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Frann Santana


A vida adulta é como brincar de batata quente, quando cai em sua mão você não pode passar a responsabilidade para outro. Florescer conta a historia de Ana Laura Oliveira, uma jovem que depois de ter voado da casa dos pais não percebe que ainda vive em uma gaiola, atrás de grades difíceis de se ver. O destino no entanto faz com que uma linda amizade surja entre ela e Melissa, uma menina órfã com o coração tão grande quanto o black que usa, e com o sorriso tão doce quanto as flores que vende. Com passados bem diferentes elas encontrarão desafios a vencer. Mel tentará convencer Laura que ser criança é a melhor coisa do mundo, e Laura... Bom, Laura vai descobrir que é possível ser adulta sem deixar de sonhar. Se você procura um livro leve e com cheirinho de rosas, seja muito bem vindo!


Romance Contemporâneo Todo o público.

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Capítulo 1

Todo bairro tem um mercado pequeno. E sempre, sem sombra de dúvidas, existe alguém que persegue outro alguém. Ana atravessou a pista correndo, deixando atrás de si um motorista velho, dentro de um carro tão velho quanto, soltando alguns palavrões enquanto apertava freneticamente sua gasta buzina. Era de se esperar esse comportamento, a cidade não era tão movimentada. Com certeza, a atitude impensada da Ana resultaria em uma notícia sensacionalista no pequeno jornal do bairro. Logo na esquina estava o seu ponto de trabalho nada convidativo, com o sobrenome de um dos donos em letras verdes, gastas pelo sol e chuva.

— Está atrasada, mocinha.

— Conta uma novidade, Hanah. Cadê a coruja?

Nos últimos dias Ana Laura - ou apenas Laura, como gostava de ser chamada - se aperfeiçoou na arte de se atrasar. Se ajeitou na cadeira, tirou a placa de caixa fechado e ajustou seu lenço vermelho no cabelo.

— Próximo!

A fila dissipou enquanto a senhora Margô caminhava pelo corredor com passos curtos e apressados. Medindo 1,55 de altura e de formato rechonchudo, fazia jus ao apelido recebido.

— Hum, hum! Atrasada novamente, senhorita Gabriela? — Falou olhando por cima dos seus óculos redondos. Ela sempre a chamava pelo nome de uma antiga funcionária.

— É Laura, Ana Laura! — Retrucou corrigindo-a — E só cheguei 3 minutos atrasada. O cachorro da vizinha comeu algo estragado e vomitou na porta da minha casa. A senhora acredita nesse azar? Tadinho, nem sei se ele se recuperou.

Enquanto ela discorria sobre o incidente oscilando entre o próximo cliente e amiga do caixa ao lado, Margô foi se afastando, fazendo caras e bocas como se estivesse tendo flashes de memória.

— Acho que meu sapato ainda está sujo, olha isso aqui.

Quando Laura virou-se, Margô já não estava mais lá. E no caixa do lado Hanah não conteve o riso.

— Amei a história! Quando crescer quero ter sua imaginação. E qual era a raça mesmo?

— Qualquer uma que ponha uma coruja para correr, ou voar.

Ambas sorriram e trocaram cumprimentos, havia nitidamente um complô contra a gerente Margô. Enquanto isso os clientes começavam a passar suas compras.

O final do expediente estava se aproximando e alguns funcionários já tinham apressado seus passos. Junior ia para a faculdade, Cris pegaria sua filha na creche e Kira... bom, Kira ia para a primeira balada ou barzinho que visse pela frente.

— Oi, Laurinha. Você está tão bonita hoje...

Igor comentou com sua voz baixa e tímida. Ela sorriu sem graça em resposta. Nunca fez mal ser educada. Mas ouvir seu nome no diminutivo lhe causava pequenos ataques de raiva. Fora que só olhar para a camisa verde por dentro da calça, já dava agonia em qualquer garota. Igor era conhecido como o cara do estoque. Todo mês se apaixonava por uma garota diferente. E era paixão mesmo, daquelas que faz alguém escrever cartas, comprar flores e montar lista de presentes do casamento. Fazia algumas semanas que a presa era a Laura, que se desviou dele, torcendo para Hanah não ter visto a cena.

