ELIMINAÇÃO INSTANTÂNEA Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Já se imaginou em uma vida sem problemas? Este desejo foi possível para Pedro assim que ele conheceu um estranho homem que carregava consigo um bloquinho de notas. Basta dizer o seu problema, e ele será anulado do universo...


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Eliminação instantânea



As pessoas sonhavam em ter uma vida sem intervenções, e Pedro Pedroso não era uma exceção.
Ele acordava às cinco horas da manhã, andava até o ponto de ônibus e esperava a sua linha por cerca de vinte minutos, e quando embarcava comumente permanecia em pé, pois os lugares já estavam todos ocupados.
Descia uma hora depois, andava um pouco mais até a estação do trem e espremia-se entre as pessoas quando precisava entrar nele. Lá dentro, ficava escutando as conversas alheias mesmo que não quisesse, e sempre havia uma alma não educada que lhe empurrava com alguma mochila ou sacola de compras.
Descia na estação das Flores (ele e metade das pessoas do vagão) e sumia no meio de tanta gente, olhando para baixo, introspectivo, recebendo pequenas cutucadas dos outros que vinham logo atrás, coices que lhe atingiam na altura dos tornozelos. Então, Pedro Pedroso entrava no edifício Carlos Sanches, subia inúmeros degraus até que chegasse no andar de número seis onde ficava a sua pequena sala que cheirava a perfume barato.
Para sua surpresa (e principalmente seu susto) alguém estava lhe aguardando naquela manhã. Era um homem que usava um terno escuro, tinha gel nos cabelos e exibia um sorriso simpático. Pedro permaneceu parado, com a porta ainda aberta atrás de si.
— Como conseguiu entrar aqui? — ele quis saber, e aquela pergunta não fez com que o sorriso no rosto do homem desaparecesse.
— Relaxe, Pedro. Venha, sente-se aqui onde você sempre senta e vamos conversar um pouquinho.
A próxima pergunta de Pedro seria: como você sabe o meu nome? Só que ele não a fez, por alguma razão que ele mesmo não sabia.
Obedeceu ao homem de sorriso fácil e se ajeitou em sua cadeira barulhenta do outro lado da mesa, que por sinal estava praticamente vazia, exceto por alguns papéis que ele havia deixado ali no dia anterior e por uma plaquinha retangular com seu nome grafado nela. Seu nome; ali estava a resposta da pergunta que ele preferiu não fazer.
— Olhe, se está procurando algo relacionado a advocacia, sinto lhe informar que…
O homem o interrompeu com um gesto de mão.
— Não, não. Minha visita será breve e servirá apenas como uma ajuda. Você já ajuda demais aqueles que não deve, e já é hora de alguém lhe ajudar, não é mesmo?
Pedro Pedroso concordava com aquilo, e já começava a nutrir um pequeno sentimento por aquele estranho. Não era bem uma amizade (não, cedo demais), mas algo semelhante aquando você encontra algum desconhecido no supermercado e nota que ele está comprando basicamente as mesmas coisas que você. Aquela era uma comparação ridícula, mas Pedro pensava que era mais ou menos assim.
— Continue, — pediu Pedro, agora exibindo a sua versão de sorriso simpático. Ela era um pouco diferente, com menos entusiasmo e mais cautela.
O desconhecido assentiu e disse:
— Basicamente, estou aqui para livrar-lhe de seus problemas.
Pedro escutou com atenção, assim como uma criança faria ao assistir uma peça de fantoches. Seus olhos não piscavam, e ele esfregava as mãos em segredo por debaixo da mesa. Estava gostando de cada coisa que ouvia, mesmo que parte delas soassem como um total absurdo.

