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Chamada inconveniente

-Quem está ligando? - Mário coloca o pão em cima da mesa e alguns frios para o café da manhã.

-É do trabalho... - menti e recusei a chamada.

-Está legal? - Mário insistia de forma desligada na conversa, estava mais preocupado em montar o pão do que realmente perceber as falhas da minha voz mentirosa.

-Razoável. - Dei uma suspirada e bebi o café. - Preciso ir.

Todo dia era essa mesmice dentro de casa. Mário acordava, tomava café, ia pro trabalho, voltava, tomava café, ia pra cama, dormia oito horas e acordava. Mário era um cara legal, pagava as contas, trabalhava duro para que a gente tivesse o melhor possível, mas vivia em modo automático. Não existia romantismo, não existia uma palavra mais agitada e não existia planos para o futuro. Era o que era e ponto final. E por isso, eu inventei que trabalhava.

Era inventado, porque eu não ganhava dinheiro. Mas era um trabalho, porque eu ganhava prazer. Dinheiro era consequência. Todos os dias, para dar uma mudada na minha rotina, eu ia para uma sala fechada, que ficava nos fundos da garagem de uma tia querida. Era um antigo estúdio de gravação para telemensagens. E ali tinha apenas uma poltrona, um telefone pré-pago, um adaptador de tom de voz, uma mesa e alguns acessórios sexshops.

Eu era uma secretária sexual que atendia telefonemas para satisfazer a outra pessoa da linha. Entrava em suas fantasias, sugeria novas e assim eu mantinha uma relação de satisfação pessoal com meus clientes. Muitos me pediam apenas para que eu fosse uma "mulher normal". Xingá-los, humilhá-los, cobrá-los por desempenho sexual maior, chamá-los de corno e agir como uma dona de casa desesperada por sexo, o que de fato eu era. Outros me faziam viajar para Paris, Japão ou Veneza para um cenário mais romântico. Como se estivéssemos ao vivo e a cores, só que apenas voz e imaginação.

Tinha um pequeno rádio também que, às vezes, eu usava para criar um clima. Em média, meus clientes eram homens de 35 a 50 anos, que queriam falar putaria com alguém e não podiam expressar esse sentimento com suas maculadas esposas frígidas. Por isso, me ligavam. E um dia, quem me ligou foi Mário.

-Alô? - gelei. A mensagem automática de introdução à ligação avisava sobre o conteúdo e finalidade, para evitar perda de tempo de pessoas que ligavam enganado e para confirmar o atendimento com uma de nossas secretárias super dispostas e sexualmente ferozes prontas para satisfazer qualquer desejo. E todas elas eram eu. Mas Mário ouviu tudo até o final, e confirmou - É isso mesmo, quero realizar as minhas fantasias.

-Oii, amante... O que você quer fazer comigo hoje? - Utilizando o adaptador de voz, continuei falando de forma profissional com ele.

-Você atende em casa? - Segurei a respiração. Seria traição?

-Não, querido... Apenas por voz. Eu já estou de pernas abertas aqui. O que você quer fazer comigo hoje? - Normalmente eu realizava em mim o que os meus clientes pediam, mas com Mário, eu estava curiosa.

-Você pode fingir ser a minha mulher? E diga que quer me dar como foi na nossa lua-de-mel. - Meu coração acelerou. Mário sentia saudade de mim?

Encerrei a chamada. Joguei o telefone no lixo e larguei tudo para trás. Queria Mário. Estava nervosa e ressabiada. Ele tentaria outro número? Chamaria alguém para a nossa casa? Por que ele não estava trabalhando?

Entreguei a chave do estúdio para a minha tia e dei um beijo nela.

-Tia, obrigada, não precisarei mais disto! - Enquanto ia para casa, lembrava de quando nos casamos e como éramos felizes. Não lembrava bem ao certo quando a rotina tinha matado nosso clima. Mas agora ele estava ali, tão desesperado quanto eu. E o que eu fazia em relação a isso? Nada. Eu apenas fugia. Entrei às pressas dentro de casa.

-Mário, Mário!

-O que houve, Cátia? Não devia estar trabalhando? - Fui pega de surpresa. Mas disfarcei, como sempre faço.

-Me demiti, Mário! Quero servir a ti. Ser dona da casa. - Ajoelhei à sua frente e abracei suas pernas. - Podemos falar sobre o seu trabalho todo dia de manhã, se quiser!

-Mas, Cátia... Faz dois dias que trabalho em casa. - ele me puxou pelos ombros e me ergueu. - O que te deu?

-Está tudo bem, tudo bem! Por favor, faz o que quiser comigo, Mário! - Alisei sua barba mal feita.

-Cátia, seja minha mulher, Cátia! - Mário desceu sua mão e apalpou a minha bunda.

14 de Abril de 2020 às 00:21 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Krishna Grandi Sou escritora, atriz e futura publicitária. Gosto de escrever sobre tudo um pouco, mas tenho focado em escrita erótica, contos de terror/horror e comédia. São os meus favoritos. Quero fazer amigos, contatos e parcerias. Contribuições sinceras e construtivas são sempre bem-vindas! Um beijo.

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