wesleydeniel Wesley Deniel

Adam é um homem triste e recluso, vivendo um luto que não permite ter fim. Ressentido pelo que lhe tiraram, deixara-se envolver por um mundo sórdido que se alimenta de sofrimento e dor, e que logo o tornaria obcecado por compreender as faces da maldade humana. Cercado pela perversidade em sua jornada pelos mais escuros corredores da mente, Adam termina por atrair para si uma estranha entidade que lhe concede a capacidade de enxergar o que verdadeiramente se esconde por trás de cada pessoa. Agora, dotado deste perturbador dom (ou maldição), ele terá de lidar com as consequências de suas intervenções - para o bem e para o mal - enquanto luta para não sucumbir à loucura e ao horror.


Horror Histórias de fantasmas Para maiores de 18 apenas.

#horror #sobrenatural #suspense #terror #fantasmas #novela #gore #psicológico #loucura #violência #medo #ação #espíritos
0
9.9mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

A MALDADE AO VIVO E EM CORES

O apresentador fazia lembrar um grego excêntrico de outro programa de TV que Adam costumava assistir quando se encontrava entediado, um jovem bastante versado sobre tudo o que pudesse envolver homenzinhos cinzentos vindos do vasto espaço sideral – Georgio alguma coisa, pelo que Adam conseguia lembrar. Ambos exibiam a mesma cabeleira ultralaqueada à la Don King, mas escuras e varonis.

Frank Thorne (no mínimo a droga de um nome artístico sem muita imaginação, segundo Adam) era seu nome. Segurava um taco de beisebol e olhava para a câmera como um lunático ensandecido.

— O que fazer com um filho da mãe desses? — dizia, indignado. — E tenho o bondoso Deus por testemunha que já insisti com os mandachuvas aqui da DITV para me passarem para algum horário morto na madrugada em que eu poderia esquecer a abençoada censura e me referir a esses ordinários como convém!

Numa grande tela adequada ao cenário atrás dele, um homenzinho com cara de pervertido, orelhudo e macilento aguardava sentado num banco em alguma delegacia da região leste de Detroit. Pelo que Thorne havia revelado, acabara de ser preso pela sexta vez por molestar mulheres – esta última, uma senhora de 81 anos.

De vez em quando algum funcionário ou policial passava de cara fechada perto dele e o camundongo humano os seguia, sério, com os olhos, para logo depois esboçar um sorrisinho cretino e tentar ajeitar seu cabelo loiro e ralo com as mãos algemadas.

— Deem uma boa olhada para a cara dele, amigas — pediu Thorne —, pois em pouquinho tempo, ele estará nas ruas outra vez, inspecionando-as como gado e tendo ideias de como apanhá-las e...

— Frank — chamou o repórter que cobria a prisão, um jovem de blazer preto barato e cabelo engomado de bom moço.

— Parece que nosso garoto, Joshua Grimes tem mais informações direto lá da 7ª Delegacia de Crimes Sexuais, estou correto, Joshua?

— Está sim, Frank. Em uma conversa que tive há pouco com o Capitão Marlow Guillaume, aqui da 7ª, me foi revelado que Francis Greymask, o suspeito sentado aqui atrás, preso após seguir e molestar uma senhora de mais de 80 anos que voltava de uma farmácia perto de sua casa, possuí, além das seis passagens por ataques indecentes, três outras por estupro, inclusive um com lesão corporal grave, ocorridos nos últimos dez anos em Indiana, onde vivia anteriormente.

— Não é possível... — disse Thorne, baixinho. — Não é possível. Aí não dá! Não é possível uma coisa dessas! — seu tom de voz fora subindo e subindo enquanto ele procurava por algo em volta. Então encontrou: um vaso cafona que com certeza fora posto ali apenas com o propósito de ser quebrado.

— E lá vai ele — resmungou Adam em sua poltrona.

— Aí eu tenho vontade de...

Sem terminar de falar, Frank Thorne desferiu um golpe com o taco de beisebol no vaso e o transformou num monte de cacos. Era o ponto alto de cada programa! Se todo fim de tarde não houvesse pelo menos uma reportagem que o fizesse quebrar algo do cenário, aquele não seria o Fogo Cruzado.

— Ainda de acordo com o Capitão Guillaume — prosseguiu o repórter antes mesmo do show ensaiado de Frank Thorne acabar — Francis, de 34 anos, também tem em sua ficha várias passagens por vadiagem, exposição indecente, destruição de patrimônio público, uso de drogas, alguns furtos e... — nesse momento, Joshua fez a cara chocada padronizada e usada por repórteres de todo o mundo — acredite, por invasão a um necrotério na cidade de Greensburg, Indiana, onde profanou o cadáver de uma adolescente de quinze anos.

— Nós fizemos amor... — tentou Francis, lá atrás.

Joshua Grimes se afastou do homenzinho, nitidamente constrangido e (Adam podia jurar) quase explodindo para não rir. Não era engraçado, mas quantas vezes uma coisa se mostra tão absurda que só resta rir?

— Você ouviu, Frank. Depois dessa, só encerrando. É com você.

— É o fim do... Joshua, o que essa figura estava fazendo nas ruas?

— Francis estava foragido da justiça, Frank.

