O Mistério de Tarbrax Seguir história

gutobanderas Gustavo Banderas

Inglaterra, Século XIX Localizado no topo de uma colina, o Castelo Tarbrax está envolto em escuridão e rumores: Jamais algum serviçal sobreviveu tempo suficiente.... Há morte naquele lugar.... Além disso, há o sombrio lorde da mansão... um homem fascinante, mas perigoso... Scott Parrish não se assusta facilmente com diz-que-diz. Ele conseguiu escapar de um destino terrível para ocupar o cargo de preceptor no Castelo Tarbrax. Ajudar a criar o filho de Ruben Craven é sua última chance de construir uma vida própria, e ele está decidido a não fugir, mesmo quando sente que está sendo observado, quando ouve sussurros estranhos, até mesmo quando se sente irremediavelmente atraído pela beleza sedutora e perigosa de lorde Craven... O mal permeia os corredores sombrios da lúgubre mansão. Todas as noites Scott vê uma luz misteriosa na torre circular, onde ele foi advertido para nunca pôr os pés e para manter distância. Mas certas curiosidades... e desejos... anseiam por serem satisfeitos. E, à medida que Scott se sente cada vez mais atraído por aquele homem misterioso, mais ele se aproxima de uma sinistra verdade... https://youtu.be/eOD0jgKYpeA



Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo I

Viajar em um dia como aquele era uma tarefa apenas para os confusos ou desesperados.

Exalando um breve suspiro, Scott Parrish recostou-se no assento da velha carruagem. A esperança e a coragem que o fizeram tomar a decisão de deixar Shrewsbury enfraquecia sob o peso do esgotamento e das muitas horas passadas sem nenhuma companhia, a não ser os próprios pensamentos desordenados.

Uma chuva torrencial desabava sobre a carruagem, fazendo com que as rodas altas derrapassem perigosamente no barro da estrada. De repente, um violento solavanco o fez escorregar no banco e bater o ombro de encontro à lateral do veículo. O cheiro de mofo inundava o ar, poluindo a respiração de Scott. Esfregando o ombro dolorido, ele curvou-se para a frente, descansado uma das mãos na estrutura da janela. O contato com a armação sólida o impediu de deslizar pelo assento rachado.

Passado algum tempo, a chuva amainou, reduzindo-se a um chuvisco fraco. Scott espiou a paisagem molhada através da janela, esperando obter um relance da zona rural por onde trafegavam. O céu triste estendia-se até onde a vista alcançava, em um pálido e infinito tom de cinza. Então, uma brecha entre as nuvens permitiu que um único raio de sol do entardecer descesse, penetrando a escuridão para tocar a terra.

Um calafrio percorreu lhe a espinha. Ao longe, tendo como pano de fundo aquele raio solitário de sol, encontrava-se uma construção rústica, um castelo lúgubre sobre uma colina solitária. Escuridão na luz.

Tarbrax. Sua escolha e seu futuro.

Um sussurro de inquietação importunou seus sentidos, fazendo sua pele arrepiar e o coração disparar. O fim da viagem estava próximo, embora qualquer conforto a ser encontrado naquele pensamento viesse carregado de apreensão. Ele fugira da certeza de um destino que se recusava a suportar para a possibilidade de um que poderia vir a ser ainda pior.

E assim viajou em um dia como aquele. Para um lugar como aquele. Para a casa do homem que era...

Scott recuou assustado. Suas reflexões espalharam-se como pingos de chuva ao vento, quando as rodas agitadas da carruagem arremessaram porções de lama, que espirraram contra a janela com um ruído sólido. E então o aguaceiro recomeçou a cair continuamente no teto da carruagem. O rangido e o balanço marcavam o transcurso de tempo, e a escuridão se aprofundava, anunciando a chegada do crepúsculo.

Os minutos se arrastaram, transformando-se em horas, e as sombras se alongaram na negritude da noite. Por fim, passado mais algum tempo, o veículo oscilou para a frente e para trás até parar. Após alguns instantes, a porta se abriu, permitindo que a umidade e o ar frio adentrassem o interior do vagão escuro. O cocheiro apareceu, erguendo uma lanterna, e a explosão súbita de luz o fez piscar.

