Poeira, Recordação, Saudade Seguir história

zephirat Andre Tornado

Não podemos recuperar o passado, mudá-lo ou fazê-lo nosso, por muito que seja esse o nosso desejo. O passado é o passado e assim deve continuar a ser.


Ficção científica Para maiores de 18 apenas. © História original de minha autoria.

#fantastico #fevereiro #Thedaythemusicdied #Aviao #misterio #ficção #musica #RitchieValens
1
1.8mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo primeiro


Uma nevasca.


O vento uivava como um lobo desvairado, carregando no seu dorso os flocos de neve que não paravam de cair. Era uma noite negra, medonha e sinistra. A tempestade permanecia violenta e imparável. Não se vislumbrava nada para além da vidraça da janela da sala comum da pousada e Mark andava de um lado para o outro, inquieto, com uma caneca de café fumegante entre as mãos.


O compartimento era aquecido por uma magnífica lareira, onde crepitavam chamas alegres, colorindo de laranja os recantos sombrios da sala. Havia apenas candeeiros de presença acesos. Mark apagou todas as lâmpadas, à exceção das estritamente necessárias, com medo da trovoada. Mas naquele momento já não soavam os trovões, nem brilhavam os relâmpagos. Nevava, apenas. E ventava bastante.


Mark olhava a janela de relance, cujos vidros embaciados não mostravam mais do que o negrume da noite. Era impossível que vislumbrasse algo que o acalmasse, mas ele não queria desfitar o local que mais o amedrontava – talvez para se escapar do perigo assim que surgisse, daquelas trevas. Pousava nervoso a caneca na estante dos livros, para depois a ir buscar e a levar aos lábios crispados, insistindo nas voltas erráticas pela sala.


Claro que não haveria nada que o pudesse atingir ali dentro. Estava quente, estava protegido pelas paredes sólidas da casa, mas mesmo assim não se sentia inteiramente sossegado.


Naquela semana, Mark tinha ido ajudar a sua tia, irmã da mãe, no pequeno estabelecimento hoteleiro que ela geria com a ajuda do marido. Tratava-se de um alojamento local singelo que acolhia viajantes num ambiente familiar, um típico bed and breakfast. Fora a mãe que insistira para que ele fosse passar esses dias a Clear Lake. Visitar os primos, trabalhar, ganhar o salário de uma semana para reforço da mesada. Não fazia muito sentido uma viagem de Mason City para aquele ermo no final de janeiro, com as aulas a decorrer, mas a mãe fizera a proposta e não era negociável – palavras da própria. E Mark sabia que a viagem fora um castigo disfarçado de presente. A mãe continuava zangada por ele ter sido implicado no caso dos furtos que tinham acontecido no bairro onde moravam. Ele jurou que estava inocente, mas a mãe não acreditou, porque o seu melhor amigo, o Joel, estava envolvido – fora apanhado pela polícia e fora condenado a fazer trabalho comunitário nem centro de dia para idosos durante um mês, a seguir às aulas. Não lhe adiantara de nada contar que estivera no seu quarto, nessa noite, a ouvir cassetes de música com os auscultadores nos ouvidos. A sua mãe continuara a desconfiar dele. Como não fora apanhado pela polícia, o seu trabalho comunitário decretado pela progenitora foi ter vindo para aquele fim do mundo e ser um escravo remunerado da pousada da tia.


Bem, a tia até que o tratara bastante bem, levando em conta que estava de castigo e a cumprir a pena materna, sentenças que são sempre irrevogáveis. A tia impedia que lhe dessem os trabalhos mais pesados – nunca tinha lavado o chão ou as casas de banho – e gostava de o acompanhar nas suas tarefas diárias, que se dividiram entre o atendimento aos clientes na receção, a arrumação dos quartos e o serviço de mesas no pequeno restaurante.


Durante uma semana estivera bastante ocupado e Mark ficara espantado como era possível uma pousada situada numa cidadezinha americana esquecida ter tanto movimento em pleno inverno. Mas o certo era que havia clientes e a casa estivera sempre cheia.


Mason City, onde morava, não era uma grande metrópole, mas era menos provinciana do que Clear Lake e tinha outro tipo de entretenha. Apesar das óbvias diferenças e da pacatez do local, Mark conseguira sair durante uma noite de sábado e fora a um daqueles bailes de saloios com o primo que era dois anos mais velho do que ele, que já tinha carro próprio e que podia fumar sem que ninguém lhe dissesse nada. O segundo primo, mais novo, só tinha dez anos, também os acompanhou. Nesse baile havia uma banda que tocou ao vivo e ele conheceu uns amigos do primo. O Jim, o Peter e a Carol, uma rapariga que colecionava música dos anos 50 e 60 do século XX e que era absolutamente fanática por essas décadas, englobando nesse amor intenso tudo o que se produzira nesse então. Moda, literatura, cinema, política e canções.


