crazyclara Crazy Clara

A cadeia de influência de um indivíduo ao outro começa nas mais básicas relações da infância. A trajetória a partir deste ponto determina o alcance e as variações que uma sugestão pode influenciar pontos distintos e até não relacionados. Uma sugestão pode libertar, destruir e sua origem nunca rastreada. Há quem use a influência sem que perceba. Outros usam deliberadamente. Contatado por um artista famoso, Keigo aceita se tornar modelo para pintura, sem conhecimento da característica que o destacou. Em meio a sessões incomuns de pintura, uma investigação policial começa a fazer parte de seu dia a dia envolvendo sua própria família.


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O Cidadão Modelo

A câmera fica sem foco por alguns segundos, até Keigo entrar no quadro e se sentar na cadeira. Ele sorri para um ponto acima da câmera e ajeita o cabelo com uma mão.

— Como estou? – ele encara a câmera enquanto penteia a franja para cima.

— Está ótimo. – responde uma voz feminina. – Comece se apresentando, por favor. Nome, idade, profissão, seus gostos e o que quiser compartilhar sobre você.

Keigo para de mexer no cabelo. Seu olhar foca na câmera enquanto seu corpo se inclina para frente, ficando mais próximo na imagem, até os antebraços estarem apoiados nos joelhos. Seu sorriso é sua única resposta por alguns segunfos.

— Takami Keigo. Tenho 29 anos, sou violinista profissional desde os 15. Música e culinária são minha vida. E se houver qualquer coisa que queria saber sobre mim, pergunte. Sou um livro aberto. – Em silêncio, ele olha sobre a câmera, sustentando o sorriso.

— Você se considera uma pessoa sociável?

Keigo pondera por um momento.

— Gosto de pensar que sim. Que olhem para mim e se sintam confortáveis para puxar uma conversa.

— Digo, se você gosta de interagir com outras pessoas.

— Oh. – Keigo ri e então franze o cenho. Parece confuso. – Ninguém nunca me perguntou isso. – ele volta a endireitar a postura na cadeira. Seus olhos desviam para o chão, os dedos tamborilam os próprios joelhos. – Não como devo parecer. – com um braço dobrado contra o tronco, ele o usa de apoio para o outro e ergue a mão, passando o indicador pelo lábio enquanto pensa. – Eu gosto de interagir, gosto de ser a atenção de muitos, de ouvir, de falar. De exibir o que faço também. – ele faz uma pausa e olha para o ponto acima da câmera. – Mas para estranhos, só por um curto tempo. Por mais do que algumas horas, eu prefiro poucas pessoas. Número bem limitado, questão de duas ou três. E que eu conheça há muito tempo, que eu possa ser íntimo.

Há mais uma pausa.

— Já esteve em algum relacionamento sério? – a entrevistadora volta a perguntar.

— Sim, em… – Keigo olha para cima, seus lábios se mexem sem som antes de voltar a encarar a câmera e falar. – 4, um deles um namoro de um ano e os outros três duraram alguns meses.

— E agora?

— Solteiro. – ele sorri e abaixa os braços. – Pelo menos nessa altura da história. – seu riso é seguido de uma piscadela direto para a câmera.



~º~



Quando estava trabalhando, Tensei parecia um cão de guarda furioso. Ele cercava Keigo durante sua caminhada e se erguia como um muro, não deixando ninguém sequer tocá-lo. A voz de aviso para se afastar ou se retirar era fria e, Keigo jurava, uma hora ele ainda rosnaria para alguém.

Em compensação, nos momentos de pausa, seu agente era um ursinho carinhoso que não cuja resistência alcoólica não era párea para duas latas de cerveja.

— Ele foi sozinho! – Tensei pendeu a cabeça para frente, choramingando sobre suas fatias de churrasco. – Meu irmãozinho foi para outra prefeitura sozinho com a turma, sem a família, e só tenho fotografias como forma de acompanhá-lo.

— Tensei, relaxa. – Rumi pegou um petisco e comeu inteiro, mas não esperou terminar de mastigar para voltar a falar. – Ele está com a turma, colegas e amigos.

