tony_dragneel Tony Dragneel

"Não há relatos de ninguém que tenha saído vivo de lá. Nós druidas acreditamos que a Floresta seja o núcleo da vida – o lugar onde ela se originou. A Floresta tem vida própria, ela pensa. Nós a chamamos de Hezla. E Hezla não gosta de visitantes, não gosta de humanos, que matam os seus filhos, que destroem a natureza e o ciclo natural das coisas"


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#magia #ação #medieval #épico #aventura #drama #fantasia
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Tempo é Dinheiro

— Senhor, escute o que eu digo: essa é uma péssima ideia! — Disse o druida, com firmeza no olhar.

Onir suspirou, com a cabeça baixa — Mas não há outra maneira. Veja bem, não posso deixar os produtos estragarem! E além do mais, as taxas alfandegárias para se trazer essa quantidade de mercadorias à Bretan é caríssima.

— De nada adiantará não pagar as taxas se você não chegar vivo. Ninguém entra na Floresta, até nós evitamos!

— Mas eu estou protegido, tenho defesa — disse o comerciante, apontando para sua caravana — contratei mercenários, gente que sabe combater.

— Mercenário nenhum conseguirá se salvar da Floresta! Jamais conseguiu e jamais conseguirá!

Onir se virou, olhando frustrado para a caravana. Levava diversas mercadorias, produtos raríssimos, vindos do Oeste, das terras tropicais. Roupas, tecidos, especiarias, alimentos, bebidas e até mesmo algumas joias. Produtos de altíssima qualidade. Pretendia vendê-los no mercado de Darnos. O governo de Bretan, sabendo dos diversos comerciantes que vinham de todas as partes do mundo para vender seus produtos, colocava taxas absurdas nos produtos que passavam pelos postos da fronteira. Por isso, muitos mercadores procuravam rotas alternativas, que não passassem pelos postos, mas que geralmente eram mais perigosas.

Sentado em uma das carroças, Shane, o mercenário, olhava para cena, rindo. Não era a primeira vez que fora contratado para proteger uma caravana, mas era a primeira que passava pela rota de Lemolha e que desejava passar pela Floresta. Certamente um trabalho perigoso, que a maioria não aceitaria, mas como o comerciante lhe oferecera uma quantia absurda, não via problemas. Não era supersticioso, e acreditava que as lendas sobre a Grande Floresta não passavam de mitos e crendices da plebe ignara, que precisava de um motivo para justificar seu medo. Levantou-se e foi até onde o druida e Onir conversavam.

— Meu senhor — disse Shane, para o druida — tudo ficará bem. Eu e meus homens sabemos nos cuidar, temos anos de experiência. Não são lendas de velhos feiticeiros que vão nos deixar com medo.

— Lendas?! — Exclamou o druida, incrédulo — Essas “lendas” já mataram centenas de viajantes que resolveram ignorar os avisos locais! Escutem o que eu digo: se vocês forem, todos vocês morrerão.

— Faça-me um favor e cale essa boca, velho! — Disse o mercenário — Eu sei o que estou fazendo! Não sou um viajante desavisado, nem um pseudo-aventureiro que se acha o mestre do combate por ter matado um lobo sozinho. Esse é meu trabalho, minha vida! Eu sei o que estou fazendo. Faço isso há 27 anos! Vá para o inferno você e seu avisos.

— Ora, se acalme Shane, não precisamos falar com grosseria também. Estamos todos em uma discussão amigável aqui — disse o mercador.

O druida baixou a cabeça, pensativo. Não era a primeira vez que viajantes paravam na cidade, afirmando querer passar pela Floresta. Mesmo com todos os avisos, ainda assim as pessoas se aventuravam, adentrando as árvores para nunca mais voltar. Mesmo assim, ele, bem como toda a comunidade druídica, sentia-se obrigado a alertar e tentar o máximo para convencer as pessoas a pegarem o caminho normal. Embora o conhecimento popular de que os druidas protegiam a Floresta dos humanos, a verdade era que eles protegiam os humanos da Floresta.

— Vou com vocês — falou finalmente — não adentrarei a Floresta, mas os acompanharei até ela começar. Quem sabe até lá consigo convencê-los a voltar.

