram um escritório onde antes era seu quarto. Não vejo mais Carol pela casa, não há traços de que um dia uma garota dançou balé para o papai naquela sala, de que um dia uma garota cozinhou uma macarronada horrível no aniversário dos pais, de que um dia essa garota se apaixonou, de que chorou, de que viveu. Ela virou um fantasma e, exatamente por isso, eu a vejo em todos os lugares.


Acho que foi por isso que minha mãe recorreu à religião. Ela levantava para ir à missa, e para falar com o padre. Ela já fazia isso antes, mas era apenas aos domingos. Minha mãe agora vive para a religião, para Jesus. Esse foi seu modo de escapar, de não se sentir violentada. Ela buscou outra identidade em um cara barbudo que, se vivesse nos dias atuais, seria estatística.


Eu não sei o que meu pai fez. Cada um lida com o luto de uma forma. Papai teve que ser forte. Naquela época eu já sabia disso. Ele tinha que se manter forte, porque mamãe estava tendo um colapso. Porque ninguém me alimentava, ninguém prestava atenção em mim. Sou muito parecido com Carol, acho. Pelo menos era o que diziam. Papai cuidou de mim quando mamãe não esteve presente. Eu não a culpo, não culpo nenhum dos dois. Mas não sei como ele conseguiu, como superou isso e retomou com a sua vida. Talvez ele só fingisse melhor do que todo o resto.



***



Entrei na secretaria e olhei em volta, como se fosse um lugar novo. Fazia muito tempo que eu não entrava ali. Nada havia mudado, como em toda escola pública.


-Ei, Bruno, precisa de alguma coisa? - Hanne disse assim que me viu.


Eu não sabia se o nome dela era mesmo Hanne, ela era intercambista, mas eu nunca perguntei de qual país. Por algum motivo, Hanne gostava de mim.


-Eu preciso fazer alguma coisa a tarde. - Disse simplista.


Hanne sorriu, como sempre fazia. Ela era toda sorrisos e abraços.

-Que tal ajudar na biblioteca? Estamos precisando de voluntários.


Eu sorri, porque nunca gostei tanto de Hanne quanto naquele momento. Ninguém nunca frequentava a biblioteca, eu poderia simplesmente me esconder ali todas as tardes e ler meus livros em paz.


-Precisam de mais de um? - Escutei uma voz atrás de mim e me virei.


O garoto estava apoiado na porta, parecia tímido- mas uma timidez forçada. Como quando um cara que na verdade é o palhaço da turma tenta se comportar em uma reunião de família. Ele sorriu para mim, seus dentes eram tão brancos que pareciam iluminar o lugar.


-Você é o Lucas? - Hanne perguntou, sorrindo de volta. Eram muitos sorrisos, eu estava começando a me sentir desconfortável.


-Isso. - Lucas deu um passo a frente e me estendeu a mão. Olhei sem entender. Por que ele estava estendendo a mão? Quem faz esse tipo de coisa em pleno 2020?


-Bruno. - Respondi, ainda encarando sua mão. Ele não fez sinal de tirá-la, então tive que estender a minha. Ele sorriu.


Voltei a olhar Hanne.


-Eu tenho que assinar alguma coisa?


-Não, só apareça na biblioteca a partir das 14h.



***



A partir desse dia as coisas começaram a mudar. Eu não previ isso. Se tivesse previsto, nunca apertaria a mão de Lucas. Eu estava tão concentrado em não sentir, não me importar que não notei quando ele entrou na minha vida.


Naquele mesmo dia, Lucas sentou ao meu lado. A professora nova não estava com vontade de dar aula, então nos mandou fazer uma redação sobre como seria nossas férias perfeitas.


-Suas férias perfeitas seria você lendo Dom Quixote o dia inteiro? - Lucas perguntou, indicando o livro em cima da minha mesa.


Hesitei, encarando seu rosto por um tempo antes de responder. Suas sobrancelhas estavam arqueadas, dava para ver que ele queria uma resposta, é claro. Mas não foi isso que me fez hesitar, e sim o modo como me olhava.


Lucas não sabia da minha história. Ele chegara agora em um lugar totalmente novo, conversando com um garoto que nunca vira antes e do qual não sabia nada. Eu me peguei pensando: o que ele via quando olhava para mim?. Um garoto pálido, magro, com cabelos compridos demais que lê o tempo inteiro? Será que meus olhos eram tristes como os da minha mãe?


-Não. - Respondi. - Seria beber e usar drogas o dia inteiro.


Ele deu risada, talvez porque soubesse que eu não era mesmo do tipo que fazia essas coisas.


-Não posso dizer que concordo.


-Não precisa.


-Para mim seria voltar para casa e surfar o dia inteiro.


Eu o encarei novamente. Ele não diria isso se soubesse da minha história. Minhas férias perfeitas seria que aquelas férias nunca tivessem existido. Eu odiei Lucas naquele momento, por não saber onde estava se metendo. Mas o amei também, pelo mesmo motivo. Há muitos modos de afirmar, há só um de negar tudo. Naquele momento, negando ou afirmando a presença de Lucas na minha vida, havia muitas possibilidades.


Ele sorriu.


-Mas eu adoraria me apaixonar.


Franzi a testa, sem entender.


-Que perda de tempo.


-Você acha?


-Sim.


-Por que?


Dei de ombros. Eu não tinha o costume de pensar sobre paixões, ou amor.


-Você é estranho.


-E você não?


Lucas deu risada.


-Só porque quero me apaixonar?


Encarei meu caderno. Ele era sim estranho. Não por querer se apaixonar. No fundo, acho que todos queriam isso. Mas por dizer, como se fosse algo simples e normal. Ele dizia de uma forma crua, fria e totalmente não-passional. E não era forçado. Ele queria e então dizia. E provavelmente conseguiria.


-É.


-Gostei de você. - Cru, frio. Ele queria, e então dizia. Há muitos modos de se afirmar, mas Lucas dizia certezas como se fossem as únicas do mundo.


-Que perda de tempo.- Repeti. Ele sorriu.

27 de Abril de 2020 às 17:38 0 Denunciar Insira Seguir história
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