— Bom, pelo menos por alguns dias, deve voltar para o buraco. Joshua, muito obrigado por enquanto. Mantenha-nos por dentro se surgirem novos detalhes.

A imagem da tela ficou congelada no rosto irritante de Francis, o extraordinário violador de defuntos. Frank Thorne ainda sacudia seu taco pra lá e pra cá (quem sabe ele não estivesse pensando em destruir mais alguma coisa, o letreiro da DITV talvez) enquanto olhava para o homenzinho.

— Sinceramente... O que leva alguém a fazer umas coisas dessas?

— É o que eu gostaria de saber, Frank — respondeu Adam para a TV.

— Vejam essa cara risonha. VEJAM SÓ ESSA CARA! — esbravejou Thorne, apontando a tela com uma mão e brandindo o taco com a outra.

Então o cara de camundongo sumiu da tela e deu espaço a uma mesa de jantar toda enfeitada (uma como Adam atualmente via apenas duas vezes por ano – no dia de Ação de Graças e no Natal – quando visitava os pais ou então seu irmão James) e com uma família perfeita sentada ao redor, sorrindo até quase trincarem.

Como se não estivesse possesso (você não estava, estava, Frank?) há até dez segundos atrás, Frank Thorne encostou o taco em sua cadeira, que na certa era cara demais para ser quebrada, e passou a falar manso como um reverendo:

— Isso sim. Isso sim é bom de ver! E é assim que você irá querer ver toda a sua família nas festas que estão chegando, tenho certeza.

Um a um, pratos sofisticados começavam a surgir sobre a mesa: uma baixela de prata com purê de batatas, cestas de vime com pãezinhos e broas douradas, travessas com molhos e compotas de frutas, tortas fumegantes e pudins caramelados, castanhas e nozes. A cada prato que surgia, as crianças se entreolhavam e faziam aquela cara de “Ohhh!”. Por fim, era chegada a hora do prato principal... um balde tamanho família de frango frito?

— Não, não, não. Você não verá sorrisos tão satisfeitos se fizer algo assim! — preveniu Thorne. — Você não irá querer servir um balde de frango do bom e velho Coronel bem no dia de Ação de Graças, não é mesmo?

Então o balde repleto de nacos e coxas de frango sumiu e em seu lugar surgiu um enorme e tenro peru, tão gordo e recheado quanto possível!

— Agora sim! É claro que tinha de ser um belo peru! E todos nós sabemos o nome que vem à mente de todo bom americano quando o assunto é peru. Afinal, ninguém oferece essa delícia familiar melhor que o Tio Ernest!

Ao fundo, era exibido um compilado de cenas de uma fazenda de criação de perus nos prados da Pensilvânia, com tudo o mais politicamente correto o possível. Aves roliças e livres, crianças saltitando entre elas e uma linha de produção brilhante que saía de cena assim que chegava o ponto em que os perus se dariam mal para voltar somente quando já estavam limpos e sendo embalados.

— Tio Ernest, há mais de 100 anos nos fornecendo as festas mais fartas!... — continuava Thorne, mas Adam já se havia levantado e ido até o banheiro. Não tolerava como Frank Thorne podia fingir estar puto num momento e tranquilo igual a um coala no outro. Ah se aquela merda de programa não fosse uma das suas principais fontes diárias de notícias!

Urinava com o cuidado de um filho bem criado e pensava demoradamente no quanto estávamos regredindo dia após dia. Toda santa tarde ele era bombardeado com notícias horríveis que não paravam de pipocar pela TV e internet. Era como se o mundo estivesse enlouquecendo ao seu redor.

Sempre ao final das matérias mais sombrias, tolamente, Adam pensava em duas coisas: a primeira era que não havia como piorar, como se superarem; a segunda, que não assistiria mais àquela porcaria depressiva. Mas eles eventualmente se superavam e Adam estava lá, compenetrado, de frente para a TV, testemunhando.

Deu descarga e voltou para sua poltrona bem a tempo de ver alguém superar o libidinoso Francis. O rechonchudo peru e a família perfeita haviam-se ido e, junto deles, a temperança de Frank Thorne, que agora empunhava novamente seu taco.

— ...e isso foi aqui mesmo no Lado Oeste, Lauren?

— Isso mesmo Frank, nós estamos na Rua Prospect, bem perto do Parque Geer e acabou de acontecer! — explicava a repórter. — Muita gente chegando – curiosos, a maior parte; a polícia ainda está isolando a área e várias viaturas estão à procura do homem que mora aqui.

— Nosso helicóptero ainda está no ar?

— Está sim Frank. A última atualização que tive do nosso comandante Cooper foi de que estavam sobre a região de Taylor. Pelo que sabemos, há alguns minutos, uma caminhonete que bate com descrição da usada pelo suspeito foi vista em alta velocidade nas mediações do museu Henry Ford em direção a Taylor ou Allen Park.

Adam empertigou-se na poltrona, curioso. Tinha sede, mas de jeito nenhum iria sair dali antes de saber o que acontecia.

Não muito longe de onde a perseguição se desenrolava, uma multidão cada vez maior cercava uma casa em Dearborn. Lauren Hazel tentava conversar com alguém a quem pudesse convencer a deixar que ela e seu cameraman entrassem na casa. Acabou sendo um sargento (certamente um dos vários de sua rede de amizades) quem permitiu à repórter entrar em sua companhia – sem câmera – para poder conferir a selvageria que ocorrera no local.

