luluziatorres Luzia Tôrres

Depois do seu primeiro prazer do dia, ouvir os passos arrastados pela casa poderia ser contado como o segundo e a xícara de café oferecida a cada instante, mesmo que aborrecesse, passou a ser o terceiro prazer do dia depois que eles não foram para a barragem no sábado.


Conto Todo o público.

#original #família #389 #Doroteia #Vó-Zefa #Luzia-Tôrres
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Capítulo único

de: eu

para: eu

"um dia você chegará lá, Luzia, confia!"



[...]



Naquele dia eu acordei, mas não me movi nada. A cama estava quentinha e a minha posição era a melhor. Uma perna descoberta e outra coberta, mãos abaixo da cabeça e nariz topando no colchão. Perna esquerda levemente dobrada, nem dor, nem tristeza, aquele dia parecia ter roteiro de felicidade e eu esperava que ninguém improvisasse nada no caminho. O momento de acordar de madrugada é meu primeiro momento de prazer depois de despertar, eu sinto o frio do amanhecer, fico assistindo a luz do dia surgir pelas frestas da janela, fico ouvindo o barulho dos pássaros – eu moro num sítio –, fico esperando dar hora de levantar, e, quando dá a hora de levantar, eu já estou dormindo de novo e acordo puta da vida com o alarme do meu celular. Esse era meu primeiro momento de prazer depois de acordar.

Mas, curiosamente, naquele dia eu não dormi, fiquei tão imersa nos meus pensamentos bestas que nem me dei conta quando o tempo passou e o celular soou às seis sem me acordar, apenas fazendo barulho. Eu tinha prometido a minha vó que faria mungunzá bem docinho para ela naquele dia, e o milho na água há dois dias já era suficiente para deixar os caroços macios para uma velha que não conseguia mastigar muita coisa. Eu me movi para fora da cama, abandonando meu amor Colchão, meu namorado Lençol e meu amante Travesseiro.

O som de alguém arrastando os pés pela casa era tão conhecido por mim. Quando sai do quarto a minha avó, Josefa, estava na cozinha colocando o café recém-feito na garrafa. Vestia um vestido até as canelas finas, um casaco de cor rosinha claro, e os cabelos, que pareciam um capucho de algodão branco, estavam amarrados para trás por minha xuxinha favorita cor azul. Antônia, minha prima, estava no quarto fazendo barulho só de se mover sobre a cama.

— Vem tomar um cafezinho, Dora — minha vó me chamou. Eu balancei a cabeça.

— Já vou, vó. — Me virei e olhei para o quarto da minha prima. — Levanta, Toinha! Senão sábado não tem barragem!

Sentei à mesa e peguei uma xícara para mim, enchi de café e peguei bolacha Maria, minha vó me encarou sorrindo do jeitinho dela e perguntou:

— Vão ‘pra barragem? — Encarei-a no olhos e lá no rosto enrugado eu vi interesse real.

— A gente combinou, vó, lembra? — Ela franziu a cara, pensou, pensou e então o rosto se iluminou de certeza, abanando a mão para mim, ela respondeu:

— Ah, foi mesmo! ‘Tô ficando é louca, minha filha! — Riu de si mesma, como sempre fazia. Me olhou de novo com aquele sorriso de vó Zefa e perguntou: — Será que os meninos vêm?

Eu odiava quando ela perguntava sobre eles usando aquele tom de quem não sabia, odiava quando ela me encarava com aquele sorriso que eu amava e perguntava com esperança sobre os sarnentos, odiava quando minha língua travava antes de eu responder “Espero que nunca venham”, e odiava mais ainda sentir tanto ódio de gente que tinha meu sangue.

Respondi:

— Não sei, se eles lembrarem o caminho, talvez venham.

— Acho que as meninas vêm — disse mantendo o sorriso enquanto molhava a bolacha no café.

Me levantei da mesa e fui buscar um pão que José Carlo tinha trazido a noite passada. Sussurrei para mim mesma:

— Por desencargo de consciência? Claro!

