PESADELOS E DELÍRIOS LÍCITOS Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Um homem que está tentando parar de fumar, passa a sofrer com estranhas alucinações por conta de sua abstinência. Seriam aquelas figuras de fumaça reais?


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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PESADELOS & DELÍRIOS LÍCITOS




Aguardava o telefone tocar, e enquanto fazia isso, sua ansiedade aumentava, suas mãos ficavam agitadas e Ricardo Pascoal sentia que logo estaria suando.
Havia enviado um book para a agência Belos Tesouros, isso já há quase duas semanas, e a data em que lhe prometeram retornar estava vencendo. Isso o deixava tenso.
Ricardo nunca fora um sujeito controlado, frequentava terapia e mantinha um ou outro vício. Gostava basicamente do que todo homem de vinte e poucos anos apreciava, e isso incluía mulheres, futebol e sexo. Também tinha uma queda avassaladora pelo tabaco, mas esta ele jurava que estava tentando combater, se mantendo o mais distante dela possível. Vinha obtendo sucesso quanto ao se manter afastado, mas sua abstinência o estava deixando em parafusos.
Ultimamente, Ricardo andava enxergando coisas. Estas aparições não ocorriam com frequência, apenas quando Ricardo ficava próximo de algum fumante. Imediatamente conciliava isso ao fato de estar há duas semanas sem dar uma tragada; já ouvira depoimentos de outras pessoas que estavam tentando parar, e elas sempre mencionavam que em algum momento passavam a sofrer de delírios. Achava que estava chegando nessa fase, mas procurava não dar muita importância para ela, mesmo que aquilo que visse lhe causasse arrepios. Após algumas horas de espera e angustia, o telefone tocou e Ricardo o atendeu. A voz do outro lado da linha era feminina, agradável e bastante simpática. Ela lhe agradeceu pelo envio do book de fotos, e também pela preferência ao selecionar a Belos Tesouros para tal. Ricardo ouviu a ladainha inicial sem muito entusiasmo, mas ainda esperançoso. Esperança essa que se desprendeu de seu corpo assim que a voz lhe informou que suas fotos foram negadas, mas que ele não deveria desistir de lutar pelo seu sonho. Antes de desligar, a voz feminina lhe desejou melhor sorte da próxima vez, e antes que Ricardo fizesse alguma pergunta, a ligação foi encerrada.
Deixou que o corpo caísse sobre a poltrona, sentindo-se inútil e incapaz. Sem dúvida alguma, aquele era um ótimo momento para ascender um cigarro.