Lauren chamou por Frank Thorne e explicou a situação; disse que voltaria em breve com maiores informações. Adam soltou uma imprecação. Naquele momento nem se recordava de ter cogitado não assistir mais ao programa. Pelo contrário; matutava se algum policial ou paramédico já teria fotografado o interior da casa e postado em sua página na rede social.

MORTES EM CASA SUSPEITA DE DEARBORN, era a chamada, escrita em letras garrafais no painel de destaques no rodapé da tela. Com certeza dava o que pensar. O título, nada sensacionalista, viera de rumores que já estavam correndo por toda a vizinhança, histórias que punham o dono da casa como um ticano soturno que vivia a maior parte do tempo isolado atrás de seus muros, salvo, quando recebia aleatórios visitantes noturnos – rapazes mal-encarados que deviam ser verdadeiros pilares da sociedade. Geralmente chegavam de carro ou num furgão; um descia, batia na porta da casa e segundos depois o portão eletrônico da garagem subia para que o veículo entrasse.

Talvez ele fosse veado e curtisse um grupalzinho em domicílio; talvez apenas curtisse fumar uma erva à noite com os amigos... Diabos, tinham inventado todo tipo de teoria, até que eram adoradores do profano, Belial, Baphomet ou algo assim. Não importava. O fato era que a merda saíra do controle e agora, mais do que nunca, a casa merecia o título da chamada.

Frank Thorne repetia o pouco que já se sabia: um homem latino e ainda não identificado fugira em uma caminhonete prateada após assassinar a tiros dois fiscais da Vigilância Sanitária Municipal que haviam ido até sua casa após uma denúncia anônima quanto ao terrível mau cheiro vindo de lá.

Aparentemente sem uma saída (para o que quer diabos que estivesse fazendo) o homem pedira para os fiscais entrarem e os matara bem no meio da sala. Descontrolado, ainda acertara de raspão um tiro num terceiro fiscal que aguardava no carro e que correra para a porta da casa ao ouvir os disparos. Este, apavorado, conseguiu voltar até o veículo e fugir do local, para depois contatar a polícia.

Depois de quase dez minutos de encheção de linguiça com repetidas tomadas da fachada da bonita casa de tijolos aparentes cercada de curiosos em busca de sangue, da residência vista por cima e da região de Taylor enviadas diretamente do helicóptero da DITV, Lauren Hazel voltava para frente da câmera. Estava amarela, como se tivesse entrado sã e saído com icterícia. Até tentara conter as mãos trêmulas, mas assim que apanhara o microfone, não houve mais jeito.

— Desculpe-me Frank — pediu Lauren Hazel com a voz embargada. — Não é sempre, mesmo nessa nossa profissão, que vemos coisas como acabei de ver lá dentro. Estou um tanto perturbada, mas vamos lá...

Atrás de Lauren, um dos policiais recém-chegados ao local do crime saíra com ânsias de vômito, cobrindo a boca com um lenço. Quando começou a vomitar, fora tirado do enquadramento da câmera por um companheiro. Adam sequer respirava na poltrona. Fosse qual fosse a loucura perpetrada ali, definitivamente havia superado Francis, o tarado.

— É um matadouro — simplificou Lauren Hazel. — Não consegui contar e, até agora os policiais também não, quantos corpos há lá na casa.

— Meu Deus, Lauren — murmurou Thorne. Podia até ser que desta feita ele estivesse genuinamente chocado. — Então você pode confirmar o que estão dizendo, que esta é a Casa do Mal?

Forçado, hein Frank, pensou Adam. Mas tudo bem.

— Eu mesma posso atestar isso, Frank — concordou a repórter.

Em segundos, o título da chamada mudava para CASA DOS HORRORES DE DEARBORN e até a música de fundo no estúdio ficara sinistra.

— Apesar de não termos podido registrar imagens, posso descrever para você, Frank, um pouco do que consegui ver lá dentro.

— Agradeço, querida — disse Thorne. — Eu gostaria, em respeito aos nossos telespectadores, de pedir que, caso tenham crianças na sala ou então sejam sensíveis a conteúdos chocantes, mudem de canal por um instante.

Conversa fiada! O filho da mãe sabia que ninguém que acompanha seu programa mudaria de canal por nada nesse mundo.

— Aparentemente, Ortiz Delano, o dono da casa, de acordo com informações reveladas a pouco pelo sargento Carl Garrison, faz parte de um dos maiores cartéis de narcotráfico do norte do México e sul do Texas. Evidências encontradas na casa dão conta de que Ortiz seja uma espécie de receptor de defuntos dos Los Chacais.

— Como é que é? — disse Adam para a TV.

— Um desovador — esmiuçou o apresentador, como se o respondesse. — Esses camaradas são inimigos dos outros lá de Juarez, não? — perguntou à repórter, para fins explicativos.

— Exatamente. Ortiz mesmo é natural de Jalisco e parece estar aqui há três anos ilegalmente. Eles não são muito atuantes nessa parte do país, mas temos ouvido relatos de que vêm impondo sua influência com força aqui em Detroit nesses últimos dois anos. E quem conhece os cartéis mexicanos, sabe que eles não são delicados com os inimigos. Não recomendo que procurem por seus métodos na internet, mas se o fizerem, verão porque são tão temidos.

