Melodia Escarlate Seguir história

abysswalker Cicero De

Em meio a ruas escuras e vielas abandonadas por Deus, um homem coberto pelo negror de suas roupas persegue algo como um perdigueiro. Ele não tarda para encontrar sua presa, e a seguir se desenrola um embate entre predadores, onde apenas o mais sanguinário poderá emergir vitorioso.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Justiça-Poética #Garras #Dentes #presas #combate #capa #asas #Adaga #espada #Carmesim #Escarlate #vermelho #sangue
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Melodia Escarlate

Sob uma lua languída e abaixo das chaminés das fábricas e telhados cobertos de fuligem, uma figura sombria e esguia se movia. Movendo-se como um fantasma envolto em preto, ele ganhava metro após metro das ruas e vielas pavimentadas com pedras quadradas. Ignorava pouquíssimos transeuntes, estes bêbados e meretrizes, e passava desapercebido aos olhos dos poucos guardas que patrulhavam aquela região. Por debaixo de um chapéu tricórnio marrom escuro um tanto empoeirado, dois olhos rapineiros que cintilavam em tons escarlates perscrutavam as sombras a cada esquina que dobrava, varrendo cada centímetro em busca de algo.

O homem alto, com ombros largos e braços longos de um espadachim, pára. Chega a um beco, terminado em uma sólida parede de tijolos mal rebocada. Haviam poucas janelas ali, e todas estavam em perfeito estado, sem sinais de terem sido abertas ou forças nos últimos instantes. Um vento frio e cortante irrompe o beco, fazendo a capa esfiapada voar pelos lados. Com uma espada longa e curva, duas adagas e uma pistola longa ele estava armado até os dentes.

Abaixando a máscara que cobria seu rosto dos olhos para baixo, o homem caminha lentamente, tragando o ar com grandes porções, como um perdigueiro em busca de um rastro. De repente ele estaca, erguendo o nariz levemente agudo, encarando o centro do beco. Seus olhos faíscam e se voltam para o telhado de laje com chaminés a sua frente. Lá em cima, cerca de doze metros de altura do chão, outra figura o encarava. Sob aquela luz prateada e mórbida, olhos comuns não conseguiriam distinguir mais do que um vulto. Contudo, os olhos carmesim daquele perseguidor conseguiam ver perfeitamente um sorriso se desenhando nos lábios finos do perseguido, com dois caninos brancos feito marfim saltando dos cantos de sua boca.

O homem de cima do terraço se vira e sai correndo, podendo-se ouvir suas passadas sobre a laje, sumindo aos ouvidos comuns em instantes. Observando melhor a parede a sua frente, onde olhos destreinados não teriam encontrado nenhuma irregularidade daquele ângulo, ele percebe pequenas saliências, como se alguns dos tijolos estivessem saltando da superfície, formando pequenos degraus. Em um movimento o a figura investe, batendo suas botas longas de couro contra o paredão, parecendo ser mais leve que uma pluma conforme ascendia. Usando as mãos uma vez ou outra, não levou mais do que alguns segundos para o vulto esvoaçante de sua capa pairar entre o luar e a laje coberta de fuligem, como um falcão ganhando os céus soturnos daquela cidade fabril.

Assim que os pés do algoz tocam o concreto, ele dispara feito uma flecha. Puxando sua máscara novamente, seus cabelos brancos como sua pele pálida esvoaçam por entre a máscara e o chapéu, assim como sua capa negra e úmida, que sob a luz lúgubre e prateada mais pareciam asas abissais.

A presa empreendia uma corrida formidável, saltando claraboias e telhados com maestria, parecendo um gato de rua fugindo de um cão raivoso. Ele trajava calças marrons, camisa branca encardida e um colete amarelado e um chapéu de abas curtas e amarrotadas. Os trajes de um operário. Quando já estava próximo do fim do quarteirão, tendo a sua frente o rio insalubre que cortava todo distrito, onde pretendia saltar sobre uma cabana construída em sua margem, escuta um estrondo! Um trovão, vindo de poucos metros atrás deles. Seu corpo perde toda a balança e vai de encontro ao chão. Uma dor lancinante irradia de seu ombro conforme ele capotava por cima do cimento e acertava uma pequena amurada com a cabeça, ficando atordoado momentaneamente.

– Seu maldito… Eu deveria ter estourado seus miolos naquele beco enquanto farejava feito um cão sem ter me visto… – Ferido, o homem busca se erguer, sentindo o corpo inteiramente dormente. Cospe sangue convulsivamente.