— Sua companhia será com certeza muito apreciada — disse Onir.

— Só me faltava essa! — Disse Shane — Agora teremos um bruxo, um feiticeiro da floresta, nos sabotando!

— Ora, acalme-se Shane — disse o mercante — será bom termos um guia, e na estrada, nunca se nega companhia.

A alguns passos de distância, na frente da taverna, jazia um homem, descendo do cavalo. Ele ouvira tudo, e estava bastante intrigado. Usava uma roupa completamente preta, e alguém atento poderia perceber que levava algumas armas no cavalo. Ele entrou na taverna e falou com o taverneiro.

— Boa tarde, senhor — disse, sentando-se em um banco no balcão.

— Boa tarde! O que deseja?

— Somente um copo de água, por favor.

— É claro — o taverneiro pegou uma garrafa e encheu o copo. Ele, assim como todos os habitantes dessa cidade, tinha pele e pelos verdes. O líquido também era verde, mas meio transparente.

— Quem são aqueles homens que pararam ali na frente? — Perguntou, olhando estranho para a água.

— Só viajantes. Comerciantes, provavelmente — disse o taverneiro, e, percebendo como o homem olhava para o copo, complementou — Pode tomar, é boa. Tiramos direto do rio Vides. Apesar da aparência, que imagino que não agrade muito homens de fora, é saudável, não está contaminada. Bem menos do que aquilo que encontram nas cidades, com certeza.

O homem tomou. Realmente era ótima — Eles estão aqui há muito tempo?

— Mais ou menos uma hora, eu acho. Estão o tempo todo discutindo com aquele druida.

— Ouviu que eles querem adentrar na Floresta.

— Sim, sim, imaginei. É uma pena.

— O que exatamente tem na Floresta? O que há lá de tão perigoso que até os druidas a temem?

— E eu lá sei — falou o taverneiro, com tom de deboche — Nunca entrei lá.

— Mas você não faz uma mínima ideia?

— Não. Ninguém sabe. Nem mesmo os druidas. Eles dizem que a Floresta é viva, que ela pensa, e que não gosta de visitantes.

— Mas como isso seria possível?

— Já disse que não sei. E isso só uma teoria, uma suposição. Na minha opinião, vive um monstro bem forte lá. Uma criatura horrenda e poderosa, que mata tudo e todos que entrarem lá.

Ficaram em silêncio. A taverna estava bem movimentada, mas a maior parte dos clientes eram outros viajantes. Os locais eram reclusos, não se viam muitos deles.

Shane entrou no estabelecimento — Vamos lá rapazes, estamos partindo.

Três homens levantaram de uma mesa e foram até o mercenário. O homem vestido de preto também levantou.

— Senhor?

— Sim? — Perguntou o mercenário.

— Você é um mercenário, não? Vai adentrar na Floresta?

— E o que isso importa para você?

— Sou um Patrulheiro. Me chamo Raymond. Flynn Raymond. Vocês não precisariam de uma ajuda?

— Não, obrigado, estamos muito bem — disse o mercenário, se virando de costas.

— Mas uma mão a mais sempre ajuda, não?

— Já temos gente demais, não precisamos de mais um para ficar cuidando.

Raymond foi para frente, mas foi parado pelos homens, que lhe encararam com caretas e gestos ameaçadores. O Patrulheiro não se mexeu nem um centímetro.

— Ora, vamos logo Shane, tempo é dinheiro, já ficamos aqui mais do que devíamos — disse Onir, se aproximando — Ora, o que está acontecendo aqui? Quem é esse?

— Ninguém, só um...

— Senhor comerciante — Raymond gritou, interrompendo o mercenário — Me chamo Flynn, Flynn Raymond. Sou um Patrulheiro. Poderia acompanhá-los em sua jornada?

— Ora, mas é claro, mas é claro — disse o comerciante, feliz — Quanto mais melhor!