— É abominável.

Abominevole — repetiu Adam.

— Essa é a palavra, Frank. — disse Lauren, e então: — E era nessa casa aqui, atrás de mim, que muitos descobriam como Los Chacais lidam com os desafetos. Logo que entramos pela porta da sala, o fedor que fora a causa da denúncia anônima e, que aqui fora já é pungente, tornou-se insuportável.

Frank Thorne sentou-se em sua cadeira, o taco no colo. Imaginava o que estava por vir. Adam apostaria o pau como Thorne, a despeito daquela cara de pesar, sorria como um vencedor da Loteria por dentro.

— A casa é toda revestida por paredes à prova de som, como em um estúdio — revelou Lauren — e é bem luxuosa; o Cartel cuida bem de seus homens de confiança. A sala da frente, onde estão os corpos dos dois fiscais assassinados, é o único cômodo onde não há freezers espalhados por toda a parte. No restante da casa, bem... o restante é um pandemônio. Não creio que deva entrar em detalhes das condições lá dentro, basta que imaginem um açougue, com peças de carne dependuradas, outras em geladeiras, algumas fatiadas e... é isso.

— Está bem, Lauren. Há coisas nas quais não devemos nos aprofundar.

Claro que não, o efeito almejado, afinal, já fora alcançado. Adam mesmo podia ver a carnificina como se estivesse lá. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha (o que não o impediria de, depois, procurar por vídeos ou fotos nas páginas especializadas em morbidez da cidade em busca dos detalhes omitidos.) enquanto a pergunta “Como isso pode ser possível?” se repetia em sua mente.

— Ortiz — Lauren continuava a explicar —, pelo que pude entender, era quem dava “um fim” aos desafetos levados até ele ou aos cadáveres que seus companheiros do cartel produziam. Traziam-os para cá naqueles carros que os vizinhos dizem que o visitavam tarde da noite e então cabia a Ortiz acabar de matá-los ou então esgotá-los, desmembrá-los e depois sumir com os restos. No porão da casa há um velho poço seco e, pelo que acredita o sargento Garrison, pelo menos uma dúzia e meia de corpos tenha sido descartada lá.

— Medieval — disse Thorne.

— Sim — concordou a jovem. — A polícia acredita que os cadáveres sejam de um confronto ocorrido no final de semana passado nas mediações de Ann Harbor em que disseram ter evidências do desaparecimento de vários corpos. Alguns podem ter sido trazidos para cá e, bem, acabaram acumulando.

— Entendo. E foi o cheiro do porão que o denunciou, Lauren?

— Não, Frank. Quando descemos lá, os policiais que descobriram o poço e os cadáveres já o haviam coberto com sua pesada tampa de madeira. O mau cheiro era horrível, é claro, mas não ao ponto de incomodar aos vizinhos. Por incrível que pareça, o que acabou entregando Ortiz foi o blecaute de três dias atrás que deixou sem energia toda a área oeste e metade do norte da cidade.

Adam juntou os pontos. Lembrava bem de ter ficado todo o domingo anterior e a segunda-feira sem energia elétrica. Tivera de tomar seus banhos frios ou com água esquentada numa chaleira e misturada num balde e de atravessar meia cidade para encontrar um café com eletricidade em Forest Glade onde pudesse carregar seu laptop e trabalhar. Tinha duas revisões de livros para entregar na próxima semana e seus clientes não iriam querer saber sobre o seu imprevisto com a companhia de energia.

Fora um porre chegar à noite em casa no primeiro dia e ficar tentando ligar a TV como um idiota até cair em si que não havia força. Jantara à luz de velas, só ele e seu smartphone (que misericordiosamente ainda tinha a internet móvel e pudera supri-lo de suas notícias). Engolira distraído um prato de macarrão com queijo frio e rosbife enquanto lia sobre os roubos em sua área que haviam quase triplicado por conta da escuridão e depois fora para a cama. Estava exausto, porém, não pegara fácil no sono. O medo dos ataques às residências, das duas mortes ocorridas a menos de três bairros do seu, o incomodava.

Por que, por que diabos aquelas criaturas precisavam se aproveitar de cada brechinha, de cada oportunidade – mesmo que estas se apresentassem na forma da desgraça de alguém ou de calamidade – para praticarem suas perversidades? Seria possível então que, só o fato de todos estarem no escuro, suas coisas estragando, não bastava? Ainda tinham de viver com medo de aqueles vampiros invadirem suas casas e fazerem sabe-se lá o quê. “Por que?”, Adam adormecera repetindo.

Ninguém invadira sua casa. Ninguém o matara.

Na manhã seguinte, mais água amornada, comida fria e tédio. Acordara todo suado, então, nada de ar-condicionado, nada de energia. Tanto seu laptop quanto o smartphone estavam com a carga baixa. Adam esperou até mais ou menos meio dia e, quando se resignou com a ideia de que a luz não voltaria, pegou o carro e dirigiu outra vez até o café no lado leste para trabalhar.

