serenityelian Serenity Elian

Dizem que a vida é feitas de escolhas e que estas tem consequências. O que você diria ou faria se a sua escolha pudesse salvar ou destruir a vida de alguém? Eles fizeram sua escolha, não imaginando o efeito que teria não apenas em suas vidas, mas na de todos ao seu redor.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#saintseiya #cavaleirosdozodiaco #personagemoriginal #sagadegemeos #kanondegemeos
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. o n e . Quando Nossos Caminhos Se Cruzaram

É como se você gritasse
E ninguém conseguisse ouvir
Você quase se sente culpado
Que alguém pode ser tão importante
Que sem eles, você se sente inútil
Ninguém nunca vai entender o quanto dói
É como estar sem esperança, como se nada pudesse te salvar
E quando tudo acabar
Você vai querer que todas essas coisas ruins voltem
Pra ter também a parte boa de volta
We Found Love - Rihanna



Era tarde da noite, passos apressados rompiam o silêncio. O fôlego começava a falhar, o peito arder pela corrida prolongada, mas necessária. Tinha que fugir daqueles homens ébrios, era questão de segurança. Um abrigo escondido seria ideal, porém o embaralho em seu cérebro causado pelo pânico não ajudava.

As penas doíam e ameaçavam fraquejar. Aquele seria seu fim. Dezesseis anos morando na rua e ainda assim não aprendeu todo o necessário para sobreviver em Atenas, sem família, sem ninguém. Conforto e carinho eram coisas que jamais conheceu e duvidava que algum dia seria diferente. Nem mesmo nas ruas fez amigos, sua presença era rejeitada como fosse uma doença contagiosa.

Sequer sabia seu próprio nome, se é que tinha um, desde que se entendia por gente, morava nas ruas da capital grega. Invisível para praticamente todos. Ninguém percebia uma criança, praticamente um bebê perambulando sozinho por aí. Ouviu de muitos que sua vida era um erro, um “aborto” feito após o nascimento, pois ninguém iria querer um ser que causasse tamanha repulsa e desgosto por onde passava, muitos diziam que era encrenca pura, pois atraía confusão por onde passava, por isso a constante rejeição.

No entanto, aquela noite, passou pelo beco errado. Os ébrios olharam em sua direção, gritando coisas obscenas, foi quando teve a ideia de correr, já que todas as células do seu corpo gritavam para que corresse ou então morreria. Não que se importasse tanto se viveria ou morreria, sua vida não fazia diferença para sua própria pessoa que dirá para o mundo. Era só uma pessoa sem teto.

O barulho da sirene do carro de polícia se fez presente. Mas nem assim parou de correr, seria um erro. Mais algumas quadras e talvez se encontrasse a salvo. Talvez. Nunca tivera um lugar fixo, não se mantinha mais do que duas semanas no mesmo lugar. Ao menos era isso que acreditava, pois não sabia nem ler nem escrever, nunca foi a uma escola, sequer sabia o que se fazia em um lugar assim, apenas via os alunos com aqueles uniformes, mas nunca se deixou enganar que sua realidade mudaria. Sua família nunca quis saber de sua pessoa, jogando fora ainda bebê. Também nunca se deixou envolver com ninguém, afinal quem iria querer uma pessoa sem teto?

Finalmente seu corpo se rendeu a exaustão, colidindo no chão. Não comida há dias, foi surpreendente o quanto conseguiu correr naquele estado. Tinha acostumado seu corpo a pouca ou quase nenhuma comida. Não tinha noção do que era saúde. Já que só conseguia furtar frutas pequenas, em dias, horários e locais diferentes. Só nunca reparou que sempre ia a mesma lojinha de frutas furtar maçãs. Talvez porque seu inconsciente considerasse que aquelas era as mais saborosas que já provara em sua curta vida. Observava o movimento, literalmente como um ladrão à espreita. Não tinha a menor noção de que era errado. Nunca lhe ensinaram o contrário.