— Mas ele é tão precioso para o mundo! – ele ergueu a cabeça, olhos marejando. – Parece que foi ontem que o deixei na porta da escola no primeiro dia do primário.

— Tenya? – perguntou Chatora com as sobrancelhas franzidas.

— Yep. – Keigo assentiu.

— Ele não tem… 20 anos?

— Yeeep. – assentiu mais uma vez.

O olhar da descrença de Chatora foi impagável e se espalhou para Tsuchikawa e Sosaki que, ao lado de Tensei, olhou o agente e lhe deu um soquinho no braço.

— Iida, se recomponha. Eu sei que é a bebida, mas vão achar que você é um brocon¹.

— E ele já é um adulto, por deus. – Sosaki balançou a própria lata de cerveja. – E lindo de doer. – Ela sussurrou as últimas palavras, que Keigo apenas conseguiu ouvir por estar ao lado dela.

Eles nunca combinavam com ambientes elegantes, mas Tensei insistia. Logo, os sete estavam em um refinado restaurante com comida mais cara que valia seu sabor e que possuía quartos reservados com janelas dando para uma bonita vista de Shinjuku.

Eram barulhentos e agitados. Os pobres garçons que lhes trouxeram os pedidos foram sufocados com pedidos, por Shiretoko lhes pedindo para tirar fotos deles, por Sosaki querendo saber se eram solteiros e maiores de idade e por exigência de sigilo vindo de Tensei. Na próxima vez que um garçom voltasse, teria que lidar com um Tensei desesperado para lhe mostrar o quanto o irmão era incrível.

Keigo se levantou em um pulo que assustou Sosaki e quase derramou a cerveja.

— Keeeigo! – chamou Tensei. – Não pode sair sozinho! – ele tentou se levantar, apenas para escorregar e cair sentado de novo.

-Só vou tirar água do joelho, relaxa. – passou pela porta.

Faziam alguns anos em que Keigo viajava pelo mundo. Parecia mais tempo do que realmente havia ficado longe, acostumado com a arquitetura ocidental. A estrutura compacta do Japão era puro estranhamento. Se sentia em uma gaiola de luxo entre as paredes com decoração folheada a ouro.

Tão apertado que acabou esbarrando em outra pessoa na curva do corredor.

— Desculpa, desculpa. – sorriu educado e fez uma breve reverência com a cabeça.

Viu apenas coturnos e a barra de um sobretudo que sem dificuldade atraíram seu olhar mais para cima. Encontrou outro par de olhos também lhe encarando, uma mútua análise entre eles enquanto Keigo seguia a caminhada de lado, e então de costas. A troca de olhares só se encerrou quando sua mão tocou a porta do fim do corredor e entrou no banheiro.

Enquanto abria as calças, revisitou a última visão do corredor. Olhos azuis. Envolvidos com o que parecia ser maquiagem, mas não colocaria a mão no fogo por isso. Não sabia onde começavam e terminavam as tatuagens do rosto, não havia tido tempo. Viu desenhos começarem na mandíbula e desaparecerem em roupas escuras de couro que envolviam o corpo dele tão bem. E era uma figura tão alta, ou supunha, pois também eram coturnos altos. Saltos, talvez.

Suspirou de alívio quando terminou e a magia dos sanitários de Tokyo levaram tudo pela descarga. Lavou as mãos e se checou rapidamente no espelho.

A maquiagem ajudava esconder, profissional e discreta, como apenas Sosaki conseguia fazer, mas estava cansado. Por baixo da base, sua ansiedade se dava forma com círculos fundos e escuros que haviam lhe convencido a aceitar férias longas e inéditas em sua carreira. Normalmente acompanhava o fluxo de trabalho em que era colocado. Normalmente.

Precisava relaxar. De onsens, de massagens, de doces e frango frito. Por deus, precisava transar sem se preocupar com aparências e discrição. Alguém que colaborasse com as complicações de uma figura pública.

Suspirou. Para aquela noite, estava em forma. Amanhã era problema para amanhã.

Desapoiou na pia, enxugou as mãos e saiu do banheiro.

