Toxinas da Alma Seguir história

wesleydeniel Wesley Deniel

Para quão fundo os fantasmas das escolhas de um homem podem arrastá-lo no abismo da incerteza e da loucura ? Javier Mendonza é um homem intoxicado pelas amarguras da vida e que caminha através da noite, assolado por uma sede sem fim e perdido em suas próprias memórias; porém, determinado em seu objetivo: encontrar alguma redenção. Contudo... talvez nem todos a mereçamos.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sobrenatural #378 #medo #terror #295 #conto
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TOXINAS DA ALMA



Como eram quentes as noites no sudeste àquela época do ano! Antigamente em dias avançados de outono como aquele, bem já estaria fazendo confortáveis vinte ou vinte e dois graus, mas não agora. Hoje em dia, diziam tudo ter se tornado uma bagunça – culpa do tal El Niño, conjecturavam os pseudo-especialistas em assuntos aleatórios.

Javier vinha caminhando em modo automático pelas ruas, transpirando, sentindo-se como se numa sauna; caminhava devagar, tentando pôr a respiração sob controle, observando as pessoas sentadas diante de suas casas, conversando, discutindo bobeiras, tomando refrescos, fofocando, rindo...

Padre Nuestro, como ia bem um litro de naranjada, pensou ao passar diante de uma simpática portinha de esquina onde jovens casais esperavam por suas batidas e sucos. Esforçou-se, mas não conseguiu se lembrar do gosto de um suco de laranjas. Achava estranho esquecer-se do sabor de algo que já bebera tantas vezes. Por mais que sentisse a garganta seca, decidiu que não pararia. Não, não, a coragem talvez tornasse a desaparecer se ficasse enrolando.

Ele sentia que se não fosse naquela noite, talvez nunca mais conseguisse se abrir para Celina, e não era se abrir quanto a uma declaração de amor, não senhor! Falaria sobre suas frustrações e mágoas. Coisas assim definitivamente precisam ser postas para fora, caso contrário, ficam nos corroendo, envenenando, como alguma toxina ingerida em um belo banquete exótico com pratos caros e perigosos, mas que depois nos faz nos arrepender daquele prazer culposo quando passamos a sentir as cólicas e os calafrios.

E que toxina é mais nociva que uma traição?

Javier considerava tais metáforas enquanto passava por uma ruazinha onde crianças brincavam num hidrante aberto e seus pais faziam de conta que não as viam, imersos em sua própria diversão, que girava em torno de tagarelar sobre telenovelas, futebol, algum reality show mequetrefe ou simplesmente falar mal da vida deste ou daquele vizinho. Ele viu uma garotinha loira de olhos tão azuis quanto duas águas-marinhas; estava encharcada em seu vestidinho rosa e estampado de pequeninos unicórnios felizes e multicoloridos. Não houve meio de não se lembrar de sua filha, Alejandra, e de como gostaria de poder abraçá-la e afagá-la naquele momento. Realmente uma pena. Logo voltou a si, lembrando-se sem saber muito bem o motivo, de como as coisas não eram assim tão fáceis, e que talvez fosse um pouco tarde para dar-lhe carinho, afinal.

Acho... que eu estraguei tudo, mi angelito.

O choro manhoso de uma das crianças e a franca indiferença de seus pais, que certamente optaram por não ficar lhe paparicando a cada canela ou dedão ralado e agora conversavam alheios àquela roda de algazarra o fizera lembrar-se de sua própria infância e de como ele também fora negligenciado por um pai que vivia para trabalhar e jogar baralho com os amigos nas horas de folga e por uma mãe que nunca nutrira muito sentimento maternal. Tais lembranças o deixaram deprimido. Mas Javier decidiu que seria hipocrisia odiá-los, já que ele também vinha falhando com sua filha por viver pelos bares do bairro entornando cachaça de agave, tequila barata com gosto de água sanitária ou cerveja de U$1,50, todo o tempo fumando aqueles malditos cigarros que fediam à merda de bebê.

Chegava já tarde em sua casa, e muitas vezes a esposa e a menina estavam dormindo. Celina deixava seu jantar coberto por um guardanapo cafona com desenhos de frutas e alguma mensagem de otimismo cristão sobre o fogão bege de quatro bocas, o vidro de aspirinas (que sabia que o marido procuraria para se entupir) sobre a mesinha de fórmica também bege e a tampa do vaso levantada, para que, com alguma sorte, não tivesse de sentar-se em vômito logo pela manhã.

Javier comia em silêncio, morosamente, depois bebia uma garrafa d’água inteira com quatro aspirinas e deitava-se no sofá.