– Deveria tê-lo feito, sem sombra de dúvida. Seu erro foi me subestimar, velho amigo. – O algoz pára alguns metros atrás, ainda sobre a primeira parte da amurada daquele prédio, com a longa pistola com cano ainda fumegando em sua mão esquerda.

O homem cambaleante enfim se põe de pé, ainda vendo a figura de capa esvoaçante a sua frente – Não vou mentir… Eu realmente achei que poderia fugir sem problemas… – Uma cusparada de sangue – Mas tenho que dizer que sou mesmo azarado… De todos que poderiam mandar, logo você, Vanator? Não parece zombaria daquela prostituta pomposa?

– Não encare assim, Jonathan. – A voz era fria como aço e cortante feito navalha – Você sabia o que estava fazendo. Não me importa as circunstâncias nem suas motivações. Sabia que se o fizesse viríamos atrás de você, e viemos. Eu vim.

– Devo admitir uma coisa: Seu sangue realmente é pestilento, assim como o de sua criadora o deve ser… Nunca imaginei que um tiro fosse fazer tanto estrago assim… É muito pior o sangue do morto o qual usaram para me alvejar enquanto eu fugia do palácio… – Ele vomita mais sangue, lutando para se manter de pé.

Vanator enfia a pistola na cinta, pousando a mão esquerda na da bainha longa e se entalhes intrincados, segurando o cabo da espada com a destra e começando a puxá-la lentamente. Assim que o habaki aparece, a mão esquerda corre bainha acima, pousando-se sobre o fio, e conforme a arma é sacada, um profundo corte é talhado na mão, embebendo a lâmina em sangue. Com um giro rápido, como o utilizado para limpar o sangue do fio, o líquido carmesim se precipita, como se fosse voar, porém antes que isso aconteça, se solidifica, cobrindo todo metal com infindáveis dentes, irregulares em tamanhos, porém igualmente afiados e pontiagudos.

– Kamu… Pode estar com guarda e cabo diferentes, mas esta lâmina maldita… Eu podia senti-la pulsando muito antes de sacá-la… – Arregala os olhos involuntariamente enquanto Vanator começa apontar a espada em sua direção, assumindo uma postura ameaçadora.

A reação para a frase proferida foi o silêncio e olhos afiados, como a lâmina em riste, segura com ambas as mãos. A esquerda, próxima ao pomo, não demonstrava mais qualquer sinal de corte ou uma gota de sangue sequer.

– Hahahaha! – O ferido explode em uma gargalhada nervosa perante o silêncio assassino de Vanator, apertando a mão direita contra o ombro ferido, fazendo seu sangue correr com maior profusão – O verdadeiro poder jaz além do jugo daquela meretriz que usa a coroa de prata! Deixe-me lhe mostrar um pouco do que eu consegui naquela noite! – A voz dele se torna gutural, rasgando suas cordas vocais.

Jonathan enfia os dedos terminados em garras longas e afiadas na ferida, arrancando e a jogando o casco de prata oca de lado. Suas presas brilham e parecem crescer, assim como sua mandíbula aparenta se deslocar. Seus cabelos negros começam a cair conforme sua cabeça aumenta e sua pele se acinzenta. Suas orelhas se tornam mais pontiagudas e seu nariz se dilata e achata, como o de um morcego. Seus músculos se rasgam e se reconstroem, aumentando e tornando sua pele cada vez mais fina. A coisa se avoluma como um colosso. De suas costas um par de asas membranosas sai, rasgando sua carne e se abrindo com mais de três metros de envergadura. Com um guincho, ele crava seus pequenos olhos, agora negros como duas fossas abissais, em Vanator, que jazia imóvel, com os mesmos olhos frios de segundos atrás, igualmente fixados na presa a sua frente.

Com um bater de asas a distância entre homem e fera se encurtara terrivelmente. Antes que o ruflar se dissipasse pelo ar, os dois braços maciços com garras atrozes já alcançava o pescoço de Vanator, que acompanhando o movimento dá um passo rápido para o lado, retaliando a investida imediatamente. Com um corte diagonal da direita para a esquerda, a espada canta em notas rubras e o morcego monstruoso se une a melodia escarlate com um urro estridente, seguido pelo pesado som de seu antebraço e mão esquerdos caindo sobre a laje.

