chrissykellerink Chrissy Keller

Não sou do tipo que, quando acorda, lembra dos sonhos que teve com clareza. Geralmente, são lembranças turvas e sem um real significado. Porém, dessa vez, posso dizer que me lembro de alguns detalhes, mas acho que é tolice classificá-lo como apenas um "sonho"... Para falar a verdade, eu gostaria de nem ter me lembrado.  Sabe quando você perde uma parte de si, mesmo que ela não tenha existido ou que nunca a tenha visto? Foi o que eu senti.


Drama Todo o público.

#sonho #família #relação #drama #ficção
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Capítulo único


Eu tive um sonho. Já tive vários sonhos, mas esse foi diferente.


Eu estava num belo lugar tropical e paradisíaco, mas não sei qual era o nome do lugar, nem das pessoas que lá habitavam. Também não sei qual era o nome dela. Ela era a minha filha. Ainda que a sua imagem estivesse turva, percebia-se que seu tom de pele era bronzeado e que seu longo cabelo era parecido com o meu, embora fosse menos cacheado. Ela parecia ser muito bonita e seu grande sorriso era tão encantador que parecia iluminar parte de sua face turva. Ela era alegre, descontraída e tinha um forte espírito de independência, o que fazia as outras pessoas ao redor se encantarem por ela.


Era estranho eu, com a idade que tenho agora, ter uma filha adolescente naquele sonho. Ouví-la me chamar de "mamãe" era bonito, mas, ao mesmo tempo, perturbador. Eu podia perceber que ela sentia a minha tensão, mas seu jeito carinhoso e alegre continuavam lá, fazia parte do que ela era.


Como não sei o nome dela, irei chamá-la de menina.


A menina era inquieta, sempre procurava ajudar a quem precisava e também outras coisas úteis para fazer. Como morávamos no litoral, ela mesma se indicava para ajudar na pescaria e algumas vezes no corpo de salva-vidas nos finais de semana. Ela era um exemplo a ser seguido para os demais adolescentes e crianças daquela região, o que, de certo modo, me enchia de orgulho.


Ainda era estranho saber que eu tinha uma filha, ainda mais uma daquela faixa etária, mas aos poucos me acostumei com ela e com sua presença. A menina era mais alta que eu e tinha as curvas do corpo mais formadas também, o que atraía a atenção e os olhares maliciosos da maioria dos rapazes, o que não me agradava. Sempre soube em meu íntimo que, se eu fosse mãe, seria super protetora, o que de fato estava acontecendo em minha relação com a menina. Porém, diferente da maioria dos adolescentes que sentem vergonha dos pais, ela gostava e achava engraçado. Ela era uma pessoa carinhosa que não deixava se abalar por coisas banais, uma das coisas que a diferenciava de mim, o que fazia outras pessoas de todas as idades admirá-la e terem um forte carinho por ela.


Eu já não tinha mais tantas reservas em relação à menina, e em algumas vezes eu me flagrava acariciando ou penteado o longo cabelo dela, contando curtas histórias antes de ela dormir, ainda que ela já fosse uma moça crescida, e sorrindo junto com ela ao falarmos sobre coisas da vida. Já não me incomodava nem um pouco ouví-la me chamar de mamãe.


A menina foi conhecendo mais pessoas e fazendo amizades com turistas que chegavam naquela região. Ela continuava a estudar e a trabalhar, garantindo parte do sustento da casa. Eu também trabalhava para ajudar, mas ela sempre insistia que não era preciso, pois trabalhava em dois lugares. Era óbvio que eu não me importava para as insistências dela, pois nunca gostei de ficar sem fazer nada, ainda mais num lugar parado como aquele, mesmo que fosse o esboço do paraíso.