“Oh querida, como foi seu dia?” Esqueça! Esse tempo já ficou para trás. Ele sabia como eventualmente havia sido o dia dela: atarefado, repleto de tribulações naquele postinho de saúde fedorento, aguentando todo tipo de gente. Ah, e não se esqueça dos bêbados e dos viciados alucinados!

Não, Celina não precisava de mais um arremedo de gente embriagado e com o bafo pronto para murchar um pé de habaneros atrapalhando seu já curto período de descanso àquela hora da noite, querendo saber de seu dia.

Mas aí é que estava! Se não era à noite, não era hora nenhuma! Celina saía às cinco da manhã para trabalhar e diversas vezes toda interação entre marido e mulher limitava-se a um olhar de condenação da parte de Celina – ou mais frequentemente, de comiseração, quando ela o via lastimável, com a gola da camisa surrada apresentando uma mancha esverdeada de bile e o ar à sua volta recendendo a barril vazio e peido. Ela lhe cobria com um cobertor remendado (aqueles simplórios, cinzentos, com os quais as passadeiras forram suas tábuas de passar) e seguia para o serviço com um nó estrangulado na garganta.

Estas eram algumas das coisas que passavam pela mente confusa de Javier enquanto ouvia o choro da garotinha e se sentia um perfeito bosta por todas as vezes que sua própria menina chorara e ele, ou não estivera presente ou pior: pelas que fora a causa de seu choro.

— Ei, vocês; com licença... — O que será que ele pensava? Que ao chamar a atenção daqueles pais para a pequenina em prantos estaria se redimindo de alguma forma? — Será que vocês não estão ouvindo a menina?! Acho que ela machucou o pezinho! A merda desta sua conversa fiada está tão boa que não querem nem saber se a filha está bem?

Hummm... Não. Nada de redenção.

Apenas o ignoraram como se não estivesse ali. Pararam por um momento com a falação e fitaram as crianças como se enxergassem através dele, fazendo-o sentir-se como algum lunático que sai pelas ruas conversando sozinho.

Hijos de puta; resmungou em pensamento e seguiu adiante. Depois de ser tratado como o homem invisível, não continuava muito inclinado a seguir como paladino. Eles que se fodessem! Quanto à menina, achou que se se agachasse junto dela para checar o seu ferimento e tentar consolá-la com algum agrado, aí sim acabaria atraindo a atenção de seus pais – mas não necessariamente de maneira positiva...

Conseguiu ver-se sendo enxotado, talvez apanhando de algum ignorante estilo bata-primeiro-pergunte-depois, ou então indo parar numa delegacia lotada, quente e com cheiro de banheiro químico.

Continuou descendo até o final da rua, impotente, e cada vez mais sentindo a garganta seca; tentou juntar alguma saliva, mas a própria língua grudava no palato e criava a incômoda sensação de como se um gato gordo e empanado em lama seca se esfregasse e afiasse as unhas em suas paredes, mas agora sua ansiedade o fizera esquecer até mesmo como seria sorver em enormes goladas um belo copo d’água.

Desejou não morar tão longe, tão escondido na parte baixa da cidade, onde os ventos dificilmente traziam algum alívio em noites calorentas como aquela. A única coisa para a qual a parte baixa servia – segundo Javier e seu crescente azedume –, era se comportar como uma enorme caixa de contenção de resíduos, entulhos e merda do resto da cidade quando chegava a época das chuvas.

Depois ninguém sabia o motivo de ele se ter entregado à bebedeira... Acordava todo santo dia às 6h00 para tomar um banho num pingo d’água, se trocar e apanhar cerca de meia hora depois a lotação abarrotada de pessoas com agradáveis e matinais caras de bosta (isso quando não tinha de ir a pé) que o levaria até próximo ao ponto aonde a perua Kombi da empresa o levaria junto de mais doze de seus companheiros – todos também variando entre descontentes e simplesmente resignados – até a velha usina municipal de tratamento de esgoto onde trabalhava.

Passava o dia rodeado pelos mais finos parfums, fragrâncias adoráveis como o puríssimo sumo de merda dissolvida em produtos químicos, carcaças de animais e, não raramente, de algum infeliz sem teto ou o desafeto de alguém, inchado, cinzento e estuporando.

Ah, que satisfação!

Mergulhava até quase a altura do pescoço nos tanques de tratamento inicial onde tinha a radiante tarefa de desenroscar “corpos estranhos” das enormes peneiras que iam se estreitando para a filtragem primária. Fizera isso por impensáveis 14 anos; até a noite anterior. No dia seguinte não haveria señor Javier para limpar as peneiras fedorentas da unidade de tratamento inicial. Demitira-se, por assim dizer.

Durante todos aqueles anos, vivera empapuçado de um rancor terrível contra seus patrões aproveitadores, contra o prefeito, o governador, o presidente e até contra o bom Deus Todo-Poderoso.

