jace_beleren Lucas Vitoriano

Dois amigos conversam enquanto se dirigem a um antigo lago. Paulo acredita nas histórias fantásticas acerca do lago enquanto Laura acha que elas não passam de superstições bobas. Enquanto caminham lado a lado, conversam a respeito.


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo único

Laura precisou parar por alguns segundos para recuperar o folego. Já fazia quase uma hora que ela e Paulo estavam caminhando e os pés da garota já estavam doendo. A floresta ao redor deles estava silenciosa, a grama rala coberta de folhas secas. As arvores erguiam-se raquíticas, com galhos distorcidos e doentios. O vento estava frio e o céu nublado, com nuvens carregadas. O clima era perfeito para que Laura ficassem em casa dormindo ou lendo algum romance, mas, aqui estava ela, indo em direção ao velho lago por causa da aposta que fizera com Paulo.

- Não vai desistir, não é? – perguntou ele com um sorriso provocativo. Paulo tinha dezessete, apenas um ano mais velho que ela – eu apostei que lhe dava a medalha do meu avô se você fizesse isso.

Laura o fitou com irritação. Era claro que não iria desistir, queria aquela medalha a todo custo. O avô de Paulo havia servido na guerra a setenta anos atrás e seus feitos no campo de batalha lhe renderam aquela medalha, dada em mãos pelo próprio major Manuel Saramago.

Paulo nunca ligara para a medalha. Para ele, não passava de uma velharia. Laura, porém, era simplesmente fascinada pelo major. A medalha era algo que a encantara desde a primeira vez que Paulo lhe mostrara o objeto, a uns oito anos atrás.

- Eu não vou desistir – disse com irritação. Era a sétima vez que dizia isso ao amigo – não tenho medo de mergulhar em um lago fétido. O pior que pode acontecer é meu vestido ficar sujo.

- Ou... você pode ser devorada pelo monstro – retrucou ele, seu sorriso alargando-se em seu rosto salpicado por algumas sardas – meu pai diz que o monstro é um homem peixe de pele enrugada, mas o velho Péricles diz que é uma sereia. Sempre quis saber quem está com a razão.

Laura revirou os olhos. Não acreditava que Paulo, mesmo já tendo dezessete anos, dava ouvidos naquela superstição ridícula. Era uma lenda antiga e, embora ela própria tenha acreditado nela até os doze, Laura não conseguia encarar a história a sério hoje em dia.

- Não existe monstro. Essa lenda é que nem a história do papai Noel, só uma bobagem que dizem as crianças para que sejam boazinhas e obedientes. Agora, vamos andando, precisamos chegar lá antes do meio dia, caso contrário sua sereia não vai aparecer.

- Então acredita que seja uma sereia?

Ela não respondeu. Seguiu em frente, ignorando as repetidas perguntas de Paulo sobre a natureza do monstro. A caminhada pela floresta era árdua, mas eles já haviam feito a maior parte do percurso. Após uns quinze minutos, eles avistaram as ruínas da antiga torre de vigília. Era o sinal de que estavam quase chegando no lago.

- Na época da guerra – disse Laura apontando para as ruínas – os soldados de nossa cidade usavam a torre de vigília para avistar os inimigos vindo pela estrada leste. Eles assombraram as redondezas marchando com seus trajes cinzas e chapéus pontudos. Mataram muitas pessoas cruelmente, mas graças a deus perderam a guerra e tiveram que se retirar.

O olhar que Paulo dignou as ruínas foi de total desinteresse, ele apenas deu de ombros sem dar a menor importância aquele lugar. Laura, ao contrário dele, admirava aquelas velhas ruínas como um historiador se admira ao visitar um museu.

- É, acho que meu avô me falou disso... as histórias dele eram um saco – disse com descaso – não foi ai que o exército inimigo aprisionou os aldeões da nossa aldeia antes de incendiar o lugar?

A indiferença com que Paulo falava daquele evento irritava-a. O incêndio da torre fora um ato cruel, desumano. Mesmo em guerras, atos assim eram repudiados. A avo dela havia morrido nesse incêndio e não havia sido a única. Até onde se sabia, mais de trinta pessoas morreram naquele dia.

- Você não merece essa medalha Paulo! Devia ter mais consideração pelos nossos antepassados.

- Por isso sou legal e vou dá-la a você – retrucou ele com humor – mas só depois que mergulhar no lago.

Essa seria a coisa mais inteligente que ele faria na opinião de Laura. Ela lançou mais um olhar para as ruinas, prestando uma oração silenciosa aqueles que morreram ali setenta anos atrás. Relutante, seguiu em frente. Paulo a acompanhava animado. Algumas gotas de chuva começaram a cair, molhando-os um pouco.

- Não é superstição – disse ele repetindo uma discussão que os dois sempre tinham – como você explica os desaparecimentos? Todo solstício de inverno, quando alguém mergulha aqui ao meio-dia ou a meia-noite, a pessoa simplesmente não volta.

