Penumbra das espadas Seguir história

alken_el Gabriel Eduardo

Tudo se trata do quanto é possível caminhar com alguém, porém, vale ressaltar que o caminho se torna incerto com grandes conflitos, e o conflito é eterno. Guerras nunca foram travadas entre cadeiras douradas ou entre homens com espadas, a verdadeira guerra é entre os homens e a Morte, e, nessa guerra, somente um vencedor é certo.


Fantasia Medieval Para maiores de 18 apenas.

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Ricc

A noite começava a crescer na extensa planície quase cinza do sul de Yhabe. Os ventos gélidos cortavam as vestes longas dos três cavaleiros que seguiam ladeados para a Fortaleza Murada. O céu cinza e o som alto dos trovões distantes anunciavam duas coisas: a noite difícil e lamacenta que se aproximava e o início do inverno. Junto ao inverno, outro medo se infiltrava nos lares e reinos das sete terras: A Grande Noite. Os sábios já haviam calculado inúmeras vezes, a última Grande Noite durou cem anos e aconteceu há quase mil anos, a anterior, durou mais e aconteceu a mais de dois mil anos, entendiam então que poderia aquela que se aproximava ser a última e, por ser a última, a pior de todas.

Dos relatos que se tem das duas Grandes Noites anteriores, apenas desgraças se apresentam: fome, guerras e um misterioso exército chamado pelos escribas dos antigos reis de obscuriais. Sem forma, sem rei, os relatos apresentam apenas bárbaros que aparecem e desaparecem onde querem, queimam e matam quem querem, mas não saqueiam, não penhoram, apenas trazem desgraça para dentro de muralhas ou pequenos vilarejos. Alguns sábios considerava esse exército como uma das grandes feras que habitavam os postos dos Panos Brancos, porém, uma fera indomável, imaterial e que empunhava o caos.

As grandes feras também preocupavam o povo. A profecia sobre a fuga das feras de suas respectivas prisões ressoava pelos sete cantos das Terras Vastas. As criaturas que carregavam consigo o fim dos tempos estariam predestinadas a destruir todas as sete terras e, somente um homem seria capaz de destruí-las, levando consigo quase dois terços do mundo.

― Como é em Murada, Gacke? ― Perguntou Tyves.

O homem nobre, alto, à margem de seus quarenta e oito anos possuía uma barba lisa e negra como os cabelos pouco escorridos divididos para cada lado da cabeça. Apesar do volume de seus cabelos, as pontudas orelhas de Tyves se erguiam entre eles. O longo manto azulado cobria-lhe o corpo, apenas o punho de uma espada emergia para fora das vestes. Tudo em Tyves exalava nobreza, até mesmo seu cavalo, um percheron, da península do oeste, de onde viera, reluzia nobreza com a pelagem negra, quase tanta nobreza quanto o botão de ouro que lhe segurava o manto sobre os ombros: um urso era talhado no botão, referente ao símbolo da família que fora expulso: os Betrooh.

― Nunca pus os pés lá ― Gacke respondeu. ― E gostaria que continuasse assim.

Gacke possuía uma barba desgrenhada e escura que compensava a falta de cabelo. O rosto do homem era destruído o suficiente para que se soubesse de imediato de onde vinha: Adalas. Gacke tinha apenas metade do nariz, duas cicatrizes que se cruzavam em seu rosto e seu olho esquerdo ficava constantemente irritado graças à um acidente que sofreu com fuligem. Seu manto era negro e possuía pelagem de raposa próximo ao pescoço, não haviam botões ou outra coisa de valor em si além de seu cavalo, outro robusto percheron branco manchado.

― Então você confirma que não há lugar pior que as fortalezas dos Panos Brancos? ― Perguntou Ricc.

Aquele era um assunto que tiveram há pouco tempo. Gacke afirmava ter passado por todos os tipos de inferno, começando por Adalas, onde nasceu. A fama do reino independente da capital de Yhabe, Sollen, era o seu exército, os ditos eram: o exército de Adalas não é composto por cavaleiros, mas apenas homens com seus ideais e com suas espadas. Um exército de mercenários cuja a coroa jamais se importou.

Gacke olhou com desdém para Ricc.

Qualquer lugar é melhor que os postos dos Panos Brancos, garoto ― disse.