Do lado de fora a brisa fria a fez suspender a gola da farda.

— Moça, quer comprar uma flor?

Uma voz interrompeu o silêncio do começo da noite, fazendo-a se perguntar porque uma criança estaria sozinha na rua vendendo flores.

— Olá! Hoje não, pequena. Cadê seus pais? É melhor voltar pra casa. Agora eu vou para a minha descansar. Tô exausta.

Dando as costas prosseguiu em uma conversa aleatória com a companheira de trabalho, que havia a alcançado.

— Eu não tenho pais.

As duas pararam no mesmo instante olhando de novo para a garotinha que levava uma cesta de palha.

— Oh, eu sinto muito. Eu não sabia. Quanto é a flor?— Perguntou Laura, comovida.

— É R$ 5,00.

Nesse instante ela pôde perceber o quanto aquela criança parecia especial, como se tivesse saído de um dos livros infantis de aventura que ela lera quando mais jovem. Negra do cabelo crespo e olhar doce, ela sorria de canto, aguardando tão somente vender mais uma das poucas flores que restavam. Tirando o dinheiro da bolsa, Laura comprou duas flores. A menina agradeceu e seguiu adiante, deixando-a com aquela sensação de ser presenteada com um personagem incrível, sensação essa desconhecida para a Hanah, que só queria saber de festas.

— Acorda, garota! Se apaixonou pela menina? Adota logo, leva para a casa, madre.

Laura desconversou entregando uma das flores a amiga, e seguiu adiante com ela até seu pequeno apartamento, as ruas eram calmas, nada comparado a cidade grande, de onde vinha. Sentia falta das buzinas, das praças cheias de casais, alguns com filhos. Gostaria de voltar para a rotina do ensino médio, dessa vez em uma faculdade que ela mesma escolhesse, pra variar.

— Laurinha, você tem uma vida de adulta. Definitivamente te invejo.

— Você está brincando, não é Hanah?

Laura pensava na implicância de sua amiga com seu nome no diminutivo, porém pensava também no turbilhão de coisas que ela enfrentou para chegar onde estava. E adulta era a última coisa que ela achou que seria chamada. Maturidade era uma meta a ser alcançada ainda.

— Claro que não. Você tem 23 anos, trabalha, eu também. Mas você tem uma casa só para você. E isso não tem preço. Tem ideia do que é morar numa casa com um universo inteiro lá dentro? Não aguento mais isso, desde que saí da casa dos meus pais, morar com meus tios tem sido um pedacinho do caos. Eu não posso nem ir no banheiro em paz. Não lembro qual a ultima vez que coloquei tudo para fora, me entende?

— Amiga, não deve ser tão ruim. E aqui as vezes é bem apertado e solitário. Tem cheiro de mofo, os móveis tinham que ser planejados para caber o que precisa. Ah, falei que era apertado? Só para ressaltar mesmo — Laura riu.

— Tudo bem, plebeia. A princesa aqui precisa ir para casa que não é minha.

Elas se despediram, mas antes de ficarem muito distantes, Laura perguntou:

— Te vejo amanhã?

— Não estou na escala, gata. Vai nessa fé e me representa.

Enquanto uma seguia seu caminho se vangloriando da folga do dia seguinte e fazendo aquela dancinha da vitória, a outra entrava no seu prédio, deixando o frio para trás. Conferiu a caixa de Correios e só achou algumas contas básicas, nada de cartas. Para sua sorte ela não tinha cartão de crédito. Sua mãe costumava afirmar que cartões sugam a alma. Subiu alguns lances de escadas até chegar ao seu pacato lar. Que também não era seu, era alugado. Se entrasse de olhos vendados não se perderia. Ela até já havia tentado como forma de passatempo, mas a kitnet era tão pequena que perdeu a graça em segundos. Pegou um dos vários copos long drink que ganhou de lembrança de algum aniversário, colocou água e a flor lá dentro.