Não passava um só dia sem que os amaldiçoasse pela subvida miserável que levava, pela ironia copiosa que era cuidar da água que os grã-finos receberiam nos luxuosos condomínios da cidade alta, tão purificada e sublime que poderiam lavar seus rostos empoados nela sem sequer sonhar que, se não fosse por ele e alguns outros indivíduos desafortunados, encontrariam unhas, dentes, pelos e nacos de merda descendo por suas torneiras douradas.

O repulsivo pensamento de vê-los enchendo suas banheiras de fino porcelanato branco para demorados banhos quentes com sais aromáticos e acalentadores bálsamos e incensos o deixava enojado. Detestava, acima de tudo, os esgares petulantes que assumiam ao notá-lo trabalhando em algum canal ou vala de esgoto entupido durante suas horas extras, as caretas de asco, como se o considerassem o Abominável Homem Excremento.

E estes eram apenas alguns dos rancores que carregava consigo. Javier tinha tantos que não dava para saber ao certo como vivera por tantos anos sem sofrer um colapso nervoso!

Na estação das chuvas, sua frustração atingia o ápice, pois era quando sua casa alagava com quase meio metro de esgoto, barro e refugos de toda espécie que desciam para as comunidades, para seu cantinho padronizado dado de malgrado pelo governo, já que o tratamento químico e os modernos sistemas de escoamento destinavam-se às classes mais abastadas (aquelas para quem Javier tratava a água com despoluentes, aquelas a quem ele detestava ao ponto de conseguir ter uma úlcera dentro de outra), enquanto sua própria gente era mergulhada em cocô.

A mera concepção dos vizinhos, ele e de sua mulher e filha, embarreados, retirando toda a imundície do chão e de cima dos móveis com baldes, rodos e vassouras fazia com que seu estômago ardesse. Diabos, seu corpo todo ardia! Seria o ódio finalmente o consumindo como o pavio de uma vela que acaba?

Aquilo – a seu ver – o tinha levado até ali: sua insatisfação e frustração tinham iniciado as desavenças com sua esposa, sua falta de paciência com a pequena Alejandra e, claro, seu relacionamento desastroso com a garrafa.

— Por que simplesmente não se demite, Javi?! É isso que eu não entendo! — perguntara-lhe Celina, à beira da exaustão, certa vez, durante mais uma daquelas intermináveis discussões por motivos fúteis que sempre acabavam em gritaria, objetos quebrados, choro e vizinhos alarmados. — Se aquela mierda te deixa tão puto, se tem servido somente para torná-lo este hombre amargo, indiferente e impaciente que não tem forças para mais nada além de beber e brigar, eu imploro que me responda: por que ainda continua lá?

— O que seria de nós se eu saísse?

— Deixa eu te contar uma novidade: Você não é o único que se esforça por aqui, sabia, Javi? Eu posso muito bem ajudar você até que consiga outra coisa. Ou podemos nos mudar daqui.

— Quanta besteira! — escarnecera Javier, já procurando pelos cigarros e o paradeiro das garrafas que ficavam debaixo da pia.

— Nós podemos voltar para casa, Javi. Você pode conseguir algo em Jalisco ou em León. Lá pelo menos você não se sentia tão diminuído como aqui... Era um hombre diferente.

— Não. Isso aqui foi só o que me restou. — respondera ele com a voz vacilante e o débil semblante de um bruto que dá por conta de sua incapacidade e ignorância.

— Tem certeza?

— Ah, pelo amor de Dios, você sabe que eu detesto aquele emprego, Celina! Acha que eu estaria lá se contasse com outras opções? Já o odiava antes de conhecê-la. Mas uma coisa é fato: talvez já pudesse ter conseguido algo melhor se não tivesse precisado abandonar minha instrução para fazer aquelas porras de jornadas duplas!

Certo! Lá vamos nós outra vez. O velho costume de culpar o casamento precoce e posterior saída de seu curso técnico (que realmente lhe poderia ter rendido ao menos alguma promoção na estação de tratamento) para poder se dedicar à garotinha que estava a caminho. “Logo eu teria duas bocas para alimentar”, “Não havia como me dar ao luxo de prosseguir com estudos”, “Tudo pela família”, e etc.

— Você precisou das jornadas só por quatro anos, Javi. Só até eu poder começar a deixar Alejandra com a Sra. Turner ou na creche e voltar para meu trabalho no ambulatório!

— Foi um tempo precioso! — dizia ele, socando o batente da porta.

Choro de criança.

— Fantástico, Javi! Assuste a menina, deixe que ela cresça acreditando ser a culpada pela miséria do pai, e não sua letargia!