Coturnos o esperavam na saída.

Quase trombou uma segunda vez com o estranho, mas dessa vez, já sabia onde mais queria olhar e o que mais queria saber. Passando por jeans rasgados, mas com tecido aparentemente novo. Uma camiseta dois números maiores com gola baixa. E tatuagens.

As tatuagens começavam de dentro da camiseta com símbolos tribais que se transformavam em desenhos dos músculos da anatomia do pescoço e chegavam no rosto formando uma caveira. O artista havia feito um excelente trabalho mesclando o desenho do crânio do maxilar com o restante da face. Ainda havia o desenho da cavidade ocular sob os olhos e pele rasgada nas orelhas com um realismo surpreendente.

Olhos azuis elétricos o encaravam, uma sobrancelha erguida e um sorriso ladino. A observação de Keigo definitivamente não havia passado despercebida, assim como ele sabia que estava sendo analisado.

— Takami. Não é?

A voz rouca de um fumante com entonação de divertimento fez um calor muito interessante se repuxou no estômago de Keigo. Mas também o distraiu e levou um segundo para se lembrar que foi uma pergunta para ele.

— Sim. – exibiu seu melhor sorriso. – Um fã? Posso dar um autógrafo se tiver caneta com você.

Sentiu-se estúpido pela pergunta, uma parte de sim, pequena e preconceituosa, disse que aquele homem nem deveria conhecer música clássica. Ao menos tinha o perfil contrário do que estava acostumado na sua bolha social.

A outra parte de si, maior e mais firme, lhe assegurou de que sempre haveria a possibilidade. E ela foi silenciada de imediato com a resposta quase instantânea do homem.

— Não, nenhum desses. – ele tinha as mãos nos bolsos e a postura ligeiramente curvada. Keigo não tinha certeza se ele queria lhe segregar algo ou só fazer sombra nele. A diferença de altura entre eles se devia aos coturnos, supunha que, pelo menos, a maior parte.

Salto ou não, conhecedor de música clássica ou leigo, ele estava provocando mais reações no corpo de Keigo, cada vez mais ciente de detalhes no estranho. O cheiro suave de bala de menta do hálito, o amadeirado de sândalo e couro novo, o calor da proximidade exponenciado com um ambiente tão estreito.

Poderia ter como desculpa estar há semanas sem sexo e com a dormência de doses de sake. O que nunca poderia negar era o quanto figuras exóticas conseguiam facilmente atrair sua atenção e aumentar todo o teor sexual da pessoa. Desde as roupas apertadas aos piercings distribuídos por todo seu rosto, tudo fazia Keigo mais interessado em interagir, perguntar, tocar, lamber…

— E em que posso ajudá-lo nessa noite? – penteou a franja para trás com os dedos. Se não era um fã, precisava testar seu terreno. Talvez pudesse… talvez…

— Quero saber se quer ser meu modelo para pintura.

Achou que não havia ouvido direito.

— Desculpa, o quê? – aproximou o rosto, para ouvir melhor.

— Quero saber se quer ser meu modelo para pintura. – as mesmas exatas palavras no mesmo tom tranquilo.

Não sabia dizer qual expressão havia o rosto do estranho. Poderia estar com um sorriso leve ou zombeteiro, ou sendo apenas cínico, era difícil. As tatuagens dificultavam uma leitura devida.

— Pintura? Você é artista? – sorriu e apoiou as mãos na cintura. – Legal! Claro, quer uma foto?

O homem riu, chiado e baixo reforçando seu estigma de fumante. Ele negou e inclinou a cabeça para o lado, e Keigo foi mais uma vez analisado nos segundos de silêncio. Não era ruim. Estava gostando muito de ser a atenção dele e algo lhe dizia que devia se repreender por querer mais. Talvez amanhã soubesse o porquê, mas naquele momento não via razão.

— É um trabalho específico com posições específicas. – o sorriso era rasgado e a malícia escorria no tom. – E é melhor ao vivo.