Sentei na cadeira ao mesmo tempo que Antônia saiu do quarto, parecia uma vassoura o cabelo dela, e minha vó riu disso. Como sempre, Toinha não disse nada, riu junto dizendo qualquer coisa e sentou-se para comer com nós duas. Minha prima contou um sonho bizarro, nas palavras dela, que teve batendo manteiga no açúcar, e foi só Toinha começar a contar que minha vó, dona Zefa, foi soltando logo a indireta dizendo: “Era bem fazendo bolo de fubá, quer ver?”. Acabei no fim tendo que fazer bolo de fubá, mungunzá e chocolate quente à moda Doroteia.

Quando o café da manhã acabou, dona Zefa, teimosia pura desde menina e principalmente agora na velhice, foi-se para o terreiro e começou a varrer as folhas que caiam da goiabeira — não dava uma goiaba doce aquele pé, mas mantínhamos pelo prazer de ter a árvore. Fui para a porta e a assisti, muito devagar, varrer aquele pedaço, juntar as folhas e então me olhar com cara de cansada e pedir para que eu fosse apanhar, porque as costas dela não deixavam que fizesse. Me levantei e fui.

— O que você faz por mim eu não vou pagar, mas Deus vai em dobro.

Era o que ela dizia toda vez que eu fazia algo por ou para ela. Josefa já não era metade do que costumava ser, e eu sei disso porque há vinte e dois anos eu era apenas um bebê que ela pegou para criar e hoje eu sou uma mulher de vinte e dois que peguei ela para cuidar, acho que consegui acompanhar um tempo de dona Zefa sadia e pimpona.

Zefa enterrou o marido e um filho, meu pai, diga-se de passagem, enterrou todos os irmãos e eu não duvidaria se ela me enterrasse também, já que a velha é dura na queda, enquanto eu por qualquer coisa já ‘tô de cama! Eu tinha uns meses quando virei filha de Zefa. Mamãe morreu no parto, papai casou de novo, vovó Zefa não queria neta dela criada por madrasta, embora a ex-mulher de papai seja gente boa. Papai sofreu um acidente de carro, morreu levando uma parte de vovó e me levando quase toda. No funeral dele ou eu chorava, ou eu socorria dona Zefa, não dava para fazer os dois ao mesmo tempo — e no fim quem me socorreu foi ela.

Eu queria morrer dormindo.

Foi o que ela disse para mim certa vez. Eu estava escolhendo feijão na mesa da cozinha, parei na hora quando ela disse isso, encarei a cara enrugada e manchada da velha com a minha cara numa expressão absurda. Minha vó sorria, faceira só que nem ela. Eu ri sem entender e ri sem querer acreditar naquilo que ela disse.

Por quê? — perguntei, não conseguia voltar a escolher os feijões antes da resposta.

— ‘Pra não sentir dor! — e ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia! — A pessoa além de sentir todo tipo de dor por ser velha, tem que morrer agonizando? Misericórdia, minha filha, pelo amor de deus! Eu quero é morrer dormindo! Num sinto nada e Deus me leva em paz!

De um jeito meio torto, ela até que tinha razão.

— ‘Tá, a senhora vai morrer dormindo — eu disse, voltando a escolher os feijões e soltando-os na bacia de plástico. Encarei a velhinha e terminei: —, mas só depois que me enterrar!

Ela riu, pediu que Deus me livrasse disso e riu de novo. Eu ri também, porque era tudo o que eu podia e queria fazer. Ela era sempre assim, e eu amava que ela fosse sempre assim, até mesmo depois da memória ficar fraca, dela esquecer coisas ditas cinco minutos antes, me fazer a mesma pergunta várias vezes e ter uns pensamentos meio idiotas e ridículos. Dona Zefa, antes, cortava cana, plantava feijão, comia charque sem nem lavar antes! Hoje, forrar a cama já lhe deixa cansada.