Só que há dias não passava por lá, tinha percebido que o dono andava mais atento, provavelmente tinha percebido sua atividade pelo local. Não seria prudente voltar por mais alguns dias, a não ser que a fome apertasse muito. Mesmo tento algumas árvores frutíferas espalhadas pela cidade, nem sempre seus frutos estavam bons. Já chegou a revirar o lixo para conseguir alimento, era incrível o tamanho do desperdício das pessoas. Se soubessem quantas pessoas passavam fome, quem sabe seria diferente.

Ouviu vozes, tentou se levantar, mas seus membros inferiores não obedeceram, ainda estavam exaustos, chegando a tremerem involuntariamente. Precisava sair dali urgente. Tinha plena convicção de que eram os homens que correram atrás de si. Esperou. O volume aumentava. Seu coração batia mais descompassado ainda.

— Kanon, você é um irresponsável! Como não sabe onde está seu carro? — Saga perguntava indignado.

— Claro que sei, acho — Kanon respondeu sem dar atenção ao gêmeo.

— Acha? Já viu a hora? Nosso pai vai nos matar! — Saga se preocupava com a reação de Aspros.

— Somos maiores de idade e vacinados, Saga, você é engenheiro e eu sou advogado — Kanon disse desinteressadamente.

Os dois brigavam um com o outro, até que avistaram uma pessoa no chão. A princípio pararam de andar, ressabiados de que poderia ser um assaltante se passando por alguém enfermo.

— Sei não, melhor voltarmos devagar, fingir que não vimos. — Saga sugeriu.

— Somos dois e ele um, seria louco de nos enfrentar — Kanon disse.

— Ele pode ter uma arma, espertalhão — Saga falou entediado com o mais novo.

Os gêmeos ponderaram por alguns segundos, mas pararam para observar a figura mais à frente, impossível dizer se era homem ou mulher, só conseguiam dizer que era pequeno. Se fosse um adolescente, deveria ser um daqueles marginais com problemas de drogas.

Observando atentamente a figura se levantar com muita dificuldade, ao que tudo dava para entender, alheia a presença deles, pelo menos assim acreditavam. Ouviram o baque de algo cair no chão, a pequena figura não conseguiu mais se erguer.

— Acho que já seguro sairmos daqui — Kanon comentou em tom baixo.

— Sim. — O mais velho concordou.

Observaram a figura por alguns momentos, nenhum movimento, nem sinal de que se mexia.

— Será que morreu? — Kanon perguntou curioso.

— Melhor ligarmos para a emergência, não parece certo deixar uma pessoa nessas condições jogada na rua — Saga comentou sacando o telefone celular do bolso.

— Guarda isso, se for um truque para nos assaltar? — Kanon tomou e guardou o aparelho. — Quando estivermos longe, você liga.

— Sei não, Kan... — O mais velho olhou ao redor, não vendo nem ouvindo nenhuma movimentação suspeita, nenhuma sombra à espreita.

A sirene novamente foi ouvida, uma viatura passou, cheia. Por causa as janelas abertas, puderam ouvir as obscenidades ditas pelos ocupantes, na direção de onde eles estavam. “vadia”, “puta, não terá tanta sorte da próxima vez”. Novamente olharam para a figura não chão que não se mexia há alguns minutos, com passos cautelosos se aproximaram.

Nenhum sinal de vida, Kanon acabou por sacar o próprio celular e usar a lanterna para analisar a figura. O rosto estava sujo, as roupas encardidas, pés descalços, moradora de rua. Chegou mais um passo próximo. Era uma moça, feições delicadas, apostaria em adolescente. Chegou a cutucá-la, levando um tapa na nuca do irmão.

— Idiota. – Saga o xingou. — E se ela acorda e te ataca?

— Não acho que ela vá acordar — Kanon respondeu, checando a pulsação dela, olhou para o irmão. — Ela não está bem.

