jace_beleren Lucas Vitoriano

Mathues, como toda pessoa com um pingo de bom senso, mantem distância da misteriosa e temida floresta habitada pelas enigmáticas fadas. Ao ser desafiado por uma amiga, que lhe promete "uma recompensa especial", caso ele traga uma fada viva até ela. O jovem adentra na floresta com o intuito de conseguir capturar uma das pequenas criaturas.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fada #misterio #fantasia
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Capítulo único

— Então, você aceita?

As palavras pairaram no ar com um sabor dúbio de desafio ousado e pedido inocente. Matheus mordeu o lábio inferior, inquieto e indeciso. A floresta se estendia a frente deles, assustadora em toda sua beleza e imponência. Alice sorriu daquele jeito faceiro e encantador que sempre o fazia sentir borboletas no estomago. Ela era tão linda e ele queria provar os lábios dela mais do que qualquer coisa nesse mundo.

— Te dou um beijo se voltar aqui com uma fada – disse de forma tentadora, repetindo a proposta. Seus olhos brilhando de uma forma maliciosa. Cativante, ela completou – não um beijinho qualquer, mas um beijo de verdade. Daqueles que o cavaleiro da na princesa nos livros.

Ele sabia que ela o estava manipulando, Alice conseguia fazer com que os garotos fizessem qualquer coisa que ela quisesse. Ela tinha dezesseis, apenas um ano mais velha que Matheus. O garoto, magro, de ombros largos e pés ligeiros, nunca havia beijado alguém. Tinha interesse em muitas garotas da aldeia: Rebecca, com seu jeito extrovertido e seu riso fácil. Tamara, com seus gestos mais ousados e, embora não parecesse tão feminina como as demais garotas, não deixava de ser atraente a sua maneira, e ainda tinha Emilly, a garota baixinha, sua melhor amiga, mesmo sendo uma pena que eles fossem apenas amigos.

Porém, ninguém exercia uma atração tão forte no garoto como Alice. Loira, magrinha e com um charme quase que mágico. Todos os garotos da aldeia suspiravam ao vê-la passar e o pior é que ela tinha total noção disso.

- Não sei... você não quer pedir uma coisa mais simples? – perguntou quase aos gaguejos – sabe como as fadas são perigosas. Ninguém que vai a floresta volta para contar a história. Minha mãe diz que elas comem criancinhas.

Em resposta, Alice riu de forma debochada, mexendo seus cabelos daquela forma provocativa que deixava o garoto desconcertado.

- Como as pessoas sabem que as fadas são perigosas se ninguém que as viu voltou para contar a história? Talvez essas pessoas que sumiram estejam todas bem. Só não voltaram porque a floresta é um lugar muito melhor do que essa aldeia pobre e sem graça aonde vivemos! – sua expressão se alterou com uma irritação passageira, mas logo voltou ao encanto natural - além do mais, você não é nenhuma criancinha. Ou será que é?

Matheus preferiu ignorar a última pergunta. Ele bem sabia como Alice odiava o fato de ser só a camponesa filha do padeiro. O que ela sempre quis foi fazer parte da corte. Sonhava alto, queria estar no lugar da própria princesa Amélia, e, em termos de beleza, Alice equiparava-se a princesa.

- Tem gente que voltou sim – retrucou Matheus lembrando-se de uma história que seu pai lhe dissera uma vez - aquela velha de Erora que...

- Okake? – Alice interrompeu-o com prepotência – aquela mulher é louca. Só sendo louco também para acreditar nas coisas que diz. Enfim, estou ficando sem paciência. Você aceita ou não? – ela deu de ombros com descaso - por mim tanto faz, se não quiser encontro um homem de verdade que aceite. Brandom ou Hugo... tenho certeza que Hugo aceitará.

Ela estava fazendo aquilo de novo, manipulando-o. Matheus sabia que estava sendo feito de idiota, sabia também que ela já havia pedido para Hugo, mas o garoto recusara. Entretanto, valia a pena ser feito de idiota se isso o fizesse alcançar os lábios de Alice Molton.

- Aceito – disse, aproveitando enquanto ainda tinha coragem – fique aqui esperando que logo voltarei com sua fada.

O rosto dela se iluminou em um sorriso. Ela o abraçou, ficando tão colada nele que Matheus pode sentir a respiração quente dela, assim como o cheiro inebriante de seu perfume de damasco.