Em determinado momento, Pedro sentiu a necessidade de interromper o estranho de terno. Fez isso devagar, quase gaguejando, pensando se aquela seria mesmo uma boa ideia.
— Você está me prometendo o impossível, — disse ele, de repente se enchendo de coragem. — Veja, sou advogado. Não estou entre os melhores, mas me saio bem às vezes. O que significa que sei julgar as pessoas. Consequentemente, sei quando elas estão mentindo.
O sorriso ainda estava vivo no rosto do estranho, e em seguida ele retirou um bloco de notas do bolso interno de seu paletó. O segurou diante de si, sacudindo-o para Pedro.
— Isto é a solução de seus problemas, — avisou o homem. — Nós não usamos armas, e nem sujamos as mãos com sangue.
— Nós?
— Somos muitos, caro Pedro. Nos veja como cobradores de dívidas. Não é justo quando uma pessoa suporta mais problemas do que pode. Isso leva a depressão, e consequentemente a morte. Então, equilibramos a balança.
Equilibrar a balança. Isso era algo que sua profissão procurava fazer, e só o fato daquele desconhecido aplicar aquele termo, fez com que Pedro sentisse que talvez ele merecesse uma oportunidade.
— De acordo, — disse Pedro, sem ter muita certeza. — O que eu preciso fazer?
O sorriso do desconhecido pareceu aumentar medonhamente, fazendo com que seus dentes se tornassem enormes e assustadores.

Tudo que Pedro Pedroso precisou fazer, foi dar um nome para que aquele desconhecido anotasse em seu bloco de notas.
Pedro nem teve de pensar muito. Achava que um de seus clientes, um homem de meia-idade, chamado Guto, seria considerado culpado pelas acusações que vinha sofrendo por parte de uma adolescente. Haviam provas demais contra ele, incluindo um vídeo de aproximadamente dois minutos onde o sujeito fora flagrado se masturbando em seu jardim. Pedro o achava um completo escroto, mas até indivíduos como aquele tinham direito a um advogado.
Decidiu que aquele seria o nome, e o disse quase de imediato, observando que o estranho o escreveu em seu bloco com uma caneta preta sem qualquer logotipo.
— Bem, isso é tudo — falou o estranho, ficando de pé em seguida. — Vou voltar em breve, para que o senhor elimine outro problema.
— Espere, — pediu Pedro, também ficando de pé. — Por acaso vai matar esse sujeito?
— Não escutou quando falei que não usamos armas, Pedro? Nosso negócio é eliminar problemas. Sejam eles pessoas ou não. Se o seu nome parar neste bloco, você simplesmente deixa de existir, — o sujeito pensou por um instante, então continuou. — A propósito, quer se livrar desta dor no joelho?
Pedro Pedroso caiu de volta na cadeira.