Naquela quinta-feira, por mais estranho que pudesse parecer, todos os hóspedes tinham feito o check out e a pousada estava vazia. Os seus primos estavam com o pai numa reunião de caçadores, a tia fora visitar uma amiga doente e ele informou que não se importava de ficar sozinho na pousada. Foi avisado da iminência da borrasca, mas ele fez-se de valente, encolheu os ombros e disse que não seria nada – ele ficaria a guardar a casa.


A verdade era que ficou aterrorizado com o mau tempo e olhava diversas vezes para o relógio, pendurado sobre a cornija da lareira, acima do quadro original que representava uma paisagem campestre pintado por um artista da cidade. Contava as horas e dizia, de si para si, que a tia deveria estar quase a chegar, entre os goles de café. Os ponteiros odiados pareciam imóveis, terrivelmente indiferentes à sua ansiedade e Mark aumentava a sua inquietação.


A tempestade continuava feia lá fora e ele avaliou se a tia iria regressar a casa, naquela noite. Ou mesmo os primos, com o seu tio. Encarou o telefone sobre a mesa junto à porta que conduzia ao átrio onde se situava o balcão da receção. Talvez nem houvesse telefones naquele estágio da tormenta.


De repente, um clarão iluminou a sala.


Mark largou a caneca sobre a estante e fê-lo tão rapidamente que por pouco esta não caía e se espatifava no soalho de madeira. Aproximou-se com um salto da janela, fincou as unhas no parapeito e olhou para o exterior escuro. Nada de trovões e de outros relâmpagos. Apenas os flocos de neve se chocavam contra os vidros, como pequenas chicotadas de gelo.


Ao longe, arrastado pelo vento ululante, vinha um ruído de motor, sumido.


- É só imaginação! É só imaginação! – repetia em voz alta sem desfitar a noite.


Porque era impossível que existissem aviões a voar naquela noite horrível.


No entanto, as suas noções estavam erradas e as suas verdades iriam ser colocadas em causa dentro em breve.


De entre as nuvens negras e das sombras cinzentas surgiram as luzes trémulas de uma avioneta. Mark, como reflexo, dobrou as costas para trás, sem largar o parapeito, pestanejando furiosamente. A imagem pareceu-lhe irreal, enquadrada pela janela da sala da pousada da tia.


Atrás da casa havia um descampado, mas o terreno não era muito grande. Era bordejado por um bosque e ao fim de poucas jardas surgia a plantação exuberante de milho do senhor Hardcove que, naquela época do ano, estava recoberta de neve. O local era inadequado, claramente, para servir de pista de aterragem.


O certo, porém, era que no ar estava uma avioneta em dificuldades. Mark viu o pequeno aparelho a se aproximar perigosamente do solo, para as bandas das traseiras da pousada, os motores que não queriam responder. O rapaz, atónito, viu-o erguer-se no ar numa tentativa dramática de alcançar os céus e retomar a sua rota por entre a tempestade que o açoitava sem piedade. Tentativa vã. Num derradeiro rugido dos motores esforçados, a avioneta perdeu o equilíbrio e, desgovernada, com um estralejar metálico a sobrepor-se acima dos uivos da ventania, perdeu-se no horizonte. Viria a embater com violência no chão congelado, dividindo-se e depois quebrando-se em diversos pedaços que se espalharam num estrondo final que silenciou a dura batalha contra os elementos.


Mark arquejou.


- Merda…


A avioneta jazia, inerte, silhueta retorcida, no descampado, na escuridão. E os contornos acentuaram-se quando o fogo começou a insinuar-se entre os destroços que se espalhavam, em dois enormes blocos pelo chão nevado, dando certeza à impressão inicial – de que a avioneta tinha primeiro se partido em duas, para depois se desfazer em pedaços mais pequenos.


Mark estava boquiaberto e paralisado, ainda agarrado ao parapeito da janela. Acabava de presenciar um desastre aéreo. Um insólito despenhamento que não fazia sentido ter acontecido, já que ali próximo não existia qualquer aeródromo. Talvez tivesse vindo do aeroporto de Mason City, mas era outra loucura pensar-se que havia aviões com autorização de descolagem durante aquele temporal.