Era sempre bom voltar para casa com ela, ouvindo sobre suas experiências de cada dia e o que aprendeu. Em uma das noites antes de irmos dormir, a menina ergueu a cabeça em que antes eu estava fazendo cafuné e sorriu para mim, contando o que mais almejava no momento. Ela me disse que queria começar a praticar um esporte chamado "stand up paddle", pois muitos turistas que habitavam temporariamente a região eram adeptos e ela havia se interessado. Normalmente, eu diria que talvez não fosse uma boa ideia ou que ela não era todo mundo, assim como toda mãe faz, mas decidi que ela precisava e merecia se divertir.


O tempo foi passando e a menina continuava a fazer as mesmas coisas de sempre: estudava, ajudava na pescaria e trabalhava como salva-vidas aos finais de semana, tendo depois como entretenimento o esporte praticado pelos amigos que havia feito. Não era algo que pudesse me preocupar, como o surf, por exemplo. Stand up paddle parecia ser algo inofensivo, apenas ficar em pé em cima de uma prancha e remar por águas calmas.


A menina veio correndo até onde eu trabalhava e me pediu, com aquele enorme sorriso e com brilhantes olhos castanhos, para que eu deixasse ela participar de um campeonato do esporte que haveria na região. Não queria mimá-la, mas não pude dizer "não". Eu permiti que ela seguisse com o que gostava, pois, se ela estivesse contente, eu também estaria.


Ela me deu um grande abraço e eu correspondi. Algo ficou preso em minha garganta, como se eu quisesse dizer algo a ela, mas não consegui no momento.


Era bom vê-la contar suas experiências e o quanto gostava daquilo. Seu coração transbordava de felicidade, o que fazia eu me sentir bem e em paz. Mas, como mãe, eu sentia que havia mais naquela história... E, sim, eu estava certa. A menina agia igual com todos, menos com um dos rapazes. Um corava perto do outro, seus comportamentos ficavam sem jeito e seus corpos acidentalmente se tocavam de vez em quando, o que fazia eles corarem mais ainda. O rapaz era bem apessoado e parecia ser uma boa pessoa, mas não posso dizer que eu estava feliz em estar prestes a me tornar sogra.


As férias haviam acabado, mas o número de turistas não havia diminuído, pois o campeonato de stand up paddle ia ser realizado lá. A menina estava tão contente e ansiosa. Para ela, não importava quem seria o vencedor, mas a mais nova experiência que estava tendo junto das pessoas que eram queridas para ela.


Mesmo com um campeonato tão importante e aguardado acontecendo, os nativos da região não ficaram parados, todos os comerciantes continuaram com seus afazeres e obrigações, o que também me incluía. Pela televisão suspensa, eu via um após outro entrando em alto mar e tentando manter-se de pé, remando contra as ondas que não eram tão grandes. Havia chegado a vez da minha filha, mas as pessoas em volta da praia tiveram de esperar por sua presença, o que havia me preocupado um pouco.


Contudo, diferente de qualquer pensamento inoportuno ou alguma peça que meu consciente estivesse me pregando, a menina veio correndo em minha direção e me abraçou forte.


A vez dela havia chegado, mas ela quis pedir a minha bênção primeiro. Eu a dei e permaneci um longo tempo abraçando aquela menina encantadora. Ela me beijou no rosto e disse que me amava, como sempre fazia. Eu nunca havia dito a ela, mas decidi que o momento havia chegado, apesar desse sentimento ainda ser tão estranho para mim. Também disse que a amava, e a amava muito. Uma solitária lágrima desceu por sua face e ela sorriu, correndo para longe ao ser chamada mais uma vez pelo locutor do evento.


Continuei meus afazeres, olhando de relance para a TV nos raros momentos que eu tinha de descanso, e sorrindo orgulhosa para cada movimento que ela fazia. Decidi comprar uma boa quantidade de camarões grandes para fazer quando chegássemos em casa, pois eu queria comemorar uma conquista da minha filha, mesmo que ela não ganhasse qualquer prêmio. Ela já era uma vencedora, de qualquer modo, e um verdadeiro prêmio e conquista para mim.


