Yusuke não pode saber Seguir história

mioshyovan Bar-t-t-tender

O líder dos extintos Ladrões Fantasma, Ren Amamamiya, é um homem trans que leva uma vida relativamente tranquila após o colegial. Com um emprego qualquer e um quarto no Lebalanc, sua vida parecia em ordem até descobrir que esperava um filho do pintor em ascensão Yusuke Kitagawa, com quem se envolvia em segredo desde o ensino médio. Sabendo que não possuíam nada concreto, Ren pensa em ocultar a verdade por puro medo, mas farsas não costumam durar para sempre.


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Quando Ren se deu conta, já estava lá a quase uma hora. Sentado na tampa do vaso, com o pequeno objeto branco em mãos. Ele não sabia como ainda tinha forças para segurá-lo, mas sabia que suas pernas não sustentariam nem o peso de uma pena caso tentasse levantar.

Ele ainda não queria acreditar, embora fosse a provável verdade. Seria azar demais se aquilo estivesse errado, mas também seria se estivesse certo.

O outro estava na pia, e ele queria ter gasto o resto do dinheiro do mês para comprar um terceiro, por mais que no fundo, soubesse que tanto fazia; iam dar o mesmo resultado. Ele se sentia daquele jeito desde tudo piorar. aquela certeza tosca sempre esteve no fundo da mente, ele só mascarou com motivos bestas e ignorou quando ficou sem argumentos.

Até aquele momento.

Foi por pura sorte o fato de Ryuuji não tê-lo obrigado a ir ao hospital depois de vomitar todo o hambúrguer no banheiro da lanchonete. Se o loiro fosse um pouco mais esperto, não teria deixado Ren ir.

Mas tanto fazia o que o amigo pensava ou não. Diante daquele teste, Ren se sentia alheio até aos próprios sentimentos.

Era uma confirmação. Havia engravidado.

Só pôde rir quando a palavra se materializou no pensamento. Riu até os cantos da boca doerem e a voz falhar, depois, tocou o próprio rosto, e sentiu o molhado das lágrimas. Nem sabia que estava chorando.

Ele era burro. Idiota. Fazia só um ano que finalmente tinha conseguido a autorização para começar a tomar os hormônios, e a primeira injeção tinha sido a seis meses atrás. É claro que ainda podia acontecer. Ele nem havia parado de menstruar quando parou de usar proteção.

Burro. Idiota.

Com ele e Yusuke se esfregando em cada palmo do novo ateliê, não poderiam ter outro desfecho. Por Deus, Ren ainda tinha as marcas de três dias atrás, e podia sentir tudo se fechasse os olhos e relembrasse a cena.

Mas que merda ele estava pensando quando deixou...?

Por raiva, conseguiu se levantar por um momento. O espanto deu lugar ao ódio e ele atirou o teste na parede, como se aquilo fosse o culpado por tudo. Saiu do banheiro, mas só teve forças para chegar até o quarto.

O dono do Leblanc estava fora, o que significava que ele podia gritar e chorar à vontade até o fim da tarde.

Levantou a camisa folgada que vestia e olhou o próprio reflexo na tela da televisão. Jurava que já havia um volume extra por ali.

As dúvidas do mundo inteiro passavam por sua cabeça. Só tinha ouvido falar daquilo uma vez, numa reportagem toda errada e confusa.

Ele não ia aguentar passar mais dois anos esperando a permissão para tomar os hormônios. Isto é, se lhe entregassem uma segunda vez. Não gritou, como pensou que faria, nem chorou alto, como devia fazer. Só deitou na cama e ficou olhando o teto sem conseguir focar em pensamento algum.

Queria que Morgana ainda estivesse lá.

O celular começou a tocar ao lado. Ren se assustou com o toque escandaloso que Futaba havia colocado – ela fazia o que bem queria no aparelho de todo mundo. As mãos começaram a tremer quando viu o contato brilhando na tela.

Ele rezou para Yusuke não perceber qualquer falha na voz.

— quer terminar aquele nu da semana passada? — a voz pareceu explodir do outro lado. Yusuke quase nunca alterava o tom. Ren sentiu um calorzinho no peito, mas preferiu ignorar.