O caçador tinha apenas um pequeno corto na face, danificando mais sua máscara do que sua pele propriamente dita. A espada em suas mãos brilhava e parecia convulsionar, como se absorvesse o sangue que arrancara da fera. Esta por sua vez, impelida pela dor devastadora da perda de um membro, se lança novamente, caindo sobre seu alvo. Contudo, sua força recém-adquirida e garras de uma única mão não seriam o bastante para ceifar a vida daquele fantasma de vestes sombrias. Outro passo rápido, para trás, como se tudo ao redor de Vanator estivesse calculado e pudesse ser acessado por seus pés ligeiros. Outra retaliação, porém não o bastante para separar outro membro, porém não menos devastadora.

Outro guincho, mais estridente e dolorido do que nunca. A criatura bate as asas pesadamente, não mais investindo contra seu oponente, mas buscando o céu enegrecido. Seu braço restante havia sido aberto até a altura do cotovelo, pele, carne e ossos, expostos, lançando jorros de sangue em todas as direções. Era preciso apenas mais um bater de asas para deixar o perímetro daquele maldito telhado, entretanto isso nunca viria a se concretizar. Tão rápido quanto olhos poderiam piscar, o caçador desprende a mão esquerda do cabo ricamente entalhado e saca a pistola, que ainda contava com mais cinco tiros em seu tambor, e cada um deles encontrou seu alvo.

O peso da abominação era tamanho que o estrondo de sua quebra estilhaçou as claraboias próximas. Não conseguia sequer guinchar mais. Suas asas se contorciam enquanto se virava e encara as estrelas que nunca alcançou. Se arrasta por menos de um metro, já readquirindo sua forma humana. Nu e ensanguentado, esta era a visão de Jonathan que Vanator tinha enquanto se aproximava, girando a espada no ar, desfazendo a cobertura de sangue, que cai sobre o cimento, emitindo um som nauseante.

A espada é embainhada e a pistola é enfiada na cinta. Os olhos, agora duas safiras novamente, demonstram um medo que jamais demonstraram antes em toda sua não-vida. Jonathan sabia que aquilo soava zombeteiramente como justiça poética, lembrando-se agora de todas vidas que encontraram seus fins entre suas mandíbulas potentes, vendo ele mesmo Vanator abaixar a máscara e escancarar os dentes hediondamente brancos. Não houve palavras finais, pedidos de clemência ou último desejo. Tudo que o homem espalhado sobre o chão frio sentiu foi a dor lancinante de sua garganta sendo rasgada e sugada, enquanto até sua última gota de sangue era removida de seu corpo. Quando tomba, a última coisa que seus olhos agora vítreos capturam é o rosto pálido daquele a sua frente, manchado quase que completamente de rubro, e seus olhos, rapineiros até naquele momento, como um falcão olha vitorioso para os restos mortais de sua caça já devorada.

Antes mesmo pudesse se virar, Vanator é tomado por uma convulsão, caindo de joelhos e sentindo seu corpo todo se empertigar. Sua carne queima e seu sangue ferve nas veias, fazendo-o urrar feito louco. Quando retoma a noção dos seus arredores, sente um cano gelado de ferro encostar em sua cabeça, ainda conspurcada com o sangue impuro de sua vítima.

– Levante-se devagar, sua aberração… – A voz era jovem e tremia mais do que sua mão, que em si parecia um galho fino e seco a mercê dos ventos terríveis de uma tempestade.

Os olhos carmim logo distinguem o uniforme azul-escuro, mal iluminado por uma lamparina a óleo na mão esquerda. O rosto era o de um jovem, vinte e poucos anos, mesma idade aparentada pelo algoz, que obedece e se levanta.

– Aos meus pés jaz o responsável pela morte de dez meretrizes e oito pedintes nesse distrito em menos de um ano. Os louros são seus e a histórias suas para conceber. Sugiro apenas que desencoste este revólver de minha cabeça, pois tudo que conseguirá é me irritar, e caso isto aconteça, você será outro corpo, junto deste infeliz, antes mesmo que possa entender o que o retalha… Abaixe a arma e vá examinar o corpo.

– Tudo bem… – O jovem franze as grossas sobrancelhas castanhas, abaixando a arma quase que involuntariamente, virando o rosto na direção do corpo mutilado e drenado. Quando olha de relance para o lado, onde o homem coberto de sangue estava, não vê nada. Ainda aturdido, vasculha os arredores como podia, torcendo para que outros policiais também tenham ouvidos os tiros e cheguem logo, pois divisa ao longe, já sobre o telhado irregular de outra ala da fábrica, uma capa esvoaçando como duas asas negras, vastas como os abismos que jazem nas partes mais sombrias do coração dos homens.

29 de Janeiro de 2020 às 02:19 0 Denunciar Insira 1
Fim

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