Shane suspirou e revirou os olhos, mas não disse nada. Ele e seus homens subiram em uma carruagem, a última do comboio. Era espaçosa, mas não muito grande. A madeira parecia barata e não estava em bom estado. Onir entrou na da frente, feita de uma madeira bem melhor e toda enfeitada e decorada. Ela era pilotada por dois homens, que sentavam na frente. Ninguém entrara na carroça do meio, que era tão bonita como a primeira, mas toda fechada. Flynn subiu em seu cavalo, e o druida já estava no seu, pronto para partir.

Seguiram a estrada. Os mercenários riam e faziam barulho, bebendo e contando histórias. O comerciante estava quieto em sua carroça. Flynn e o druida andavam lado a lado, conversando.

— Um Patrulheiro? Não temos demônios por aqui... — constatou o druida.

— Realmente, mas eu estou só de passagem. Recém terminei meu treinamento e decidi ir para o Sul, fugir do frio de Anagan — respondeu Flynn.

— Compreendo. Mas por que se juntou à companhia?

— Para ajudar. É isso que nós fazemos. E, se tudo que falam sobre a Grande Floresta for verdade, vocês vão precisar.

— Nem mesmo toda a ajuda do mundo seria suficiente, garoto. Você está caminhando para sua ruína. Quantos anos você tem?

— Dezessete.

— Dezessete anos?! — Se espantou o druida — Garoto, confie em mim, não entre nessa floresta. Você tem muito o que viver ainda. Fique nas cidades, há muito trabalho para Patrulheiros lá. Você não estará em um risco tão grande e poderá adquirir bastante experiência.

— Senhor Estanislao — disse Raymond, depois de um tempo de silêncio — Poderia me dizer o que há de tão perigoso nessa floresta?

— É difícil de explicar, garoto — disse o druida — A verdade é que ninguém sabe ao certo. Não há relatos de ninguém que tenha saído vivo de lá. Nós druidas acreditamos que a Floresta seja o núcleo da vida – o lugar onde ela se originou. A Floresta tem vida própria, ela pensa. Nós a chamamos de Hezla. E Hezla não gosta de visitantes, não gosta de humanos, que matam os seus filhos, que destroem a natureza e o ciclo natural das coisas.

A estrada estava transformada em barro, pelas frequentes chuvas da floresta tropical. Todos, à exceção do druida, estavam repletos de picadas de insetos. Tiveram que parar uma hora pois um dos mercenários havia sido picado por uma aranha venenosa, e o druida precisou tirar o veneno. Lá pelas seis horas, o sol começou a se pôr, e o grupo resolveu parar para descansar.

— Mas ainda podemos andar mais um pouco, pelo menos até ter escurecido de vez. Ainda falta um pouco para o sol se pôr — falou Onir.

— Fora de cogitação. É suicídio vagar pela floresta à noite, e precisamos montar acampamento. Ficaremos aqui — disse o druida.

Depois de mais alguns minutos discutindo, Onir acabou por aceitar. Encostaram as carroças na beira da estrada e montaram uma fogueira. O comerciante pegou algumas carnes na carroça do meio, a contragosto do druida.

— Essas florestas são cheias de predadores. Precisamos ter cuidado — disse o druida.

— Que tipo de predadores? — Perguntou Flynn.

— Há diversos. Felinos, répteis, até mesmo insetos. Não podemos deixar o fogo aceso por muito tempo, ou atrairemos companhias indesejadas.

Terminaram de comer, e, após muitos pedidos do druida, desligaram a fogueira. Estanislao foi meditar ao lado de uma árvore, os mercenários ficaram conversando alto, e Raymond sentou-se ao lado de Onir.

— ... e algumas bebidas. Tudo de altíssima qualidade! — Falou o comerciante.

— Isso deve valer bastante — falou Flynn.

— Sim, com certeza. São itens raros, difíceis de se encontrar. Não crescem em climas frios como os dos Três Grandes Reinos.

— E eles não estragam? Eu digo, o caminho é longo, e se são naturais de lugares tropicais, não reagiram mal no frio?

— Sim, sim, você tem razão! Mas nós usamos uma técnica de conserva que os faz durar muito mais. Porém, lógico, tudo tem seus limites. O problema não é nem o clima frio ou tempo, mas sim a umidade.

— Sim, compreendo. Por isso você quer cortar caminho.