— E o que você acha que um engenheiro e um advogado podem fazer num momento como esse? — perguntou olhando novamente para os arredores do local ermo.

— Levá-la a um hospital — Kanon respondeu sério. — É praticamente uma criança, Saga... Quantas já vimos morrendo de inanição por este país?

O mais velho teve que concordar, seria uma injustiça ignorarem a jovem desmaiada, seria alvo fácil para os maus intencionados. O pai dos gêmeos, Aspros, já dissera inúmeras vezes que ajudar a quem precisava não custava nada. Ele mesmo não vinha de família rica, lutou muito para construir o que tinha e dar aos filhos uma vida confortável e despreocupada com os males do mundo.

Kanon a pegou no colo, constando algo que o deixou no mínimo preocupado, a moça era leve demais para a idade. Rumou com o irmão para o local onde lembrava ter deixado o veículo. Deitando-a no banco de trás, ligou o carro e partiu para o hospital mais próximo da região.

Saga não estava em um estado diferente do irmão, pensando no que faria depois que deixassem a moça no hospital, era muito provável que voltasse para as ruas.

O gêmeo caçula mantinha sua total atenção na rua, a procura de um hospital. Pensando pela primeira vez em como sua vida na verdade era fácil, tinha uma família, um teto sob sua cabeça, comia a hora que bem entendesse, tudo o que quisesse na verdade. Sua realidade se chocara com a moça desmaiada no banco traseiro de seu carro. Suja, roupas encardidas, ainda não fétidas, peso anormalmente leve, descalça, muito provavelmente deveria estar com fome, teria ela fugido de casa? Ou seria órfã?

Perdido em pensamentos, por muito pouco não perdeu o hospital de suas vistas, parando de qualquer jeito na vaga, não era público, mas um particular conhecido.

— Acha que vão aceitá-la aqui? — Saga questionou, preocupado com o preconceito que ela poderia vir a sofrer dos funcionários do local.

— Com alguém pagando ninguém faz uma única pergunta — Kanon respondeu, já com a moça em questão nos braços, rumando para a entrada do local.

Um Saga particularmente orgulhoso olhava a cena, seu irmão era deveras irresponsável com muitas coisas, mas nunca negou ajuda a quem lhe pediu. Ajudar alguém por pura e simplesmente querer ajudar a quem precisa, o deixou feliz.

Ao adentrar o recinto, ouviu o tom autoritário dele, vendo a moça ser levada por um grupo de enfermeiras. O primeiro passo deveria ser um banho para depois a examinarem com a devida cautela. Seu olhar seguiu até onde seu gêmeo se encontrava, conversando com um médico plantonista da noite. As feições levemente franzidas denunciavam como iam o andar da coisa. Logo se aproximou de sua pessoa.

— Se quiser pode ir para a casa — Kanon disse ao se sentar. — Ainda vão demorar, foram dar um banho nela, jogar aquelas roupas fora.

Não vou te largar sozinho — Saga sentou-se ao lado dele. — Além do mais, não seria legal te abandonar nessa hora.

— O médico chiou um pouco, mas vai atendê-la — comentou, afrouxando a gravata. — Queria saber o que uma menina fazia naquele lugar tão ermo...

— Será que fugia de alguém? – o outro indagou.

— Amanhã vou pedir para Aiolos averiguar nos dados de pessoas desaparecidas se alguém deu parte no desaparecimento dela – comentou se ajeitando como pôde na cadeira acolchoada.

— Pelo estado dela, acho muito que está há muito tempo na rua — Saga disse cruzando os braços.

— Também não duvido, mas só quando ela acordar, saberemos. — Kanon fechou os olhos por alguns instantes.

As horas pareceram uma eternidade para os gêmeos até que médico desse novamente as caras. Por causa do semblante cansado, não conseguiram adivinhar nada sobre o estado dela.