À noite, a escuridão ainda era geral. Adam dirigia devagar e ressabiado pelas ruas sombrias, atentava-se a cada movimento. Não estavam desertas, afinal, com ou sem blecaute, as pessoas tinham de se locomover, mas era inegável que todo mundo tinha ares de suspeito, formas assustadoras (que também deviam estar assustadas) vagando iluminadas somente pelas luzes dos celulares, dos carros ou pelo brilho ocasional da lua e do azul e vermelho das viaturas.

A senhora Gianopoulos, vizinha de Adam, parecia o estar aguardando, junto da sebe que divisava seus jardins. Filha do Mediterrâneo, era uma mulher forte, alta e de bochechas coradas. Tinha uma cabeleira longa e grisalha, mas que nunca era vista solta, estando a maior parte do tempo enrolada em uma dezena de bobs ou coberta por lenços floridos. Devia ter pouco mais de 50 anos, só que facilmente aparentava 60 ou até 65. Viu quando Adam estacionou o Compass e desceu e foi correndo até ele, abanando os braços, a lanterna de LED criando arcos de luz.

— Oh, Adam... Estive esperando por você!

Adam gostava dela, e não só por ter sido uma boa amiga de sua esposa, mas por assemelhar-se a ele, reservada e sucinta. Seymour, seu marido, também era querido do casal, sempre simpático, sorridente e prestativo. Não vinham se falando mais como nos primeiros anos em que haviam chegado de Baltimore e Miranda e ele viviam bem, sem o desgaste e as incertezas que quase os separariam perto do fim e que passavam os finais de semana reunidos, quando não com churrascos gregos, com jogos de futebol e beisebol pela TV ou cervejas na varanda. Agora, às vezes se viam de tempos em tempos e se cumprimentavam como de praxe nas grandes cidades. Mas ainda assim a amizade estava lá, apagada, mas lá.

— Tessa! — disse Adam, preocupado. — Está tudo bem? Não devia estar aqui fora nessa escuridão! O que houve, o Seymour está bem?

A mulher usava um daqueles longos xales cobertos por elaborados arabescos de crochê em motivos gregos e, ainda que a noite estivesse fresca, soava exagerado. Agora, parando para pensar, Adam reparava que nunca a vira com roupas mais leves, mesmo em anos com verões de 40 graus. Veste-se como uma velha senhora, pensou, ou apenas como as mulheres de sua terra, mesmo, sabe-se lá.

— Ah, ele está bem — respondeu a Sra. Gianopoulos, abanando a mão num "não se preocupe". Chegou mais perto, naquele tom quase confidente: — Bebeu um pouquinho pra mais depois do jantar outra vez; misturou mastika com cerveja, agora está lá em cima, roncando na cadeira da sacada.

E é bem o que eu quero, Dona Tessa, entrar, deitar e roncar.

— O estava esperando para falar sobre seu quintal — esclareceu a senhora. — Tem alguma coisa cheirando muito mal aí. Achamos que possa ser um animal morto. O senhor arranjou algum bicho nos últimos tempos?

— Não, senhora.

— Então é bom dar uma vasculhada na casa. Durante o dia o fedor estava perto do insuportável. Seymour deus umas voltas pelo seu quintal, uma olhada no quartinho de despejo lá nos fundos, para ver se encontrava algo, mas não deu sorte.

— Que estranho.

— Quem sabe não é dentro da casa...

— Pode ser — disse Adam, tentando afastar a ideia. — vou dar uma procurada. Obrigado pelo aviso, Tessa.

Ainda que sem vontade, fez uma ronda ao redor da casa, olhando atrás de uma pequena pilha de telhas, checou se as tampas de concreto das caixas de saída de esgoto e da coleta de gordura estavam bem encaixadas e deu uma conferida ele próprio no quartinho de cacarecos junto à cerca dos fundos. Nada. Tropicava em algo, continha alguma imprecação (afinal, Tessa Gianopoulos acompanhava um pouco afastada, mas com atenção, toda a vistoria) e tateava às cegas, resmungando por ter deixado o telefone dentro do carro, quando a lua decidia se esconder atrás de nuvens.

Quando desistiu, voltou para a frente da casa, pegou o smartphone no banco do Compass e o trancou, abanou com pouca vontade a mão para a vizinha que, cansada de acompanhar a empreitada, havia recuado para sua varanda, e entrou.

Fechando a porta, passou a clarear o caminho com a lanterna do celular, e logo de cara sentiu o repulsivo miasma lhe ofendendo as narinas.

— Mas que merda! Será que o gato morreu? — disse isso e riu ao lembrar-se da pergunta de Tessa Gianopoulos. "Arranjou algum bicho nos últimos tempos?" Ora, vejam lá se um tipo igual a ele era de ter animais de estimação! Não ligava mais nem para si próprio o bastante para esquentar uma refeição que não fosse num micro-ondas, e teria paciência com bichos?

Conforme seguia para a cozinha, o bodum se intensificava, parecia como se uma cabra houvesse abortado um diabrete dentro da geladeira de Adam. A borracha da porta vinha precisando ser trocada há tempos e naquele momento fez o favor de lembrá-lo: um chorume amarelado escorrera e criara uma pequena poça no chão e o cheiro que deveria ter ficado contido lá dentro (como uma bomba, apenas esperando uma vítima) se espalhava à vontade.