Ricardo não o ascendeu, saiu de casa desanimado e dirigiu até o restaurante do Bob, um antigo amigo da época da escola. Eles frequentaram a mesma turma durante o último ano, e foi nessa época que Bob lhe apresentou ao tabaco. Inconscientemente, Ricardo o culpava até os dias de hoje por isso. Sentou-se no balcão, e logo uma garçonete surgiu e perguntou o que ele iria comer. Ela era bastante atraente, usava um batom vermelho e tinha um piercing minúsculo no nariz.
— O Bob está? — perguntou.
A moça sorriu e disse que sim.
— Então diga a ele que seu amigo Ricardo quer vê-lo, por favor. — A garçonete já estava de saída, quando Ricardo lhe fez parar. — Qual o seu nome?
—Renata. Mas, antes que pule para a pergunta seguinte, quero lhe informar que não curto homens.
Após dizer isso, ela lhe piscou um dos olhos e se afastou. Ricardo a acompanhou se distanciar, observando que ela possuía belos quadris. Aquela questão não o incomodava, já que o próprio Ricardo, já tinha transado com outros homens. Ele era um sujeito bonito, alto, que provocava desejos em pessoas de todos os sexos. Havia transado pela última vez há quase um mês, sentia que sua libido estava em ascensão, que seu apetite só aumentava, assim como todo predador na época da caça. Desviou o olhar da bunda da garçonete, e quando se deu conta seu amigo Bob já estava vindo em sua direção, sorrindo.
— Se não é o galã da minha vida, — disse ele ao se aproximar. — Como vão às coisas, parceiro?
— Não tão boas. Perdi outra oportunidade de emprego.
— Cacete. Sinto muito ouvir isso. Tentou outra agência dessa vez?
— Sim, mas o resultado foi o mesmo. Já estou sem modelar a três meses, Bob. As contas estão vencendo. Tudo que ainda tenho é um valor que recebi por meu último trabalho.
— Aquele das cuecas, não é?
Ricardo sorriu e confirmou em seguida. Naquela sessão de fotos, seu fotógrafo era um homem maduro, barrigudo e com uma forte atração por garotos. Ricardo sabia do histórico dele, então usou o seu charme para que recebesse um pouco mais do que o valor combinado. Ele de fato recebeu, e agradeceu por isso oferecendo seu pau para o fotógrafo, que obviamente não recusou.
Após alguns minutos de conversa, Ricardo avaliou o restaurante e viu que estava começando a encher. Na área destinada a fumantes, alguns cavalheiros já estavam sentados, com as gravatas frouxas no colarinho e cigarros apoiados nos cinzeiros. Bob lhe perguntou se sentia falta da nicotina, o trazendo de volta para o mundo real.
— Muita, — respondeu Ricardo, do mesmo modo que um viciado em drogas responderia, quase com a voz trêmula.
— Sei como é. Já me arrisquei a tentar parar. Quase enlouqueci.
— Falando em enlouquecer… — Ricardo olhou em volta, certificando-se de que estavam apenas os dois. — Acho que estou ficando pirado, Bob.
— É natural. A abstinência faz isso com todo mundo. Somos escravos, amigo. Tente fugir e verá quem é que manda de verdade.
— Olhe… Podemos marcar outra hora? Aqueles caras na área dos fumantes estão acabando comigo.
Bob olhou na direção dos sujeitos, todos jovens advogados, fumantes e de risada alta. Disse para Ricardo que poderiam se encontrar no dia seguinte, no centro.
— De acordo, — falou Ricardo e apertou a mão do amigo.
Em seguida, começou a se afastar na direção da saída, tentando não olhar para os fumantes, mas incapaz de não o fazer. Sentia-se estranho, incomodado, e os rostos que ganhavam cada vez mais formas naquela cortina de fumaça lhe causavam arrepios. Assim que deixou o restaurante, sentiu alívio, como se pudesse respirar novamente. Tentou não olhar para trás, mas algo que ele não sabia bem o que o fez virar a cabeça e observar a fumaça que saía pela boca daqueles fumantes.
Sim. Eram rostos fantasmagóricos, com expressões de pavor e que subiam pelo ar e se perdiam no infinito.

Estavam parados no estacionamento da clínica Meyer, ambos dentro do Logan, observando e esperando a chuva acalmar.
Bob parecia inquieto, nervoso com alguma coisa. Só depois é que Ricardo percebeu o que era. O amigo tinha realizado uma bateria de exames, coisas que o perturbaram e lhe deixaram com medo, mas que tiveram de ser feitas. Sua abstinência o estava afetando, lhe deixando desatento, quase cego aos problemas alheios. Tentou acalmá-lo como costumava fazer no colegial, quando os garotos maiores implicavam com o peso de Bob.
— Tente não dar muita bola, parceiro. São só papéis.
— É câncer, Ricardo. Sei que é. Estou cuspindo sangue a vários meses e meu peito dói. Mas esqueça.
Bob retirou um maço de Marlboro do bolso do casaco e o largou sobre o painel do automóvel. Estava amassado, enrugado, quase irreconhecível.
— Isto está me matando desde a adolescência, — disse ele, e tossiu. — Sabe o que eu poderia ter comprado para mim, se juntasse toda a grana que gastei com o cigarro?
Ricardo não soube responder, mas certamente o amigo teria comprado muita coisa. Até algo muito caro, disso ele sabia.
— Tem alguma coisa na nicotina, Bob — falou Ricardo, de repente. Saiu de modo natural, sem que ele percebesse. — Não sei bem o que seria, mas tem. Posso vê-las.
— Mas de que porra está falando?
— Quando as pessoas soltam a fumaça no ar, consigo enxergar algumas coisas. Às vezes são rostos sem forma. Em outras, apenas fumaça, mas não apenas ela. Pois, ela não se desfaz. Fica em torno do fumante, o acompanhando, como se absorvesse alguma coisa dele.
Bob pensou por um instante. Depois disse:
— Sua abstinência é mesmo uma maluquice. Melhor voltar a fumar, ou vai parar em um quarto branco com uma camisa-de-força em volta do corpo.
— Talvez eu devesse.
— Se internar?
— Não, — disse Ricardo, como se tivesse acabado de ter uma ideia. — Voltar a fumar. Só assim poderei analisar isso tudo.
A chuva havia diminuído consideravelmente, e Bob abriu a porta e pôs um pé para o lado de fora.
— Essa é maior desculpa que já escutei de alguém que quer voltar para o vício, — disse ele. — Fique aqui e me espere.
Ele saiu na garoa fina, nem se dando o trabalho de cobrir a cabeça com o casaco. Ricardo ficou analisando a situação, pensando em tudo que vinha lhe acontecendo. Enxergava coisas perturbadoras que saíam de dentro dos fumantes, rostos esbranquiçados que mostravam apenas a dor, como se estivessem sendo libertados de uma prisão doente, uma fortaleza que a cada dia se tornava mais ineficaz. Então, vez que outra, não havia rosto algum, apenas fumaça, uma névoa branca que circulava o corpo do fumante, uma coisa incrivelmente inteligente que não se dispersava, que ficava ali como um animal sedento bebendo na beirada de um rio.
Ricardo queria estar certo. Esperava com todas as forças que aquilo não fosse um simples delírio, uma razão para simplesmente colocar um cigarro na boca outra vez. Sentia que sua abstinência estava lhe castigando, o fazendo podar da própria vida alguns hábitos que sempre lhe acompanharam. Ele ficou ali, sentado atrás do volante e escutando a chuva aumentar, sentindo que seria capaz de dormir ali mesmo se quisesse. Ficou aguardando por mais de trinta minutos, até que seu amigo Bob retornasse às pressas, protegendo-se da chuva.
Ele se enfiou para dentro do carro, e guardou um envelope pardo no bolso.
— E então? — quis saber Ricardo.
— Digamos que eu já esperava por isso, — falou Bob, sem parecer de fato chateado.