— O estado de saúde dela é precário, péssima alimentação, aliás, quase nenhuma eu diria, está abaixo do peso — analisando o prontuário da paciente desconhecida. — Sobre a idade, diria que tem no máximo dezesseis anos, mas posso estar enganado, está anêmica. Muito machucados nos pés, o que indica que há muito tempo não usa calçados.

— Continue. — Kanon pediu.

— O braço direito, quebrou em algum momento da vida, cicatrizou errado, cuidados precários ou até mesmo nenhum… — continuou. — Vai ficar internada por alguns dias, bom, isso se não fugir.

— Algo mais que devemos saber, doutor? — Saga perguntou.

— Ainda estão sendo feitos exames, só então terei um diagnóstico preciso — disse. — Por hora ela dorme, ou por exaustão ou por desnutrição e deve demorar a acordar também.

Os gêmeos se entreolharam preocupados. Teriam uma longa investigação pela frente. Afinal o gesto que faziam era algo inédito até mesmo para os próprios.

A troca de plantão acabou por acordar os dois. Não perceberam que adormeceram em algum momento da madrugada. Viram o médico se aproximar.

— Senhores. – o médico os chamou.

— E então doutor? – Saga perguntou.

— Como suspeitava, os resultados não são muito bons, como eu disse antes, ela não se alimenta devidamente... Ainda não acordou, mas acredito que durante a manhã abrirá os olhos — respondeu. — Passei o caso dela para um ortopedista, como expliquei, a radiografia mostrou uma fratura cicatrizada errada.

— Tudo bem. — Kanon se levantou, cansado e preocupado.

— Acabei não perguntando, mas qual o grau de parentesco entre vocês e essa menina? — perguntou.

— Nenhum, a encontramos desmaiada na rua — Saga respondeu. — Não poderíamos ignorar a situação dela...

— Foi o dia de sorte dela, então, porque do jeito que está talvez não sobrevivesse mais tempo… — o médico explicou mais algumas coisas sobre a saúde da moça.

O médico os deixou, deixando-os pensativos. O que fazer com a moça? Deixá-la em um orfanato? A levariam para casa? A entregariam ao Conselho Tutelar?

— Vou até a delegacia — olhou o relógio. — A essa hora, Aiolos já deve estar lá.

— Eu vou em casa, tirar essa roupa, tomar um banho e depois volto para cá — Kanon comentou. — Quem sabe até lá ela já acordou…

Dito isso os gêmeos, apenas avisaram uma das enfermeiras que cuidava da moça que voltariam mais tarde e que qualquer coisa poderia ligar para eles em qualquer hora do dia.

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Mal pisou na delegacia e o local já fervilhava de trabalho, inquéritos, investigações, mandados pendentes e que precisavam ser executados o mais rápido possível. Sentou na sua cadeira, querendo dar início a tudo, quando sua porta se abre e por ela, Saga entrou.

— Meu amigo, a que devo a honra da visita a essa hora da manhã? — Aiolos levantou-se e o cumprimentou com um abraço.

O geminiano começou a narrar toda a situação da noite anterior ao melhor amigo. Explicou onde poderia encontrar a moça, viu as feições do sagitariano mudarem para bem sérias.

— Se realmente for o caso, meu amigo, preciso comunicar ao Conselho Tutelar, eles a levarão em custódia. — Aiolos explicou, mesmo sabendo que muito provavelmente a moça voltaria para as ruas se fosse órfã.

— Provavelmente não vai fazer nada por ela, acho até difícil que tenham feito… — Saga disse pensando na situação, caso ela realmente fosse menor de idade, só um juiz poderia ajudar.

— Eu sei, mas... Não são parentes dela para poder pedir por uma tutela temporária. — Aiolos explicou e continuou a conversa, anotando tudo e ao mesmo tempo jogando no sistema.

