tsrsilva Thiago Silva

Fugindo de uma epidemia que assolava o planeta, a humanidade buscou refúgio em uma megaestrutura autogerida construída nas profundezas do oceano. Durante muitos anos, a gigantesca cidade-máquina manteve sob sua salvaguarda a espécie humana, protegendo-a das intempéries do mundo acima da superfície. Contudo, após um inexplicável colapso do sistema de gerenciamento da gigantesca nação oceânica, a estrutura perdeu sua capacidade de sobrevivência independente, culminando em uma falha generalizada do sistema. Várias partes da estrutura tornaram-se inabitáveis e os bolsões de humanidade restantes tiveram de estabelecer sua autoridade sobre a máquina obsoleta através da ação de alguns poucos indivíduos que sabiam interagir localmente com a estrutura. Milênios no futuro, enquanto os humanos restantes ainda lutavam para sobreviver no interior do gigantesco cadáver de concreto e metal, o mecanismo de gerenciamento da estrutura, de modo incompreensível, recobrou sua vida. Incertos das consequências que recairiam sobre eles, vários habitantes dos assentamentos humanos restantes partiram em busca dos motivos da ressureição da máquina. Dois homens partiram de sua aldeia natal em busca de respostas, percorrendo os escuros labirintos de concreto da megaestrutura, lutando pela sua sobrevivência.


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Capítulo 1

- Tá ouvindo isso?

A densa fumaça se ergueu a partir dos lábios semi-cerrados do homem mais velho.

- Esse barulho de algo vibrando. Tá ouvindo?

O rabugento senhor tragou mais uma vez a partir daquele aparato eletrônico. A melodia do borbulhar de um líquido efervescente emanou de dentro da engenhoca.

- Parece o barulho que vem de dentro de um pirarucu. Dos pistões se mexendo no motor. Sabe do que eu tô falando?

O homem mais jovem parecia muito mais animado do que seu companheiro. Enquanto falava alegremente, gesticulava seus braços lenta e amplamente, explicando para o colega todas as características diagnósticas daquela que parecia uma máquina colossal.

E ele continuava falando, independente do aparente desinteresse do homem mais velho.

- Cinquenta metros! O maior que eu vi. Juro pra você, era algo gigante. E nadava tranquilamente pelo corredor principal, cercado totalmente por lambaris.

A pesada barba branca do austero homem se remexeu, os finos lábios que se escondiam sob seus recônditos retorcendo em uma carranca de escárnio.

- Isso é besteira moleque.

O homem de tez parda gargalhou, seus alargadores balançando jovialmente em seus lóbulos auriculares a cada espasmo de alegria que vibrava seu corpo jovem.

- Eu juro Borba! Era algo bizarro de tão lindo. Aquela coisa parruda dançando no ar como se fosse nada.

- E você ficou apenas olhando pro bicho?

- É o que eu ia te falar. Na hora, não pensei em mais nada. Só olhei. Aquela barriga brilhante, a cabeça parecendo o casco de um barco...

A fumaça do cigarro eletrônico subia pela escuridão que preenchia os corredores vazios daquele estrato da estrutura. Os estreitos corredores de cada andar se espremiam próximo as paredes da cidade, separados do abismo apenas por um longo guarda-corpo de metal oxidado. Nos redutos mais abandonados da cidade, esquecidos pelos humanos a centenas de anos, estas estruturas de proteção a muito tempo haviam sumido, juntamente com os seres descuidados que nelas depositaram o peso de seus próprios corpos.

Os dois homens estavam sentados próximos um ao outro; o velho encostado na parede, suas pernas flexionadas com seus joelhos na mesma altura de seus ombros, e o jovem sentado a beira da calçada, suas pernas atravessando os espaços entre as grades do guarda-corpo, pendendo sobre o breu infinito que mergulhava em direção aos andares abaixo.

Um riso alto e rouco percorreu as vielas escuras que se ramificavam a partir do grande corredor principal. Pequenas criaturas metálicas nadaram e se arrastaram em direção à fendas nas paredes de concreto, se assustando com toda aquela perturbação sonora, buscando refúgio de um predador inexistente

- ...e depois de sair de dentro daquela máquina maravilhosa, eu voltei pra aldeia carregando seu coração. Foi muito épico.

Borba continuava a rir continuamente, mesmo que interrompido periodicamente por algum incômodo pigarro.

- Tenha dó Kondá! E como eu não fiquei sabendo disso na época?

O jovem deu de ombros, como se aquela resposta possuísse uma explicação mais do que intuitiva.

- Você estava fora.

O velho balançou seu corpo inflexível, mantendo para si a expressão de deleite juvenil, enquanto guardava cigarro na bolsa que repousava ao seu lado e erguia-se para prosseguir viagem.

- Já ouvi muita merda pra um dia. Vamo embora. A gente já tá aqui a mais de uma vigília.

Kondá balançou sua cabeça em aprovação, seus negros cabelos lisos dançando sobre seus ombros como a cascata da noite. Alcançou seu arco de metal pálido, cujo corpo manchado de óleo velho se estendia comprido atrás dele, sua altura quase a mesma do jovem. Ajustando uma das alças de sua mochila, seguiu lentamente seu companheiro através do estreito caminho que se prolongava quilômetros escuridão adentro.

O homem mais velho apoiava seu corpo robusto em um comprido bastão metálico, a qual utilizava, em um primeiro momento, como um facilitador de caminhada. Porém, a forte estrutura corpórea do indivíduo indicava que aquela não era a principal função da ferramenta. De fato, se submetida à um escrutínio por parte de um observador externo, era possível reconhecer alguns elementos estruturais no equipamento que remetiam à partes de uma arma utilizada para caça.

Para a caça de coisas que não eram feitas de carne.

Diferente do momento em que se mantiveram sentados, descansando, ambos os homens permaneceram em silêncio durante toda sua caminhada. A vacuidade do profundo corredor e das intrincadas vielas que separavam os grandes paredões de concreto abraçavam os ínfimos viajantes, enquanto desbravavam as entranhas daquela gigantesca estrutura.

E durante muito tempo, apenas o som de suas pesadas botas sopesando o esguio chão acinzentado podia ser ouvido por nada vivo.

Passadas muitas vigílias desde que deixaram o seu acampamento temporário, os olhos vulpinos de Borba puderam discernir, no longínquo horizonte, uma fonte de luz tremeluzente brotando de uma esquina do corredor principal com uma das várias vielas que cruzavam com a ampla avenida.

Parando por um momento, o velho homem apontou com sua mão livre a direção de onde se originava a luz desconhecida, indicando para o mais jovem a fonte de seu interesse.

- Kondá, olha. Lá na frente.

O jovem parou alguns passos atrás de Borba, espiando por sobre o ombro do velho o caminho adiante.

- Aquele é o Entreposto do Presidente? Acho que aqui foi o mais longe que cheguei. Vamos dormir lá?

O velho balançou a cabeça positivamente.

- Tenho um conhecido lá. Vamos poder comer, dormir. No ciclo seguinte continuamos.

- E depois disso, vai faltar muito?

Borba franziu seu cenho e olhou para o jovem por cima de seu ombro, se perguntando se era mais uma de suas brincadeiras de mal gosto.

- Nós nem sabemos para onde estamos indo!

Kondá, abrindo um sorriso simpático e inocente, deu de ombros.

7 de Março de 2020 às 02:32 1 Denunciar Insira 8
Leia o próximo capítulo Capítulo 2

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Eduardo Cezar Eduardo Cezar
Achei muito interessante e bem escrito, parabéns!
April 15, 2020, 21:33
~

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