— Chegamos. — A face magra do homem era apenas uma silhueta nas sombras. A gola do casaco chegava-lhe à altura do queixo, e a água escorria da extremidade de seu chapéu. — Embora tenha me questionado se é aqui onde de fato deseja ficar, senhor. Tem certeza de que não quer voltar para Shrewsbury? Acho que este não é um lugar adequado para um jovem.

Scott contraiu os lábios. Shrewsbury também não, pelo menos não para ele. Suprimindo um tremor, inclinou-se para a frente a fim de perscrutar a escuridão através da porta aberta.

— Chegamos a Tarbrax?

— Não. Este é o ponto de encontro para onde suas tias me pediram que o trouxesse. Há outra carruagem esperando para levá-lo ao castelo. Já entreguei sua mala ao condutor. — O rosto do cocheiro se contraiu, apreensivo. — Há histórias terríveis sobre aquele lugar, senhor. Ouvi isso quando parei para dar água aos cavalos.

Sim. Ele conhecia tais histórias. Desde o dia em que chegara aos degraus da porta das tias, órfão e sozinho, com nada além de uma valise nas mãos, Scott ficara a par das histórias sobre o Castelo Tarbrax e seu senhor. Histórias sinistras de assassinatos. Relatos terríveis, inquietantes. Sua prima Delia morrera lá, grávida. Fora jogada escada abaixo por um homem que jurara amá-la, honrá-la e estimá-la... Lorde Ruben Craven. Marido de Delia. Assassino de Delia. Seu futuro patrão.

O cocheiro tossiu discretamente:

— Ainda posso levá-lo de volta ao lugar de onde veio.

De volta à casa das tias, que o viam como um fardo? De volta ao destino que elas haviam cruelmente traçado para ele? Scott estremeceu, pensando no sr. Moulton, com seus dentes quebrados e mãos tateando no escuro. As tias só queriam a carteira recheada do homem.

— Obrigado, mas vou para Tarbrax — disse num tom firme. — Estão me esperando lá.

Ele não tinha nenhum motivo para voltar, pensou. As tias estavam ansiosas para colocá-lo naquela carruagem e despachá-lo para um destino incerto. E para falar a verdade, ele também estava ansioso para deixá-las. Nunca mais voltaria. Havia tomado uma decisão e não tinha intenção de voltar atrás.

O vento rodopiou pela porta aberta, fazendo-o estremecer quando o ar gelado penetrou no capote que usava. O cocheiro, com expressão resignada, afastou-se para um lado. Scott forçou um sorriso e voltou a atenção para uma segunda luz que chamejava de encontro ao céu noturno. A lanterna do outro condutor.

Respirando fundo, aconchegou mais o capote ao corpo e saiu para a noite escura. O céu parecia desaprovar sua chegada, vertendo um dilúvio que o deixou encharcado antes mesmo de ter dado três passos.

Tremendo, Scott continuou acelerando em direção à luz da carruagem pouco conhecida e pouco visível agora pela chuva pesada. Seu coração batia enlouquecido. Uma forte rajada de vento atingiu-lhe os cabelos sob o gorro, mechas molhadas se grudaram em sua testa.

Afastando os cachos enroscados, olhou para a parede escura de água atrás de si, buscando um relance do cocheiro que o trouxera. Seria um último olhar a uma face familiar e amigável, mas já não havia sinal dele.

Nem do bondoso cocheiro, nem da carruagem de aluguel. Atrás de Scott, havia apenas a escuridão da noite, e à sua frente, uma porta aberta. Uma única luz amarela tremulava ao vento, amarrada por um gancho precário ao lado do cocheiro que o levaria a Tarbrax. Estava de fato sozinho naquele lugar deserto e distante.

Mas isso não era novidade. Scott vivera sozinho por muito tempo, e aquela era a chance de acabar com a solidão e construir uma vida e um lugar para ele, além de fazer a diferença na vida de um menino pequeno e solitário. A criança era a razão pela qual estava fazendo aquela viagem.

Curvando-se sob o peso da tempestade, Scott deu um passo atrás do outro até vencer a distância entre os dois veículos.

— Bobagens e tolices. Bobagens e tolices — disse, entoando as palavras num tom alto para si mesmo, um espécie de mantra contra a pontada de desconforto que sentia. Mas a tempestade furiosa as arrebatou dos seus lábios, abafando-as com o ruído da chuva contra o solo.

