valeriacazevedo Valéria Costa

E eis que andavam pelos vales e bosques aqueles que deram origem aos nossos ancestrais...


Conto Todo o público.

#feitiços #deuses #inferno #magia #pagãos #bruxa
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Origens

E no início eram os ventos que sopravam de todos os pontífices da Rosa, eram as aves que voavam e não voavam, eram os mamíferos e os grandes animais que andavam pela terra, os pequenos, os rastejantes, tudo que ocupa os mares, rios e oceanos, tudo que respira e não respira. E eram as árvores grandes e antigas, eram as mudas e as que ainda não haviam brotado, eram as montanhas e os planaltos, as planícies e as cavernas.

E eis que andavam pelos vales e bosques aqueles que deram origem aos nossos ancestrais, os que caminhavam pela terra original, os puros e os impuros, os bons e os maus. Foram os primeiros a respirar o ar do mundo e serão os últimos.

Estes eram os pagãos, os primeiros feiticeiros, aqueles que descobriram toda a energia acumulada na Criação e converteram em poder. Louvavam a Lua e as estrelas, cultuavam o Sol e o céu, não criaram as letras mas personificaram os símbolos que com o passar da eternidade se tornariam a língua mãe, o latim.

O homem, pois, alcançando a “erudição”, começou a entender os deuses do céu, da terra e do submundo, eram ao mesmo tempo subjugadores e subjugados. Tinham o conhecimento necessário para invocar uma entidade, mas apenas à chamavam para honrar, adorar e servir.

A primeira bruxa, Melena, era a mãe da dança, da sensualidade e do prazer, obra-prima viva da fertilidade e do desejo fazendo qualquer homem ajoelhar-se diante de si. Era a matriarca da bruxaria, voraz com seus inimigos, mas tenra com seus filhos na terra. Alimentava-se das relações sexuais promíscuas e bebia da mortalidade dos fetos. Oferecia todos os seus dotes a Maham, deus da Lua por quem era apaixonada, até Maham desprezá-la e condená-la à elipse do submundo.

O povo pagão em desobediência ao deus da Lua tentava trazer Melena de volta à terra, mas eras se passavam e todos os conhecimentos se acumulavam enquanto infeliz alma alguma conseguia. Um dia em uma primavera, uma jovem aprendiz das artes ocultas encontrou uma fenda no tempo e nas Escrituras, mas Melena não possuía mais um corpo humano para regressar. Então, a jovem usou seu próprio talhe como receptáculo.

Melena voltara, mas não era a mesma mãe tenra ou mulher valorosa de antes. Seu espírito agora era marcado pela vingança e pelo ódio, não existia mais amor em sua essência. Sua raiz obscura transfigurava o corpo de sua hospedeira tornando-a metade humana e metade monstruosa.

A bruxa agora ensinava sobre o caos e sobre a profundidade das trevas. Deu nome ao submundo chamando-o de inferno e as criaturas que ali habitavam, de demônios. Essas eram as mesmas criaturas que ensinaram-na sobre a morte e a transformaram em uma luz negra. Os pagãos não reconheciam mais a mãe que estava presente nas Escrituras Sagradas, sua subserviência era baseada agora no medo e não mais na fé. Com o tempo, a podridão de Melena devorou a natureza humana da jovem aprendiz, mas antes que seu espírito retornasse para o submundo ela declarou o ritual que a traria de volta para o corpo de outro hospedeiro e assim, ela sobreviveria e propagaria as pestes em vingança a Maham, deus amoroso com seu povo terrestre.

Melena acreditava que o amor que o povo tinha por ela no início dos tempos, bem como o castigo que sofrera injustamente pelo deus da Lua seriam suficientes para garantir uma multidão de adoradores. Mas os pagãos tiveram medo, eles não eram criaturas das trevas, cuidavam dos animais e agradeciam pela sua caça a Foruná, plantavam e colhiam agradecendo e louvando a Denuílas, bebiam e cantavam louvando a Meron. Seus espíritos eram leves e caridosos, sua magia era pura e inocente, seus feitiços carregavam a energia da natureza e faziam o ciclo celeste funcionar. Por maior amor que tivesse a sua mãe, optaram pelo bem comum de deixá-la no inferno.

Melena não aceitava tal rebeldia de seus filhos, ela esperava que alguém realizasse o ritual para que voltasse a volitar pela terra, só que desta vez levaria as criaturas horrendas e peregrinas do inferno com ela. A bruxa foi esquecida, mas seu feitiço foi marcado nas Escrituras Pagãs como aviso para todos os povos.

Isso aconteceu no passado, os pagãos oficialmente não existem mais, os últimos morreram sozinhos queimados em fogueiras pela nova religião, lutando para manter viva a cultura de seus ancestrais, homens voltaram-se uns contra os outros e a morte virou a deusa regente de uma sociedade que pregava amor. Os livros da terra foram queimados e os ancestrais esquecidos, os mortos agora eram só mortos pois nada podiam ensinar às criaturas cegas da terra, os deuses foram esquecidos, os infernais diabolizados e a natureza foi corrompida.

Mas, por obra do destino ou talvez das próprias profecias, restava ainda uma chama do passado, uma pequena faísca de esperança, a última chance dos povos pagãos.

Um livro.

Uma Escritura perdida no porão da casa da jovem aprendiz que abrigara o espírito de Melena. Esse livro atravessou gerações enterrado nos escombros, como se protegido pela própria terra, desesperada por sua família original. Escavadores o encontraram, um achado impressionante para a História, importante o suficiente para ser deixado nas mãos de um estudioso competente, que levou as Escrituras para casa. Analisou página por página, decifrou e fez relatórios, agiu como um perfeito profissional. Mas após terminar seu trabalho, a natureza humana o tocou e um estranho misto de curiosidade e emoções, então em voz alta ele pronunciou as palavras de Melena.

Todo o destino dos povos pagãos, os conhecimentos dos ancestrais, a salvação da terra estava nas mãos da primeira bruxa que agora fora invocada, a mãe dos homens, a negligenciada e injustiçada. Cabia agora a ela salvar sua fé e sua família ou vingar-se de Maham na própria raça humana instaurando o caos, tomando os três ciclos e trazendo os tempos sombrios...

1 de Abril de 2020 às 00:50 1 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Valéria Costa Adoro a vida e toda sua composição. Amate de literatura e qualquer coisa que possa ser leitura. Estudante de Letras apaixonada pela arte de lecionar. Observadora das estrelas, precursora da liberdade e fã de café (muito café mesmo).

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Ana Paula Clara Ana Paula Clara
Adoro histórias sobre bruxas, antigas religiões e mulheres sagradas. Seu conto parece como as antigas histórias sussurrados ao redor da fogueira. Foi um presente encontrar eu conto <3
April 21, 2020, 21:03
~

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