Ele não sentia vontade de ir, mas o outro parecia tão animado... Pareceu um crime negar aquilo quando a exposição do pintor aconteceria em menos de trinta dias.

Como o belo trouxa que era, concordou. Yusuke deu um horário e Ren precisou tentar sair da cama três vezes para ter alguma resposta do corpo inteiro. Se enfiou em qualquer coisa preta e folgada e se arrastou até a parte mais bem habitada da cidade.

A diferença entre o norte e o sul era absurda; Ren estava acostumado ao cinza das ruas na área do Leblanc, onde tudo parece meio sujo ou triste e as ruas são estreitas demais para carros. Aquele setor branco com casas apresentáveis parecia outro mundo. Mas não fazia tanto tempo que Yusuke havia se mudado para lá, talvez nem ele tivesse se acostumado.

O pintor devia estar esperando atrás da porta, porque atendeu quase no mesmo instante que Ren tocou a campainha. Tinha tinta verde musgo na camisa branca e um brilho de empolgação no rosto. Ele próprio continuava inexpressivo, mas não era novidade, então o outro não desconfiou.

Foram para o novo ateliê. Era desconcertante quando comparava o tamanho daquele quarto ao resto da casa. O corredor quase não tinha a largura necessária para a passagem de uma pessoa, a cozinha e o banheiro faziam Ren se sentir num bunker, mas o ateliê era enorme. Lotado de desenhos espalhados por aí, com um tapete que já tinha perdido a estampa original há muito tempo e grandes janelas de vidro por onde o sol da tarde entrava.

Ren tirou a roupa antes do pedido de Yusuke. Sentou no banquinho salpicado de tinta seca e ficou na posição de sempre. Para o seu desespero, o pintor levantou a sobrancelha quando o viu.

Ren travou na hora. Se sentia frio até os ossos, e não melhorou quando Yusuke se aproximou.

— estava pensando em adicionar uma coisa à pintura.

"Que tal um filho?" O pensamento veio rápido e forte. Ren quase deu um tapa na mão grande que ajeitava seus cabelos.

O pintor tirou uma corrente do bolso. Com cordão de prata e um pingente de madeira esculpida em forma de coração com pequenos detalhes prateados em uma metade. Mostrou o objeto ou outro com um sorriso satisfeito.

— posso colocar?

Ren só conseguiu concordar.

Os dedos delicados fizeram cócegas no pescoço. Ele se sentiu quase relaxado.

Yusuke voltou para trás da tela, e de vez em quando, quando esticava o pescoço para o lado, Ren podia ver a tez relaxada e o sorriso singelo que ele só demonstrava em raras ocasiões. Nessas horas, se sentia genuinamente amado, mas logo voltava a se afundar na dúvida, se convencendo de que um pintor sorria assim por causa da obra, não do modelo.

— seus olhos possuem a mesma cor do ébano. E o seu brilho reluz como prata. — ele descansou o pincel no cavalete, puxou o banquinho para trás e voltou a se aproximar de Ren. Tinha um rosto sério dessa vez, fazia o rapaz se sentir um nada. — agora quero que me conte o que está acontecendo.

Yusuke apertava gentilmente as mãos unidas de ren, enquanto tinha a outra pressionada nos lábios do rapaz com delicadeza. Tinha o cheiro enjoento de tinta a óleo no ar, e os rostos estavam desafiadoramente próximos. Ren queria um pouco de ar puro.

Por sorte ou azar, ele tinha argumentos — falsos — que Yusuke não ousava contestar.

— são só os sintomas colaterais da testosterona. Tá tudo bem.

— nunca li nada sobre um olhar disperso e essa sua palidez medonha.

— cada organismo é diferente, Yusuke. — era sujeira, ele sabia. Não tinha como o outro vencer uma discussão daquela, por mais que fosse mentira. Ren sabia o quanto o pintor havia pesquisado sobre. Dos poucos que sabem, ele foi o único a não demonstrar nada quando contou. Em vez disso, ligou duas semanas depois, e passaram a madrugada conversando sobre toda essa coisa complicada.