Lembro de eu menina comer pimenta uma vez, chorei igual bezerro desmamado e ela ficou doida de desespero porque eu não parava de chorar! Minha garganta inchou, meus olhos ficaram vermelhos e eu gritava: “Não consigo respirar, vó! Não consigo!”, ela chorou, me entupiu de leite, me deu água, umas lapadas na bunda por ser enxerida e depois beijos, muitos beijos e um pedaço de rapadura, claro! Outra vez eu caí de cama, não conseguia mijar nem que eu bebesse a barragem de Poço Fundo todinha! Ela me levou ao hospital e o médico disse que era infecção urinária, o que já era óbvio. Mas o desespero de vó Zefa foi quando eu tomei todos os remédios que o médico passou e a infecção continuava, junto dela tinha vômito, febre e dor na xiquinha — nome fofo que minha avó dava para a boceta de qualquer mulher. Josefa fez promessa em troca da minha cura, prometeu a Deus que me levaria para a romaria de Frei Damião se eu escapasse viva — se eu escapasse viva! Era um exagero de promessa! Mas num é que deu dois dias e eu já estava melhor? Pulando feito bezerro anunciando chuva. Fomos para a romaria, e ali minha vó me ensinou na prática o que era fazer de tudo por alguém que amamos, seja dentro ou fora da igreja.

E aí, não só por isso, depois de eu concluir a faculdade de história, arranjei um trabalho em duas escolas do município de Taquaritinga como professora do sexto ano, quinta série, e comecei um trabalho pessoal de um estudo sobre a cidade só para ter o pé de morar com ela no sítio dela, em vez de deixar mandarem-na para uma casa de repouso como os sarnentos queriam fazer. “Ela esquece até de tomar banho, Dora! Como você vai cuidar dela assim?”, foi o que perguntaram quando eu gritei que não aceitava que colocassem ela num asilo. Minha vó ficou tão triste quando soube o que eles queriam fazer, tão triste, que eu acho que, de algum jeito, isso piorou o esquecimento dela. “Eu cuido com o amor que vocês não cuidam! Mas minha vó Zefa, ‘pra um asilo, não vai!”, e a partir daí os meus tios eram os sarnentos e minha vó a única pessoa que eu ainda tinha de família, claro, antes de Antônia brigar com a mãe e decidir vir morar com a gente sob as minhas regras.

— Você quer ir ‘pra barragem sábado, não quer? — perguntei para Toinha. Ela estava sentada à mesa do lado de fora e mexendo no celular.

— Vai ficar me ameaçando agora é? Qualquer coisinha é: “Senão não tem barragem!”, “Sábado nada de barragem!”, e vai carregar a barragem do lugar dela é?

Eu ri do tom grosseiro porém sem grosseria dela.

— Gente preguiçosa precisa ser ameaçada com o que gosta ‘pra ver se se emenda. Lava essas mãos e vai mexer o cuscuz!

Antônia achou que seria vida boa vir morar com a avó aposentada e a priminha de geração igual, mas estava enganada e soube disso quando eu disse que só ficava ali se arrumasse a casa todo dia e tirasse notas boas na escola, porque sustentar ela eu não iria e tolerar gente mimada não era meu forte. De algum jeito ela gostou mais da nossa casa do que da dela, o que me fez um dia perguntar por que ela não gostava de morar com a mãe “Ela gosta mais do macho dela do que de mim, que fique sozinha com ele, então” foi o que Toinha me respondeu.

— Ô de casa!

Era José Carlo chegando e fazendo graça.

— Huumm, o namorado de Doroteia chegou! — Antônia disse, fazendo uma careta idiota igual ela.

Eu ouvia minha avó conversando com ele e os passos lentos dos dois até a parte de trás da casa. Enquanto isso tirei o bolo do forno e coloquei em cima da mesa dentro da forma ainda, tinha assado fazia um tempo, mas eu odeio quando o bolo quebra, dá sensação de fracasso. Peguei o caldeirão de mungunzá do fogo e coloquei no murinho de tijolos ao lado fogão de carvão. Quando José Carlo e vó Zefa chegaram ali, eu começava a temperar um café e colocar ‘pra ferver.

— Boa noite, Doroteia — me cumprimentou sorrindo facinho como sempre. Eu respondi:

— Boa noite, José Carlo.

José Carlo só me chamava pelo nome todo. Doroteia. E não é que eu não goste do meu nome, não! É que olha só o nome: Doroteia! Entrega demais sabe? Onde eu chego todo mundo já sabe que eu sou de sítio. E também não é como se eu não gostasse de ser de sítio, afinal, eu sou! Mas é que o povo que não vive em sítio acha que todo mundo que vive em sítio é besta, lesado, burro, quadrupede, presidente Jair, anta, sem noção e entre outros!