- Aqui, coloque-a nesse pote – disse dando-lhe um pequeno pote de vidro com uma tampa de madeira – não a machuque entendeu?! Eu não quero que a coitadinha sofra.

- Tudo bem – respondeu pegando o pote. Uma voz em sua cabeça o dizia para desistir, mas ele já havia dado sua palavra e não voltaria atrás, mesmo sabendo que era o mais sensato a se fazer.

Matheus sentia-se frustrado por Alice preocupar-se mais com a segurança de uma fada aleatória do que com ele. Sim, ela estava-o usando, e o pior era que ele faria as vontades da moça mesmo assim.

Dando as costas para Alice, ele rumou em direção a floresta. Seu coração batia acelerado fazendo-o perguntar-se se garotos de sua idade poderiam ter um infarto. A floresta só estava a alguns metros a sua frente, mesmo assim, foi extremamente difícil caminhar até lá. Ele parou nos limites da floresta, virou-se de costas para dar uma última olhada a Alice. Ela estava parada no mesmo lugar, olhando-o com ansiedade.

- Fique esperando Alice! Logo retornarei com a sua fada! – ele a viu assoprando um beijo a distância. Esse era o incentivo que ele precisava.

E com essas palavras, adentrou a floresta. A primeira coisa que sentiu foi um calafrio percorrendo todo o seu corpo, como se tivesse atravessado uma cachoeira. Em seu interior, a floresta era muito mais do que grama, flores e arvores. Ela era um mundo totalmente diferente. Sim, haviam flores, grama e arvores, mas elas eram incríveis aos olhos, mais coloridas e vigorosas. Até os perfumes das flores eram mais intensos. Maravilhado, Matheus caminhou boquiaberto com tudo que seus sentidos absorviam.

Então assim era a floresta? Seus país diziam que era bonita por fora, mais sombria por dentro, com monstros que espreitavam na escuridão. Hugo lhe dissera uma vez que gigantes selvagens viviam ali, chegando a afirmar ter conhecido alguém que conhecera alguém que os tinha visto com os próprios olhos.

Ali não era assustador, muito pelo contrário, era belo, calmo e reconfortante. Matheus nem lembrava mais da promessa de beijo de Alice, pois o que o motivava era o encanto fabuloso de explorar aquela região selvagem.

As copas das arvores eram enormes, formando um teto verdejante e acolhedor. Matheus caminhava lentamente, tentando captar cada pedacinho da beleza da floresta. Ele não queria perder nada.

Então, repentinamente, ouviu um riso brincalhão. O som parecia deslizar pelo ar, chacoalhando dezenas de minúsculos sinos de cristal. Matheus tentou se concentrar na origem do som, mas ele parecia vir de todos os lugares.

Foi o sutil de bater de asas que o fez ver a fada. Ela era pequena, do tamanho da palma de sua mão, os cabelos negros, longos e lisos, cobriam seus seios minúsculos. Apesar de estar despida, sua nudez não tinha nada de vulgar. Era uma beleza pura e virginal.

Ela voava graciosamente na direção dele, as asas de um azul anil mais límpido do que o céu. Ao vê-la, Matheus sorriu com um prazer indescritível.

A pequena criatura era encantadora, suas asas batendo apressadamente em um ritmo hipnótico. Ela abriu um sorriso simpático, como se estivesse recebendo um amigo em sua morada. As pernas de Matheus tremeram, sua mente estava confusa. Seria aquela criatura tão amável, hostil como diziam? Alice dissera que elas não eram perigosas, ela poderia estar certa.

A fada aproximou-se, voando em um ritmo lento até bem perto de Matheus. Sua postura indicava tudo, menos hostilidade, mas era exatamente por isso que elas eram temidas. Segundo as histórias, contadas por todos na aldeia e além dela, as fadas tinham uma magia misteriosa e poderosa. Aquelas criaturas conseguiam amaciar o coração mais duro, tornando dócil o mais agressivo dos homens. Fisicamente não eram fortes, não mais do que uma simples lebre. O poder de sua magia, entretanto, as fazia manipular os sentimentos das pessoas, distorcendo o senso crítico e prendendo as pessoas em uma felicidade induzida.