Apareceu um caso peculiar, registrado pelo Hospital Central de Atenas, um estabelecimento público. O caso era antigo, dezesseis anos, um bebê abandonado pela mãe, sem ser registrado, genitora apresentava sinais de instabilidade mental. Havia descrições da criança, poderia ou não ser a menina de quem Saga falava, mas também poderia ser uma bizarra coincidência.

— Aparece algo aqui no sistema, se for ela, foi abandonada — Aiolos mostrou a tela para o amigo. — Vou te passar as descrições, mas extraoficialmente, se baterem, já sabemos que é um caso de abandono de menor, peça para o médico ou uma enfermeira confirmar, e outra coisa, ao que consta aqui, essa criança não foi registrada, juridicamente falando, ela não existe.

— Não diz aí quem a abandonou? — o geminiano perguntou curioso, seria sorte demais.

— Acredito que o nome seja falso, pois diz aqui que a mãe apresentava instabilidade mental, pode ser que não soubesse o próprio nome… Ou então é falso — respondeu, isso foi como um balde de água fria no amigo.

Saga suspirou, seria muita sorte logo de cara encontrar esse tipo de informação. — Kanon ficou com ela, lá no hospital, vou conversar com ele sobre o assunto.

— Acho que essa menina teve uma baita sorte, vocês aparecerem, devem ser os anjos da guarda dela. — Brincou com o outro.

— Também estou começando a acreditar nisso – Saga coçou o queixo. — Acho já sei o que fazer.

— Pra onde vão levá-la? Seu apartamento? O do Kanon? — Aiolos perguntou.

— Possivelmente, entregá-la a um Conselho que não vai fazer nada… Não faz sentido — respondeu. — Depois vou ter que pensar em como contar aos coroas.

— Duvido que o tio vá brigar com vocês, é um gesto nobre – Aiolos disse com uma ponta de orgulho. — Não podemos cuidar de todos, mas já é alguma coisa.

— É um começo — Saga estava contemplativo. — Estava pensando, será que se alegarmos falha no sistema, o juiz concede a guarda dela? – Saga cruzou os braços pensativos.

— Não sei dizer, só seu irmão pode responder — Aiolos respondeu. — Afinal, ele quem é o advogado da turma… Bom, eu vou fazer o que me pede, vou investigar o caso.

— Agradeço muito — Saga se levantou. — Agora eu preciso ir pro trabalho, também te mantenho informado do que conseguirmos com ela.

Aiolos o acompanhou até a porta e voltou ao trabalho.

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As pálpebras se mexiam devagar, debaixo de si havia algo macio, gostoso, causando uma sensação agradável, confortável. No entanto, sentiu algo incômodo em seu braço, como se a estivessem espetando. Abriu os olhos devagar, acostumando-se com a claridade. Não reconhecia aquele lugar. Tudo branco, ouviu um barulho, bip bip bip, era irritante. Vozes ao longe, mas não entendia o que falavam. Onde estava? Não se lembrava como chegou ali, sentiu o pânico tomando conta de seu corpo.

Uma moça de roupa branca entrou no quarto, se encolheu como pode. Sentiu medo, não sabia quem era nem o que queria consigo.

— Vejo que acordou — reparou que a mocinha se encolhia de medo. — Se acalme, você está em um hospital. — A voz calma não ajudou nada, pois na mente jovem era um sinal de perigo.

Olhava-a com desconfiança, mas teve sua atenção desviada quando um homem alto, cabelos azuis repicados, olhos verdes, pele bronzeada, entrou no quarto. Mais detalhes que aqueles, ela desconhecia, era o máximo que conseguia descrever alguém. Outro estranho, seria ele o responsável por estar ai? O que ele queria com ela? Seria um cafetão? Não seria o primeiro e dificilmente acreditava que seria o último a tentar forçá-la a trabalhar em uma daquelas casas estranhas.

— Ela disse algo? — Kanon perguntou a enfermeira.

— Ainda não, acabou de acordar — respondeu em tom ameno, tentando passar tranquilidade a moça recém desperta.