— Exato. Se pegarmos a estrada, não só demoraremos mais que o dobro do tempo, como as mercadorias já terão estragado antes mesmo de chegarmos em Haram. Isso sem falar nas taxas alfandegárias...

Enquanto falavam, Raymond percebeu que o sotaque do homem era diferente. Não parecia com nenhum dos reinos humanos da Vernóstia. Isso, aliado à sua pele mais escura, o fez chegar à conclusão de que Onir provavelmente viera das terras do Leste, da Laurásia.

Era próximo das nove horas quando resolveram dormir. Onir entrara na sua carroça e Raymond fora a seu cavalo, pegando um saco de dormir dos alforjes. Estava desenrolando-o quando o druida se aproximou.

— Pare — disse ele, sussurrando — Percebe?

— O quê? — Respondeu Flynn, também sussurrando.

— Algo nos observa. Percebo olhos nos vigiando. Fique atento, e não faça barulho.

Flynn não dormiu. Permaneceu sentado ao lado das carroças, vigiando com a guarda alta. Estanislao se escondera entre as árvores. Apenas os mercenários ainda conversavam, bebendo e gritando. Onir e seus ajudantes dormiam nas carroças. A floresta continuava barulhenta, inundada de sons dos mais diferentes animais.

Horas se passaram. Já era tarde da noite, e agora todos dormiam. Raymond não aguentara e pegara no sono abraçado à sua espada. Os mercenários dormiam com garrafas na mão. Não havia sinal do druida. Se alguém que tivesse uma ótima habilidade de foco se concentrasse muito naquela situação, conseguiria ouvir bem baixo e ao fundo um silvo, quase imperceptível em meio aos grilos e sapos. O som era contínuo, e pouco a pouco aumentava. Alguém atento, que conseguisse dizer a direção do som, poderia ver na mata dois grandes olhos verdes brilhantes. Poderiam dizer que eles estavam distantes, e realmente, não pareciam próximos. Porém, para a floresta, eles estavam perto. Muito perto. Perto até demais.

Como um raio, uma grande bocarra desferiu um bote na carroça do meio. Todos acordaram de um pulo. Raymond fora o primeiro a se levantar, já em posição de batalha. Os mercenários praguejaram e pegaram suas armas. Shane tinha em mãos uma enorme besta de batalha. Onir saíra de sua carroça aos gritos e tropeços.

— Fique aí, Onir! — Gritara Raymond.

Pouco podia se ver da criatura naquela escuridão. Via-se apenas uma enorme cabeça com presas brancas tentando perfurar a madeira da carroça.

— Mas que criatura horrenda é essa? — Gritou um dos mercenários.

— Não faço a menor ideia — disse Flynn — Nunca vi nada parecido.

— Onde está aquele druida de merda quando precisamos dele? — Gritou Shane.

Percebendo que a carroça não cederia, a criatura a largou. Um grosso virote de ponta de aço atingira-o no rosto, logo abaixo do olho. A criatura desferiu um som semelhante a um grito e recuou. Raymond fez alguns gestos com sua mão esquerda e murmurou algumas palavras, e uma forte luz branca brilhou ao seu redor, permitindo-o visualizar a besta. Ela era comprida e grossa como um tronco, se assemelhando a uma cobra gigante.

Raymond pulou em seu corpo e tentou perfurá-lo com sua espada, porém as escamas eram muito grossas. Tentou escalá-la, mas a criatura mexeu-se bruscamente, derrubando-o e fazendo-o perder sua espada.

Se recuperando da cegueira proporcionada pelo lampejo de luz, Shane recarregava sua besta. Os outros mercenários ainda estavam atordoados e balançavam suas armas freneticamente no ar, às vezes acertando uns aos outros.

A fera agora enrolava-se ao redor da carroça, tentando quebrá-la. Onir choramingava desesperado, preocupado que suas mercadorias se danificassem. Shane desferiu mais um tiro, perfurando seu corpo. A criatura novamente gritou, mas não soltou a carroça. O Patrulheiro, mais uma vez murmurando palavras esquisitas e gesticulando a mão, soltou um raio amarelo no rosto da criatura, que a empurrou para trás e afrouxou seu aperto. Um dos mercenários correu brandindo seu machado, pulou no rabo dela e desferiu um golpe, cortando por suas escamas. A fera defendeu-se chicoteando-o pela cauda, fazendo-o perder o equilíbrio e cair.

