Lua Infausta Seguir história

abysswalker Cicero De

Um cavaleiro pálido percorria uma longa e sombria estrada quando se depara com uma caverna. Nas entranhas daquela colina algo uivava e se retorcia, esperando apenas o aval da lua para perpetuar sua carnificina.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Lua-cheia #fúria #sangue #espada #Adaga #pistola #Cavalo #cavaleiro #vampiro #lobisomem #lobo
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Uivo

Por uma estrada irregular de terra batida e cascalho, uma figura alta e esguia, de ombros largos e chapéu tricórnio vinha cavalgando a trote moderado. Sua mão esquerda, que segurava as rédeas, era coberta por uma luva couro escuro e macio, as costas cobertas por finas correntes de prata que se encontravam em forma estrelada, indo do pulso para os dedos. Estes eram recobertos por uma espécie de dedal, também prateado e pontiagudo como garras. Podia-se notar na cintura do homem duas adagas em bainhas de couro simples, amarronzado, além de uma espada longa e levemente curvada em uma bainha feita latão, com entalhes intrincados de baixo-relevo, do lado esquerdo e do lado oposto uma longa pistola. Esta arma de fogo peculiar seria digna de observação dos mais ávidos pelo assunto, uma vez que era totalmente modificada, unindo um cabo em ângulo de cento e vinte graus de latão e madeira torcidos, um longo cano arredondado e um tambor parecido com os novos revólveres, vindos do longínquo oeste, além do grande oceano, não sendo disparada por meio de pederneira como muitas armas ainda o eram, mas por meio de percussão.

O cavaleiro seguia estoicamente pela escuridão que o envolvia, uma vez que os lúridos feixes luminosos lançado pela lua nova que pairava no céu enegrecido não conseguiam perfurar as copas das árvores que margeavam aquela estrada. Com seus galhos retorcidos e curvados uns contra os outros, formavam uma espécie de túnel. Seu alazão se mostrava resistente, mesmo coberto de suor e com ferraduras gastas pela longa viagem que obviamente empreendiam. Era um animal enorme, robusto, com pelo tão negro quanto a noite que o abraçava, com crina longa e caída para o lado. Suas narinas pareciam crateras vulcânicas, expelindo vapor conforme avançava, transpondo colinas e declives, saltando um tronco caído ocasionalmente.

Tudo que podia-se ver do rosto pálido do condutor do animal era parte de sua pele, assim como seus olhos, arqueados como os de um falcão, cintilando em tons carmesins. Estas duas esferas sanguíneas perscrutavam tudo a volta, atravessando as densas sombras além da estrada. Seus ouvidos aguçados conseguiam localizar a origem de certos uivos e o cantar de pássaros notívagos. Vez ou outra, seu animal se assustava, dando pequenos arranques ou ameaçando empinar, mas sempre se acalmava quando a destra de seu mestre tocava a lateral de sua grande face, além de ter certas palavras sussurradas em suas orelhas.

Aquelas terras de ciprestes e cedros tortuosos parecia tomada por uma aura pesada. Cada som vindo das matas próximas da estrada pareciam ser suficientes para regelar o sangue de um homem supersticioso. Uma sensação constante de observação pairava no ar, assim como olhos mais selvagens do que os de qualquer lobo podiam ser vistos em vislumbres vindo do mais profundo breu. Contudo, nada daquilo afetava aquele homem de cabelos desgrenhados, escapulindo por entre o chapéu e máscara cortada de um lado, tão brancos quanto suas grossas sobrancelhas que pareciam estáticas sobre sua testa larga. Após um longo pedaço de terreno plano, se aproxima de mais uma colina, notando próximo a sua base uma caverna, cuja entrada jazia coberta parcialmente por arbustos secos e dois ou três ciprestes velhos.

O cavalo ao encarar a caverna imediatamente empina, relinchando desesperado, bufando e fazendo seus grandes olhos girarem em suas órbitas. Seu mestre passa a mão no fronte do animal e sussurra aos seus ouvidos, mas isto não surte o efeito desejado. Voltando seus olhos cortantes para o buraco naquele pedaço de colina, consegue ver algo lá dentro, se movendo na escuridão. Algo grande, robusto e colérico. A coisa o encarava com pequenos olhos amarelos, brilhando feito pequenos sóis. Entretanto, seja lá o que fosse, não se mostrava propenso a deixar sua toca e avançar. O viajante então salta de seu animal, que ainda se mantinha sobre as potentes patas traseiras, dando alguns passos em direção a margem da estrada, mantendo as rédeas firmes em sua mão esquerda.