— tudo bem. Me desculpe. — parecia realmente envergonhado. Ren o olhou, pensando o quanto não merecia aquele homem. O peito doía aonde o pingente estava, e as mãos debaixo dos dedos de Yusuke suavam frio.

— ei... — ele passou os dedos na bochecha, Ren sentiu um gosto margo na garganta. Precisou de muito autocontrole para não desabar ali mesmo.

Era estranho, sentia um vazio com algo a mais lá no fundo. Yusuke falou alguma coisa, mas é como se estivesse falando dentro d’água. Se sentiu abraçado daquele jeito que só o pintor sabia fazer. Com um braço pouco acima da região do peito e outro alisando os cabelos levemente ondulados. Sem tocar em nada abaixo disso, e ainda o deixando confortável o suficiente para se sentir quase bem.

Os olhos estavam pesados. Vinha sentindo mais sono nas últimas semanas.

De algum jeito, adormeceu. Acordou sozinho na cama de Yusuke, com os últimos raios de sol do dia atravessando as janelas de vidro. Tudo ali cheirava a benjoim, e ele se sentia protegido debaixo do lençol fino.

Estava para tentar levantar quando Yusuke entrou no quarto, trazendo um termômetro e suas roupas.

Não disseram nada um para o outro, só trocaram olhares. Yusuke colocou o termômetro debaixo do sovaco de ren e esperaram o tempo certo. Ele havia vestido o rapaz com uma de suas camisas. Sabia que não gostava de dormir sem roupas, e gostava de vê-lo vestindo as suas. Era bonito. Yusuke meio que se frustrava por saber que nunca conseguiria reproduzir numa tela tudo que o outro representava. Ele tentaria até o último minuto de sua vida, mas sabia que não ia conseguir.

— está febril. — disse, olhando o termômetro. - Ryuuji me disse que você passou mal na última vez que saíram. Por que não me disse nada?

— vocês andam falando de mim pelas costas?

— não responda uma pergunta com outra.

— devo ter comido alguma coisa estragada. Não sei. Nunca tive nada disso.

— mas Ryuuji comeu a mesma coisa e não sentiu nada.

— sério que você vai me comparar àquela forrageira?

— tudo bem, estômago de príncipe italiano. Vou garantir que sua próxima refeição seja preparada com ingredientes frescos e especiarias indianas.

— vem cá, você não tava ocupado pintando para a exposição do mês que vem?

— não posso fazê-la sem antes passar um tempo com você. É a minha inspiração.

Ren ficou vermelho até as orelhas. Yusuke tirou uma caneta do bolso, pegou uma das mãos do rapaz e começou a rabiscar alguma coisa.

— o que você está fazendo?

— nada importante.

O rapaz deu uma olhada rápida. Reconheceu os detalhes da máscara que usava quando ainda eram os velhos ladrões fantasma.

Comparado a agora, aqueles tempos pareciam tão simples.

— ren.

— Oi?

— você fica lindo ao sol do fim de tarde.

As mãos de Yusuke buscaram o rosto vermelho. Quando Ren percebeu, estava deitado na cama, com o pintor por cima distribuindo uma chuva de beijos por todo o seu rosto. Por mais que talvez não fosse, ele se sentia amado naquelas horas. Era tudo novo para ele. Sentia muito medo, mas no final se entregava fácil.

As mãos de Yusuke foram para o interior de suas coxas nuas. Ren acordou, segurou a mão grande pedindo para parar.

Outra vez, pareceu que havia jogado um balde de água fria em Yusuke. Ele não aguentava mais ver o amigo confuso por sua culpa.

- acho que vou embora.

- não, espere. Ainda dá tempo de fazer um jantar rápido, nós podemos assistir um filme também, se você quiser.

- Yusuke, o problema não é você; sou eu.

- não diga isso!

- eu digo porque me conheço.

Ren levantou, vestiu as roupas e foi seguido por Yusuke até a porta.

- tem certeza que não quer uma carona até lá? - ele negou com a cabeça - me ligue quando chegar.

O rapaz foi embora. O céu fazia um tempo bonito para chover. O pintor acompanhou com o olhar até dobrar a esquina, e quando fechou a porta novamente a casa pareceu mais vazia.