Longa noite, aquela; Adam a passara ensacando restos de verduras murchas e carnes estragadas. Só achou que estava bom quando o fedor mefítico tinha-se ido – dois frascos de desodorizantes e muito detergente depois.

Então, sim, ele fazia uma bela ideia de como devia cheirar a casa de Ortiz no segundo dia sem eletricidade, com aquele monte de corpos apodrecendo em freezers e um calor de 37 graus.

— Incrível — disse Thorne, contemplativo. — Se eu fizesse o tipo, Lauren – e não faço –, diria que há forças maiores que nós sempre trabalhando para que coisas assim não permaneçam encobertas.

— Mas você acabou de dizer, Frank — resmungou Adam, esticando o braço para alcançar o laptop na mesinha ao lado de sua poltrona. Se eles não iriam dar mais que aquela descrição rasa do que acontecera, encontraria quem o fizesse.

— Sem dúvida, Frank — concordou Lauren. A cor de seu rosto começava a voltar, mas algo em sua fisionomia dizia que não tornaria a entrar na casa nem se o seu emprego dependesse disso. — O dedo acusador terminou vindo em forma uma

pane na companhia de luz e energia. Se os cadáveres não tivessem descongelado e apodrecido rapidamente com o calor que vem fazendo por conta deste veranico fora de estação, talvez o calabouço de horrores de Ortiz permanecesse desconhecido por muito tempo ainda, e o homem que, segundo seus vizinhos, se dizia um singelo confeiteiro, seguiria com seu trabalho desprezível.

Frank Thorne pediu que Lauren aguardasse um instante, pois da redação vinha informações sobre a captura de Ortiz Delano. A câmera mudou para a do helicóptero, que sobrevoava um acesso para a I-24 nos limites de Taylor; a caminhonete (ao menos o que restara dela) encontrava-se de rodas para o ar, reduzida a um amontoado de latas. Chocara-se contra uma das muretas da entrada para a autoestrada. Um vídeo feito pela câmera de um dos helicópteros da polícia mostrava o momento quando o veículo em altíssima velocidade passara reto e batera na mureta da rotatória, capotando sete vezes antes de parar numa vala.

— E Ortiz está vivo, comandante Cooper? É possível ver algo daí?

Adam não precisava de Cooper para saber que Ortiz Delano havia virado cocô pisado. Só um milagre muito grande (grande como a lata de laquê de Frank Thorne) faria com que o açougueiro oficial da gangue dos Chacais saísse vivo daquela e, por tudo que há de mais sagrado, Adam não queria viver num mundo onde tipos como Ortiz Delano recebiam milagres. Não senhor!

— A informação que recebi é de que Ortiz Delano está morto, Frank.

— ISSO! — gritou Adam.

Frank Thorne ainda diria que fora um desfecho assustador, voltaria à Lauren e esta explicaria mais sobre as conexões de Ortiz, porém, Adam já não os estava mais acompanhando. Não lhe interessava saber das conexões do homem, mas sim o que o levara até elas, sua motivação para terminar seus dias como um carniceiro.

Uma pessoa, a não ser que seja tão desequilibrada quanto a Ivan, o Terrível, não decide num dia qualquer, durante a sopa no jantar, que se tornará um assassino frio e desovador de cadáveres. Simplesmente não funciona assim.

Gente com Ortiz, o incontrolável Francis e dezenas de outros que Adam tinha adquirido certa obsessão por pesquisar, provavelmente não foram crianças selvagens que mordiam e arranhavam que evoluíram para jovens problemáticos e, finalmente, para maníacos. Claro, havia exceções, mas a maior parte deles era bem possível que tivera vidas normais até demais. Nada de traumas de infância, nada de adolescência conturbada... Às vezes, tudo é perturbadoramente sem sentido. Apenas, em algum ponto do caminho, passaram a desenvolver ideias (bem pequenininhas e fantasiosas de início), compulsões ou desejos que um dia os levariam à TV em programas como o de Frank Thorne.

Adam levou o computador para a escrivaninha, sentou-se e passou a procurar por aqueles dois tipos distintos que haviam estado no Fogo Cruzado de hoje. Com alguma insistência descobriu que Francis Greymask fazia parte do time daquelas tais exceções e que vinha causando problemas desde os 14 anos. Mas Ortiz Delano, este o intrigava. Tirando três passagens por pequenos furtos e uma por posse de drogas, jamais seria alguém de quem se esperasse tamanha bestialidade.

Como sempre, uma das páginas dedicadas a crimes violentos na rede social, a Red Detroit, já tinha mais informações que os próprios policiais. Adam só conseguia imaginar que essa gente vivia para isso. Via-os como abutres, 24 horas buscando tragédias e cooperando entre si – uma rede de pequenos espiões, como naqueles filmes dos guetos –, escavando passados, seguindo ocorrências em velhos furgões, criando alianças que lhes rendessem fotos e vídeos exclusivos...

Era interessante que Adam os visse como carniceiros – eles e apenas eles. Não estava ali fazendo exatamente o mesmo? Oh, não! É claro que não! Que ideia! Era somente um cidadão preocupado tentando entender todo aquele circo; não tinha gosto algum naquilo. Céus! Não.

Eis o ponto que sua obsessão tinha alcançado. Já negava veementemente para si próprio, defensivo, áspero, diante a menor consideração de que talvez já estivesse um tanto envolvido com toda aquela loucura.