Talvez houvesse passado muito tempo fora do Japão, porque aquele era um cenário absurdo que o fez gargalhar no meio do corredor. Talvez em um lugar mais liberal, mas… O que diabos? A bem da verdade, poderia haver câmeras escondidas em algum lugar lhe aprontando alguma pegadinha e aquele estranho poderia ser um ator. Entretanto duvidava que Tensei permitisse algo do gênero, expondo a imagem de Keigo em um teste enquanto ele mesmo estava bêbado.

E Keigo podia fazer suas loucuras do dia a dia. Podia estar muito interessado numa rapidinha no banheiro com um gótico totalmente estranho. Mas ainda tinha uma imagem a conservar e não estava embriagado o suficiente para esquecer.

O homem conservava a postura entre o desleixo e confiante, o sorriso torto constante.

— Desculpa, estou processando. – falou quando parou de rir. – Primeiro, quem é você?

— Pode me chamar de Dabi. – o sorriso aumentou, repuxando a tatuagem de dentes em seus lábios. – É só o que precisa saber.

— Amigo, não sei como funciona para você, mas para mim mostrar mamilos envolvem mais algumas informações antes. – deu de ombros. – Mas eu já posso te poupar o trabalho e avisar que não tenho experiência no ramo, pouco tempo disponível também. Tenho certeza que você consegue alguém melhor por aí.

Dabi balançou a cabeça. Aquele sorriso era bonito demais para a razão de Keigo inebriada com álcool. A mesma parte que lhe repreendia há um minuto começou a ficar mais alarmante, pedindo que voltasse para a companhia dos amigos.

— Estou procurando algo específico que você tem.

Dinheiro. Fama. Contatos. Não era difícil suspeitar daquilo. E Keigo bem poderia ignorar tudo, pois ser usado enquanto usava com consentimento e segurança estava dentro da sua lista de coisas aceitáveis em relações despretensiosas. Mas havia bebido. Não muito, mas havia. E estava acompanhado dos amigos. Poderia avaliar oportunidades como aquela depois com a cabeça mais limpa.

— Vou ter que passar dessa vez, amigo. – sorriu para o sujeito e, sem esperar resposta, com um sonoro lamento da parte excitada de sua mente, contornou Dabi e seguiu pelo corredor.

— Há uma exposição minha no Centro Nacional de Artes. – ouviu o homem falar atrás de si – Fecha em uma semana.

— Boa sorte com ela. – acenou sem parar sua caminhada.

Não era uma pegadinha, ou ele teria insistido mais. No mínimo era algum paparazzi maluco com uma nova tática de tentar conseguir fotos exclusivas suas. Já havia recebido pedidos estranhos, era claro. Praticamente todos no ramo da música já foram abordados com alguma proposta ridícula com segundas intenções.

A porta não amenizava em nada a conversa da sala reservada para seu grupo. Já podia ouvir a discussão de Tensei e Tsuchikawa por qualquer coisa.

Correu a porta para o lado sem cerimônia, a tempo de ver Sosaki se assustar mais uma vez e derramar cerveja no colo.

— Diabo, Keigo! – ela ralhou.

— Voltei e já quase consegui uma saída para sexo. – anunciou, fechando a porta atrás de si, mas franziu o cenho para a cena. – Quem colocou orelhas de gato no Tensei?



~º~



— Entre ficar sozinho e ter a companhia de muitas pessoas, o que prefere?

Keigo faz uma careta.

— Depende… – ele entrelaça os dedos no colo. – Quem é minha companhia?

— Todos desconhecidos.

Desentrelaça os dedos para coçar atrás da cabeça e nega.

— Sozinho. Por um tempo. – ele coça o cavanhaque, deixa a cabeça pender para trás, fica em um silêncio pensativo. – Depois vou conversar um pouco. E volto a ficar sozinho. – ele olha a câmera. – Depois volto. Talvez.

— Não acha uma boa oportunidade de torná-los conhecidos e ficar mais confortável?