A medida que ele se aproximava, a carruagem bloqueava o impacto do vento. Resoluto, segurou as extremidades da porta e se refugiou no calor relativo do interior do veículo. Acomodando-se no assento, percebeu que o cocheiro contratado não havia desaparecido. Ele o seguira e agora seu físico avantajado preenchia toda a entrada. Scott forçou-se a lhe dar um sorriso tranquilizador, antes de perceber que o homem por certo não podia vê-lo mergulhado nas sombras do vagão.

Ele esperou, piscando na escuridão, dando-lhe uma última chance de mudar de ideia.

— Obrigado — sussurrou ele.

Os ombros dele se curvaram. Recuando um passo, o cocheiro inclinou o chapéu e fechou a porta, deixando-o na mais completa escuridão. Com um baque surdo, o novo condutor pôs o veículo em movimento. Scott tentou corrigir a aparência e acalmar os pensamentos ansiosos. Lutando para conter o tremor do corpo, forçou os dedos a obedecerem a seu comando mental. Depois de desamarrar o gorro e colocá-lo sobre o assento, começou a árdua tarefa de arrumar os cabelos molhados.

Não havia sinal de sua mala. Ele murmurou uma oração fervorosa para que o cocheiro contratado a tivesse entregado ao condutor da carruagem na qual se encontrava agora. Todos os seus pertences estavam naquela mala. Pequenas lembranças da mãe, que só tinham valor para o coração de um filho. E seus livros, tesouros cujas páginas, bem folheadas sussurravam-lhe esperanças e sonhos.

À medida que ajeitava os cabelos, a massa desalinhada ia assentando. Ele só esperava causar uma boa impressão em sua chegada a Tarbrax. O fato de não ser nenhuma beldade contava a seu favor, já que poucos desejavam contratar um preceptor que fosse considerado um diamante de primeira água.

Scott tinha a pele lisa e sem manchas, e se orgulhava de seus cachos espessos. Ele herdara os cabelos castanhos da mãe, bem como os olhos azuis e o temperamento. Tinha uma natureza alegre e prática que o fazia enfrentar as adversidades com sucesso, porque preferia ver a vida como um excitante desafio.

Acalmado pelo som da chuva que enfraquecera até um monótono tamborilar no teto da carruagem, Scott relaxou e se reclinou no assento. O interior da carruagem permanecia um casulo, protegendo-o da noite escura.

De repente, um som fraco e quase imperceptível chamou sua atenção. Ele estremeceu. Por certo estava imaginando o ritmo fixo de uma respiração suave. Um ruído macio e constante de inalação e exalação que não era o dele.

O som continuou. O que se tratava de uma leve suspeita transformou-se em certeza absoluta. Ele não estava sozinho na carruagem. Havia mais alguém dividindo com ele aquele espaço escuro. Oh, o que não daria por uma lanterna, naquele momento! Até mesmo uma única vela serviria.

— Quem está aí?

Sua imaginação de súbito invocou uma besta com olhos vermelhos e brilhantes e uma língua que se projetava de uma boca aberta repleta de dentes afiados e mandíbulas volumosas. Scott piscou na escuridão. Não havia nenhum olho vermelho olhando para ele. Nenhum dente afiado. Nenhum bafo de animal. Na realidade, não havia nem mesmo uma sugestão de som.

Também não houve nenhuma resposta à sua pergunta.

Talvez ele tivesse imaginado aquele som de respiração. Quase riu alto da própria tolice.

Então, um ruído discreto de unhas arranhando despertou-lhe o pior dos medos, fazendo-o perder o controle sobre os pensamentos. Antes de ter a oportunidade de conter as emoções mais uma vez, um feixe minúsculo de luz iluminou um ser enrolado no assento oposto da carruagem. O brilho vinha de um ponto próximo ao rosto da criatura.

Scott reagiu sem pensar e do fundo de sua garganta escapou um pequeno grito de terror que cresceu, transformando-se em um berro ressonante que ricochetou para fora da carruagem, antes de escapar para a noite e o mundo inteiro ouvir.

Ele pausou para tomar fôlego e o silêncio breve encheu-se com o tom de uma voz masculina.

— Santo Deus, rapaz! O que você tem nessa sua cabeça? Meus ouvidos estão zunindo com seu grito!