Na rua, Ren era só mais um. Sentia que seus problemas não eram tão grandes quando estava no meio da multidão. Mas numa tarde escura, pouca gente se dispõe a sair, e ele se sentia quase sozinho de novo enquanto andava pela rua de baixo. Estava começando a neblinar, e umas poucas pessoas corriam com medo da chuva de verdade.

Ele não se importava.

Na esquina, trombou com dois brutamontes. Faziam parte do time de basquete do colégio. E eram enormes, apesar de Ren não ser tão baixinho assim. Eles o olharam torto, com um sorriso maldoso implícito, porque sabiam de alguns pequenos detalhes. Não tem como se esconder por muito tempo quando as normas da escola obrigam o aluno quieto do fim da classe a vestir um maiô ou short curto nas aulas de educação física.

Baixou a cabeça, foi andando mais apressado enquanto sentia os olhares tentando medir tudo por debaixo daquele monte de tecido preto.

Quando chegou na porta do Leblanc, percebeu que andou o caminho inteiro com a mão espalmada na barriga.

A neblina tinha se tornado uma chuva fraca. O tecido grosso começava a colar na pele.

O café ainda estava vazio. Tinha meia hora até o dono aparecer por lá. Ren disparou para o banheiro. Tirou toda a roupa e ficou de frente para o espelho grande atrás da porta. Era incômodo se olhar dali, mas não tinha jeito. Mesmo quando sozinho com as próprias dificuldades, ainda não queria acreditar.

Fazia um ano desde a entrega da permissão. Tomava os hormônios há seis meses e havia parado de menstruar no terceiro. Normalmente, as mudanças mais drásticas aconteciam a partir do quinto ou sexto mês, mas cada organismo reagia de um jeito diferente e ele não estranhou quando simplesmente não desceu. A voz nem tinha começado a mudar, mas mesmo assim, ignorou. Os enjoos poderiam ser um tipo de efeito colateral também, mas ele desconfiou quando a frequência aumentou à medida que começou a ficar mais sensível aos odores do ambiente.

Agora, na frente do espelho em um ambiente iluminado, podia ver com cuidado o volume que começava a crescer. Ele sempre foi muito magro, começou a ganhar peso quando ficou sob a guarda de Sojiro, mas não tinha nada além de um pouquinho de gordura no pé da barriga.

Além disso, começava a sentir dor naquela região.

Sentiu um mal-estar repentino, largou a barriga como se fosse veneno. Começava a suar frio, apesar de sentir calor. Olhou-se no espelho e percebeu as mudanças no resto do corpo pela primeira vez. O rosto continuava levemente inchado, apesar de não ter chorado. Os peitos doíam prensados contra o binder.

Ele sentia nojo do que via à frente.

A pele ardia quando saiu do banho. Era uma mania dele, passar a bucha até ver a pele ficar vermelha. Não sabia porque fazia, nem quando, só dava conta do estrago quando já estava feito.

Ainda sentia calor. E desconforto. Um pouquinho de desespero, talvez.

Uma ideia vinha ganhando forma em sua cabeça. Era um conhecimento de mundo como outro qualquer. No limiar entre a indiferença e o desespero, Ren se via tentado a arriscar. Ele não tinha conseguido nada depois da formatura. Vivendo com ele, aquela criança só seria infeliz.

Ele tinha a chave da cozinha e mais dez minutos. Não custava nada tentar.

Sojiro guardava as especiarias na prateleira de cima. O rapaz não precisou procurar muito para encontrar o que queria.

Jogou três colheres do pó na xícara grande de água fervente e mal deixou o chá esfriar. O gosto era doce, poderia ter aproveitado melhor em outras circunstâncias.

Sojiro chegou quando estava acabando de limpar a pouca bagunça. Futaba veio junto, falando dos mil e um lançamentos que no dia em especial, Ren não estava com cabeça para ouvir.

O primeiro cliente da noite pediu por café sem açúcar. O rapaz procurou a ajuda de Futaba, que não gostou, mas fez porque Ren raramente pedia alguma coisa. Ele cortava os ingredientes para o curry de mais tarde, tentando respirar o mínimo possível daquele ar cheio de odores. No final da noite, quando só restavam uns dois velhos jogando xadrez, Sojiro veio ajudar a limpar a cozinha. O cheiro do vinagre que usavam para espantar as moscas foi a gota d'água para Ren. Ele largou os pratos na pia e correu sentindo o bolo preso na garganta. Os velhos se assustaram, e Futaba, no balcão, enfiou a cabeça na porta da cozinha, como se perguntasse o motivo, sendo respondida pela mesma dúvida no rosto do homem.