Dois dias depois de descobrir que o amigo estava com câncer nos pulmões e também no pâncreas, Ricardo voltou a fumar.
Estava sentindo-se triste, ansioso e até com medo. Sentiu um prazer imenso ao colocar o filtro na boca, acendê-lo e tragar e depois soltar. Foi como receber uma injeção de ânimo direto no coração, e em pouco tempo seu corpo amorteceu, depois acelerou e quis outra dose. Não observou nada de estranho na fumaça que expulsava do corpo, e por um momento cogitou que estava mesmo sofrendo de alucinações.
Isso até partir para o quinto filtro seguido, enquanto permanecia sentado em seu quarto, na beirada da cama. Ele jogou a cabeça para trás e soprou, acompanhou a fumaça subir, mas não evaporar, então ela começou a descer e ganhar forma.
Ricardo assustou-se no início, escorregou para cima da cama e observou a fumaça entrar em metamorfose. Ela foi se desenhando devagar, em contornos suaves, delicados, como se estivesse sendo pintada a mão. Aos poucos, Ricardo notou que aquelas formas eram de um corpo feminino, e em pouco tempo, ele tinha uma mulher feita de fumaça apenas para ele.
Não havia um rosto conhecido (apenas a sugestão de que aquilo era um rosto), e o restante do corpo era voluptuoso, de quadris largos e seios grandes. A coisa de fumaça estava parada diante da cama, com uma das mãos na cintura e chamando Ricardo com a outra. O vento morno do ar-condicionado fazia o que deveria ser o cabelo da coisa se movimentar, ondulando como se ela estivesse no fundo do mar.
Ricardo estava encolhido sobre a cama, com o cigarro pendendo no canto da boca. Estava sem camisa, apenas de cueca e sentindo que seu pau começava a endurecer. A coisa lhe chamou com um movimento de dedo, e assim que percebeu a recusa de Ricardo, este dedo espichou-se e flutuou até encostar na ponta de seu queixo. Ricardo sentiu o toque, e ele era gostoso. Lembrava a ponta da unha de uma prostituta que sabia como usar as mãos. Ele ficou de joelhos e, aos poucos, começou a engatinhar sobre a cama, trazido pelo dedo longo de fumaça, lembrando algum desenho da Disney que hipnotizava pessoas com fome.
Naquela altura, o cigarro já havia caído de sua boca, e Ricardo o apagara com a própria mão, ignorando a dor. Chegava cada vez mais perto da mulher de fumaça, convencido de que aquilo era uma loucura, mas uma loucura excitante, assim como transar com dez pessoas ao mesmo tempo, ou simplesmente fumar sentado na varanda de casa.
Quando chegou na beirada da cama, pequenos ganchos se promoveram da coisa e se engancharam na cueca de Ricardo. Devagar, sua cueca desceu, e em seguida sentiu que seu pênis foi envolvido por uma névoa quente e macia. Era como receber sexo oral de duas bocas ao mesmo tempo.
Ricardo nunca se sentiu tão excitado e perturbado em sua vida.