Era uma emergência, ajuizou, o corpo a estremecer, a despertar subitamente. A avioneta estava em dificuldades e procurara realizar uma aterragem forçada no primeiro espaço que, desde o alto, vislumbrara que possibilitaria essa aterragem. Pensou que a avioneta, agora em chamas, as labaredas a conquistar a fuselagem com rapidez, avivadas pelo vento, estaria ocupada e existiam passageiros a necessitar de auxílio.


Então, Mark abandonou aquele torpor que o imobilizava. Correu até ao átrio. Do armário da entrada retirou o seu casaco que vestiu à pressa, agarrou numa lanterna, calçou as botas impermeáveis. Abriu a porta e correu pela neve afora que estalava sob os seus pés, noite adentro. Contornou a casa e dirigiu-se para o local do desastre que se mostrava ígneo e perigoso, devido ao incêndio que ameaçava os eventuais sobreviventes.


Correu de olhos fixos no que restava da avioneta e que o fogo começava a conquistar. Acendeu a lanterna e apontou o foco, criando uma estrada de luz. Deveria chegar antes de as chamas atingirem o tanque de combustível e esse pensamento fê-lo correr mais depressa.


- Está alguém aí? Está alguém aí? – gritava.


Nisto, tropeçou em algo e caiu. Não se magoou, a queda foi amortizada pela neve fofa. Assustou-se ao notar que se tratava de um corpo inerte, deitado de borco. Um dos passageiros teria sido cuspido da cabina quando do embate no solo e, tal como lhe sucedera, a neve amortecera o impacto. Tratava-se de um rapaz, ajuizou pelo cabelo curto e pela roupa que vestia – calças e um casaco de tweed. Ou talvez não fosse um rapaz, mas uma rapariga que gostava de usar um cabelo mais masculino. Sacudiu a cabeça, desnorteado. Estava escuro, estava um frio de rachar, havia um pequeno avião despenhado perto e que ardia, ele não era socorrista, estava a agir por instinto e não conseguia afinar o cérebro para pensar como devia de ser.


Bom, pensou naquele sobrevivente como sendo um rapaz. Pousou-lhe uma mão trémula nas costas e sentiu, muito ténues, os movimentos respiratórios. Estava vivo! Era alguém que ele podia salvar. Sem pensar muito mais do que isto, a noção de que era alguém que ele podia salvar, Mark prendeu a lanterna debaixo do braço, agarrou nas pernas do rapaz e puxou com todas as suas forças. Começou a arrastar o rapaz pela neve, mas era uma tarefa penosa. Os seus músculos, tolhidos pelo frio, doíam-lhe terrivelmente e, mesmo parecendo franzino, o rapaz pesava-lhe nos braços de uma forma absurda. Era também a primeira vez que arrastava um corpo, talvez fosse normal ser assim, penoso e pesado.


Olhou para trás. A casa estava a ficar mais perto. Tinha de continuar a batalhar para conseguir ser bem-sucedido. O vento, os flocos de neve a lhe baterem no rosto, o cabelo a ficar encharcado, o casaco que ele se esquecera de fechar, tudo isso dificultava a tarefa de salvamento, mas Mark não iria desistir.


Um enorme clarão iluminou a noite tempestuosa, seguindo-se um tremendo estrondo que reverberou pela atmosfera. Mark ajoelhou-se, encolhendo-se, colocando os braços sobre a cabeça num reflexo. A lanterna caiu na neve e o foco de luz penetrou a direito nas sombras até às árvores longínquas. Pedaços incandescentes de metal voaram por cima de si. A avioneta acabava de explodir e, se outros sobreviventes houvessem, teriam muito provavelmente perecido naquela explosão. Mark viu que o rapaz gemia e assegurou-lhe, num sussurro:


- Estás salvo, amigo. Não te vou largar.


Reparou que chorava, lágrimas frias deslizavam em silêncio pelas suas faces contraídas. Limpou-as atabalhoadamente. Olhando em frente, Mark viu o incêndio que redobrara de intensidade e já não se conseguia distinguir qualquer destroço por entre as chamas. Não havia mais ninguém para salvar. Piloto ou outros passageiros.


Nem tudo estava perdido, contudo. Olhou para o rapaz, deitado ao seu lado. Uma vida havia sido salva!

3 de Fevereiro de 2020 às 17:59 0 Denunciar Insira 4
Leia o próximo capítulo Capítulo segundo

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 7 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!