José Carlo me chamava de Doroteia mesmo sabendo que eu não gostava muito, parecia até meus alunos implicando com a menina que gostavam! Mas também só de raiva eu chamava ele de:

— Tira a mão do bolo, José Carlo! — José Carlo. Ele odiava! “Ou chama José, ou chama Carlo, ‘pra que os dois?” Era o que ele perguntava. — Deixa o café ao menos ferver, homem, parece que só vem amarrado ‘pra cá.

— E agora você faz bolo só ‘pra ficar olhando, Doroteia? — me perguntou todo sentido.

— Oxe, minha filha, que isso? — dona Zefa se meteu. — Pode partir um pedaço, Carlo, pega! Dá um pedaço ao Juninho também. — Ela apontou para o irmão de José Carlo, Paulo Júnior, que estava arrodeando Antônia como abelha que arrodeia Coca-Cola.

Minha vó adorava ver as pessoas comendo quando estavam na casa dela, parecia até que a velha passava mal se não entupisse todos que chegavam ali de comida. Zefa não levantava mais nem para lavar um copo! Mas o que era de cafezinho que essa mulher oferecia para o povo nem um fazendeiro conseguia manter sozinho sem ir à falência.

— Eu tirei o bolo do forno agora, ele ‘tá morno e vai quebrar se for tirar da forma. Se quiser mungunzá pode pegar, mas o bolo ainda não!

Esperei ninguém responder e fui para cozinha, só ouvi o muxoxo de José Carlo mandando Juninho ir se servir de mungunzá. Os passos de José Carlo vieram logo depois, me abraçou pela cintura enquanto eu mexia o chocolate quente, beijou meu pescoço e eu lhe dei um chega ‘pra lá ‘pra sair das investidas desse preto safado. A cada dia vinha ficando mais atrevido! Só porque demos uns beijinhos no sofá enquanto minha avó dormia e eu fui parar no quarto dele algumas vezes. José Carlo já estava falando até em casamento! Eu lá sou mulher de casar sem um namoro sério antes?

— Vai ficar me agarrando enquanto eu mexo na panela quente mesmo, é?

— Se você não me maltratasse eu não me arriscaria assim — respondeu com dois palmos de beiço.

— Deixe de ser besta e saia de perto, gosto de agarrado não.

— ‘Num gosta agora! Mulher ruim. — Ri dele, era a única coisa que eu queria fazer naquele momento: rir dele. Eu adorava deixá-lo assim facinho.

Minha avó Zefa gostava de José Carlo e queria que eu me casasse com ele, nós não eramos nem namorados, mas ela tinha fé de me ver casada com ele, senão com ele, com alguém igual a ele. Embora que quando José Carlo começou a andar por aqui — tínhamos pouca idade ainda, coisa de pré-adolescência — minha vó não podia nem sonhar da neta Dora dela casada com um preto que não pode pegar mais sol senão vira torrão. E esse era o principal motivo de eu não gostar de José Carlo brincando comigo em frente ao sítio de vó, porque ela sempre soltava esse tipo de coisa ‘pra mim quando eu entrava ‘pra casa, e como desde de sempre eu arrastei asa ‘pra José Carlo, ficava com raiva e triste com essa atitude. Vó Zefa parou com isso ‘pra cima de José Carlo quando ele chegou aqui dizendo que comprou um galpão e tinha montado a oficina própria dele, daí a velha viu que tinha mesmo futuro e começou a se aproveitar da minha quedinha — na época parecia mais um precipício — por ele e ficou me empurrando ‘pro preto! Olha só! Maria Josefa tem ainda muito racismo dentro dela, e ela não é branquinha não, parece até uma Alcione dois ponto zero! Eu não sei como funciona esse racismo seletivo dela, então não vou nem me aprofundar.

— Vou resolver nossa situação hoje.