As visitas eram mensais, e toda vez que Pedro chegava em seu escritório, o homem do bloco de notas já estava lá, sentado e pronto para trabalhar. Ele não dizia o seu nome, e Pedro não sentia necessidade de perguntar. Aquele sujeito estava sendo de grande ajuda, fosse ele quem fosse, trabalhasse para quem trabalhasse. Ele tinha seu método de equilibrar a balança do universo, e Pedro passou a sentir inveja e admiração por aquele trabalho, uma coisa muito mais útil do que defender tarados ou ladrões de bar.
Depois que Pedro eliminou a dor incômoda de seu joelho, e algumas pessoas que ocupavam espaço demais no ônibus e no trem, ele pediu para que o estranho o visitasse semanalmente. Então, naquela semana, Pedro Pedroso tinha novidades para seu eliminador.
Ele já estava em seu escritório, como de costume, sentado e com as pernas cruzadas, usando um gel que fazia sua cabeça brilhar e com aquele sorriso que Pedro gostava de comparar ao de um vendedor. Deu-lhe bom dia, e depois que se acomodou em sua cadeira que agora não rangia mais (méritos para o eliminador), Pedro lhe contou que estava namorando.
— Ora, isso é ótimo — falou o novo melhor amigo de Pedro, já que o anterior, Denis Muniz, se tornou um problema e aquilo passou a ser facilmente resolvido.
— Na verdade, ela e eu voltamos. Já fomos casados. Daí ela descobriu uma traição minha, e acabamos nos separando. Sabe como é, não é?
O eliminador não sabia com certeza, mas já disponibilizara seus serviços para outras pessoas com aquele tipo de problema. Sendo assim, ele apenas assentiu.
— Como vai o joelho?
Pedro Pedroso afastou a perna esquerda da mesa e bateu com o pé firme no chão.
— Melhor impossível, — falou, e sorriu como um adolescente tímido. — É que agora consigo lugar pra sentar quando venho trabalhar. E você resolveu também o problema do elevador enguiçado. Você é indispensável!
— Falando nisso, sempre tive curiosidade em saber como você conseguiu o nome daquelas pessoas que lotavam o ônibus e o metrô.
Pedro sorriu como um garoto travesso, e disse que apenas fingiu estar fazendo uma espécie de pesquisa, algo muito comum e que não levantaria suspeitas. Depois de contar como havia feito, seu semblante se fechou inesperadamente, e ele perguntou:
— Eu não matei essas pessoas, matei?
— Absolutamente. A eliminação não é uma morte. Ela apenas anula algo ou alguém. É como se aquilo nunca tivesse existido. E quem convivia com este alguém, simplesmente não se recorda de nada. A vida muda quando se mexe na balança.
O sorriso renasceu no rosto de Pedro. Ficou ali por mais alguns segundos, antes de se fechar outra vez e ele se levantar. Andou até a porta e a fechou a chave, depois foi até a janela e fechou as persianas, mesmo ciente de que estavam no sexto andar. Sentou-se outra vez e debruçou-se sobre a mesa, aproximando-se o máximo do eliminador.
— Sabe a minha namorada? — disse Pedro, e observou que o eliminador já segurava o bloco de notas em uma das mãos e a caneta na outra. — Bem, ela e eu voltamos, como já lhe contei. Mas antes de voltarmos, nos encontrávamos às escondidas em um motel que fica aqui perto. Ela estava de namorico com um rapaz, e não queria ser descoberta. Então ontem a noite, após treparmos, ela me contou que estava grávida. Certamente o rapaz é o pai, entende?
O eliminador não entendia nada sobre trepar ou gravidez, mas sabia aonde uma conversa como aquela iria chegar.
— Sabe o nome deste rapaz? — perguntou, mas Pedro Pedroso lhe deu uma resposta negativa e depois disse:
— Por acaso vocês trabalham com bebês?

As visitas passaram a ser diárias, e as conversas entre os dois, muito mais promissoras. Pedro Pedroso passou a se livrar de todo tipo de problema (fosse ele uma leve enxaqueca ou uma compra da qual se arrependeu), e sua vida de casado com Célia estava melhor a cada dia.
Ela era uma mulher bastante atraente, de cabelos loiros e que graças ao eliminador, não teria o corpo estragado por conta de um filho. Pedro sabia que aquela criança não tinha como ser dele (não tinha?) e sentia uma felicidade tenebrosa quando lembrava que ele era o único naquela história a saber que um dia houvera um bebê. Os dias foram passando, e as conversas com o eliminador passaram a ser apenas casuais, nada que envolvesse o seu temido bloquinho de notas.
A última vez que Pedro o utilizara, fora para pedir o fim de seu problema de ereção, algo que o acompanhava seguidamente e já estava lhe perturbando, o fazendo com que se sentisse menos homem. Tempo depois, alguns pensamentos preocupantes começaram a surgir, e Pedro sentiu que de alguma maneira também poderia estar em perigo.
Haviam outros eliminadores por aí, cumprindo com suas obrigações, eliminando as coisas do universo e as tornando nulas. E se alguém desse o nome dele para um destes eliminadores?
Certamente seria o fim da existência de Pedro Pedroso, advogado de quarenta e dois anos e que já apresentava sinais de calvície.
Tentou descobrir um pouco mais com o seu eliminador, mas como Pedro suspeitava, ele apenas desviou o assunto e disse que não tinha como saber dos afazeres de seus colegas. Pedro era um bom observador, e julgou que aquele homem poderoso não estava de fato mentindo. Mas, como saber?
O homem lhe dissera em sua primeira conversa que os eliminadores se movimentavam pelo cheiro; segundo ele, os problemas fediam, cobriam o corpo das pessoas com uma substância oleosa e amarelada.
Foi assim que chegaram até ele, e Pedro Pedroso têm sido apenas alegria desde então. Só que haviam os pensamentos. A possibilidade de ter seu nome citado por algum inimigo, um cliente antigo e insatisfeito. Aquela incerteza o fez tomar uma decisão audaciosa, e uma semana depois, com o eliminador sentado diante de si, Pedro abriu a sua pasta de casos arquivados e lhe mostrou mais de cem nomes ali impressos.