Via com asco as fotografias batidas dentro da casa do agora finado Ortiz, em Dearborn. Aquilo parecia ser trabalho dos próprios agentes da perícia, tudo muito bem iluminado, enquadrado, coisa feita sem pressa. Vazamentos assim são irregularidades

e, às vezes, custa o emprego de alguém, porém, na maioria dos casos, passam batidos. Azar dos investigadores, sorte dos mórbidos curiosos.

No caso de “A Casa dos Horrores de Dearborn”, o responsável pelo vazamento ainda devia estar lá dentro, registrando tudo e enviando uma cópia de cada foto para os servidores da polícia e outra para páginas como “O Necrotério de Michigan”, outra das acessadas por Adam. Se por acaso alguém o questionasse, o bom servidor diria: “Eu apenas as enviei para onde visa o protocolo. É uma pena que vazaram, mas como podem dizer que fui eu?”.

Lauren Hazel não fora uma menininha assustada. Seu mal-estar era até bem justificado. Adam mesmo, que nos últimos dois anos havia meio que se especializado em ver coisas horríveis, agradeceu por não ter nada no estômago além de duas latas de cerveja. Achou que se tivesse comido aquelas almondegas congeladas que cogitara para o almoço, agora elas estariam a meio caminho de volta.

Malditos sádicos, esses Los Chacais! Todos eles. Adam mal podia acreditar no tamanho da imaginação deles no que dizia respeito a causar pavor em seus inimigos. Achava que, se por um infortúnio, suas presas terminassem liquidadas apenas por tiros, devia ser uma chateação. Bom mesmo era quando conseguiam apenas feri-las e, com muito cuidado, acomodá-las no porta-malas de um carro a caminho de lugares como a casa de Ortiz Delano.

O Atelier de la Mort de Dearborn era preparado para receber adequadamente seus convidados especiais. Lá, eles poderiam gritar e espernear, implorar e oferecer dinheiro e até a mãe, que de nada adiantaria. A diversão preferida de Ortiz, pelo visto, era fazer uso de uma eletroserra de jardinagem para enviar suas “encomendas” para o grande além.

Ali, em seu castelo, Ortiz era o próprio Leatherface.

Os cerca de quinze corpos (era impossível uma contagem precisa com tantos pedaços) dependurados em ganchos e cordas pelos três quartos, apresentavam todo tipo de cortes. Se um possuía só o tronco e a cabeça, no outro ao seu lado faltavam as pernas e noutro mais adiante, os dois braços; se o anterior houvesse sido serrado na vertical, o seguinte tinha lacerações na diagonal... Uma grande bagunça!

O taco original fora substituído por grandes lajotas de piso frio branco, o que dava ao lugar realmente a aparência de um abatedouro; os baldes cheios de sangue bem debaixo de cada corpo também ajudavam. Adam pensou em porcos, sacrificados, esgotados e depois cortados.

Johnny Cash começou a cantar Hurt, contando como se machucara para saber se ainda continuava a sentir o mundo que se despedaçava ao seu redor; era o celular de Adam. Tocou bem quando ele havia começado a estudar as fotos tiradas dos freezers, cheios de membros e cabeças decepadas. Depois de deixá-lo tocar boa parte da música, Adam o apanhou e atendeu ao irmão, James.

— Pronto, Jimmy.

— Oh, Aleluia! Você ainda faz parte do mundo dos vivos!

— Pois é — respondeu Adam, desinteressado. — Eu faço sim.

— Está ocupado?

— Mais ou menos — disse Adam, sem entrar em detalhes de sua ocupação.

Os dois nunca foram os irmãos mais companheiros do mundo; Adam sempre fora um tanto reservado – mesmo quando mais jovem – e James o havia aprendido a respeitar (deixá-lo de lado, para ser mais honesto), mas de dois anos para cá, depois da morte de Miranda, sua reclusão vinha sendo preocupante.

— A mama e o papa disseram que faz uns dois meses que você não passa lá.

— Puxa — estranhou Adam —, já faz tudo isso?

— E você não sabe? Espere aí... Sabe que estamos em novembro, né?

Ah, o humor afetado de Jimmy. O que Adam faria sem ele?! Talvez se sentisse um pouco menos inclinado a evitá-lo, para começar.

— Treze de novembro — disse Adam — e tenho duas revisões para entregar; uma na quarta e outra na sexta que vem, então...

(Mas você não estava ocupado exatamente com suas revisões, não é?)

James entendera que aquilo significava “Ok, já se certificou de que estou vivo, agora pode desligar e voltar a ligar dentro de mais dois meses”; no entanto, Eleanor e Francesco Santorini deviam tê-lo apanhado de jeito numa de suas visitas (que eram

bem mais regulares) e falado até que seu cérebro virasse bolonhesa para que tentasse convencer a seu fratello a ir visitá-los, a não seguir com aquele luto que já se tornava doença. Então desta vez ele se esforçaria um pouco mais:

— Roteiros ou livros? — tentou.

— São dois livros. Serão lançados em janeiro.

— Certo. Bom, Adam, eu telefonei porque tenho duas coisas para te contar. A primeira é boa – para mim –, porque pelo menos soube que sua cisma não é comigo, já que não visita a mama e o papa também há um bom tempo. A segunda, talvez seja ruim – para você –, porque me pediram para insistir que passe junto da gente o Dia de Graças. Sem termos de ir buscá-lo, de preferência.

