Palavras de Alice Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Leia o que Alice escreveu em seu diário enquanto teve tempo...


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
Conto
4
1.4mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

PALAVRAS DE ALICE




5 de maio, 2019

Há um certo tempo não escrevia em meu diário, pois achava que não havia muito o que escrever. Não aconteceram muitas coisas desde a última vez que rabisquei por aqui (exceto aquela viagem até o litoral onde passamos o final de semana na casa de praia da vovó) e acho até que foi bom ter me afastado um pouco. As coisas têm sido difíceis desde a cirurgia. Mamãe havia me dito que seria assim, e confesso que duvidei de muitas de suas palavras até o dia em que acordei naquele quarto de hospital.
Lembro que a primeira coisa que vi quando abri os olhos foram o rosto de minha mãe, emocionada, abraçada em papai. Eles sorriram para mim, depois abanaram e eu apenas sorri, me sentindo tonta e um pouco enjoada.
Um pouco antes da data da cirurgia, pesquisei algumas coisas na internet, mesmo contra a vontade de meus pais. A dor que eu sentia começava no ombro esquerdo, depois subia pelo pescoço e parava em minha cabeça, no lado direito, próximo à orelha. Não vou saber dizer o quanto aquilo me incomodava, nem o quanto doía, mas posso dar um exemplo. Aprendi com meu pai que quando não sabemos explicar alguma coisa, podemos dar exemplos para tentar facilitar quem está nos ouvindo ou nos lendo. Então, era algo mais ou menos assim:
Imagine a dor como uma pessoa grande, forte e que não sorri para ninguém. Agora, tente me imaginar; pequena, onze anos, braços e pernas muito finas e uma voz que não conseguiria gritar por socorro mesmo que tentasse.
É ou não uma luta muito injusta?
Acho que era, sim. Por sentir todo esse medo, me arrisquei em desobedecer uma ordem direta de meus pais e fiz minhas pesquisas, mesmo sabendo que poderia sentir muito mais medo do que fosse encontrar.
Todos achavam que eu estava com um tumor, e sabem o que mais? A internet também achava.

10 de maio, 2019


Estou me recuperando bem em casa.
Sinto falta dos meus amigos da escola (Aline Rodrigues vem me visitar às vezes, e traz flores sempre que pode) e também me conta todas as fofocas da quinta série.
Tales Henrique de namorico com Luana Magalhães? Que babado forte, algo impensável, já que ele é repetente e uns dois anos mais velho.
Ontem, quando Aline veio me visitar, contei para ela um segredo. Não tive vergonha de contar algo assim para ela, já que sempre fomos amigas, desde a segunda série. Há poucos dias, tive minha primeira menstruação. Dizem que isso tem algo haver com os hormônios, ou coisa do tipo. Realmente sinto meu corpo diferente. Minha mãe certamente dirá que estou me tornando uma mocinha, já o meu pai irá coçar a testa e rezar em segredo para que eu não apareça com um namoradinho em breve. De qualquer forma, estou me sentindo bem.
Os analgésicos são horríveis de tomar, mas eles aliviam as minhas dores e eu os perdoo por isso.

12 de maio, 2019


Sinto muita sede. Porém, a água é ruim. Falei isso para minha mãe, mas ela disse que a água é a mesma que sempre tomei. Também acho que seja, mas ainda assim não acho. Complicado, não é?
O ar também parece diferente. Não é mais tão puro, parece algo estragado e isso aumenta a minha náusea. Acho que vou tentar dormir um pouco. Tenho sentido muito sono. Porém, não consigo dormir.

23 de maio, 2019


Não está sendo nada fácil. Aumentaram as doses de meus analgésicos, e sinto como se pedras estivessem se formando em meu estômago. Vômito de duas a três vezes ao dia, um líquido escuro, às vezes roxo, depois laranja. Meus pais estão desesperados, e uma nova internação não seria surpresa alguma.
Vou parar por aqui. Estou com sono, mas não vou dormir. Minha fome é tanta que sou capaz de devorar os meus próprios desejos.

24 de maio, 2019


Hoje estou um pouco melhor. Vomitei, mas ainda assim, me sinto bem. O gosto que fica depois do vômito me lembra melancia, só que estragada.
Aline me disse que odeia vomitar, e sentiu nojo e fez caretas quando contei para ela hoje cedo que era o que mais estava fazendo ultimamente.
Ela também me contou que Gustavo Jardim (seu crush) havia pegado uma gripe e estava meio de cama. Disse para ela que aquilo não era nada, e que bastava olhar para mim, atirada em uma cama, com a cabeça enfaixada e dentro de um quarto fedendo a vômito, que ela veria que eu estava certa. Ela concordou, sorrindo, e me perguntou porque um de meus olhos estava ficando verde.

2 de junho, 2019


Estou morrendo. Ao menos, acho que estou. Está bem difícil escrever em meu diário, pois meus dedos estão inchados assim como quase todo o meu corpo.
Meus pais disseram para Aline não vir mais me visitar. Escutei quando ela bateu em nossa porta, perguntando por mim, e foi dispensada logo em seguida por minha mãe, que disse apenas que eu estava de repouso e que seria melhor que ficasse sozinha por uns tempos. Estou maior. Quase não tem mais espaço em minha cama. Minhas unhas caíram. Meu cheiro é ruim, e as moscas não chegam mais perto porque morrem antes mesmo de tentarem.
Nada em meu quarto tem vida. Nada.

28 de junho, 2019


Disseram pra alguém no telefone que morri. Talvez, para a minha avó. Ou para Aline.
Minhas janelas nunca mais foram abertas, e os espelhos de meu quarto, retirados. Acho que não querem que eu me veja. Minha cama foi levada para algum lugar, e agora me arrasto pelo chão como uma lesma, deixando um rastro nojento por onde passo. Normalmente fico no escuro, mas quando a porta se abre e a luz do corredor entra, posso ver as minhas mãos alaranjadas, com bolhas e com coisinhas que tenho certeza serem olhos. Só queria dormir um pouco.
Mas algo dentro de mim não deixa.

8 de agosto, 2019


Estão me alimentando por debaixo da porta. Quando quero falar, minha voz não sai. Ouço apenas ruídos estranhos. Não sou eu, entende?


10 de agosto, 2019

Quem me alimentou hoje não foi papai nem mamãe, foi alguém com uma roupa branca, algo que cobria dos pés a cabeça. Percebi que este alguém estava com medo de se aproximar. Praticamente me atirou a bandeja de insetos.
Este é o último dia que conseguirei escrever. Uma de minhas mãos desapareceu, e a que sobrou certamente será a próxima.
Também não estou mais em minha casa. Fui tirada de lá durante a madrugada, enfiada num ônibus cheio de pessoas que também vestiam branco e estamos na estrada até agora. Não sei para aonde irão me levar. Mas escutei um dos cientistas falando para outro que não sou apenas eu. Falou em caos, extermínio em massa e epidemia. Humanos contra nós. Encerro minhas últimas palavras bem aqui. Acho que descobri um jeito de atravessar essas barras.

5 de Fevereiro de 2020 às 19:45 1 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Atila Senna Atila Senna
Uma história e tanto. E eu pensando que ela morreria como morrem as pessoas com tumores e câncer. 🙆🏻‍♂️ Mais na verdade ela estava evoluindo para algo anormal e medonho, muito bom. É como se começasse com um vírus, logo um "zumbí" e depois uma nação infectada. E o fato da própria criança escrever o que se passa com ela num quarto fechado passa uma sensação de que ela está sendo abandonada e há algo lá fora que eles não conta para ela. Muito bom.
February 06, 2020, 20:37
~