Aquela conversa sempre irritava Laura. Ela até teria paciência para falar sobre isso com uma criança, mas não com alguém que já era quase um adulto. Laura nunca entendia como o amigo poderia levar tão a sério aquelas bobagens, mas, em contrapartida, não ter o menor respeito pelo maior dos monstros: a guerra.

- Ninguém nunca viu esse monstro. Quanto as pessoas desaparecidas, foram apenas duas, a muito tempo atrás. É claro que é só uma lenda idiota. As pessoas inventaram isso para impedir que as crianças brincassem no lago.

Mas Paulo apenas balançou a cabeça em uma negativa. Ele estava firme em seu ponto de vista.

- Se fosse esse o objetivo, teriam inventado que as pessoas sempre sumiam ao tomar banho no lago e não apenas em um dia e horário tão específicos.

Laura bufou. Não queria, nem se rebaixaria, a dar prosseguimento aquela discussão. Ela apenas seguiu em frente ignorando o amigo. Não demorou muito para que avistassem o lago. Era pequeno, com mansas águas verdes escuras. Os dois pararam a apenas alguns metros da margem. Paulo fez o sinal da cruz.

- Certo, me dê a medalha – disse com o que lhe restava de paciência estendendo a mão na direção do amigo. Queria acabar com aquilo de uma vez por todas. Se voltasse para casa cedo poderia aproveitar o almoço ainda quente.

Ele retirou a medalha do bolso. Era bem velha, de ferro, com a imagem de um tigre entalhada. Estava desgastada e descolorida, mas isso, na opinião de Laura, só dava ao objeto aquele charme único das coisas antigas.

Paulo sorriu para ela, um sorriso amarelo e maldoso, então, em um movimento rápido, jogou a medalha no fundo do lago. Laura xingou alto, sem acreditar que ele havia feito mesmo isso.

- Não me olhe com essa cara, só estou deixando as coisas mais emocionantes! – disse rindo. Laura teve que se controlar para não jogar ele no lago. Seria ótimo se o monstro o devorasse.

- Você me paga por essa!

Ela começou a retirar o vestido, ficando apenas com a roupa de banho que trazia por baixo. Paulo continuava rindo com a situação.

- Não fique irritada, a medalha vai refletir os raios do sol, você vai encontrá-la rapidinho.

- Que sol? – retrucou. Estava dobrando o vestido e colocando-o no chão – o céu está totalmente nublado.

Ele não soube o que responder, então ficou calado. Laura entrou no lago. Não era tão fundo, mas as águas estavam geladas o que a fez tremer um pouco. Ela havia visto onde o objeto caíra, bem no centro do lago. Seria preciso mergulhar para pegar o objeto.

- Se sobreviver, não esqueça de me dizer como é o monstro! – gritou ele da margem.

Paula o ignorou. Ela prendeu a respiração e mergulhou. Chegar ao fundo não foi problemático, afinal o lago não era muito profundo. O problema era conseguir achar a medalha. Ela tateou no chão em busca do objeto, mas tudo que seus dedos tocavam era areia e algumas pedrinhas. Estava ficando um pouco difícil manter o folego, mas então ela viu um brilho sutil a sua esquerda. Colocou sua mão no local e sentiu a frieza da medalha entre seus dedos. Um sorriso brotou em seu rosto.

Ela emergiu triunfante, erguendo as mãos em sinal de vitória. Seu sorriso, porém, durou pouco. Não havia sinal de Paulo, nem de seu vestido. Laura se sentiu uma idiota quando percebeu que fora enganada. O maldito devia estar rindo dela nesse exato momento enquanto corria com seu vestido pela floresta.

Ainda molhada e tremendo de frio, Laura começou a fazer o caminho de volta. Ela resmungava a cada passo, xingando o amigo mentalmente. Quando encontrasse com Paulo iria dizer umas boas coisas para ele. Era só nisso que ela pensava. Ela parou de caminhar de repente, seus olhos se arregalando com o que via, sua mente custando a acreditar.

A torre de vigília estava a sua direita, mas não se tratava de ruína coisa alguma, ela estava erguida e em perfeito estado. Isso não podia ser verdade, a torre havia sido destruída completamente. Laura passava por suas ruínas toda semana.

Foi então que ela ouviu sons. Virou-se assustada, seu coração congelou quando viu um grupo de soldados caminhando não muito longe dali. Eles usavam uniformes cinzas e chapéus pontudos.

A medalha de ferro caiu das mãos dela perdendo-se entre as folhas secas que cobriam o chão da floresta. Ela teve que se controlar para não gritar. Durante toda sua vida, lera acerca dos horrores da guerra nos livros de história. Agora, iria conhecê-los em sua própria pele.

No final das contas, Paulo tinha mesmo razão. Havia sim um monstro, não era um homem peixe nem uma sereia, mas sim exatamente o monstro que Paula sempre mais temera.

25 de Abril de 2020 às 22:01 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lucas Vitoriano Ola, me chamo Lucas, adoro escrever, ver animes, jogar Magic the gathering, ler entre outras coisas mais rs. Sou particulamente fissurado em mitologia grega, meus autores favoritos são Neil Gaiman e Kazuo Ishiguro e, meu livro favorito, é As brumas de Avalon.

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