Com toda aquela ansiedade, Pedro voltou para o hábito do café. Primeiro, uma xícara por dia, depois a cafeteira inteira em meia tarde.
Pediu para o eliminador sumir com aquele problema, e já no mesmo dia Pedro jogou a cafeteira na lata do lixo. Sem a cafeína, recomeçou a fumar.
Sentava-se na beirada da cama e fumava quase um maço completo, com Célia deitada nua atrás de si. Entrou em uma loja de conveniências e comprou um belo cinzeiro, prateado e em formato circular, e o colocou sobre a sua mesa no escritório.
Quando pediu para o eliminador anular a suas vontades, estava sentado e com o cigarro entre os dedos. Com uma única rabiscada, o cinzeiro e o cigarro desapareceram diante dos olhos de Pedro, assim como sua vontade.
Agradeceu por aquilo (vinha agradecendo constantemente) e disse que queria ficar sozinho.
O eliminador disse que entendia, levantou-se e se despediu com um até logo. Assim que teve a certeza de estar sozinho, Pedro pegou a sua pasta de couro e a abriu em cima da mesa. Revirou alguns papéis (procurava por nomes que talvez tivessem ficado de fora da anulação passada) e certificou-se que estava tudo em ordem. A balança estava equilibrada. Então, porque aqueles pensamentos não iam embora? Poderia simplesmente pedir que o eliminador os anulasse, mas não pretendia. Tinha de estar atento, caso contrário seria como levar um tiro pelas costas. Contudo, Pedro Pedroso não tinha mais a sua paz, algo que raramente já teve, mas que o eliminador garantiu que teria. Ora, uma vida sem problemas deveria trazer tranquilidade, não deveria?
Pedro só achava que haviam esquecido de lhe dizer que haveriam efeitos colaterais.
Cansado e com medo de acabar enlouquecendo com tudo aquilo, Pedro decidiu que faria o que sua mente já perturbada estava lhe ordenando.

Agora sentado em sua varanda, em uma cadeira que era para ser de balanço, mas que por conta de um problema na junta não balançava, Pedro Pedroso apenas observava o dia passar.
Ele passava boa parte de seu tempo ali, olhando as pessoas, as árvores e o clima. Às vezes, acompanhado de uma xícara de chá de pêssego que sua cuidadora preparava para ele. Ela se chamava Alessandra, e tinha um astral bastante agradável. Quem a contratara fora a própria Célia antes de arrumar as malas e partir. Ela encontrara Pedro uma semana depois que ele sumiu; ele saíra para trabalhar e nunca mais voltou, até ser encontrado por Célia dormido debaixo de uma árvore na praça.
Pedro não a reconhecera, estava com a barba por fazer e fedendo a mijo. Ele não era mais capaz de lembrar de coisa alguma, e falava com certa dificuldade. Era como se tudo em sua cabeça tivesse sido anulado, apagado de alguma forma. Uma coisa que Célia não foi capaz de entender, tampouco de aceitar.
Pedro Pedroso era apenas um corpo, e aquilo ele até que entendia, mesmo que por vezes parecesse apenas um inválido pegando sol no pátio de algum sanatório. Às vezes ele queria sair andando, sem rumo, mas sua percepção de caminhar estava a cada dia pior. Preferia então ficar em sua cadeira de balanço que não balançava, olhando a vida passar e deixar de existir. Olhava praticamente para tudo, e quando tentava se lembrar de como aquilo chegara naquele ponto, sua cabeça quase explodia e ele começava a gritar, rolando no chão.
Via todas aquelas pessoas indo e vindo, passando e o ignorando, até que enxergara uma jovem acompanhada de um rapaz. Eles formavam um casal bonito, e a jovem não parava de olhar para ele. Reparou que a jovem estava grávida, e por alguma razão aquilo fez Pedro sorrir.
Tomou outro gole de seu chá, e por um breve momento que morreu segundos depois, Pedro Pedroso soube que reconhecia aquela mulher.

23 de Março de 2020 às 21:18 0 Denunciar Insira 2
Fim

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