Kanon a observou, aquele tom de olhos azuis eram incomuns, mas não lhe eram estranhos, tinha quase certeza que já os tinha visto em algum lugar, só que não lembrava mais onde. O olhar forte e questionador, as feições endurecidas indicavam que a mocinha estava em alerta. Como um animal acuado.

— Calma, ninguém aqui vai te fazer mal — ele tentava passar alguma tranquilidade a ela. — Eu e meu irmão te encontramos desmaiada na rua e a trouxemos para cá.

Aos poucos os eventos da noite anterior vinham em sua mente, a corrida, a exaustão, o colapso. Voltou a encarar o mesmo, sua desconfiança aumentou. Nunca em sua curta vida alguém lhe estendeu a mão para ajudá-la. Por que esse homem? O que ele queria em troca?

— Eu me chamo Kanon, e você? — ele sorriu amigavelmente.

A moça dos olhos azuis o encarava, mas acabou dando de ombros. Ela não tinha nome.

— Eu sou Emily. — A enfermeira acompanhou a ideia do geminiano.

O olhar se alternou entre os dois e por fim disse, envergonhada:

— Não tenho nome.

— Todo mundo tem um nome — Emily comentou, enquanto checava os sinais dela, observando a reação da mocinha.

— Você tem família? Algum parente? — Kanon perguntou, genuinamente interessado, talvez ela estivesse mentindo para se proteger de alguma forma.

— Não — respondeu seca, não queria olhar para aqueles dois, queria sair dali, mas não conseguia pensar com clareza, sentiu o estômago roncar bem alto, estava faminta.

— Vou pedir para que tragam o café-da-manhã — a enfermeira disse, depois saiu do quarto.

Kanon puxou a cadeira que havia no quarto, a colocou perto da cama e sentou-se, sentia o olhar penetrante dela. Desconfiado.

— A enfermeira saiu, não precisa ter medo — começou a conversa. — Não tem mesmo um nome? — indagou.

— Não – ela respondeu sem olhá-lo.

— Então precisamos arrumar um! — disse calmamente, tentando alguma aproximação com ela. — Vamos… Não fique assim…

Ela o encarou por alguns segundos, mas desviou o olhar.

— Já sei! Sofia? — Kanon perguntou divertindo e ganhou um olhar irritado. — Sofia não? Hum… Vamos ver… Annabelle?

A jovem sequer se deu ao trabalho de olhá-lo que dirá responder, perguntaria algo, mas a enfermeira retornou com uma bandeja, com o café-da-manhã. O cheiro atraiu sua atenção, estava realmente faminta. Precisava comer, pois não sabia quando conseguiria outro prato. O brilho de felicidade de quem via uma refeição depois de tempos, não passou despercebido pelos outros dois.

— Aqui, seu café, pode comer o tanto que quiser, mas coma devagar — a enfermeira pediu, colocando a bandeja na mesa e levando para perto da paciente.

Observou tudo, parecia bem gostoso. Se esbaldou, e em questão de minutos não havia mais nada, nem uma migalha sequer. Não desperdiçava nada do prato.

— Uou, estava mesmo com fome, hein? — comentou divertido. — Bem, agora que já está devidamente alimentada, vamos continuar a procurar um nome para você!

Desviou o olhar da bandeja para ele. Sério? Não se importava com isso. Por que ele não desistia logo?

— O que acha de Serenity? Ou então Iremia, que é a pronúncia grega de Serenity. — perguntou. O olhar confuso da jovem o divertiu. Acertou no nome. — De qual gostou mais?

— Sele...Sere... Sili… — Não conseguiu pronunciar de primeira, então repetiu com calma. – Se.. Se… Serenity.

— Combina com você — Kanon disse com um sorriso.

A enfermeira anotou na ficha, agora ficaria mais fácil de se comunicar com ela, tendo um nome pelo qual chamar.