— Ah, se fosse fácil assim se tornar conhecido de alguém. – Keigo ri. Ele apoia as costas no encosto da cadeira e também um braço, deixando a mão pendida para trás. – Tem o tempo, não é? E a confiança e as circunstâncias. Ainda mais sendo famoso, é difícil saber quando alguém quer algo verdadeiro comigo. Pode ser só fanatismo. Veem o artista e não o resto de mim. – com a postura desleixada, Keigo faz um sinal indicando a si mesmo. – Ou só querem se aproveitar. Não é raro. Eu me aproveito do meu status algumas vezes também. – ele dá de ombros.

— Então, com o tempo, acha que poderia ficar a vontade com um grupo maior de pessoas se forem conhecidas?

Keigo nega.

— De novo, eu gosto de interação. Mas muita ao mesmo tempo me drena.

— Há alguma companhia com a qual acredite que possa interagir por muito tempo sem ficar desconfortável?

Ele assente com um sorriso.

— Rumi. Tensei, desde que eu não esteja em um concerto. Ele me lembrando de horários e postura é… – Keigo suga o ar entre os dentes. – osso. – ele ri, traz o braço de volta para frente do corpo e junta as mãos. Fica com os olhos baixos por um momento antes de encarar a câmera mais uma vez. – E música.

Seu sorriso se transforma em uma risada. Ele fecha os olhos e ele suspira.

— Eu amo tocar.



~º~



Concerto de Barber em A menor.

Keigo deixou a cabeça pender para trás, olhos fechados enquanto a orquestra ao seu redor iniciava sob o comando do Maestro. Notas tão precisas, tão perfeitas, elevando sua consciência para além do teatro.

Com um pouco de imaginação, podia colocar o vento ali. Ele o abraçaria e puxaria para uma dança refrescante, sussurrando promessas de liberdade. Uma fuga alucinada, para qualquer lugar, menos o chão.

Para dançar com o vento, Keigo precisava bater asas, e suas asas estavam nas pontas de seus dedos, se posicionando para sua entrada.

Postura aprumada, violino firme entre seu queixo e ombro, arco na mão. E, ainda de olhos fechados, voou.

Aquela dança exigia um primor maior atenção. Era uma peça com alta demanda de técnica e suas asas regojizavam com o desafio. Keigo gostava dos voos tranquilos, mas dificilmente dispensaria uma aventura tão satisfatória.

Dedilhados rápidos, floreios lânguidos e precisos com o arco. Na sua face as súbitas mudanças de expressões, indo de diversão à dificuldade, passando por felicidade e dor. Eram coisas que jamais poderia esconder em uma dança, ainda mais uma de tão alta qualidade. A música era para ser sentida, vivida e correspondida a altura.

E ela era tão boa com Keigo. Uma amigável tortura que se arrastava com dedos mornos por seus braços, de tempos em tempos o deixando sem ar, como uma amante determinada em atormentá-lo com promessas antes de realizar seus mais doces desejos.

E havia uma pausa. Pois a música precisava pausar.

Keigo abriu os olhos apenas para ver o aceno do Maestro que ele retribuiu, uma confirmação de que ainda estavam em sintonia. Mexeu os braços, pernas, se alongou ainda de pé para se preparar para o próximo ato.

E voltou a fechar os olhos.

Voou no segundo ato, o vento o recebendo com a mesma graça, como se não houvessem se separado um minuto antes. Se libertou por minutos, até mais uma vez ter o momento da pausa entre os atos. Instigante e necessária, dado a sutil dormência que a atividade fez crescer em seus pulsos, que se tornou nada ao se entregar ao terceiro ato.

Era a investida final, seu último ato, onde seus dedos correram dormentes pelas cordas, puxando os mais belos sons em cada vibrar e delegando aquele teatro como seu domínio. Era rei. No teatro, do violino, do céu. Seu voo pela liberdade estava em seu auge, a sinfonia estava perfeita, cada vez mais rápida, mais intensa, tão alta que quase o fazia pular da cadeira, com a sincronia ideal de longos gestos…

E o fim.

A música terminou subitamente e os aplausos rugiram.

Keigo abriu os olhos e sorriu para a plateia que o ovacionava. Apertou a mão do maestro e junto dele recebeu os aplausos. Gritos de ‘bravo’, assobios, buquês sendo colocados na beira do palco quando não cabiam mais nas suas mãos.