José Carlo me avisou quando saíamos para a mesa no fim da casa, ele levava a panela com chocolate quente e eu levava a galinha cozinhada ‘pra comer com cuscuz. Eu olhei para José Carlo já com aquela cara de taxo que eu tenho, espantada dos pés à cabeça, porque eu sabia do que ele estava querendo falar e eu não quis acreditar que ele ia fazer isso mesmo!

Fazia uns meses que nós dois tínhamos um caso adulto. Nos encontrávamos na casa dele, beijos, amassos e essas coisas que o pessoal faz. Sim, eu gosto de José Carlo, e esse preto já disse tantas vezes que gosta de mim que já não é novidade ‘pra ninguém. Ele nunca fez um pedido de namoro oficial ‘pra mim e eu nunca exigi também porque eu não quero! Minhas prioridades são minha avó, o meu trabalho e eu mesma, daí eu meto José Carlo como prioridade num namoro e fico como? Me dobro em quatro? Deixo de dormir? Só se for!

José Carlo aceitou durante um tempo que nosso relacionamento fosse assim no estilo “quando der”, mas eu sabia que esse preto safado queria namoro, casamento e uma penca de filhos! Não é ruim, eu também quero! Mas a minha avó toma três remédios todos os dias, um para os ossos, outro para a cabeça e outro para o pulmão, Toinha ‘tá na flor da idade e cheia de vontade de abrir as pernas, e se essa menina emprenhar? Eu tomo bem no meio do meu frande tendo que cuidar de uma adolescente, de uma velha e de um bebê! Daí vem José Carlo ainda por cima? Porra, não dá!

Daí outros podem perguntar: “Então você vai deixar de ser feliz por conta da sua avó e da sua prima?”, e eu vou ser obrigada a responder que durante a minha vida toda eu tive a minha avó e logo agora eu não posso ser uma puta e deixá-la de lado! Eu só tenho a minha avó! Eu sempre tive só a minha avó… só a minha avó. E o pior é que minha avó só tem eu e Toinha. Porque se dona Zefa tivesse mais alguém, eu me casava com José Carlo fim de ano e engravidava ali mesmo na lua de mel, porque eu amo esse preto! A partir daí eu já ‘tava resolvida. Mas a minha avó não tem ninguém além de mim e de Toinha. E nós duas não temos ninguém além de vó Zefa!

— Dona Zefa — José Carlo chamou. — Eu sei que a senhora preza muito por sua neta Doroteia, e acredite quando eu digo que gosto muito dela também. Eu sei que ‘pra ter alguma coisa com sua neta eu não preciso passar pela senhora antes, porque ela já é uma adulta e sabe da própria vida, mas eu vim aqui pedir a sua permissão ‘pra namorar ela mesmo assim, só ‘pra senhora ter certeza que eu gosto muito dela!

Minha avó Zefa fez um monólogo sobre a honra da palavra de um homem e a honra de uma mulher. Disse que me amava muito e só queria me ver bem, pediu a José Carlo para cuidar de mim e até falou que estava entregando uma mulher praticamente santa para ele, nesse momento eu quis gritar “Só se for Madalena!”, mas eu gostava de ser a neta santa da minha avó e deixei José Carlo naquela situação toda com ela até que a velha dissesse que por ela tudo bem a gente namorar. Depois eu entrei numa discussão besta danada com José ali mesmo na mesa, discussão leve, apenas de brincadeira: “Você tem que pedir ‘pra mim primeiro, preto doido!” eu disse a ele, e José Carlo sorriu faceiro ‘pra mim, “Eu não! Tu é difícil demais, tem que pedir ‘pra dona Zefa que quer ver tu casada comigo, né não, dona Zefa?”, e né que a velha balançou a cabeça dizendo sim!

Depois de todos encherem o bucho de comida — comi mungunzá como se fosse acabar o mundo no dia seguinte —, Antônia buscou o violão dela ‘pra tocar alguma coisa, e até tocou um pouco, mas José Carlo pegou dela e começou a tocar coisa boa de verdade, e conseguiu um beijo meu depois de cantar Flor e o Beija-flor ‘pra mim. Nós conversamos até muito tarde! Quando José Carlo e Juninho foram embora já passava de meia-noite, Antônia guardou o violão e ficou mais um tempinho acordada no sofá da sala, eu estava ao lado assistindo a um filme. A conclusão daquela noite foi que minha avó não comeu mungunzá e eu tinha um namorado agora… foi uma noite boa até.