Opa! Agora espere um momento. Estaria ela chamando Javier H. Mendonza de letárgico?! Estaria aquela mulher falando do mesmo homem que se afundava na podridão dia após dia em prol de sua família?

Que absurdo!

Que disparate!

Celina sabia exatamente que o empalidecer do rosto moreno e o olhar vidrado, estupefato dele significava isso, então tratara de prosseguir:

— Quando eu te conheci, você já estava naquela maldita estação havia seis anos. Disse que veio para cá e aceitou a primeira porcaria que os gringos te apontaram. Não me recordo de tê-lo visto frequentando curso algum para ter

outro tipo de futuro! Bem pelo contrário. Você já parecia bastante conformado! Daí, eu engravido e, de repente, resolve estudar.

Bam! Outro soco no batente e findava a discussão. Celina ainda ficaria falando sozinha sobre como ele, mesmo depois de não precisar mais de jornadas duplas, ainda assim não voltara a se dedicar á droga de estudo algum para crescer e se livrar do trabalho que tanto odiava; que tudo não passava de desculpas, só que àquela altura, Javier já estava saindo pela porta da frente. Seguiria de volta para o bar, onde pelo menos ninguém o julgaria.

Uma buzina o arrancou daquelas lembranças vexatórias; no mínimo algum debilóide esquentadinho indo tirar a mãe da zona, pensou Javier depois do susto. No fim, acabou por agradecê-lo, já que a buzina o livrara de ser atirado longe por outro carro, um SUV Mercedes prateado que seguiu direto para cima dele como se simplesmente não estivesse atravessando ali.

PENDEJO HIJO DE PUTA! — gritou, dando um salto para trás.

Ao tocar o chão, desajeitado e com estrépito, seus pés arderam como se descarnados. Afinal, de quão longe Javier vinha, caminhando descalço como um andarilho, perdido em meio a tantas questões amargas?

Olhou para o outro lado da rua e viu um homem de mãos dadas à sua garotinha. Também iriam atravessar quando, felizmente, viram de antemão o nababo endinheirado vindo com seu carro de luxo em alta velocidade. Ambos passaram apressados por ele, sem encará-lo, e se foram. Javier ainda manteve a imagem da pequenina em mente por algum tempo. Mesclava-se com a de sua própria filha, os cabelos ruivos tornando-se cor de mel, as sardas das bochechas sua Alejandra sobrepondo-se ao rosto liso da menina, e o sorriso... o que houve com o sorriso? Tanto a menininha ruiva (no mínimo ainda assustada por causa do motorista imprudente) quanto sua Alejandra não sorriam. Seus rostinhos sobrepostos eram igualmente melancólicos.

Javier achou que precisava se sentar por um momento. As pernas de repente tinham sido tomadas por um tremor que o assustou. Deixando para trás a menina e seu pai, recostou-se numa velha cabine telefônica, deixando o corpo exausto escorregar. Puxou um pé de cada vez até a altura do peito e movimentou os dedinhos (não pareciam tão mal, considerando que achava estar andando há dias), depois os massageou.

Um vira-lata marrom aproximou-se a alguns metros dele e começou a latir sem parar. Javier primeiro tentou falar com ele para que se calasse, depois abanou com os braços idiotamente, tentando espantá-lo, mas então olhou para o lado e viu que havia uma casinha comunitária com duas tigelas de plástico para água e comida um pouco além da cabine. Já sei. Sua casa. Já entendi.

Uma senhora (provavelmente voltando do culto de alguma igreja, a julgar pela roupa mais-do-que-recatada e a imensa Bíblia de couro marrom) ralhou com o cão por conta da barulheira. Ela morava no prédio de frente para a cabine telefônica e, apesar de aparentemente cuidar do cachorro, parecia não gostar muito de sua bagunça.

— Jeroboão! Já está tarde para essa sua latição!

O cachorro pouco se importou.

— Ele está bravo comigo, senhora — disse Javier se desculpando. — Está com medo que eu roube sua casinha, não é? Eu já estou indo embora.

Entre os dotes da Noiva de Cristo, a educação não devia estar incluída, pois a velha apenas se virou e terminou de abrir a porta, gritando uma última vez para que o bom Jeroboão ficasse em silêncio. Javier se levantou e pensou em perguntar a ela se, só porque ajudava a cuidar do cãozinho, precisava judiar do coitado dando-lhe um nome tão... Ah, que se dane! E Você também, Jeroboão. Pode ficar com a mierda da sua casinha.

Pela primeira vez na noite, conseguiu esboçar um sorriso que estava mais para uma careta. Contudo, não foi pelo nome que a fanática tinha dado ao pobre bichinho ou pela velha também tê-lo tratado igual a um poste, mas por ter-se lembrado de uma das poucas vezes que havia feito Alejandra sorrir: quando lhe prometera um cãozinho.