No banheiro, Ren, daquela agonia miserável, só conseguiu expelir água da mesma cor do chá que tomara. Terminou mais tonto do que antes, com os olhos pesando de cansaço e quase se rendendo ao sono ou o que mais viesse lhe levar. A vista estava manchada por pontos pretos que iam e vinham. Lembrou que não tinha comido nada desde o dia anterior.

- ren? - era a voz de Futaba do outro lado da porta. Estava aberta, ele sabia que ela espiava pela fresta, mas não queria abrir.

Levantou aos poucos, quase caiu quando perdeu a força na mão direita, mas se segurou na pia no último segundo. Sentia frio nas pernas e calor do ventre para cima. Levou a mão ao pé da barriga, sem saber se queria proteger ou arrancar a cria de lá. Sentiu uma contração que o pegou de surpresa. Ren sabia que tomar aquilo uma vez não ia resultar em nada, por mais forte que fosse, mas não estava imune aos efeitos colaterais. Futaba o agarrou por trás quando o rapaz pareceu prestes a cair. Cada mão foi, sem querer, para o peito e o ventre do amigo. A força gerada inteiramente por puro medo fez Ren gritar. Ele empurrou a amiga para longe de si e correu de volta para a cozinha. Sojiro estava no meio do caminho e gritou, mas isso nem ao menos chegou aos ouvidos do rapaz. Ren sentia contrações fracas como no final do período menstrual, mas o problema era o que a mente cansada o fazia ver e sentir por cima daquele desconforto mínimo.

A camisa totalmente molhada de água e suor lhe pareciam insuportáveis, e as mãos não se encontravam mais secas do que aquilo. A cozinha ainda cheirava a café e vinagre. Pegou a faca de grande do escorredor de pratos, fazendo duas xícaras caírem no chão próximo aos seus pés.

Apontou a lâmina em vertical para o próprio ventre, e cravaria ali, se a mão grande e áspera do gerente não o segurasse pelo pulso.

- você precisa de um médico e um terapeuta! - Sojiro gritou sem nem ter certeza do que dizia, mas o rapaz nem ouviu. Buscou por outra coisa que pudesse usar com a outra mão, e teria conseguido pegar a tábua de vidro se o homem não acertasse seu rosto com força.

Ren caiu no chão. Sentiu o vidro quebrado arranhando a pele e o som da lâmina caindo em algum lugar próximo. Um homem gritava ao longe, mas ele não sabia quem era. Por trás dos pontos pretos, via o mundo derretendo e vazando por algum lugar. Uma pessoa se ajoelhou ao seu lado, parecia desesperada, ele achou engraçado que alguém ficasse assim por ele. Nem Yusuke havia ligado para saber como estava. Por um segundo, se sentiu realmente miserável, e quis rir de tudo, mas sentia que não tinha mais tempo.

Acordou numa sala branca. O ambiente não tinha cheiro de nada, nem barulho, e ele também não sabia dizer se sentia alguma coisa. Aquilo era o que havia depois da morte? Parecia decepcionante, no mínimo.

Ouviu o som baixo de pessoas conversando. Uma mulher e um homem, a mulher falava algo sobre alucinações causadas por estresse, coisa complicada. Ren não conseguiu entender quase nada, como se falassem outra língua.

Escutou o som de um trinco sendo aberto. Segundos depois, duas sombras apareceram no seu campo de visão.

— parece que a mocinha já acordou. — a mulher disse. Ele não sabia de onde vinha a voz, mas via uma sombra escura aparecer e sumir repentinamente.

Outra sombra, maior e mais escura, colocou algo em seu rosto, e ele finalmente pôde ver o que se passava por ali, apesar das lentes sujas.

Sojiro estava do lado. O olhar dele tinha algo que Ren não soube desvendar.

— posso chamar os que estão lá fora?