Falou sobre isso para seu amigo Bob duas tardes depois, em uma visita surpresa ao restaurante.
Bob o levou até o seu pequeno escritório, nos fundos, acompanhado de uma garrafa de uísque. Sentados um de frente para o outro, Bob serviu-se de mais uma dose e ofereceu também para Ricardo, que recusou.
— Sua esposa de fumaça não gosta quando bebe? — debochou Bob, mas Ricardo pareceu não escutar.
— Foi a coisa mais estranha que já fiz, Bob. Senti medo, vergonha e prazer ao mesmo tempo.
— Você bebeu nesse dia?
— Nada. Apenas fumei. Quase um maço inteiro. Passei três horas seguidas fodendo aquela coisa. Ela não me deixava parar. Penetrava pelo meu nariz e minha boca, e o tesão voltava.
Bob era capaz de entender aquilo. Apesar das intensas campanhas contra o tabagismo, e de como ele provocava impotência, Bob sempre se saiu melhor na cama quando fumava um cigarro antes e outros dois depois de transar. Não sabia o porque, mas imaginava que tinha algo haver com a mistura entre os dois prazeres. Abriu a gaveta de sua escrivaninha e guardou lá dentro a garrafa de uísque, já pela metade.
— Que vai fazer a respeito? — perguntou Bob.
— Não sei. Mas continuo fumando. Cada vez mais.
— Isso é a coisa mais maluca que já me contou, e olha que já me contou muita maluquice. De toda forma, por que não fotografou essa coisa? Adoraria ter visto ela.
Ricardo levantou-se.
— Se quer mesmo vê-la, venha até minha casa.

Ricardo passou o trajeto inteiro falando sobre o que estava acontecendo com ele, e Bob não parecia estar muito disposto a acreditar.
Sabia que o amigo não era de criar histórias, mas achava que aquela estava indo um pouco longe demais. Já ouvira falar em alucinações por parte de alguns dependentes (sejam eles de tabaco, drogas ou álcool), mas nenhum deles chegou ao ponto de trepar com uma mulher feita de fumaça. E não era apenas isso; Ricardo também via outras coisas, todas elas saídas dos corpos de outros fumantes.
Começava a ficar preocupado em relação ao amigo, mas preferiu não dizer uma palavra sequer durante todo o trajeto, atendo-se apenas a escutar.
Quando chegaram, Ricardo desceu do veículo e correu na direção da porta. Parou diante dela e esperou que Bob se aproximasse, notando que o amigo estava lhe encarando de um modo diferente. Já recebera aquele tipo de olhar outras vezes, era o mesmo que seu pai lhe dava quando ele dizia que tinha o sonho de se tornar modelo. Eram olhos de dúvida.
— Vou abrir e entramos. Não quero que ela se evapore aqui fora.
— Como quiser, parceiro, — disse Bob, repleto de incertezas.
Ricardo girou a chave e empurrou a porta com o ombro, pedindo para que Bob lhe seguisse depressa.
Assim que entraram, Ricardo fechou a porta atrás de si e deu um tapa no interruptor. Imediatamente uma luz se acendeu e iluminou o ambiente, fazendo Bob semicerrar os olhos, que se incomodaram com a claridade repentina. Aos poucos, sua visão foi se adaptando, mas isso não o incomodava. O cheiro ali dentro é que estava repulsivo. Foi como entrar em um cinzeiro gigante.
— Deus, há quanto tempo não abre essa casa, parceiro? — perguntou, observando Ricardo desaparecer pelo corredor a frente.
— Desde quando ela saiu de dentro de mim, — gritou Ricardo, de algum lugar na penumbra.
— Precisa deixar a casa respirar um pouco, — falou Bob, notando que o chão estava quase todo coberto por guimbas de cigarro. Não sabia ao certo, mas achava que seriam necessárias muitas pessoas fumando juntas para aglomerar toda aquela quantidade de cigarros.
Aquilo lhe deixou preocupado. Mesmo para um fumante, aquela quantidade era um tremendo exagero.
Procurava um lugar para se sentar quando notou que Ricardo estava se aproximando, vindo de um corredor pouco iluminado. Não parecia nada satisfeito.
— E então? — quis saber Bob.
— Desapareceu. Não está aqui. Olhei em todos os cantos.
Bob pensou se deveria mesmo fazer aquela pergunta, então, tempo depois, decidiu fazê-la.
— Certeza que viu ou vê mesmo essas coisas?
— Ainda não estou senil, Bob. Sei bem o que meus olhos enxergam.
Só que nem o próprio Ricardo tinha essa certeza. Estava fumando feito um doido há dias, maço atrás de maço, vezes deitado em seu quarto e por horas no sofá da sala, que já acumulava algumas guimbas entre as almofadas.
Fazia isso na esperança de enxergar coisas novas, fossem elas assustadoras ou excitantes. A coisa que tinha formas femininas o deixou em êxtase, provocando uma sensação que nem mesmo a heroína seria capaz. Ele viu outros mundos, foi além da compreensão humana apenas ao penetrar sua vagina de fumaça. Não podia ficar sem aquilo, não quando seu coração e sua mente simplesmente não podiam parar.
Decidiu que precisava trazê-la de volta. Iria fumar quantos maços fossem necessários, e sua mão esquerda já estava tremendo só dele pensar na hipótese.
— Preciso dormir um pouco, Bob. Apenas isso. Estou me sentindo muito cansado. Você compreende?
— Claro, sem problemas — disse Bob, já se encaminhando para a porta. Assim que saiu no corredor, virou-se e disse. — Procure um médico, parceiro. Talvez até um psicólogo. Vai ver que as coisas vão melhorar.
— Tenha uma boa tarde, Bob — e a porta se fechou logo depois.