Raymond, ainda sem espada, sacara um punhal escondido em sua manga. Rapidamente, contornou carroça, tentando subir na fera por trás. Ao perceber a presença estranha, a criatura se remexeu, mas Flynn segurou-se firme no tronco. Os mercenários cercaram-na, batendo com suas armas em diferentes regiões de seu corpo, realizando vários cortes por sua extensão. Shane mais uma vez atirou com sua besta, mirando no rosto da serpente, mas errou. Enquanto ela estava distraída pelos cortes, o Patrulheiro conseguiu chegar até sua cabeça, desferindo um golpe em um de seus olhos. A criatura balançou a cabeça, fazendo o homem cair. O punhal, porém, continuava cravado.

A cobra agora soltara a carroça completamente. Chicoteara os mercenários, se desvencilhado de suas armas. Com o Patrulheiro em vista, deitado no chão, ela passou a enrolar-se nele, tentando esmagar seus ossos. Raymond tentava novamente murmurar suas palavras estranhas, mas a fera o apertava muito forte, e ele mal conseguia respirar. Por sorte, Shane acertou outro virote, dessa vez em sua garganta. Ela gritou novamente e afrouxou a pegada, permitindo que Flynn rapidamente conseguisse se soltar e, novamente, lançar mais um de seus feitiços. Suas mãos brilharam em amarelo, e ele queimou o corpo da serpente.

Enraivecida, a criatura novamente lançou um bote para frente. Derrubou as carroças, e acabou acertando um dos mercenários, cravando nele uma de suas enormes presas. O homem gritou de dor. Um de seus amigos pulou em cima dela, acertando-a com um golpe de machado. Ela se virou, o homem caiu, e a fera o comeu por inteiro.

O mercenário perfurado pela presa estava sangrando muito. A fera se virou, pronta para devorá-lo, mas parou no último instante. Levantou a cabeça e ficou olhando para a mata. Shane estava prestes a atirar novamente, e Raymond se esgueirava pelas carroças, tentando pegá-la por trás. Porém, subitamente, ela investiu para frente, adentrando a mata.

Raymond se aproximou do mercenário ferido. Havia um buraco enorme perfurando-o o peito. Tentou estabilizá-lo, porém não havia muito que pudesse fazer. Ele acabaria afogando-se em seu próprio sangue. O druida, que aparecera de súbito, olhava para ele, sem exibir expressão no rosto.

— Onde você estava, velho? — Gritou Shane — Estava com medo? Muito conveniente sumir quando o perigo aparece e só voltar quando tiver ido embora! É por isso que vocês druidas não entram na Floresta, bando de medrosos.

— Acalme-se, homem — falou Estanislao — Acredite ou não, eu estava tentando mandar a fera embora.

— Mandar embora?! Seu miserável! Você estava se escondendo!

— Se não fosse minha tentativa de comunicação com a besta, ela ainda estaria aqui e vocês teriam sido todos devorados! Mas chega disso. Temos um ferido para tratar.

— Você acha que ele tem chance? — Perguntou Raymond.

— Deixe-me ver — falou o druida, aproximando-se — Improvável. Se ele não morrer pelo sangramento, será pelo veneno do basilisco. O máximo que posso fazer é dar lhe uma erva para amenizar a dor. Pelo menos assim ele não sofrerá.

Shane postava-se ajoelhado, murmurando baixinho algumas palavras, em companhia do terceiro mercenário. Depois se levantou e foi em direção ao ferido.

— O levaremos conosco — disse Shane — Depois de sairmos dessa floresta maldita, o daremos um enterro digno. Quanto a Iger, faremos também um enterro simbólico, para que tenha paz no mundo dos mortos.

Onir colocou a cabeça para fora da carroça e, ao ver que estava seguro, saiu — Ufa, essa foi por pouco, não?