A menina pulou como se tivesse molas nos pés, pensou. Pelo menos uma vez devo ter sido o herói de alguém. Porém, Javier sentiu-se horrorizado ao perceber que sabia que ela tinha ficado feliz, mas que de forma alguma conseguia vê-la sorrindo de fato. Achou saber o motivo: para variar, tudo não havia passado de uma promessa vazia que, de seu aniversário, passou para o Dia de Los Muertos, depois para o Natal e... Bem, basta saberem que ela não ganhou o bichinho.

Aquela foi baixa até mesmo para você, Javi, meu velho. E, veja só! Mesmo assim a garota não desistiu de você, de tentar te agradar, fazê-lo sorrir... Que tal isso, hein?

— Assim, sorria papito! — dizia Alejandra, puxando com as mãozinhas delicadas os cantos da boca de Javier. Era como se ela não estivesse em seu colo naquele sofá. Sabe Deus o que o homem estaria ruminando, mas o que quer que fosse não deixava espaço para que ele se permitisse ignorar por um instante e lembrar-se de que aquele era o Dia dos Pais e que, talvez – e apenas talvez – fosse importante dar um mínimo de atenção à sua filha. Aliás, houvera sim, atenção o bastante apenas para repreendê-la e mandá-la sair de cima do seu colo.

— Quer me deixar em paz, inferno?!

— Eu só queria te ver sorrindo...

— Pois o papi não quer sorrir agora, Alejandra.

Com o rostinho apagado do lindo sorriso de ainda há pouco, ela disse:

— Eu deixo você brincar com meus lápis de cor se isso te alegrar, papito.

— Pois pinte um sol e alegre-se você mesma. — respondera ele, levantando-se e pondo-a no chão. — Nem todas as cores do mundo podem me alegrar hoje.

— Eu fiz! Eu fiz um sol, árvores e fiz nós dois, papi, olha só! — ainda tentara a menina com entusiasmo. — Está aqui do lado.

Mas o desenho já havia sido pisado por Javier. Uma marca da sola de seu sapato estragara bem a parte em que ele e sua filha, em bonecos de palito, passeavam sorridentes e de mãos dadas em meio às arvores e flores coloridas.

Fantástica psicologia a sua, seu cretino!, pensou ele, tentando imaginar sua filha sorrindo. O que há comigo? Não consigo me lembrar de seu próprio sorriso?!

Ah, bom Deus, se pelo menos aquelas houvessem sido as únicas vezes que Javier apagara o sorriso de alguém!

Quando passará a se importar com os outros? Quando irá querer a atenção de sua filha? No dia em que ela crescer e sentir vergonha dos pais como todas as outras adolescentes? Ruminava isso e cerrava os punhos até as unhas ferirem as palmas das mãos, gesticulando sozinho feito um interno de algum sanatório cheio de almas esquecidas.

Não conseguia afirmar como, contudo, de algum modo ele sabia que talvez sua chance de ver Alejandra crescer e sentir-se amada já havia passado.

— Não! Eu vou consertar isso!

Ao iniciar a descida de uma ladeira íngreme, já era possível para Javier ver seu bairro. Casinhas típicas de conjuntos habitacionais com cercados de tábuas e quintais confusos, cheios de mato e bugigangas apinhavam-se em duas dúzias de quarteirões com ruas empoeiradas. Era um tanto tarde, certamente Celina já

estaria deitada, mas aquela conversa não poderia ficar para outro dia. Nenhum bar se pôs em seu caminho naquela noite, ele queria estar sóbrio. Não mais bebera desde sua última discussão, quando Celina revelara que enfim iria deixá-lo e voltaria a viver com a mãe em sua cidade natal junto de Alejandra. Javier não precisava mais beber, as palavras que invadiram sua mente fizeram-no rodopiar mais que qualquer agave ou tequila que já houvesse experimentado. E assim ele ficou, embriagado por substâncias bem mais nocivas que o álcool, toxinas que lhe ofendiam a alma.

A vizinhança estava quieta, apenas um ou outro cachorro latia de vez em quando. Cansado, Javier ergueu a tramela do portãozinho de madeira e seguiu para a porta. Não foi preciso usar sua chave: estava destrancada; Celina ainda não havia chegado ao ponto de trancá-lo para fora.

Alejandra? Onde está Alejandra?, ele pensou ao passar pelo quarto vazio da menina, a cama toda desfeita, o cobertor no chão. Não é possível que ela já levou minha filha!

