Justine Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Um pacato escritor trabalha em sua fanfic... quando é confrontado pela sinistra verdade. Seriam os escritores os maiores assassinos que existem? Conto originalmente publicado na antologia "Jogos Criminais", Editora Andross. Arte da capa por Marcela Correa.


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#mistério #criatura #criação #criador #autor #escritor #escrita #quartaparede #metalinguagem #crime #assassinato #policial
Conto
4
1.2mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo Único

Justine


Sozinho no quarto escuro, sentado sobre a cama, ele parecia um espectro em meio à penumbra, já que a única fonte de luz presente no recinto – proveniente da tela do notebook – deixava visível apenas parcialmente seu corpo, num tom mais claro que o natural. Digitava quase sem parar no teclado do computador, parando aproximadamente a cada três minutos para raciocinar e revisar o que havia acabado de redigir. Seus dedos pareciam jamais se cansar e, mesmo com a hora avançada e tendo aula na manhã seguinte, prometera que não pararia antes de terminar aquele capítulo. Além de querer avançar rapidamente na trama, ele sabia muito bem que seus leitores on-line já cobravam a continuação da história há algumas semanas...

Luiz Fabrício, ou, chamando-o por seu pseudônimo de escritor, "Goldfield", via-se mais uma vez envolvido naquele vício chamado fanfiction. Pegar emprestado os universos e personagens tão ricos criados por grandes cineastas, desenhistas e escritores, poder soltar a imaginação e criar histórias alternativas dentro daquelas obras que tanto adorava... Porém, para Goldfield, a melhor parte de se escrever fanfiction era a inserção de personagens originais, elaborados pelo próprio fã, dentro da trama já existente. Novos aliados para os mocinhos, novos vilões, interesses amorosos... às vezes até protagonistas de sagas inteiramente distintas. E, naquela noite, a personagem central do enredo que tanto prendia a atenção do pretenso escritor se enquadrava nesse último caso...

Tratava-se de um fanfiction policial, baseado num certo mangá. Uma equipe de investigadores do mundo todo se via às voltas com os crimes em série cometidos por Justine Clare, uma estudante de Direito francesa aparentemente acima de qualquer suspeita. Jovem, bonita e inteligente, ela agia como uma espécie de justiceira implacável que, através de métodos sutis e eficazes, eliminava todos aqueles que sob seu ponto de vista infligiam a lei e não mereciam permanecer vivos. Uma gangue de estupradores que seqüestrava e matava moças, autoridades corruptas, assaltantes, ladrões... As vítimas de Justine já somavam, nas páginas da história, um grande número, e apenas no capítulo avançado em questão, por descuido, a personagem começava a gerar evidências que levavam gradativamente o time de detetives à sua pessoa.

Goldfield adorava Justine. Ao mesmo tempo em que era letal e perigosa, via-a como uma personagem cativante e misteriosa, e quanto mais escrevia sobre ela, mais era impelido a descrever novas de suas aventuras e desventuras. Vencendo as mais complicadas situações para manter ocultos seus crimes, Justine, com seu estranho carisma, parecia apenas exigir outros desafios para que ela os superasse. Às vezes seu entusiasmado autor sentia até perder o controle de seus dedos sobre o teclado, como se a protagonista ganhasse vontade própria e por si só definisse seu destino.

Aquela noite, no entanto, não estava tão inspiradora. Após cerca de meia página de texto, Goldfield empacara numa determinada cena, não sabendo como conduzir a história a partir dali. Era fato que costumava planejar a cadeia de eventos do enredo com antecedência, mas muita coisa acabava surgindo apenas no momento da escrita e, tendo aprendido a contar com isso, o escritor metia os pés pelas mãos quando no momento decisivo ficava sem idéias. Bufando, resolveu, depois de apagar cerca de três fases recém-redigidas que não achara satisfatórias, tomar um banho. O banheiro era anexo ao quarto e, como a ducha não prometia ser demorada, resolveu deixar o notebook ligado. Com sorte sua inspiração voltaria após o breve descanso mental e talvez conseguisse postar o novo capítulo on-line ainda antes de dormir.

Adentrou o banheiro, trancou a porta, acendeu a luz e, após rapidamente despir-se, ligou o chuveiro.

Era incrível como um bom banho trazia idéias ao autor. Sua mente parecia derrubar de imediato as barreiras que inibiam sua criatividade, as cenas fluíam livres em sua mente como um filme nítido numa tela de cinema. Perguntava-se se as tão faladas musas, das quais os poetas tanto se queixavam, não residiam na verdade naquelas gotas mornas que despencavam do chuveiro. Mais tranqüilo em relação à continuidade de sua história, deixou o box, enxugou-se, vestiu de novo o pijama, e retornou ao quarto, ainda esfregando a toalha nas costas da cabeça...