Acenou e agradeceu com reverências por quase cinco minutos, até que Tensei o chamou discretamente por trás da cortina dos bastidores, ao lado de Chatora. Keigo foi até lá, ainda sob o som dos aplausos, que esmaeceram pouco tempo depois.

— Foi excelente. – Tensei o saldou com um largo sorriso e o envolveu com um braço.

— Estava perfeito, Keigo. – concordou Chatora com um rosnado que, para outros, deveria ser assustador. Keigo sabia que ele estava tímido, pois nunca sabia qual elogio cabia melhor.

— Obrigado, senhores. – riu sendo escoltado no meio abraço.

Ele seguiu ladeado de seus agentes, sorrindo para os funcionários que também aplaudiam a caminho.

A rotina era a mesma. Chatora e Tensei o levavam de um lado para o outro, do camarim, para a sala de recepção, para a festa pós concerto. Já estava com outra roupa, outra maquiagem e o cabelo rearranjado. Mais uma vez, estava impecável, não importava seu cansaço.

Não era para menos, precisava estar. Os outros convidados eram a nata da sociedade, com roupas de design estranhos, joias do tamanho de bolas de golfe, perfumes caros e narizes erguidos. Se aparecesse ali com o menor desalinho, ah, seria a capa de revistas de fofoca com uma enxurrada de teorias da conspiração. Os patrocinadores costumavam não gostar e Keigo precisava lamber as mãos que o alimentavam.

— Oh, Takami chegou!

O que não diminuía o incômodo que era estar naquele tipo de ambiente.

— Bom te ver de novo, meu amigo.

— Takami, a apresentação estava soberba. Será difícil alguém superá-lo.

— Maravilhoso. Logo o chamarão de menestrel, tenho certeza.

— Por favor, aceite. Queria ter certeza de que receberia de minhas mãos.

-Obrigado, obrigado! – Keigo sorriu para o grupo que começava a cercá-lo. Aceitou o buquê e o cheirou por um segundo. – Oh, são formidáveis, obrigado! – virou-se para Tensei para entregar o buquê, que já estendia a mão para aceitá-lo como se houvesse lido sua mente. – Pode pedir para alguém colocar na água, por favor?

Cumprimentos, acenos, sorrisos, galanteios. Um atrás do outro com pessoas que só conhecia pelo nome. Lhes dava palavras vazias enquanto caminhava, pois tudo o que queria naquele momento era correr para seu hotel e cair na cama para aproveitar da boa sensação que o concerto ainda provocava em seu corpo. Mas precisava de mais algumas horas de agrado. Apenas algumas.

Apesar de ser seu agente, Tensei tinha sua própria vida social para cuidar. E ao contrário de Keigo, ele gostava de reuniões sociais, do chique, do abastado. Iidas nasceram e cresceram naquele mundo por quatro gerações, era o habitat dele. Em poucos minutos, ele já estava inteirado no assunto do momento, conversando com eloquência invejável e Keigo achou por bem deixá-lo em paz.

Chatora era outra história. Ele era mais reservado sem as garotas e se atrapalhava quando estranhos tentavam puxar assunto. Keigo era o perfeito para-raios para conversas. Lidava com elas. Com todas.

— Uwabami está aqui. – Chatora sussurrou próximo ao seu ouvido.

Estava a um ponto de pensar que não havia forma de ficar mais desconfortável quando se lembrou de que sim, havia como.

— Chegou a ver ela? – sussurrou sobre o ombro, tentando não mover os lábios e assim chamar atenção do grupo com qual falava até então.

— Se não é meu lindo primo. – ouviu um ponto ao lado.

E a própria já estava praticamente ao seu lado. Foi como se abrissem caminho para ela.

Cabia perfeita naquele ambiente. Além das jóias e do porte elegante, era belíssima. Com um longo vestido vinho de cauda de sereia, taça de champagne na mão e o cabelo dourado preso em um complexo coque feito de tranças. Se olhasse rápido, poderia confundir com um emaranhado de cobras. Keigo sabia que era intencional, mas duvidava que mais alguém além dele e de Ryuko soubessem disso.