— deixe ela descansar mais. Ainda está um pouco grogue por causa do soro. — a voz vinha de uma mulher. baixinha, de cabelo preso em um rabo de cavalo. Ela mexia em alguns fios com uma expressão desinteressante. O típico estereotipo de enfermeira velha e irritadiça.

Eles saíram. Ren quis falar, mas não conseguiu. A mente começava a se dispersar de novo. Ele virou a cabeça para o lado e dormiu.

Não soube quanto tempo dormiu, mas quando acordou, Futaba estava lá. Sentia um calor na mão esquerda, seus dedos se enrolaram entre os dela e a menina sorriu.

- bom dia, ren. - disse. Os olhos estavam inchados, a voz baixinha, parecia que vinha chorando.

O rapaz tentou se apoiar pelos cotovelos para ver melhor, mas a menina levantou como se visse algo absurdo e segurou o dorso do amigo com cuidado, puxando para cima de um jeito que só causou mais dor a ele. Ren não disse nada, não tinha tanta força para esbanjar assim.

- vou chamar os outros.

Ela se soltou das mãos dele. Ren voltou a se sentir sozinho, mas antes que pudesse perceber todos já estavam lá dentro, como num passe de mágica.

Ann se soltou dos braços de Ryuuji, indo direto para os seus.

— que susto você nos deu! Se fizer de novo, quebro a sua cara, ouviu? — ela o tomou nos braços. Ren se sentiu meio sufocado pelo cabelo que caía em seu rosto.

— Ann, isso é coisa que se diga? — o loiro reclamou. Dava para ver que se segurava para não chorar também.

Yusuke passou a noite aqui, com você. — a moça disse no ouvido do amigo, se afastou um pouco e piscou, uma piscada que podia significar uma, duas ou três coisas. Ren olhou para onde Futaba estava. Sentia um pouquinho do perfume já conhecido por lá. Inconsciente, levou a mão ao peito. Pelo menos, não haviam lhe tirado o pingente.

Percebeu que estava vestindo algo diferente. Olhou para os amigos ao redor, com medo. Retirou suas conclusões da expressão de todos, e a possível resposta não lhe agradou.

Foi Makoto quem decidiu quebrar o silêncio;

— a enfermeira perguntou... Ren, isso não é da nossa conta, mas por que não disse? Nós poderíamos ajudar... — ela estava vermelha, ah, era terrivelmente embaraçoso. Ren queria sumir.

Com certeza, o chão ao seu redor já havia ruído há muito tempo, ele agora estava caindo num abismo sem fim. Todo mundo queria saber, era evidente no olhar de cada um. Amamiya apertou o pingente. Não queria meter Yusuke naquilo.

— ei, parem com isso. — Ann falou. — vocês parecem as velhas fofoqueiras da minha rua. Se querem apenas saber disso, vão ouvir atrás da porta e poupem o Ren desses olhares.

Inconscientemente, a mão do rapaz desceu até o ventre. As contrações haviam parado, não sentia mais nada por lá.

A porta se abriu de novo, e um homem alto entrou acompanhado da enfermeira de antes.

— mas o que é isso, uma festa? — a mulher disse com voz irritadiça. — vamos, mocinha, vou te dar alta. Vocês todos: pra fora.

Restaram três pessoas no quarto. Uma delas era Yusuke.

Ren não sentiu o cheiro típico do perfume dele. A camisa estava com os botões nas casas erradas também. O rapaz achou meio triste. Lamentável até.

Que tipo de coisa havia acontecido enquanto dormia?

Não demoraram a sair. Ren tinha o olhar nervoso e a respiração ruidosa típica de seus finais de crise. Yusuke emprestou o próprio casaco, apesar de sentir frio. Ren se apoiou em seu braço. Tudo doía. Precisava andar devagar, parou do nada umas duas vezes, e Yusuke precisou ser paciente. Deve ter sido estranho para os outros, ver o ex líder dos ladrões fantasma daquele jeito. Ren apertou mais o braço do amigo quando passaram pela recepção. O pintor acenou, e foi essa a despedida.

No carro, foi a vez de Yusuke perguntar.

- essa criança é minha, não é?