Era ai que elas se mostravam perigosas. Convenciam as pessoas a segui-las floresta adentro, levando-as sabe-se lá para onde. Alguns diziam que elas se alimentavam de carne humana, outros, que arrastavam as pessoas diretamente para o mundo dos mortos. Ninguém tinha certeza do que as fadas faziam de fato. Era por todo esse mistério que eram tão temidas.

Embora seu rosto exibisse um sorriso de deslumbramento, Matheus não se sentia enfeitiçado. Só estava encantado com a fada... certo? A mão com que ele segurava o pote de vidro tremeu. Ele não sabia ao certo o que queria, mas de uma coisa tinha certeza, aquela fada era mais encantadora e atraente do que Alice e a princesa Amélia juntas.

- Oi... você, não é perigosa é? – perguntou tímido. Não sabia se as fadas conseguiam entender a língua humana, as histórias não diziam nada a esse respeito.

O rosto pequenino se moveu em um aceno negativo e ela riu um riso brincalhão e musical. A fada rodopiou no ar ao redor de Matheus que tentava, um tanto tonto, segui-la com o olhar.

Ela parecia um pedaço de luz azul dançando no ar. A fada segurou no dedo indicador dele, puxando-o em direção ao interior da floresta. Ele relutou por um breve instante, sua mão moveu-se para frente, mas seu corpo continuou rígido no mesmo lugar.

- Espere, não posso ir. Como posso saber se não está me levando para alguma armadilha cruel? – seu corpo ficou mais rígido. Ele não era estúpido. Alice até poderia usá-lo, mas o mesmo não ocorreria com uma fada – sei muito bem o que vocês fazem com as pessoas.

Mas ele não sabia, pois não era possível saber. Medo e excitação digladiavam-se na mente do garoto. Seu lado aventureiro queria desbravar aquela fantástica floresta e seus mistérios, mas aquela voz prudente que o guiava em todos os momentos o dizia para prender a fada no pote e deixar aquela floresta naquele exato instante. Se fizesse isso, talvez ainda encontrasse Alice e assim, receberia seu tão merecido beijo.

- Se soubesse não teria medo – disse a fada, para o espanto de Matheus. Sua voz era calma como um lago congelado. Apesar de pequena, a criatura falava em alto e bom tom.

O rosto da criatura exibia um ar sério quando ela voltou a falar. Suas palavras eram como pequenas pedras preciosas.

— eu só posso te levar se você aceitar, mas caso recuse, jamais poderá encontrar o caminho para o meu mundo sozinho – uma longa pausa se fez antes que ela prosseguisse - nós fadas só fazemos um convite uma única vez.

Não havia malícia naquela voz, não havia encanto ou ardis. Tudo que havia era uma sinceridade simples. Ele fitou a fada, ela o encarava pacientemente a espera de uma resposta. As mãos pequeninas da criatura ainda agarradas o dedo indicador do garoto.

Ele lembrou dos avisos dos pais, lembrou dos devaneios da velha Okake, berrando para todos e para ninguém em particular que as fadas levaram sua irmã. Acima de tudo, ele lembrou-se da promessa dos lábios de Alice Molton e de quanto ele desejava prová-los.

A floresta se estendia a frente deles, encantadora em seus mistérios. Matheus hesitou, mas decidiu arriscar tudo ao dar o primeiro passo. Seguiu a fada de asas azuis com uma expectativa cautelosa. Talvez ele fosse mesmo devorado, mas as coisas poderiam ser diferentes também.

O futuro era incerto e Matheus o confiara a uma fada que acabara de conhecer. Ele a seguiu, pois ela era tão brilhante quanto o sol. Enquanto a seguia, o garoto percebia a escuridão da floresta alastrando-se sutilmente, como se tudo ao redor se torna-se hostil.

Isso, porém, não importava. Se ele confiasse na fada, se ele tivesse fé nela e acreditasse em suas palavras, um mundo maravilhoso estaria esperando por ele. E, falando em esperar, Alice poderia continuar a esperá-lo até seus dóceis lábios ficarem secos. A garota não significava mais nada para ele.

Afinal, o que era a filha do padeiro em comparação a uma fada?

7 de Abril de 2020 às 18:04 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lucas Vitoriano Ola, me chamo Lucas, adoro escrever, ver animes, jogar Magic the gathering, ler entre outras coisas mais rs. Sou particulamente fissurado em mitologia grega, meus autores favoritos são Neil Gaiman e Kazuo Ishiguro e, meu livro favorito, é As brumas de Avalon.

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