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O café e o guarda-chuvas


Acordou atrasado naquele dia chuvoso. Sem tempo nem mesmo para o aroma afrodisíaco do expresso, que o erguia latejante para o mundo todas as manhãs. Ganhou da esposa uma destas máquinas modernas, tamanha era a paixão pelo elixir preto fumegante.

Na varanda, agarrou o guarda-chuvas, que repousava no varal de pé, e só então lembrou-se de que uma das hastes estava quebrada.

— Porcaria, porcaria — resmungou.

Abriu o objeto com dificuldade e partiu em sua jornada diária. O dia mal começava e já estava de mau humor.

Nas ruas, desviava das poças, enquanto os transeuntes caminhavam apressados, exibindo seus objetos coloridos acima das cabeças.

Foi então que ela apareceu...

Em uma calçada estreita, cercados pela ameaçadora parede chapiscada e a gigantesca poça de água, se encararam, encurralados.

O guarda-chuvas dela era enorme, de um aterrorizante branco com listras vermelhas. Tinha cabelos encaracolados e os olhos frios de quem não moveria um milímetro sequer dos braços.

Ela apertou as pálpebras e se impôs, enchendo o peito.

Ele ameaçou seguir em frente, mas sabia dos riscos.

Ela não cedeu. Seus olhos inabaláveis diziam: Vai bater! Vai ba-ter!

Ele hesitou, mas não deixou barato, apontou o queixo para frente, como quem diz: “Eu vou, hein!”

A mulher, irredutível, o encarava sem descer ou subir nadinha do guarda-chuvas. “Vem, que o meu é maior!”, retrucava com os olhos.

Os dois ensaiavam um silencioso ritual de combate.

Ele apertou os lábios e arqueou a sobrancelha.

Ela cerrou os dentes e manteve o olhar de gelo. Aquilo era uma afronta, afinal, era mulher, uma dama, e todos sabem que “damas primeiro”. Apertou o cabo do guarda-chuvas e respirou fundo, chegava o momento crucial.

Ele também se preparou. Uniu as duas mãos, como um cavaleiro templário empunhando sua lâmina ungida.

A terrível batalha era inevitável e sabiam que uma guerra sempre deixava vítimas.

Partiram rumo à colisão iminente das poderosas sombrinhas, quando uma camionete, desviando-se de um fusquinha, varou a poça, esguichando uma cortina de líquido barrento como uma furiosa tromba d’água.

Os dois ficaram completamente encharcados.

Então, vencidos, abaixaram suas armas e suspiraram. Cumprimentara-se com um aceno respeitoso de cabeça, como samurais honrados no campo de batalha, e cada um seguiu o seu caminho, rumo à cafeteria mais próxima.

4 de Março de 2020 às 19:32 2 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Wilher O. Amante de café, calistenia, sobrevivencialismo, quadrinhos, livros e cinema.

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CC C Clark Carbonera
Adorei a narrativa. Uma boa história é justamente assim: contada de forma simples, com poucas palavras que descrevem um mundo inteiro! Parabéns, gostei mesmo!

  • Wilher O. Wilher O.
    Obrigado pela crítica. Fiquei muito feliz em ler seu comentário. 3 weeks ago
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