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Manchete de jornal

Há de se esvair: toda raiva, todo sangue inocente derramado, a fome de barrigas roncando, feito bocas de lobo famintas. Cruel. Tão nobre e tão podre esse teu rosto de pobre. De marcas nos olhos, de vida difícil, de mãos calosas e com calças sujas nos joelhos e camisa de botões desabotoados na altura do peito, mostrando os pelos do corpo e ostentando um bigode de cores grisalhas que cobre a boca, dando um aspecto de abandono do teu ser.

Será que ele sofre? É claro que sim. Não de doenças, mas de remorso, de angústia e de dores da idade. Doem-lhe os joelhos, já gastos de tanto caminhar; os calcanhares, de tanto usar chinelos; as costas, de tanto dormir em camas sem colchões; e os olhos, de tanto ter de enxergar a miséria e a maldade dos homens.

O que será dele? Sem emprego, tenta a sorte nas ruas, carregando um saco surrado de pano com os restos que encontra por aí. Ele mendiga pelas ruas em busca de comida, de trocados e de uma mão amiga, e isso ele não tem, e nem sabe quando vai ter. Ele espera, com paciência, ainda, que alguém um dia lhe ajude, não com dinheiro, mas com um emprego. Ele que sabe rebocar paredes, assentar tijolos e fuçar em canos; não é o melhor em sua profissão, mas faria o melhor dele por alguns vinténs. Mas quem ousaria lhe contratar? Ninguém, a não ser por pena.

Invisível. É assim que ele se sente. As pessoas não notam a sua presença, principalmente quando ele estende o braço magrelo em busca de comida ou de uma mísera moeda. E são assim todos os dias e vai ser assim pelo resto de sua vida. E na morte, quando não existe mais chance é que todos vão descobrir quem ele era. Pobre homem, só ficou conhecido depois de virar manchete de jornal: morador de rua morre de frio na Praça da Sé.

23 de Fevereiro de 2020 às 16:50 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Fernando Camargo Escrevo desde os oito anos de idade, culpa da professora de português. De tanto gostar de fazer isso (escrever), resolvi estudar jornalismo. Formado, atualmente eu passo meus dias a criar personagens e novas histórias.

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