Ren concordou.

- três meses, Ren. Quando ia contar?

- eu descobri faz pouco tempo... e você começou a ser reconhecido agora. Eu não ia tirar isso de você

- mas ia tirar meu filho. Merda, Ren, você tem noção da apunhalada que me deu? É responsabilidade minha também!

- vamos deixar essa conversa pra depois, por favor... — encostou a cabeça na janela. Eles ainda estavam no estacionamento.

- quando? Quando eu for te buscar no Leblanc e te encontrar num caixão? - aí ele não aguentou. Parou de tentar ligar o carro e chorou por um tempo no volante.

Ren não tinha mais lágrimas, então se resumiu a olhar. Não sabia o que fazer.

Depois de uns dois minutos, o pintor limpou o rosto e seguiu como se nada tivesse acontecido. Não conversaram durante o caminho. Ren não se surpreendeu quando notou que não iam para o Leblanc.

Quando chegaram em casa, Yusuke ofereceu ajuda para descer, mas ele o fez sozinho.

- o que você vai fazer? - o rapaz perguntou. Yusuke bateu a porta da frente com força e eles ficaram quase totalmente no escuro. Ren sentia um pouco de medo, não tinha como negar.

O pintor se aproximou sem responder coisa alguma. Ren ainda estava num estado paranoico, via perigo em tudo. Até de si, depois da última noite.

Os braços do outro o envolveram do jeito de sempre. Não havia nada além de cuidado naquilo.

Ren pegou um dos braços, e deixou a mão quente em cima do volume que começava a se sobressair.

— você quer ter essa criança?

Ren mordeu o lábio. Não sabia se ainda tinha direito de decidir alguma coisa, depois do que tentou fazer. Ele só não se via em um futuro, não queria espalhar seus fracassos para alguém inocente também.

— eu não sei, Yusuke. É muita coisa... difícil. Você quer?

— quero.

— mas vai ser difícil, Yusuke. Você está começando...

nós estamos começando, Ren. Nós três.

— não se sinta preso por...

— ei, pare. Você não me prende. — ele ficou na frente de Ren, com os dedos no queixo trêmulo. O mantinha perto com aquele braço na cintura. Gostaria que fosse assim para sempre. - eu amo você mais do que já amei outra pessoa nesse mundo. Vou amar nossa família também, se... vamos pensar com calma, tá?

O estudante escondeu o rosto no peito do outro, envergonhado.

— não vai me dizer o que sente?

- você já sabe.

- mas eu quero ouvir.

- eu te amo.

Yusuke olhou bem aqueles olhos escuros. Beijou Ren do jeito que sempre faziam em épocas passadas.

- nós vamos ser felizes. Eu te garanto.

Ren concordou. Acreditava muito nas palavras de Yusuke, afinal, ex ladrões fantasma sempre cumprem suas promessas.


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notas:

Eu não sei finalizar histórias. sorry
Glossário:
Disforia de gênero: é basicamente um desconforto forte e persistente com características que remetem ao gênero (ou sexo) de nascença, e identificação com o gênero oposto ao imposto no nascimento.
Por mais que algumas pessoas trans não levem em conta, há uma pequena diferença entre transexuais e transgêneros. É algo que muda de acordo com as opiniões de cada pessoa trans. Em minha opinião, o transgênero inclui, além dos já citados transmasculinos e femininos, as pessoas não-binárias. Uma pessoa transexual não se vê em seu gênero de nascença, quase sempre optando por mudanças de nome, utilização de hormônios e, por vezes, cirurgias.
A aplicação constante da testosterona causa mudanças em um espaço de tempo relativamente curto. Em questão de mais ou menos cinco meses (pode variar de pessoa para pessoa), a menstruação cessa e a voz começa a mudar. Em um ano, o corpo já passou por transformações significativas. O homem t corre sim o risco de ficar estéril (é recomendável que o útero seja retirado depois, para evitar alguns problemas), mas só depois e anos de hormônios.
Cuidado bebê. Se proteja.
Obrigado por ter lido até aqui. Fique com a luz.

25 de Fevereiro de 2020 às 19:49 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Bar-t-t-tender keep love alive// uma mistura estranha de passado e presente.

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