Em outro raro momento de descanso, olhei mais uma vez para a TV e percebi que havia uma grande aglomeração de pessoas, mas, dessa vez, em um ponto específico. Pelo visto, já haviam anunciado um vencedor e as pessoas estavam comemorando.


Dei graças a Deus por já terminar o meu turno e poder ir para casa. Eu gostava de trabalhar e gostava de estar com os meus amigos, mas aquele dia era especial, eu queria comemorar com ela, com a minha filha. Ela podia levar aquele rapaz, eu não iria fazer qualquer objeção, afinal, eu havia comprado tantos camarões que daria para oferecer um banquete.


Continuei a andar bem e relaxada, embora cansada, na direção onde ocorria o campeonato, para me encontrar com ela e irmos para casa juntas. Um som familiar me chamou a atenção e olhei para a esquerda, notando que uma ambulância passava apressada e com a sirene ligada em direção a mais à frente da praia. Certamente, alguém havia se acidentado. Olhei para a frente e notei que a mesma aglomeração continuava no mesmo lugar, o que era um tanto estranho.


Minha tranquilidade e o sorriso no meu rosto haviam desaparecido, dando lugar a sentimentos de aflição e desconforto. Meus passos ficaram mais apertados sobre a areia molhada e fui me aproximando cada vez mais do maior ponto de aglomeração. Um dos garotos mais conhecidos da região, e que também era amigo da menina, afastou-se do ponto e fitou-me com lágrimas caindo sobre seu rosto, seus olhos arquearam ao notar minha presença. Outras pessoas nativas daquele lugar também notaram a minha presença e uma delas murmurou o meu nome com uma voz fraca. Eu não entendi o que, de fato, estava acontecendo e continuei seguindo em frente, com o coração batendo mais forte, até que pisei em outro território.


O lugar era deserto, sombrio e as nuvens eram tão cinzas e pesadas que dava a impressão de que o céu era negro. A areia da praia não era branca ou dourada, mas vermelha. Vermelha como sangue. Não havia uma única alma viva, somente um pequeno ponto no centro. Corri mais adiante para ver do que se tratava; o ponto era ela.


Fiquei um bom tempo parada sem saber o que fazer até meus joelhos cederem e caírem perante aquela imagem horrível que eu jamais imaginaria que veria algum dia. O tamanho do corpo e o lindo cabelo não escondiam quem era, embora todo o seu tom de pele dourada fosse substituída por uma pele esbranquiçada e enrugada pela água. A parte direita de sua barriga praticamente já não existia mais e então percebi que a cor vermelha da areia da praia não era assim por natureza, mas vinha dela, do sangue da minha filha.


Eu me agachei sobre ela e a peguei com cuidado, pondo sua cabeça apoiada sobre o meu coração. Embora aquele estranho lugar estivesse vazio, eu conseguia ouvir vozes de pessoas chorando e se lamentando, outras falando sobre tubarões e outras se culpando pelo que havia acontecido. Mas eram vozes baixas, com ruídos desconexos, não por serem assim, mas porque toda a minha atenção estava voltada para a menina em meus braços. Eu não queria mais ouvir aquelas vozes ou o incomodativo som de sirene, apenas continuar acariciando o longo cabelo que ela sempre pedia para eu fazer uma trança antes de ir dormir.


Lágrimas desceram dos meus olhos e eu sabia que elas não iriam cessar. Nunca.


Acordei e sentei-me desorientada na cama, estranhando aquele sonho que tive. Tinha sido apenas um sonho, tão estranho como todos que eu já tive antes, mas que me afetou mais do que qualquer outro. Ainda que eu não seja mais tão nova, não tenho filhos. Entretanto, ainda assim, sinto que perdi uma grande e preciosa parte de mim.

16 de Abril de 2020 às 10:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Chrissy Keller Sou muito lerda.

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