-cezareduardo Eduardo Cezar

A principal característica de qualquer personagem é ter uma rotina.


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ROTINA

Esforçava-se para ter uma rotina. Algo que fosse além do trivial acordar, levantar, vestir, escovar, às vezes banho, passar o café no coador porque a cafeteira estava quebrada. Queria ter algo que fosse especial. Mas não alcançava nada além de manias que não duravam.

Acordava todos os dias às 6:25. O despertador tocava às 6:30 quando estava ou escovando os dentes ou em pé na frente da pia da cozinha com a chaleira nas mãos. Saía de casa às 7:08 e dali levava doze minutos a pé até a escola. Ia pela rua de cima, tinha menos declives do que a rua debaixo. Levaria menos tempo se não parasse toda vez para dar uma afagada no cachorrinho branco da casa com ipê amarelo na frente. Em torno das 7:12, passava em frente a uma casa onde uma mulher fumava em pé na varanda. Geralmente era por aí que a música que ouvia terminava e dava lugar a próxima.

Acordar cedo para correr, então, estava fora de cogitação.

Batia o ponto às 11:30 para o horário do almoço. 13:15 já tinha que estar dentro da sala de aula. Não podia então ter um restaurante favorito – 1) não tinha carro e 2) a pé não daria tempo. Almoçava na escola, sempre às 11:38, quando as crianças já não estavam mais à vista. Como companhia, a supervisora da escola. Atas, reuniões, substituições. Às 11:50, esperava a última passada de pano da faxineira no chão da sala dos professores, onde, às 12:20, deixava o chimarrão pronto e o café passado.

Fazer qualquer coisa à tardinha que não fosse cochilar estava fora de cogitação. Antes do cochilo ele ainda tinha que fumar um cigarro, dar ração para os gatos, conferir a caixinha de areia. Não sobrava muito mais tempo para criar uma rotina. À noite ainda ia para Universidade.

Se tivesse, meu deus, um roupão para usar quando saísse do banho; um chá que fosse o seu favorito; não poderia escolher um livro para ser sua leitura-de-antes-de-dormir: não tinha bidê.

Só saíra para correr uma vez. Perdeu o fôlego muito rápido e teve de voltar para casa. Dois domingos foram aproveitados para tomar chimarrão na praça, mas a erva ficou muito velha no pacote.

Até que um dia ele perdeu sua rotina. Foi roubada. Tirada de suas manhãs. Não tinha mais cachorrinho no ipê amarelo, sem chimarrão depois do almoço na escola e também restaurantes estavam proibidos. Nunca quisera tanto ter de enfiar o dedão em um leitor vermelho grudado na parede. Os despertadores perderam o sentido. Não podia mais sair de casa. Tudo que precisava era uma caminhada no parque, mas era proibido.

Lembrou então que ele tinha uma televisão na sala. Demorou até conseguir aceitar o fato de que agora sua rotina seria essa. Encontrou uma caixinha de chá (bons sonhos), sempre gostou daquele. Embaixo de blusões e moletons, um roupão azul que nunca havia usado seria agora seu uniforme. Colocou uma cadeira de praia no canto, conseguia tanto assistir tv quanto olhar para rua. Ali arrumou um apoio para o cinzeiro e da estante retirou um livro que não havia terminado. Ligou o aparelho. Qual era aquela novela do Vale a pena ver de novo mesmo?

15 de Abril de 2020 às 01:45 3 Denunciar Insira Seguir história
2
Fim

Conheça o autor

Eduardo Cezar Acadêmico do curso de Letras da UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul). Amante da literatura brasileira, principalmente a contemporânea, grande fã de Harry Potter, Jogos Vorazes e Senhor dos Anéis.

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Eduardo Miranda Eduardo Miranda
Rotina Olá! Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Gostei muito do texto apresentado, refletiu muito bem o sentimento coletivo que estamos vivendo, deixando claro com as descrições inseridas o local e época que se passa a história, esse detalhe é muito importante para o leitor “entrar” no ambiente do personagem. Senti falta deste detalhamento no personagem, mesmo assim consegui visualizar a base de sua característica, com mais detalhes, o personagem além de se tornar muito mais próximo de uma realidade enriquece o texto de um modo geral. Uma dica, sempre que se referir à Deus use letra maiúscula e quando for pontuar algo que considere importante no meio do texto, evite colocar numeração, sempre que possível use asterisco, sublinhar ou parênteses, isso irá enriquecer seu texto. Na metade do texto, quando é descrito sobre “a corrida que ele perdeu o fôlego”, foi um trecho que me perdi um pouco, contudo, no final foi possível sentir o conflito do personagem entre o desconforto de sair de sua rotina e a oportunidade de poder fazer coisas que até então não lhe eram possíveis. Parabéns Eduardo, É um texto bem realista e cativante, continue em frente você tem talento.
August 28, 2020, 20:58
DC David Cassab
Gostei bastante cara.
May 01, 2020, 02:07

~