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u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Após os EUA perderem a Batalha de Midway e o Dia D fracassar, o Eixo vence a Segunda Guerra Mundial. O Oceano Pacífico torna-se um "Mare Nostrum" japonês, enquanto as tropas imperiais avançam pelo território dos EUA rumo à costa leste. Em meio a esse cenário, Emi Kawaguchi, piloto heróico da Força Aérea Imperial, é enviado à América para uma missão ultra-secreta... Que pode revelar um segredo extremamente aterrador.


Ficção científica Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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I

Ozora no Samurai


"O bater de asas de uma borboleta

pode causar um tufão do outro

lado do mundo"

(Teoria do Caos)


I


Ventava ligeiramente aquela tarde. A brisa, um tanto gélida e cortante, parecia tolher ainda mais aquele rosto já tão fustigado pelas torrentes do Pacífico. Emi, no entanto, apreciava o fenômeno causado, segundo os antigos, pelo deus Fujin. Além de remover a neblina pelo caminho até sua morada, o soldado acreditava que a determinada corrente de ar limparia a poeira acumulada em seu uniforme durante a exaustiva viagem de volta à terra natal. Além disso, era responsável por uma das visões que mais apreciava na vida, naquele instante ocorrendo bem diante de seus olhos: as pétalas cor de rosa das flores de cerejeira se desprendendo dos galhos de suas árvores e dançando ao capricho do vento, oscilando pelo ar num misto de suavidade e pressa até desaparecerem por completo do alcance dos sentidos.

Dizia-se, no passado, que aquelas flores representavam a vida do samurai, breve e muitas vezes incerta. Era usada, outras vezes, como metáfora da juventude: emblema da impetuosidade e inconseqüência quase sempre características dessa etapa da existência e que, atingida a idade adulta, felizmente costumavam se esvanecer. Emi, porém, dava àquelas pétalas sem rumo outra conotação, já há algum tempo: simbolizavam muito bem a vida dos patriotas servindo no Exército e na Marinha Imperiais desde o início da guerra. Um destino na maioria das vezes frágil, débil, capaz de atingir seu fim subitamente pelo fogo de uma metralhadora inimiga ou pela explosão de uma bomba inesperada. Os combatentes do Imperador, no entanto, estavam longe de temer tal sina. Lutariam e morreriam pela pátria e seu governante. Era esse sentimento que os levava a direcionar seus caças carregados de explosivos a um alvo inimigo ou lançar-se correndo num ataque solitário contra toda uma tropa estrangeira, de Katana brandida: a glória da nação erguida e expandida pelos filhos de Amaterasu.

Ainda que também encarasse a perspectiva da morte sempre com bravura e distinção, Emi, ao menos naquele dia, ansiava por se esquecer um pouco do ambiente hostil do campo de batalha. Forçava-se para que, ainda que os gritos dos inimigos e companheiros ceifados e a ruidosa explosão dos tiros deflagrados não pudessem abandonar totalmente seu cérebro, pudessem ao menos ser suavizados pelas juras de amor e carícias da esposa – que não via há meses. O desejado descanso de poucos dias só lhe fora garantido devido à proximidade de sua nova missão, desta vez do outro lado do oceano e lhe informada diretamente por uma correspondência do alto comando. Ainda que seus esforços em combate parecessem estar sendo amplamente reconhecidos pelos comandantes, isso significava incursões cada vez mais arriscadas, e com elas uma maior possibilidade de nunca mais tornar a ver a amada ou o filho que ainda engatinhava. Pretendia, assim, aproveitar aquela ocasião junto da família como se fosse a última.

A estrada e as cerejeiras logo ficaram para trás, a residência dos Kawaguchi nos arredores de Nagasaki surgindo diante de seu senhor. Casa pequena e singela, erguida antes do início da guerra – Emi esperançoso de que com o final desta pudessem se mudar para um lugar maior. O telhado cinzento e as paredes brancas, inseridas no céu nublado, deram ao recém-chegado sensação de imobilidade, como se o local houvesse parado no tempo. De certo modo, torcia para que isso fosse verdade, já que esperava reencontrar esposa e filho como os deixara – com exceção de não estarem tristes e receosos como quando ele partira.