Ricc vestia um manto azul-marinho e seus cabelos negros eram cacheados e escorridos. Não tinha barba ou qualquer sinal de que estava prestes a crescer. Sequer havia completado dezoito anos.

― Então o que te jogou para Pedreira de Musgo, Gacke? ― Perguntou Tyves.

― Inocência, acredito ― Gacke respondeu. ― Não acredito em nenhum maldito deus para tecer destinos. Fui apenas idiota de acreditar que ir para os Panos Brancos seria melhor do que viver em Adalas. Sinto falta de quase morrer por uma espada todos os dias.

― Fugia de efesos ― Ricc comentou.

― Efeso, inferno, terra mórbida, chame do que quiser, nada vai se comparar com o que realmente é. Diga você também, Ricc, o que te leva para os bastardos da vida? Sabemos que Tyves traiu quem não devia e você? Se endividou com alguma puta, garoto?

― Queria que fosse.

Em verdade, Ricc não possuía um grande motivo para ingressar aos Panos Brancos. Quanto mais ouvia sobre a Pedreira de Musgo, mais se arrependia da escolha. Não queria ter a cabeça cortada por seu primo Jorben, rei regente de Sollen, como também não queria trair o pai que planejava um golpe contra a coroa. Mas as palavras de Jorben ressoavam na mente do jovem Ricc: “Odiaria ver seu corpo distante da cabeça ou pendurado por uma forca”. Talvez soasse acovardado se dissesse que estava fugindo de uma possibilidade vaga de morrer para uma pior.

― Inocência também, acredito ― respondeu. ― Achei que seria interessante. Não ouvia história alguma sobre os panos brancos, acho que até agora não sabia no que estava me metendo.

Gacke riu.

― Que tenha uma morte rápida, garoto.

Ricc não deixou de sorrir.

A ideia de aventurar-se contra feras indomáveis lhe era prazerosa, se isso lhe custasse a vida, morreria sabendo que fez mais do que seu pai e, pelo menos ele, evitaria os campos efesos.

Ricc não era um rapaz religioso, mas desde que encontrou Tyves e Gacke, na pequena aldeia dos raós, um povo nômade de Eom, vinha pensando mais na religião. Por sorte, ela não exigia devoção total ou coisa do tipo, e sim grandes feitos para que as campinas fossem alcançadas após a morte. A pergunta que o incomodava era: havia religião entre os panos brancos ou são homens esquecidos pelos deuses?

O resto da curta cavalgada seguiu silenciosa. Cada vez mais a larga e alta muralha se mostrava. Os portões de ferro se abriram imediatamente com a aproximação dos homens e de dentro da Fortaleza Murada saíram seis homens. Todos vestiam roupas bem acolchoadas para sequer bater os dentes entre os ventos gélidos que chegavam. O primeiro homem possuía olhos azuis e cabelos lisos como os de uma mulher e tão negros quanto as pedras que sustentavam a muralha. O segundo homem, ou preferivelmente, meio-homem, possuía não mais do que um metro e cinquenta, sua barba ruiva e olhar raivoso dizia muito mais sobre si do que sua altura de fato. O terceiro, era velho, suas rugas se apresentavam até mesmo no topo de sua cabeça, ou, talvez fosse uma cicatriz antiga. O olhar moribundo talvez dissesse que era o mais velho homem de Murada. O quarto homem era jovem apesar de sua barba crescida, os cabelos negros apresentavam o início da calvice, mas possuía ainda um olhar tão vivo quanto feroz. Se não fossem suas vestes e o lugar em que estava, acreditariam ser um lorde ou sir. O quinto homem possuía cabelos curtos e barba mal-feita, como se tivesse interrompido a sua feitura para atender os novos membros dos Panos Brancos. Finalmente, o sexto homem possuía cabelos negros longos e enrolados, olhar feroz e uma cicatriz mal-desenhada em seu rosto, seguindo do centro da testa, passando pelo nariz e terminado debaixo do olho esquerdo.

― Quem? ― Perguntou o velho.

― Novos desgraçados, senhor ― respondeu Gacke com um sorriso quase malicioso no rosto.

O sexto homem deu um passo à frente.

― Gacke A’und? O filho da puta de Sannhool?