Oh, lá estava. As benditas festas de final de ano. Delegaram a James este ano a missão de convidá-lo. Adam baixou os olhos da tela tingida de vermelho à sua frente um instante. Imaginou a mesa de ceia perfeita de Ação de Graças propagandeada pelo velho Frank Thorne, as comidas, o opulento peru de tio Ernest (o nome que todo bom americano conhece, não se esqueça disso!) e a família feliz, com sorrisos ofuscantes. Em seguida, substituiu-a pela sua.

— Você ainda está aí, Adam? — perguntou James.

Adam estava. Via sua mãe, Eleanor, sentada ao seu lado, solidária, paciente, empurrando-lhe comida; via seu pai cortando um pedaço de peru em quadradinhos para o pequeno Nico; James e Connie entretidos com Cassidy no bercinho junto à mesa... Tudo muito aconchegante. Contudo, e aquela cadeira vazia ao lado da dele? Quando pensava nela, desocupada para sempre por respeito (pelo menos quando na sua presença), imaginava se ainda eram mesmo tão felizes e unidos, se não agiam daquela forma somente por comiseração.

Queria não ter de passar mais um ano por isso e... Espere um momento. Que diabo de cheiro era aquele? De repente, um odor acre, meio adocicado e que o fazia lembrar-se de coisas mortas invadira discretamente a sala. Não havia nada ali que pudesse causá-lo. Adam tentou ignorá-lo de início, no entanto, a cada inspirar, um resquício de fedor o incomodava. Pensou em perguntar a James se também o sentia, o que seria meio ridículo, não? Embora morassem a não mais que doze quadras de distância, o bom senso o cutucava com uma bengala “Ei, paisano, não complique ainda mais as coisas. Isso está só dentro desta sua cabecinha”.

— Eu... Acho que estarei fora de Michigan no final do mês — respondeu, por fim. A desculpa, a mais xexelenta. — Terei uma reunião com o pessoal de uma editora em Wisconsin, uma trilogia adaptada de...

— Adam. Ei, Adam... — interrompeu seu irmão. — Nem meus chefes, aqueles cretinos mercenários, terão reuniões no feriado. Vamos lá, te dou um tempinho e você tenta outra, o que acha?

— Hummm... Eu não estou a fim. Serve essa?

— E que tal se você nos desse uma chance, hein? — insistiu James, simpático. Adam acreditava que ele estava realmente sendo sincero. Podiam não ser próximos, mas o pouco convívio que tinham era aceitável. Porém, certamente James ficaria feliz de desistir agora mesmo se não fosse pelos pais. — Vai ser lá em casa; venha ver a gente, cara. Faça um agrado para os velhos. Sabe que sentem sua falta!

— Apelando para o sentimental, Jimmy?

— Talvez. Deu certo?

Se havia dado – por menos que fosse – ou se Adam apenas queria encerrar a conversa, só ele poderia dizer, porque a resposta que deu foi:

— Vou pensar.

— Vai... Como assim? Não é tão difícil.

— É. Vou pensar. Já não lhe parece promissor?

— Você é difícil, Adam. Mas pelo menos não foi o “não” que eu esperava.

— Viu só? Agora eu realmente preciso voltar ao trabalho, Jimmy.

— Tudo bem, manolo. E procure se cuidar, certo? Mama disse que estava meio magro da última vez que o viu. Ainda pede comida do Stufa Siciliana?

— De vez em quando, sim.

— É uma merda. Qualquer hora vai te intoxicar — disse James e deligou.

Na sua frente, uma das cabeças guardada num freezer de Ortiz – pertencera a uma jovem – tinha uma longa cabeleira loira e estava toda empapada em sangue.

Adam a associou idiotamente à macarronada da cantina italiana e sentiu a faringe se alargar. Achou que era hora de parar de ver aquilo. Para finalizar (só mais essa, juro!), atualizou a página e viu que algum dos abutres havia postado duas fotos de Ortiz Delano caído ao lado de sua caminhonete.

É. Realmente virara recheio de burrito.

Você ficou quase tão bem quanto suas vítimas, Gonzalito, pensou, fechando a página e desligando o laptop.

E qual o significado daquilo tudo? Ortiz e seus distintos associados tomaram gosto por matar, esfolar e barbarizar um monte de gente (Adam não conseguia sentir muita pena das vítimas, os miseráveis deviam ter uma vida bem torta para acabarem nas mãos de um cartel mexicano. Com toda certeza não se tratava de abades, madres e coroinhas.) com serra elétrica, maçarico de propileno e alicates, e agora o açougueiro estava morto, reduzido à geleia.

Aquela dúvida, como todas as outras antes dela, iria incomodá-lo por um bom tempo. E quando (e se) encontrasse uma resposta satisfatória, já estaria com uma dúvida nova, fresquinha, rodopiando em sua mente.

19 de Abril de 2020 às 02:39 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Leia o próximo capítulo A MALDADE NO QUE DESEJA

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 6 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!

Histórias relacionadas

Mais histórias

As Chaves do Destino As Chaves do Destino
Presas Presas
Histórias curtas de terror Histórias curtas de ...