Retirou os sapatos junto à genkan, virando-os na direção pela qual viera. Tal gesto, ainda que costumeiro, lhe deu certa aflição, já que combinava com o fato de em breve ter de novamente ir embora. Respirou fundo e adentrou a residência.

Ao ganhar a primeira sala, uma violenta onda de nostalgia se chocou contra as rochas de sua percepção. Pisava o mesmo tatami onde, meses antes, presenciara os primeiros movimentos e palavras do filho. Ergueu a cabeça, olhos marejados. Por trás das divisórias claras de papel e madeira que delimitavam os cômodos, avistou sombras, seu coração pulsando acelerado. E eles logo surgiram.

Sua mulher ainda era a mesma. Trajando o mesmo quimono azulado que herdara da mãe e tendo os cabelos castanhos presos no mesmo coque de presilha de madrepérola, ela abraçou-o com força. Emi pôde sentir seu perfume, aquela flagrância tão prazerosa em que procurava sempre pensar nos piores momentos a bordo dos aviões de combate para acalmar-se. As duas mãos da jovem o seguraram pela gola do uniforme, tateando o par de estrelas gravado em cada uma. Puxou a cabeça dele para si... e beijaram-se.

Instantes depois os lábios se separaram num som agridoce. Os olhos se encontraram, a esposa sorrindo e emitindo curto riso de vergonha e ao mesmo tempo alívio. Abraçaram-se novamente, a boca do marido suspirando, pálpebras cerradas:

- Chiyoko...

A jovem, em resposta, pronunciou junto a um dos ouvidos do amado, demorando-se como se o nome deste lhe constituísse fonte de incrível paz apenas por ser mencionado:

- Emi-kun...

Foi quando o balbuciar de uma criança invadiu o recinto. As cabeças dos pais se voltaram para o pequeno menino que adentrou a sala engatinhando, vestindo trajes brancos. Foi apanhado no colo pela mãe, que o ergueu até a altura do peito do pai. Este beijou a testa do pequeno Hideo, enquanto o inocente bebê brincava com as medalhas que pendiam do uniforme. Chiyoko tornou a fitar o esposo. Manifestou pela voz a questão que vinha perturbando seu íntimo:

- Ficará por quanto tempo, desta vez?

- Três dias – ele respondeu de modo pesaroso, porém firme. – Terei de embarcar em missão novamente.

- Oh não, Emi-kun! – a moça protestou num tom choroso, o menino permanecendo alheio a tudo em seus braços. – Já fez tanto pelo Imperador! Arriscou tanto sua vida! Por que eles não o dispensam?

- Não quero mais ouvir falar disso, mulher – o militar rebateu de modo um tanto ríspido, ainda que não possuísse a intenção de ferir-lhe os sentimentos. – Enquanto houver inimigos servindo de obstáculo ao progresso de nosso povo, à bonança do Império, meu lugar é na cabine de um caça abatendo-os dos céus, ou atirando-me contra um deles se preciso for. É meu dever, Chiyoko-san. Recebi um telegrama do alto comando há uma semana. Eles precisam de mim na Frente Americana. Arcarei com meus encargos e, retornando vivo, estarei aqui para tomá-la novamente nos braços.

A esposa assentiu movendo a cabeça, mas não pôde evitar que lágrimas escorressem por seu rosto. Compadecido, Emi tornou a abraçar a ela e ao filho. Mal se dissipara a alegria do reencontro, a dor da despedida já se manifestava naquele lar, porém não era ainda o momento. O tenente do Exército Imperial estava decidido a desfrutar ao máximo daqueles dias com a família para só voltar a pensar no dever quando o instante da partida chegasse. Não seria fácil. No entanto tinha de tentar.

24 de Fevereiro de 2020 às 20:46 0 Denunciar Insira 3
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