Um uivo tenebroso irrompe do interior da colina, parecendo cortar o ar frio e úmido daquele bosque, fazendo o cavalo se afligir como nunca. Seu mestre puxa as rédeas com violência, forçando o animal nas quatro patas novamente. Não dá mais nenhum passo, voltando-se para a estrada e puxando o animal, que vendo aquele que era seu companheiro desde que era um potro ao seu lado, sentia-se de certa forma mais seguro, deixando o medo avassalador para trás enquanto seguem colina acima. Sabendo exatamente o que se escondia naquela gruta, o viajante não pretendia permanecer por aquelas bandas quando a lua cheia ascendesse na noite seguinte, decidindo ignorá-lo e seguir em frente. Como o som atroz não passava de uma ameaça, uma demarcação de limites a serem respeitados, aquele que o emitiu não avançou, permanecendo contorcido na fossa abissal que chamava de lar.

Tendo se transcorrido alguns minutos de caminhada ao lado do animal, a figura sombria o monta novamente, voltando a empreender um trote moderado. A lua já se aproximava a esta altura da linha dentada formada no horizonte por montanhas, indicando que não tardaria para a aurora fustigar toda aquela região com sua luminescência intolerável. Botas de calcanhares duros golpeiam as ancas do corcel, fazendo-o ganhar ímpeto. Era preciso encontrar um lugar para descansar, e se possível, alimentar a montaria de maneira satisfatória, além de trocar suas ferraduras. Quando enfim transpõe o vasto túnel, desemboca em uma espécie de pradaria, com árvores mais espaçadas umas das outras e grama alta. Ao longe podia ver um pequeno aglomerado de casas de madeira com tetos de palha, mesmo sem a luz lunar. Se tratava de uma aldeia. Podia ver também não muito longe das casas, campos arados e limpos, assinalando uma lavoura. Impele ainda mais o alazão, que chega nas proximidades da comunidade em poucos minutos.

Como era de se esperar, não havia vivalma no lado de fora. Apenas portas trancadas e luzes bruxuleantes de tochas e algumas velas nos interiores das casas. Podia identificar um pequeno estábulo mais próxima a margem da aldeia e uma ferraria ao lado, devido as panelas e ferraduras penduradas na varanda. Para ao lado do estábulo, com o animal soltando ondas de vapores por meio do suor de seu corpo e de suas narinas cavernosas. Não havia cavalariço a vista, porém uma pequena vela brilhando através das frestas em uma porta grossa indicava sua presença.

Descendo do animal, o cavaleiro o conduz até um poste que sustentava a varanda, o amarrando, sem deixar porém, de pousar a destra coberta em uma luva de tecido escuro em seu fronte, sussurrando mais uma vez, vendo os olhos da montaria reagindo, visivelmente mais calmos do antes. Caminha sob as sombras projetadas por uma cobertura de palha antecedendo a casa, e para diante da porta. Com dois golpes faz a madeira ranger e o som seco ecoar pela estrutura, ouvindo em seguida pequeno grunhido seguido de xingamentos. Percebe que nenhum cão latiu com o barulho, o que era estranho para qualquer vila. Um homem baixo e sujo, fedendo a urina e fezes de animais abre a porta por uma greta, em seguida a escancarando.

– Que ocê quer? Tá tentando quebrar a porta? – A voz rouca denotava sua meia idade, assim como uma barba grossa e suja, salpicada de cinza aqui e ali – O sol já está quase raiando e se a gente ainda tivesse galos, tava tudo cantano numa hora dessa.

– Cuide do meu cavalo. Alimente-o bem durante o dia e o deixe dormir. Antes do crepúsculo troque suas ferraduras. Isso deve bastar. – O forasteiro enfia a mão direita em um pequeno bornal em sua cintura, retirando uma moeda de prata, que atira no peito do homem, que parece dissipar seu sono e a agarra em um reflexo.

Não era preciso uma confirmação, pois a figura alta e coberta por uma capa preta esfiapada já se afastava, tomando a rua principal da aldeia e sumindo no breu. O cavalariço sabia que deveria acatar o estranho, pois mesmo encarando seus olhos rubros em um simples relance, sentiu seu corpo gelou do dedão do pé até os ralos cabelos de sua cabeça suja. Contudo, não deixa se resmungar baixinho.

– O cavalo drorme di dia? – Aperta os olhos pequenos e coça o traseiro, olhando para a moeda e dando de ombros. Pega seus aparatos e começa a caminhar em direção do alazão, que era bem mais alto do que ele.

2 de Fevereiro de 2020 às 19:24 0 Denunciar Insira 4
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