Misantropo Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Quando nossa hora chega, de alguma forma dá pra sentir...


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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MISANTROPO



— Quando vai ser? — perguntou para a figura que estava sentada na beirada de sua cama.
A figura, como Bruno Lopes já sabia, era a morte. Ela já o visitara anteriormente, mas nunca lhe dera detalhes. A morte era de falar pouco. Havia uma lenda que dizia que a morte era o final de tudo, que ela usava um capuz negro que lhe cobria o rosto esquelético e que empunhava uma foice. Esta lenda era uma farsa, e Bruno era testemunha ocular disto.
Na verdade, ela não tinha exatamente um gênero. Já o visitara com uma aparência feminina, isso há muitas andanças, quando ainda era um jovem escritor que vivia de bar em bar antes de criar qualquer tipo de história. Naquela época, Bruno se sentiu atraído por ela, mesmo após ela se apresentar. Tinha em mente que fora dali que a expressão “flertando com a morte” surgira.
Houveram outras visitas, mas sua cabeça já não funcionava como antes. Bruno estava naquela lista que só aumentava, dos tipos que faziam compras pela manhã e durante a tarde já não conseguiam se lembrar se de fato foram até lá.
Passou as mãos no rosto e empilhou os travesseiros. Depois, se recostou e ficou praticamente sentado, encarando a morte.
— Daqui a um mês, uma semana… amanhã? — resmungou Bruno, antes de tossir.
A morte, que naquela ocasião era um espectro escurecido e sem um rosto familiar, disse:
— Breve. Sei que já lhe disse isso outras vezes, mas de fato as coisas mudaram.
— Papo furado.
— Como você me vê desta vez?
Bruno lhe dissera que pouco a enxergava; estava escuro, e a luz da lua revelava pouco, apenas uma silhueta humana, e nada mais.
— Isto porque, pela primeira vez, você está me temendo — revelou a morte, como um radialista sinistro.
— É que estou sentindo o chão desaparecer. Esta tosse não é apenas alérgica. Tem mais coisa aqui.
Os médicos pediram para Bruno não se preocupar, que aquilo era apenas uma reação alérgica, talvez a flor ou a algum alimento. Ele obviamente não concordou, mas, por alguma razão, os médicos sempre o deixavam mais calmo, com a sensação de que no final tudo ficaria bem. Era um dom apenas deles, algo que supostamente aprendiam na faculdade, ou até mesmo com Deus.
Durante um tempo, Bruno não foi capaz de acreditar em coisa alguma. Ele duvidava da ciência, de que doenças realmente existiam, do céu e até do inferno. Sentia essa falta de fé mesmo nos momentos que a morte batia a sua porta, se apresentando e dizendo que tudo acabaria logo. Bruno dizia que tudo bem, e fechava a porta logo em seguida. Ele sabia que aquela figura não era obra de sua imaginação como escritor, tampouco algum fruto de seus delírios ilícitos. Ainda assim, desconfiava da vida e de suas virtudes.
Só após muito tempo, concluiu que acreditar na morte era muito mais prático, menos trabalhoso e mais garantido.
Tossiu como um cachorro engasgado e desabafou:
— Pensei que nessas horas a gente via a vida como um filme, ou algo assim. Já escutou essa por aí, não é mesmo? — então viu que estava sozinho mais uma vez em seu quarto, apenas com a luz ofuscada da lua, seus tamancos velhos e seu copo de água.
Não ficou surpreso. A morte era apenas uma passagem, um sopro vindo do escuro. Bruno não era um sujeito de família (nunca se casou, filhos nem pensar), mas sentia que isso poderia ter sido diferente em algum momento. Talvez na faculdade, quando sonhar ainda era viável.

A vida, como as pessoas costumavam lhe dizer, era uma caixinha de surpresas. Detestava o fato de não ser assim tão íntimo dela, como boa parte do mundo. Achava no mínimo bizarro ser mais afeiçoado a morte, mas era assim que a banda tocava em sua vida e já era tarde demais para querer mudar o ritmo.
Endireitou os travesseiros e se deitou, mas não foi capaz de dormir tão depressa. Antes, pensou na infância até que boa. Nas vezes em que corria descalço pelo campo, sem se importar com os espinhos.
Depois, lembrou de Spock, seu cão vira-latas que dormia debaixo de sua cama e que morrera atropelado por um caminhão de leite. Bruno enterrara apenas metade dele, ficando com sua coleira de estimação guardada em uma de suas gavetas até chegar a época de ir para a faculdade. Sentiu vontade de chorar, mas segurou e se remexeu na cama um pouco mais.
O sono não estava chegando, então quem se aproximou foi a sua adolescência, uma época onde Bruno se masturbava três vezes por dia e colecionava revistas pornográficas. Também foi naquela ocasião que beijara pela primeira vez, que acariciara alguns seios e metera o pau em algumas vaginas. Até sentiu o coração bater mais forte por uma ou outra menina, mas nunca teve sorte com nenhuma delas. A adolescência era uma das melhores épocas da vida, mas Bruno nunca fora a melhor época dela.
As vezes queria ter sido abortado, achava que sua mãe Hermínia o havia concebido sem de fato querer, ou que então seu pai desconhecido era, na verdade, um estuprador e que sim, ele era um bebê fruto de um estupro. Não sabia se isso era verdade, talvez fosse, mas a sua cabeça estava tão fodida quanto a sua vida.
Nisso, virou-se para um lado, depois para o outro, e sua vida adulta surgiu como um borrão diante de seus olhos. Ela não era coisa boa.
Haviam cigarros, vários maços por dia. Uma pilha de guimbas que se acumulava diante de seus pés, o cobrindo cada vez mais. Então, surgiu a cocaína. Ela e algumas ideias que insistia em escrever. As colocava em um caderno, a lápis.
Demorou muito até ser reconhecido, tempo demais, algo que o deprimiu, o fez cheirar algumas carreiras que não estavam nos planos e vomitar por cima de si mesmo, sorrindo depois, vendo objetos ganharem vida, escutando sons de um lugar qualquer e pegando no sono no chão, a passos da cama.
Naqueles dias, Bruno se vestia mal, pouco tomava banho e adquiriu gonorreia algumas vezes. Tomava antidepressivos, e quando pensava em fazer a barba, cogitava usar a gilete em um dos pulsos. A morte passou a visitá-lo naquela época, e nunca mais parou.

Ficou esticado na cama, fitando o teto, tentando entender como alguém que não fazia ideia se havia ido ao mercado ou não era capaz de ter se lembrado de tanta coisa num curto espaço de tempo. Então, finalmente, compreendeu.
— Realmente vemos um filme antes de acontecer, — falou para si mesmo e fechou os olhos.

4 de Fevereiro de 2020 às 21:40 1 Denunciar Insira 1
Fim

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Wesley Deniel Wesley Deniel
Muito bom, cirúrgico, como de costume. Parabéns, amigo !
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