Ryuko estava logo atrás dela e pararam lado a lado diante de Keigo. Igualmente bela, mas com a descendência chinesa mais acentuada, reforçado pelo qipao vermelho adornado com padrões douradas. Do seu braço direito, saindo da manga da roupa, surgia uma tatuagem colorida de uma cauda reptiliana cercada por flores.

Sozinhas, elas já exalavam uma aura de perigo atraente, tal qual o cheiro adocicado de plantas carnívoras que atraem moscas para se alimentarem. Lado a lado, uma com um sorriso leve e a outra com a delicada expressão de uma elegante estátua, passavam a impressão de caminhariam tranquilamente sobre qualquer um com seus saltos agulha.

— Uwabami! – Keigo abriu os braços e um sorriso. Segurou a mão livre da prima para dar-lhe um singelo beijo nos nós dos dedos. Ela sorria o observando. – Que bom te ver de novo, prima querida. – enquanto soltava a mão de Uwabami com cuidado, olhou na direção da outra. – E Tatsuma-san! – cumprimentou-a com uma reverência. – Prazer em revê-la.

— Parece que você ficou menor. – disse Ryuko, ainda séria, beirando ao tédio.

— Ah, é apenas a presença formidável de vocês duas. – sorriu educado. E assim que um garçom passou perto deles com bebidas, tratou de pegar uma taça e bebeu logo a metade do champagne.

Os demais convidados que antes estavam próximos de si já haviam dado licença, se atarefando em outras interações. Afinal, Uwabami deixava claro quando queria ou não alguém por perto, bastando um olhar de esguelha.

— É estranho voltar depois de tanto tempo, não é? – comentou sua prima. Ao contrário de Keigo, ela bebericava com refinamento nato.

-Sim. – arqueou as sobrancelhas. – Ouvir as pessoas falando japonês na rua, não ter problema em saber o que está escrito nas placas, o tempero… – negou e riu. – Mas me acostumo de novo logo.

— Se ficar trancado nesse tipo de ambiente, não vai se acostumar nunca. – Ryuko olhou ao redor com um toque de desprezo no olhar. – Forçam a decoração ocidental.

— Ora, é difícil encontrar tradicionalismo japonês em centros urbanos há décadas. – Keigo riu. - Ao menos se não estiver falando dos Todoroki.

O interesse se instalou no olhar de Ryuko, que voltou a encará-lo.

— Os Todoroki sim são exemplo do que é a vida no Japão no cerne. – ela comentou.

— É fã? Não sei se sabem, mas Tenya organizou um concerto particular entre mim e Todoroki-san. Caso estiverem interessadas, posso conseguir convites. Haverá até festa.

— Pois eu acho as festas com os Todoroki ainda mais sufocantes. – Uwabami fez uma levíssima careta, pois era o tipo de pessoa que evitava expressões muito acentuadas para não incentivar rugas. – Enji possui um péssimo senso de humor. Tudo rígido e ortodoxo demais. Rei era a flor da festa e até isso ele conseguiu estragar.

Foi a vez de Keigo franzir o cenho.

— Estragar Rei? O que houve com ela?

Uwabani lhe lançou um olhar de canto e riu, mas não falou de imediato. Apenas bebericou o champagne mais uma vez antes de voltar a falar.

— Seu retorno está tão chato que está começando a se interessar por fofocas?

Ryuko fez um som de desprezo com a boca e também pegou para si uma taça com bebida colorida.

— Desentendimentos matrimoniais. – ela comentou. – Nem sei porque dar atenção para isso, eles mesmos não querem.

— Eu só sei que há mais coisa por trás do que eles querem mostrar, ora. – ela deu de ombros. – Informações são importantes no meu ramo.

Keigo sentia que suas pernas criariam vida própria em um instante e se afastaria de tudo dali. Não gostava daquele mundo e nada que o envolvesse, Uwabani inclusa.