Mesmo alarmado, o peito apertado, decidiu por não iniciar as coisas com a costumeira estupidez. Santa Madre, talvez mesmo Celina já não estivesse mais lá! Seguia trêmulo até a porta do quarto do casal quando viu a porta do banheiro entreaberta e a luz acesa. Ora, é isso! Alejandra apenas foi ao banheiro. Um pensamento reconfortante! Ainda que estivesse curioso quanto ao banheiro, algo o repelia de ir lá, afinal, Alejandra já era uma mocinha, merecia sua privacidade; e se sua mãe estivesse em casa, tudo estaria bem. Então achou melhor abrir a porta de seu quarto e acordar a mulher.

Não seria necessário.

— Você voltou — disse Celina sem emoção alguma em sua voz, sentada ao pé da cama, a camisola branca molhada de lágrimas.

— Ficou esperando por mim?

— Não... Só não consegui dormir. Não sei, algo me aflige, sinto-me... vazia.

— Você desejou que eu voltasse?

— Sim — respondeu ela de imediato, fitando-o diretamente, como há muito tempo não fazia. — Temos de terminar com tudo isso.

Javier ia se sentar ao seu lado na cama quando Celina disse:

— Não. Alejandra. Ela não precisa ouvir. Vamos para a cozinha.

— Ela... Ela está no banheiro?

— Eu não sei.

Seguiram quietos para a cozinha e não olharam para trás, para o banheiro, que continuava com a luz acesa e a porta entreaberta. Javier até sentiu a claridade em sua visão periférica, mas não quis incomodar a menina. O que eles precisavam conversar agora era prioridade.

— A cama dela...

— Fale baixo, logo ela volta se deitar. — pediu Javier.

A mulher parecia confusa. Se Javier não a conhecesse um mínimo para saber que Celina em ocasião alguma recorrera a remédios para os nervos, diria que ela estava dopada.

— Alejandra... Para onde você a levou, Javi? — perguntou Celina, os olhos negros enchendo-se de lágrimas novamente. — O que ela tinha a ver com...

— Celina, está ficando louca? Eu não...

— Porque deixou tudo chegar a esse ponto, Javi?!

— Não, querida, eu... eu voltei para resolver as coisas.

Celina escorou-se, debilmente, e depois se sentou numa das cadeiras que estavam afastadas da mesa, então cobriu o rosto com as mãos tão pálidas e chorou. Sobre a mesa havia uma garrafa de mezcal Don Escobar quebrada.

— Como estão suas mãos? — ela quis saber.

— As minhas mãos? Eu... — ele as examinou e viu assustado os talhos e o sangue seco que manchava ambas. Como não as sentira antes? — Devo tê-las ferido com as unhas, acho que... por cerrar os punhos. Eu estava tão nervoso Celina! Mas não foi...

— Não.

— Eu estou confuso.

— Não as feriu com as unhas, Javi.

Ele apenas se limitou a não contradizê-la mais. Sentiu-se estranho durante toda a noite, o que impedia que estivesse enganado sobre aquilo também?

— Eu disse que você poderia vê-la, Javi. Que espécie de mãe acha que sou, que privaria um pai de ver sua filha? Mesmo um como você.

— Fale baixo! Vai assustá-la.

Você a assusta, Javi! Você nos assusta! — vociferou puxando os cabelos — Por que acha que íamos embora?!

— Ah, eu descobri por quê.

O ricto cínico que estampou o rosto do marido era o mesmo de todo homem prestes a acusar de algo torpe a esposa.

— Não se atreva!

— Há quanto tempo você saía com aquele hijo de puta?!

Celina baixou as mãos e olhou perplexa para Javier.

— O que acabou de dizer?

— Eu a vi, duas vezes saindo do trabalho com aquele hombre. Numa delas, teve a ousadia de levar nossa filha! Era com ele que viveriam?!

— Você está se ouvindo Javier?! Finalmente perdeu o juízo!

Javier tinha as mãos crispadas, o rosto, um esgar de dor.

— Eu posso ser este arremedo de hombre que está vendo, mas amo a droga da minha família e não permitirei que tudo se desfaça assim diante meus ojos!

— Você já o fez, Javi. Não percebe?

A cabeça de Javier rodava, pesada, a cozinha à sua volta ia ficando escura, claustrofóbica. Sua sede era agora insuportável, sentia ter a garganta escaldada como alguém que tivesse sido obrigado a tomar uma panela de melado fervente.

— Alguma vez você deu atenção ao que te contei, Javi?

— O que quer dizer...?

— Nunca se importou em saber muito sobre meu trabalho. E eu nunca o culpei. Você já tinha sujeira demais em sua própria vida para querer conhecer a respeito da minha.