Ao abrir a porta, para sua surpresa, o quarto não estava mais escuro: a lâmpada no teto fora acesa. Goldfield sentiu-se surpreso pelo fato, porém o que viu a seguir fez seu coração disparar. Havia uma pessoa sentada sobre sua cama, diante do computador ligado. Ao perceber aos poucos seu aspecto, o ingênuo escritor imaginou se não teria dormido durante a tarefa de escrever, estando agora sonhando. Mas não... aquilo era bem real.

Tratava-se de uma jovem, em seus pouco mais de vinte anos. Loira, cabelos lisos e curtos, trajando blusa de lã, luvas e tendo um cachecol em torno do pescoço – indumentária adequada ao frio inverno de Paris, e não ao clima tropical brasileiro. As pernas eram cobertas por uma calça jeans e os pés calçavam botas para neve. Com seus dois paralisantes olhos verdes, encarava o rapaz de forma fixa. Sim, era Justine Clare. Em carne, osso e sagacidade. Assim como seu autor a concebera.

Como aquilo era possível? Seria um devaneio de seu cérebro, um sério sintoma de cansaço? Um delírio, um desejo?

Sem pestanejar, Justine falou num português carregado de sotaque francês... com o mesmo tom de voz que Goldfield sempre imaginara:

- Boa noite, meu caro.

- J-Justine? – balbuciou o jovem, quase caindo por terra. – Como é possível?

- Seu computador me serviu de portal para este plano... Surpreendo-me por você nunca ter desconfiado que isso fosse possível. Afinal, alguém capaz de criar estratagemas e álibis tão convincentes quanto os seus em suas histórias, deveria ter ao menos cogitado isso...

- Por que está aqui? O que você quer?

- Ora, já não é claro o bastante?

Dizendo isso, Clare ergueu-se da cama e, numa expressão séria, explicou a seu criador:

- Você me idealizou como uma pessoa dotada de forte senso de justiça. Através dos meios que me são disponíveis, eu elimino os vis criminosos que povoam nosso mundo, os cruéis meliantes que acabam impunes devido às leis falhas existentes e que só deixariam de causar o mal estando mortos. Eu refleti sobre minha missão durante meus atos, estudei todas as minúcias de meu universo... e deparei-me com a inegável verdade.

- Que é? – Goldfield começava a tremer.

- Você é o maior criminoso que conheço.

O rapaz franziu as sobrancelhas, sem compreender. Astuta, Justine fez questão de explicitar-lhe:

- Como escritor, você assume o viés de um deus. Você decide quem vive e quem morre. Quantas vezes, por mero capricho, para manter intacto o progresso de um enredo, você não eliminou personagens inocentes? Matou pessoas que nada haviam feito de errado por pura revelia, visando simples dramaticidade? És o maior assassino que conheço, Goldfield. E cabe a mim puni-lo privando-o do direito de viver.

- M-mas, Justine! – o pobre autor viu-se tomado por intenso desespero, recuando até uma parede. – Eu nada fiz por mal, compreenda... É tudo ficção! Por favor!

- Agora é tarde, não há mais espaço para perdão, para redenção. Iguais a você há muitos outros, que agora caçarei por mim mesma. Aliás, é irônico pensar ser este o crime perfeito. Ninguém jamais suspeitará que um autor foi morto por uma personagem que criou. Em sua ficção, você me induziu a erros, mas estes não terão espaço daqui em diante. A justiça está servida. Adeus, meu criador...

E, num movimento rápido e mortal, Justine abraçou-o... A última coisa que Goldfield viu foi a lâmina do punhal subitamente erguido pela francesa, refletindo a luz da lâmpada do quarto. Depois veio a dor lancinante, a fraqueza, a sensação de líquido quente escorrendo por seu peito e membros, com ele se despedindo sua força vital... E, em meio à risada sádica da improvável assassina, tudo se apagou.

15 de Fevereiro de 2020 às 00:14 4 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Comentar algo

Publique!
Billy Who Billy Who
AH MEU DEUS COMO EU AMO ESSA DINÂMICA AUTORXPERSONAGEM Sério Eu gostei demais da sua narrativa e essa ideia do personagem ganhar vida sempre me cativou, eu tenho inclusive um conto sobre, chamado Gore aqui no site e publicado também em uma antologia sobre Quando encontro algo como o seu enredo eu piro muito Obrigado por este texto, fez minha noite

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Que bom que curtiu. Esse tipo de dinâmica me atrai muito também, hehe! Obrigado por ler. Abraços. 3 weeks ago
Junio Salles Junio Salles
Bem interessante esse exercício de imaginar um personagem nosso criando vida. Tenho certeza que alguns dos meus trariam muito problema ao mundo caso se materializassem do nada kkkk. Só acho que a Justine deveria te matado com o Death Note kkkk.
February 19, 2020, 20:12

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Huahauahaua, não usei o Death Note por direitos autorais, já que o conto foi publicado em livro. Deixei mais sutil, hehe! Mas sim, a ideia dos personagens ganhando vida é mesmo ótima. E valeu por ler mais este :) February 19, 2020, 20:23
~