— Vamos ao jantar da noite. O que temos no cardápio? — Falava enquanto remexia as prateleiras da geladeira — Pizza de calabresa, atum, a metade de um sanduíche? Acho que vou pegar tudo e servir na minha enorme mesa da sala de jantar.

Colocou tudo no microondas enquanto se abastecia de refrigerante. Três minutos depois e mais alguns passos chegou na cama. A sexta feira pedia uma maratona de séries, mas ela sabia que precisava terminar de ler o livro da semana e colocar a resenha em seu blog.

— Que comecem os jogos!

***

Já faziam alguns dias desde que Melissa tinha sido transferida para o atual lar temporário.

A Casa Verde tinha mais 4 meninas na mesma situação. Algumas mais velhas, outras mais novas. Mas no quesito esperança, Mel tinha 8 anos de pura expectativa. Todas desejavam uma família, principalmente aquelas que diziam o contrário.

— Dona Joice, com licença. Já cheguei.

Disse Mel, deixando o caderno e o lápis que levou em cima da bancada próximo à porta.

— Oi, Mel. Como foi seu primeiro passeio sozinha?

Joice era uma jovem senhora. Sempre que tinha tempo — o que não era comum — estava com um livro de romance na mão. E quando não tinha tempo estava na cozinha preparando algumas das suas gostosuras para ajudar a sustentar a Casa Verde, que nos últimos dias passava por alguns apertos. Se dependesse só dos seus biscoitos, ela e as meninas teriam muita sorte. Eles eram bem conhecidos na região.

— Foi ótimo! Não se preocupe que eu só fui até onde a senhora deixou. Onde estão as meninas? A casa está quieta igual um cemitério.

— Sente-se por favor — convidou Joice, tirando seus óculos de leitura e deixando seu livro na mesa de centro. — Elas foram fazer um trabalho da escola na casa de uma amiga. Como você ainda não começou suas aulas, eu achei que ia gostar mais de passear no seu tempo livre.

— Sabe de uma coisa? A senhora achou bem certo — Falou rindo enquanto se ajeitava no sofá com os pés balançando no ar.

— Me fale mais, o que está achando de toda essa mudança. Não te assusta?

— Para falar a verdade não. Eu gosto de mudanças, acho que me acostumei.

— É, eu vi no seu histórico — Disse Joice com um certo pesar na voz — Você já esteve em mais lugares do que deveria com tão pouca idade. Não sente saudade das amizades que fez?

— Ah, eu sinto e muita. Da risada estranha da Anne, das bonecas da Carina, ela era uma chata, mas a diretora do lar obrigava todas a dividirem seus brinquedos, então sinto falta apenas das bonecas. Até do Carlos eu sinto falta, ele era super brigão, mas no fim das contas ele tinha medo de mim. Acho que meu cabelo assustou ele.

— Seu cabelo? — perguntou Joice intrigada.

— Sim, a senhora não sabia?— perguntou como se aquilo fosse motivo de escândalo — Os homens respeitam mais as garotas que tem black.

— Sério? — Perguntou Joice.

Mel então se deu conta de que estava falando com uma mulher de cabelo liso.

— Senhora Joice, veja bem... Eu não quis falar por mal. Mas é o que dizem por aí.

— Tudo bem, Mel. Estou certa disso. Pode subir para tomar um banho, eu vou servir seu café — Disse enquanto se levantava e ia em direção a cozinha.

Antes de subir os degraus, Mel voltou-se para a senhora de cabelo liso, estendendo um envelope amarelo.

— Eu já ia me esquecendo, deixaram esse envelope na varanda.

Falou e saiu correndo degraus acima.

Ao abrir, Joice encontrou uma pequena quantia em dinheiro. Não era muita coisa mas com certeza ajudaria nas compras do dia seguinte. Imaginou ser mais uma das doações anônimas que o lar recebia, concluiu ela. E ficou grata por isso.

7 de Abril de 2020 às 20:10 0 Denunciar Insira 0
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