Gacke desmontou do cavalo e olhou fixamente para o homem. Um clima de tensão começou a crescer. O anão parecia estar prestes a sacar seu pequeno machado preso à cintura.

― Gacke A’und, o filho da puta que comeu a sua irmã ― corrigiu Gacke antes de abraçar o outro homem enquanto riam.

O outro homem era Taerin Q’ark. Ambos nasceram e até viveram um período da vida em Adalas, mas Taerin teve a sorte de sair mais cedo para algum vilarejo rurik do centro de Yhabe e só foi pois precisava fugir com a família da tirania que o rei de Adalas havia iniciado. Os Q’ark era uma das famílias poderosas do reino e que brigava constantemente contra os C’Xum pelo trono.

Ir para os Panos Brancos talvez tenha sido a melhor escolha. A última notícia que Taerin teve da sua família foi que haviam sido queimados em um saque de Adalas à uma das aldeias rurik próximas ao reino. “Foram idiotas” dizia, “deviam ter ido para mais longe”.

Os homens foram recebidos na Fortaleza Murada sem muitas palavras. O interior parecia pequeno se comparado com as dimensões da fortaleza. O frio parecia pior ali, talvez pela localização: não tão longe dali, era possível ver uma cadeia de montes e montanhas, eram conhecidos como “Montes Invernantes” por trazerem o frio antecipadamente ao sul de Yhabe. Foram levados para um lugar apertado e muito mais quente, uma sala pequena que abrigava apenas uma mesa e um homem velho. O homem tinha a pele morena e cabelos negros e enrolados. Os olhos eram azuis e muito vivos se comparados à sua profundidade. Vestia roupas exageradamente acolchoadas para o frio que se fazia na sala.

― São os novos? ― Perguntou.

Não precisou ter resposta alguma, ele apenas continuou enquanto se levantava.

― Ótimo. ― Ele olhou para Gacke. ― Você é o transferido, não é?

Ele confirmou com a cabeça.

― Vim de Pedreira de Musgo, liderei um hepteto lá. Você deve ser...

― Sou Elur Detoc e pouco me importa o que fez lá em Pedreira de Musgo, apenas lamento por tudo que deve ter visto, mas bem-vindo à Murada, um inferno pior que o anterior.

― Deu para perceber ― ele abriu um pouco os braços. ― Pelo tamanho.

― É, isso aí. Digamos que a fera aqui é maior.

Maior que a de Pedreira de Musgo? Isso é impossível.

O velho resmungou.

― Vai engolir a língua quando vê-la. Temos vinte e seis postos ao redor da fortaleza e tentamos manter cem heptetos em vigília no interior, contendo a fera.

― Quantos homens tem aqui, senhor Detoc? ― Perguntou Tyves.

Elur o olhou com julgamento e o motivo parecia claro para Ricc e mais claro ainda para Gacke. Números não significavam nada ali, não lutavam contra outros exércitos, mas contra feras inimagináveis de histórias antigas.

― Por volta de oitocentos. ― O homem respondeu rispidamente.

― E todos se conhecem?

― Mas é claro que não, merda, de onde você vem? ― O tom de voz de Elur soava irritado e ao mesmo tempo surpreso.

― Então como se dividem?

― Três heptetos com um líder compõem uma triple. Cada triple é comandada por um comandante e os comandantes pelo conselho da Murada,

― E você é…? ― Ricc perguntou.

Elur o olhou nos olhos, transmitindo a tensão que deveria transmitir o conselheiro-voz de Murada. O responsável por dizer tudo o que for decidido entre o conselho do posto militar para os soldados da fortaleza.

As punições por desobediência em Murada poderiam ser aplicadas por qualquer superior ao indivíduo condenado. Desertar, também leva à morte e foi muito bem visível para Ricc e Tyves assim que saíram do cômodo. No pátio, três homens eram colocados de joelhos em um tablado e a cabeça dos três caiu com um golpe único dos carrascos.

― Ótimo! ― Elur comemorou e olhou para os novos soldados.

Era claro: Substituiriam os mortos e agora formariam uma triple.

Os mortos eram somente aquilo: nada, e os vivos também, peças descartáveis, ferro à mercê da ferrugem e da fúria de seu ferreiro.

21 de Janeiro de 2020 às 02:17 0 Denunciar Insira 0
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