— Tudo o que me contou, foi que estava farta de mim e sairia de casa levando minha filha. Foi quando suspeitei de algo, fui até o seu trabalho e estava certo! Eu sou um maldito borracho, Celina, mas dei meu sangue por esta família!

De repente, Javier viu uma coisa que o calou e congelou dos pés à cabeça: as lágrimas de Celina haviam-se convertido em sangue, exatamente como numa daquelas estátuas da Virgem que via na televisão! Riscos vivos e rubros escorriam de seus olhos, manchando sua simplória camisola branca de algodão.

— Deu o nosso sangue, Javi.

Ele esfregou os olhos a ponto de feri-los e quando tornou a olhar para a mulher diante dele, não havia mais sangue algum.

Dios! Me estoy enlouquecendo!

— Você suportará a verdade, Javi?

— Não! Cale-se!

— O que fez a todos nós apenas por uma desconfiança mesquinha...

— CALE-SE!

— Onde está Alejandra, Javi?!

— EM SEU QUARTO!

— Não...

Javier via o desenho infantil, Alejandra e seu papito, com sorrisos enormes passeando de mãos dadas entre as árvores e grandes flores coloridas. Celina o pusera no criado mudo do lado dele da cama naquela noite em que ele o ignorara e pisoteara com o sapato sujo.

Quiero passear com ela...

— Foi tudo o que ela sempre quis.

Quiero desenhar com ela...

— Se ao invés de agir por impulso, tivesse me ouvido — lamentou Celina.

— Você precisava ser impedida! Não ia levar minha única filha para a casa de outro hombre!

— Não, eu não ia.

Entonces o que era toda aquela conversa? Aquele hombre?

Celina se levantou da cadeira e caminhou cambaleante até onde o marido estava sentado, parou e pousou as mãos em seus ombros retesados.

— Aquele hombre... Harold, nosso médico chefe, meu supervisor e amigo, você... você não o procurou, não é Javi? Você não...

— Não, eu não.

Sim, o procurara. Mas é claro que sim! É óbvio que sim! Procurara-o transbordando de macheza, de toda a macheza que o belo fogueirão de um litro de agave Tierra del Fuego ou qualquer aguardente barata pode evocar num sujeito; mas, idiotizado, não conseguira no fim das contas sequer seguir o homem do ambulatório até quatro ou cinco quadras à frente antes de se desequilibrar e cair da bicicleta emprestada de um amigo do serviço. Sentara-se na guia da sarjeta, com o joelho sangrando, amaldiçoando bestamente o homem, seu sedan de U$50 mil e até o coitado do gato que viera sentar-se perto dele, então adormecera lá mesmo.

— Se você queria saber o que eu fazia com ele, eu e nossa filha, por que não procurou conversar comigo como agora? Precisava ter vindo mais cedo, cego, descontrolado, quebrar toda a casa e, Deus — ela se afastou, voltando para sua cadeira —, destruir nossa família.

— Eu jamais machucaria vocês!

— O QUE FEZ COM NOSSA FILHA, JAVI?!

— Eu... Eu... Tirei-a daqui. Ela... está bem agora.

— Deus! — Celina cobriu novamente o rosto e chorou copiosamente. — Para onde a levou, o que fez com ela?!

— Eu dei atenção a ela, eu a abracei. Nossa filha não merecia viver num lugar assim, estava assustada. Eu a tirei dessa loucura.

Você trouxe a loucura! Tornou-se um hombre doente! Era exatamente o que eu fazia com o Dr. Harold; estávamos tentando ajudá-lo, seu maldito egoísta! Ele estava me levando depois do expediente para conhecer algumas clínicas para pessoas com vícios e depressão e buscando encontrar outro emprego para você, longe daquela merda de estação imunda! Não que apenas ela fosse seu problema, Javier, acredite!

Javier se levantou, tentou alguns passos trôpegos e se apoiou no batente da porta para o corredor. O que ele havia feito? Teria finalmente enlouquecido? Olhou para a parede próxima à geladeira e viu as marcas de sua insanidade: manchas de sangue – não meros respingos que já assustariam, mas sim riscos, grandes manchas coaguladas no formato de punhos, de mãos abertas... sangue. De quem? Deus! De quem é este sangue?!

— Devolva minha filhinha... — balbuciou Celina num fio de voz.

Perdóname Celina. Perdoe-me por ter sido como fui.

Celina não mais lhe respondeu. Javier também não insistiu. Foram aquelas horríveis manchas de sangue... Tudo que havia estado turvo viera-lhe à mente. Todas as distorções de sua vida o atingiram igual a um feixe fulminante, e nada poderia afastá-las! Imagens desoladoras de todos aqueles anos de amargura, de ausência e, por fim, violência.

— Perdoem-me.