Ricardo não procurou médico algum, nem no dia seguinte, nem nas semanas que se passaram. Ele precisava apenas fumar, e fazia isso quase vinte e quatro horas por dia. Em todas às vezes, a forma feminina não apareceu, apenas alguns rostos com expressão de horror subiam e circulavam o teto de sua casa. Ricardo falava com eles, perguntava o que os assustava tanto, mas eles não eram de falar coisa alguma. Isso o deixava deprimido, confuso e com vontade de fumar.
Então ele colocava outro filtro na boca, depois outro e mais outro. Às vezes, a fumaça assumia cores distintas, não apenas branca; Ricardo apreciava quando ela surgia verde, dançando cirandinha com a sua sanidade. Quase um mês se passou quando uma nova hipótese surgiu em sua cabeça, e ela lhe soou tão perturbadora que Ricardo passou a ter medo de sair de sua casa. Achava que tudo aquilo era obra de seres intergalácticos, coisinhas minúsculas que se utilizavam do tabaco para colher informações da terra.
— Daí a fumaça sobe e leva para eles as análises de nossos corpos, — explicou ele para Bob, ao telefone.
— Você procurou a ajuda que lhe pedi?
— Por acaso escutou o que acabei de falar, Bob? Alienígenas, cara. Obtendo informações dos seres humanos. Isso está tão óbvio. Eles agem em acordo com grandes empresas e indústrias de tabaco. Querem explorar as nossas fraquezas e estão conseguindo.
— Vou dar um pulinho aí.
Bob desligou logo depois de dizer isso, mas não chegou até a casa do amigo. Naquela tarde, sentiu-se mal enquanto dirigia e preferiu cortar o caminho e ir até o hospital mais próximo.
Enquanto estava internado, Bob ficou sem obter informações. Sentia o câncer mastigar o seu peito, se alimentar de sua vida e lhe deixar cada vez mais fraco. Com o tempo, seu cabelo castanho caiu e seus olhos afundaram nas órbitas. Semanas depois, Bob recebeu alta médica e pagou alguém para que lhe levasse até a casa do amigo. Antes mesmo de deixar o veículo e entrar, Bob já havia notado que algo estava diferente. Viu um casal de jovens andando pelo jardim, e um senhor de pé em uma escada e pintando a casa.
Mais tarde naquele dia, Bob procurou por notícias, e acabou sabendo através de um amigo em comum, que Ricardo havia falecido. Encontraram ele deitado no piso da cozinha, vestindo apenas sua cueca e meias amarelas. Bob não se mostrou surpreso. Sabia que a vida não estava sendo camarada com Ricardo, e que Ricardo também não estava com a vida. Lamentava o fato de não poder ter ajudado mais, e que achava um grande desperdício ver um sujeito como aquele acabar daquela forma.
Também soube que usaram o corpo de Ricardo para estampar uma campanha de uma empresa de cigarros, que colocou a sua foto em um maço, com o peito aberto e exibindo todos os seus órgãos internos. Dizia que fumar causava aquilo, e Bob apenas sorriu e achou que o amigo enfim havia sido fotografado para alguma coisa.
Bob seguia fumando, pensava que não poderia ficar pior e ele até que tinha razão. Costumava fazer aquilo com menos frequência, apenas após o almoço e um filtro antes de dormir. Em uma dessas ocasiões, sentou-se no degrau de sua varanda e tragou, sentindo a garganta queimar, uma sensação deslumbrante que o acompanhava há quase quinze anos. Apreciou o momento, soltou a fumaça no ar e teve a nítida impressão de que vira um rosto de mulher.

16 de Março de 2020 às 23:21 0 Denunciar Insira 1
Fim

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