Pouco depois, o médico entrou no quarto, pegou o prontuário e começou a analisar, reparou que agora tinha um nome. Reparou na bandeja, vazia, era um bom sinal, a menina se alimentou sem nenhum problema, checou o soro, fez algumas anotações, tudo sob o olhar atento da menina.

— Conseguiu comer sem problemas? – ele perguntou.

— Sim. — Foi tudo que respondeu.

— Isso é bom — começou a fazer pequenos exames como checar a pressão, os reflexos, dilatação da pupila. — Vou pedir mais alguns exames, fazer uma comparação com os anteriores.

A menina dos longos cabelos negros olhou para o médico indignada, sua explressão clara como o dia dizendo “Como assim eu ainda vou ficar aqui hoje?”, quis se levantar, mas Kanon a impediu.

— É pro seu próprio bem. — Ele se surpreendeu com a calma extraordinária que estava tendo com ela.

Serenity, ah sim, pois agora ele só a chamava assim, dizendo que aquele seria seu nome, olhou tudo a sua volta, procurando uma forma de sumir dali, percebeu que se esperneasse, seria muito pior, teria que esperar. Não tinha outro jeito.

——————————————————————————————————————

Alguns dias se passaram, mas nem todos foram um mar de rosas, pois Serenity tentou fugir algumas vezes, em quase todas, Kanon a pegou nos ombros feito um saco de batata e levou de volta, na última tentativa, o azulado perdeu a paciência, a colocou de bruço e lhe deu algumas palmada no bumbum, como se ela ainda fosse uma criança de cinco anos de idade, malcriada e indisciplinada.

— Teimosa, quando vai entender que é pro seu bem? — ele perguntou retoricamente, muito aborrecido.

— Você é santo por acaso? — ela tentava se soltar, mas em vão. — Ninguém faz nada de graça nessa vida! — Exclamou.

Parou o que fazia e a encarou, sem desviar o olhar. Realmente, ela tinha razão, naquele ponto, mas como diria sua mãe, Atalante, ele não era todo mundo.

— Quantas vezes mais tenho que repetir que não sou um cafetão, Serenity? — a irritação ainda havia passado, a deixou na cama, fechou a porta do quarto, não sabia se impediria uma nova fuga.

—Por que está fazendo isso? Tu não me conhece! Não sabe nada sobre mim! — disse igualmente irritada.

— Também, né? Você não responde nada! — disse sarcástico, cruzou os braços, fazendo uma expressão zangada.

Saga apareceu pouco depois, ouvindo apenas o final da discussão, queria entender o que se passava. Percebeu o olhar da mocinha revezando entre eles. A incredulidade era facilmente detectada. Se tivesse que adivinhar, eles deveriam ser áliens para ela, possivelmente nunca viu gêmeos em sua vida.

— Ainda não se acostumou que somos gêmeos? — Saga perguntou divertido.

— Muito bizarro! — respondeu com sinceridade, no entanto desviou a atenção para o aparelho de televisão, achava chato, porém não tinha muito o que fazer, não sabia ler nem escrever, então suas opções de distração eram muito limitadas.

— Conversei com o médico, amanhã vai poder sair — Saga contou animado, acreditando que a notícia, mas a expressão dela se tornou indecifrável.

— Legal... – foi tudo o que disse. — “vou voltar para rua... uhul” — Pensou consigo mesma.

— Se está pensando que vai voltar para rua, não, não vai — o recém chegado disse, imaginando que era o que se passava na cabecinha dela.

— Como se eu tivesse pra onde ir… — Acabou pensando alto.

— Agora tem – Kanon foi quem se pronunciou. – Vai morar comigo.

Naquele momento, ele teve toda a atenção dela, mas não era alívio que sentia tão pouco felicidade, sentia o pânico tomar conta de cada fibra de seu ser. Estava apavorada.

10 de Fevereiro de 2020 às 18:47 0 Denunciar Insira Seguir história
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