Javier não tinha mais nada para fazer naquela casa, elas definitivamente estariam melhores sem ele. Restava-lhe apenas voltar até sua filha e permitir que ficasse junto de sua mãe.

Ao sair, algo chamou sua atenção: Numa mesinha de vidro no centro da sala, havia uma estátua da Santa Muerte e uma bíblia aberta, com papéis escapando por suas bordas. Ele receou por alguns instantes e então se forçou a tocá-la. O suave toque fez com que as leves páginas se movessem e então ele viu as fotos que Celina guardava dentro dela... Havia fotografias dos três reunidos em raros momentos de união, fotos dele com Alejandra agarrada em seus ombros e até uma dele sorrindo após uma tarde num parque municipal. Javier chorou, embora não conseguisse sentir as lágrimas. Tentou apanhar a bíblia para levá-la consigo, mas não conseguiu fazê-lo. Deu uma última olhada em sua casa, fitou a porta aberta do banheiro e desviou o olhar, depois partiu.

Javier tinha um longo caminho de volta pela frente.

...

Sentada junto à mesa, Celina teve um instante de paz, quando repentinamente sentiu que ao menos parte do que lhe era valioso estaria outra vez ao seu lado. Às vezes não conseguimos salvar a todos, pensou com tristeza. Enxugou as lágrimas e seguiu até o banheiro com a luz acesa. Parou junto ao batente e suspirou.

Sentada lá, recostada na parede entre o vaso e o espaço do chuveiro, numa poça de sangue, estava ela mesma. Celina lamentou que tudo tivesse acabado daquela forma. Sentiu pena de seu próprio corpo, ferido mortalmente com o gargalo de uma garrafa de mezcal quebrada.

Então, subitamente, todo o corredor se iluminou. A mulher não se assustou; Alguma coisa lhe dizia que aquilo era bom. Era uma luz acolhedora, quase recompensadora. Celina fechou os olhos e desapareceu junto do clarão.

...

Javier vagou pela madrugada, destroçado e pesaroso, agora esclarecido de seus atos. Trilhou todo seu caminho de volta sentindo o ardor da culpa que o consumia. Ele chegou então até o final de uma estradinha vicinal num bairro afastado do outro lado da cidade; além dali, o caminho de terra dobrava e seguia; contudo, ele passou por entre dois mourões sem arames e embrenhou-se no matagal. Não andou muito até chegar ao final de sua jornada.

De longe ele os viu... os corpos.

Um adulto e uma criança.

Aproximou-se devagar, já repudiando o que sabia que teria de ver. Ao lado dos dois, se ajoelhou e chorou. O choro mais sincero e cortante de sua existência.

Perdóname Alejandra... Dios me perdoe!

Ambos os corpos não passavam de figuras escurecidas e encolhidas, mas, ainda assim, pareciam... o quê? Abraçadas? Sim, como num ato final de amor em meio a toda aquela loucura.

Javier se levantou, deu a volta, desviou-se do pequeno galão com o restante da gasolina que usara para imolar a si próprio e à filha e então se deitou junto das duas figuras negras e ainda fumegantes. Deitou-se ao lado dela e realmente a abraçou, acariciou-a como pôde, e esperou.

Javier sentiu algo se enunciando, seria seu julgamento?

Espero que sim.

Então, por alguns instantes ele pôde testemunhar um vislumbre do que seria a sua eternidade se não tivesse se deixado envenenar por toda aquela amargura. Ele viu a luz, a mesma que havia reivindicado Celina e que agora vinha para unir novamente mãe e filha. Por algum motivo (Javier acreditou em uma justa punição) ele não conseguiu falar com sua pequena Alejandra como falara com Celina, mas viu quando uma névoa etérea deixou a frágil figura carbonizada e seguiu com a luz.

Sinto muito meu amor. Adios.

Sozinho.

Algo algum dia haveria de vir buscá-lo? Com o tempo, Javier desejou que não. Desejou uma eternidade, preso aqui, com sua infinita sede.


FIM

8 de Março de 2020 às 05:36 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Wesley Deniel Meu nome é Wesley Deniel, e tenho uma mente cheia de fantasmas. Pelos últimos 20 anos eu tenho vagado pelos recônditos mais escuros deste e de infinitos outros mundos e trazido desses lugares de insondáveis terrores os pesadelos que compõe minhas obras. embora escreva todos os gêneros e esteja aberto a qualquer desafio, é no horror e no terror que permito que alguns desses fantasmas ganhem força o bastante para atravessar para o nosso mundo. Acompanhe comigo algumas dessas jornadas rumo aos caminhos que mais possam temer e lhes desvelarei o desconhecido. afinal, já dizia Howard Phillips Lovecraft, o Pai do Horror Cósmico : "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido."

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