Havia uma verdade que o mordia pela canela naquela conversa. Ela certamente era uma fonte de informações desagradáveis sobre pessoas, viajando o mundo como uma modelo internacional e tendo todo tipo de fontes. Mas as vezes aquele conhecimento era mais veneno que verdade. Se havia algo entre os Todoroki em que nenhum deles veio a público explicar, Keigo sabia que não era da conta deles, muito menos responsabilidade para alguém totalmente de fora espalhar boatos.

— Seja o que for, acho que eles resolveram entre si. – falou e sorriu como ditava a etiqueta, pois seu autocontrole era maior que aquilo.

— De qualquer forma, não fique por aqui, Keigo. – Ryuko o encarou. – Veja o Japão como ele é. Os jardins, as ruas, o interior.

— Ou galerias. – sugeriu Uwabani. – Acabamos de voltar de uma exposição exuberante.

— Sanguinária. – corrigiu Ryuko antes de beber um gole da bebida.

— Não exagere. – sua prima sorriu para a amiga. – Eu sei que você adorou.

— E qual foi? – perguntou Keigo. Estava feliz com a mudança de assunto.

— Uma aqui perto, no Centro Nacional de Artes – respondeu Ryuko. – Está com o tema Wind Marks.

Havia alguma coisa familiar clicando na sua mente, uma memória embriagada de dias antes.

— Esculturas, pinturas e instalações. – completou Uwabani. – Você pode interagir com algumas. Há uma com uma sala repleta de cordas penduradas e muito vento do lado oposto da entrada. A experiência de atravessar aquilo é única.

— Centro… – franziu o cenho. – Quem é o artista?

— Não é só um. São… – Uwabani olhou com dúvida para a amiga. – Três?

— Três. – Ryujo confirmou. – Kurogiri, Dabi e Overhaul. É formidável como conseguiram conversar tão bem com as peças.

Keigo piscou um par de vezes com a informação sendo digerida. Olhos azuis, desenhos ferozes e uma voz tranquila.

“Quero saber se quer ser meu modelo para pintura.”

— São… artistas famosos?

— Sim, mas discretos, – Ryuko girou a bebida dentro da taça. – porque não divulgam a própria aparência ou os nomes verdadeiros. Dos três, só Overhaul fez uma aparição uma vez, mas com uma máscara. Só dá para saber que é homem-shoyo² e moreno.

— E… eles pintam pessoas?

Recebeu olhares confusos e divertidos.

— Sim? Dabi, principalmente. O trabalho dele é mais voltado para pinturas simbólicas. Ele não pinta rostos, ao menos nunca vi nenhuma pintura com algum rosto que não fosse uma caveira.

— Tudo bem, Keigo? – perguntou Uwabani.

— Uhum. – Keigo assentiu e bebeu o resto do champagne.



~º~



Keigo está limpando as unhas. Ele fecha e abre a mão, as observando e volta a limpar.

— A respeito de sua família, – pergunta a voz feminina e Keigo olha para um ponto sobre a câmera. – o que diz a respeito de conviver com eles?

— Não. – Keigo responde de imediato, a expressão neutra. Há uma pausa.

— Não o quê?

— Só não. – ele nega e ergue uma perna para apoiar o calcanhar no joelho da outra. – Quanto maior minha distância da minha família, melhor.

— Pode dizer o por quê?

— Não. – ele entrelaça os dedos e apoia as mãos na barriga.

— E sobre Uwabani?

— Também não. – ele nega e sorri. – Próximo tema?






¹ – Brocon: gíria no Japão para pessoa com complexo de irmão (Brother Complex). São pessoas com atração amorosa pelo irmão. Também tem siscon, com irmã.

² – Essa aprendi recente e me carece de fontes confiáveis para confirmar. Se alguém souber melhor, se é comum ou não, me fala, por favor. MAS, aparentemente, no Japão é uma brincadeira comum classificar pessoas como “Ketchup” e “Shoyo”, respectivamente pessoas com aparência ocidental e oriental. Nesse caso, Ryo disse que o homem tinha fisionomia de japonês.

26 de Março de 2020 às 23:34 0 Denunciar Insira Seguir história
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