Dona Zefa veio até a sala arrastando os cambitos velhos, “Já vai me entupir de remédio?” ela perguntou quando eu me levantei e disse ‘pra me esperar antes de ir dormir, eu ri do jeito ranzinza dela. Minha avó odeia tomar remédio, mas toma porque sabe que precisa e não nega meus pedidos quando me vê relutante. Eu fui até a cozinha e dei o remédio na mão dela, assisti a velha tomar a água a cada vez que colocava um comprimido na boca. Vó Zefa foi caminhando bem lentamente até o quarto e eu fui até lá conferir se a janela estava fechada, ali no sítio fazia um frio muito gostoso de noite e mesmo os quartos sendo estucados, não esquentava ao ponto de precisar de ventilador e nem ficava frio ao ponto de congelar, mas isso não se aplicava a avó Zefa que só de abrir a geladeira já ficava tremendo de frio, “Fica abafado se não abrir de manhã”, e aí ela ia e abria as janelas, então eu tinha que conferir a noite se estavam fechadas de novo.

Fechei as janelas, ela sentou-se na cama e segurou meu braço, eu sentei ao lado dela e observei o interesse dela na minha mão. “Tão nova! Já a minha é toda enrugada” ela dizia comparando nossas mãos, enquanto eu tocava na pele saliente das costas da dela, “Um dia a minha vai ficar assim também” eu respondia. Minha avó me encarou sorrindo leve, como se soubesse de alguma coisa que eu não sabia, mas que saberia logo. Eu sorri de volta e perguntei o que foi, ela então negou, apertou minha mão entre as suas e pediu:

— Reza mais eu hoje, filha?

— Rezo.

Nós rezamos o Pai Nosso, a Ave-Maria, o Credo e então o Pai Nosso de novo. Eu pedi benção e ela me entregou a Deus e desejou que as Onze Mil Virgens me protegessem de todo o mal do mundo. Daí então ela deitou, eu a cobri, beijei o seu capucho de algodão e, feliz demais pela aquela noite tão próxima a ela, eu disse:

— Descanse que amanhã nós vamos ‘pra barragem.

— Vamos ‘pra onde, filha?

— ‘Pra barragem, vó, lembra? José Carlo vai levar a gente.

— Ah, ‘tava nem lembrada, filha.

Sai do quarto desejando boa noite e ouvindo ela mandar eu dormir com Deus. Fui na sala e disse a Toinha para ir dormir, se acordasse tarde demais não daria para aproveitar o dia todo na barragem. Fui para meu quarto, mandei mensagem para meu namorado e dormi logo depois de começar a encarar o teto. Aquela noite eu sonhei com minha avó me ensinando a amassar na mão um bolo de feijão-carioca com farinha e comer molhando no molho de carne de porco cozinhada. Tinha pirão na mesa também, arroz e um suco bem forte de maracujá. Não sei porque, mas acordei de madrugada com um frio danado! E por conta do sonho eu comecei a lembrar de todas as coisas que minha avó Zefa me ensinou; eu sabia fazer cabidela, sabia costurar à mão, sabia fazer fogo a lenha, sabia fazer fumaça ‘pra espantar maribondo, sabia muito de chá e para que eles serviam. Ela me ensinou a fazer pamonha doce e salgada, mas eu até hoje não faço uma tão boa quanto as que ela fazia antes de perder parte da habilidade nisso, e rapaz!, pense numa feijoada gostosa que essa minha velha sabia fazer! Eu ficava de queixo caído quando comia a dela, mas hoje só posso tentar fazer uma cópia e falhar chegando a algo bom e não maravilhoso como a dela. E sobre café, bem, ela me ensinou o melhor!