O medo de Scott se reduziu com uma velocidade espantosa, sendo substituído por uma suspeita de que o homem à sua frente seria seu novo patrão. E ele havia gritado no ouvido dele. Oh, Deus...

Pressionando a mão sobre o peito, esforçou-se para acalmar as batidas aceleradas do coração.

A pequena chama que ardia no interior da carruagem continuou revelando as superfícies e sulcos do que ele percebia agora tratar-se do rosto de um homem, e logo abaixo a mão que segurava o que sobrara de um fósforo. O fogo correu ao longo do palito, queimando os dedos que o seguravam. Scott soube que tinham sido chamuscados porque ouviu um assobio um pouco antes de o fósforo se apagar abruptamente, deixando-o só com o homem e a escuridão.

— O senhor me assustou — arriscou ele no silêncio. — Se eu tivesse conhecimento de sua presença desde o início, não teria gritado tão... tão alto.

Ele não respondeu de imediato, mas quando o fez, a voz ecoou no interior da carruagem, grave e macia.

— Evite elevar a voz com meu filho.

Aquilo trouxe a Scott a confirmação da identidade do homem. Estava em companhia de lorde Ruben Craven e havia se comportado de modo ridículo. Não era um começo muito promissor.

Sem saber o que responder, continuou em silêncio; parte de si achava que ele lhe devia um pedido de desculpas por tê-lo assustado daquela maneira.

— Não há necessidade de se encolher na extremidade do assento como um pequeno cachorro. — A voz soou num tom mais divertido do que bravo.

Os olhos de Scott se alargaram. O homem devia ter a visão de um gato para conseguir enxergá-lo naquela escuridão. Os olhos de um gato e os modos de um babuíno.

Ele emitiu um som baixo com a garganta.

— Acha que eu o estava espreitando de propósito na escuridão, esperando uma oportunidade de assustá-lo?

Scott havia pensado exatamente isso, mas ouvir a pergunta feita tão abruptamente fez a ideia soar absurda.

— Não, claro que não — mentiu.

O silêncio se prolongou e então lorde Craven explicou:

— Eu adormeci. Quando acordei, não fazia a menor ideia de que o senhor desconhecia a minha presença na carruagem. E então o ouvi gritar.

— Entendo.

Bem, agora ele sabia que seu patrão não tinha por hábito espreitar e assustar os jovens que empregava.

— Onde está seu empregado que também pedi?

Empregado? Por um momento ele se sentiu estranhamente tocado pelo fato de ele ter tido aquele tipo de consideração. Embora a ideia fosse ridícula. Tia Cecilia jamais gastaria dinheiro para contratar alguém. Consideraria um desperdício, levando em conta que Scott já carregava a mácula devido às circunstâncias do seu nascimento. Na realidade, se pudesse, Cecilia o teria vendido de bom grado para...

— Ah, deixe-me adivinhar... Sua tia Cecilia achou que meu dinheiro seria mais bem empregado em outra coisa, e sua tia Hortense devia estar sob o efeito de uma boa dose de conhaque, misturado ao chá, é claro, e por isso não teve forças para interceder a seu favor. Não que fosse se incomodar com isso se estivesse sóbria. Teria simplesmente tomado mais chá e murmurado: "É isso mesmo, é isso mesmo".

O tom dele era afiado, mas havia uma nota sutil de humor.

Scott conteve uma risadinha assustada ao ouvir o monólogo irreverente do lorde. Uma pequena parte do medo que sentia se acalmou pela descrição sarcástica e precisa sobre suas tias. Após um breve silêncio, Ruben Craven comentou:

— A chuva parou.

Scott prestou atenção. De fato, o ruído dos pingos batendo no teto da carruagem havia cessado.

— Sim.

— Chuva maldita.

Algo na voz do lorde tocou-o por dentro, fazendo-o imaginar por que ele repugnava a chuva daquela maneira. Em seguida perguntou-se por que estava se preocupando com aquilo. Foi salvo de ter de elaborar uma resposta pelo rápido solavanco da carruagem, que anunciou o término da viagem e o começo de sua nova vida.

31 de Janeiro de 2020 às 21:55 1 Denunciar Insira 3
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Freya de Freya de
Essa história e o auge do auge 💜
February 05, 2020, 02:53
~

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