Vó Zefa me ensinou também a ter paciência na prática, porque eu ouvia cada coisa dela! Começando por “Eu ‘tô muito velha, ‘tá na hora de me endireitar!” e o endireitar dela era capá o gato desse plano, ou seja, morrer. “Velho só tem que fazer uma coisa: esperar a morte, e sentando, ‘pra não cansar a cangaia”. Eu caia na risada quando ela começava a falar de cada irmão feio que tinha, dizia que um tal de Mané era tão feio que não sabia como tinha saído da mãe dela, porque a mãe dela era linda! “Gorda, forte, branquinha e trabalhadeira! Mas Mané era feio, viu Dora? Feio, feio!”, acho que de tanto ela falar do irmão foi por isso que os filhos nasceram tudo… torto!

Eu comecei a rir sozinha lembrando de quando ela contava que uma vez eu aprontei feio com ela, caguei que nem um boi na minha fralda e comecei a esfregar no meu cabelo, e até dentro dos olhos tinha bosta. Era uma história constrangedora, mas eu era uma criança, então ‘pra mim ela é ótima! Meu pai ainda estava vivo nessa época e ficou rindo enquanto vó Zefa contava que me deu um cascudo na minha cabeça de menina mal-ouvida. “Ah eu só vou quando o bolo ficar pronto” eu falei isso na casa de uma madrinha do meu pai e minha avó até hoje lembra falando das vergonhas que eu a fazia passar. E lembrando dessas coisas eu agarrei no sono de novo, acordei só com meu celular desesperado me acordado às seis. Fiquei ali quase meia hora no meu primeiro prazer do dia sentido o frio do amanhecer e o silêncio ao redor.

Quando sai do quarto não tinha cheiro de café e minha avó Zefa não arrastava os cambitos pela casa, talvez fosse um dos raros dias em que ela dormia até tarde. Fui no quarto de Antônia e soquei de leve a porta, mandei levantar e se arrumar. Fui então fazer café, ele ficou pronto e minha avó não saiu do quarto. Era estranho, porque com o mínimo barulho a velha já ‘tava de pé, além de que ela ama café e deveria ter levantado só com o cheiro! Então eu fui e abri a porta do quarto dela, a velhinha continuava enrolada, pixototinha e parecendo indefesa, a chamei:

— Vó Zefa?

Ela não respondeu. Nem de primeira, nem de segunda, nem de terceira vez. Na sexta vez não saiu nada que desse realmente para entender de mim ou de Antônia.

Naquele dia nós não fomos para a barragem.







[...]

"Foi dormindo" o médico disse. "Ela não sentiu dor", ele terminou.


obrigada por ler até aqui, um coração, talvez?

bye!

28 de Março de 2020 às 02:39 2 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Luzia Tôrres Histórias (que deveriam ser) secretas de uma mente em chamas. . . Também no Social Spirit Fanfics como: @luluziatorres Também no Wattpad como: @luluziatorres

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Raquel Terezani Raquel Terezani
Olá, Luzia! Sou da equipe de verificação e venho lhe parabenizar pela verificação da sua história. Gostei muito do seu conto, o que mais me chamou a atenção foi como a Dona Josefa se parece com muitas avós interioranas, a minha mesmo é dessas que são teimosas, tomam vários remédios e dizem o que vêm à cabeça. O clima rural também foi muito bem caracterizado, parece que consegui até sentir o cheiro do cenário. A linguagem rústica — incluindo palavrões — misturada com a narração delicada e poética em alguns trechos, trouxe um equilíbrio incrível à história. A gramática e ortografia estão quase perfeitas, mas gostaria de apontar dois itens que, se você quiser corrigir, deixarão a escrita no mesmo nível do enredo. 1- No trecho “fui para a porta e assisti ela”, a colocação pronominal correta seria “fui para a porta e a assisti”. 2- No trecho “mandando Juninho ir ser servir” o correto é “se servir”, acredito que foi um caso de erro de digitação. Mais uma vez, parabéns por contar uma história tão real, abordando realidades, cultura e costumes tão brasileiros. Continue assim! Obrigada e até breve.
April 24, 2020, 14:29

  • Luzia Tôrres Luzia Tôrres
    Muito obrigada, Raquel! Eu fico grata pela atenção ao ler a história e ainda me escrever um comentário além de bonito, construtivo. Os itens que apontou eu já os corrigi. Obrigada, e até breve também! <33 April 26, 2020, 22:49
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