— Já viu que é uma má ideia cruzar a Floresta? — Disse Estanislao — Já trouxe um pouco de razão a essa sua cabeça louca? Considere isso um aviso daquilo que Hezla pode lhe oferecer!

— Sim, sim, sim — Onir não prestava atenção, mais preocupado em verificar se todas as suas mercadorias estavam intactas.

— Sabe o que eu acho? — Disse Shane — Que você armou isso, senhor druida!

— Eu armei para vocês?

— Você some e logo depois surge uma criatura horrenda e perigosa, um monstro, que quase destrói as carroças e mata dois de meus companheiros, para logo em seguida fugir e você reaparecer das sombras. Me parece que você atraiu a criatura para cá e quando viu que ela começara a nos matar, a mandara embora.

— Essa sua suposição é tola e não possui um sequer pingo de verdade. E, mesmo que fosse, não acha que é um bom aviso? Um alerta de que, se nem conseguiram enfrentar os perigos na floresta comum, quem dera quando estiverem em Hezla?

— Pois saiba que não cairei em seus truques! Vamos, logo amanhecerá, e quem poderá garantir que esse druida não invocará mais uma de suas criaturas.

Começaram a arrumar suas coisas. Flynn encontrou sua espada, mas seu punhal ficara preso na pele da fera. Onir averiguou algumas perdas menores, mas nada de muito caro. Shane colocou o corpo de seu amigo em sua carroça, e o druida lhe deu algumas ervas. Uma das carroças estava virada, e todos se juntaram para colocá-la no lugar. Saíram meia hora depois. Ainda estava escuro.

— Sabe que criatura era aquela, senhor Estanislao? — Perguntou Raymond.

— Era um basilisco — respondeu o druida — Um predador feroz e muito perigoso. Deve ter sido atraído pelo cheiro das especiarias e carnes que o nosso comerciante leva.

— Mais deles podem aparecer?

— Sim, embora eu ache improvável. Eles vivem mais ao fundo na floresta, raramente aparecendo nas estradas.

Continuaram seguindo a estrada por um tempo, até chegarem em um ponto onde precisaram adentrar a mata. As carroças andavam com muito mais dificuldade, e uma delas acabou atolando, fazendo-os gastar quase uma hora para fazê-la andar de novo. Tiveram que parar mais uma vez, pois escurecera. Dessa vez, não foram atacados por nada, com exceção à um grande felino, que foi afugentado, e um enxame de insetos, que desencadeou uma reação alérgica em um dos ajudantes do comerciante. Estanislao preparara uma loção de ervas que diminuíra os efeitos, porém ainda assim o homem mal conseguia se mexer, de tão inchado. Continuaram o caminho assim que os primeiros raios de sol apareceram.

No caminho, o mercenário envenenado veio a efetivamente falecer. Seu corpo foi enrolado em um tecido fornecido por Onir, e o druida fez uma pequena prece. Não ficaram muito tempo nisso, saindo logo em seguida. O funeral ficara marcado para depois que saíssem da Floresta.

— Estamos quase chegando em Hezla — disse o druida.

— Como você consegue diferenciá-la da floresta comum? — Perguntara Raymond.

— Você verá.

Andaram mais um pouco, e não precisaram que o druida lhes dissesse que haviam chegado. Havia quase que um limite natural. A vegetação era mais fraca, quase cinza, e as plantas eram diferentes também, não pareciam as mesmas da floresta tropical.

— Chegamos — falou o druida — Aqui temos a divisa, onde Hezla começa, e é aqui que nos despedimos. Embora saiba que seja em vão, mais uma vez peço-lhes para que não sigam por esse caminho.

— Ora, nós já chegamos até aqui, não podemos voltar agora — falou Onir.

— Sim, eu sei. Eu sei. Bom, adeus. Espero que nos vejamos novamente — O druida virou seu cavalo e partiu.

— Senhor druida — gritara Raymond.

— Sim?

— Que a floresta te guie.

— Que ela guie você também, garoto — respondeu. “Que ela guie você também”.

— Bom, vamos logo, não há dinheiro a perder — falou Onir.

— Tempo, você quer dizer — falou Shane.

— Sim, sim, isso mesmo.

Entraram na Floresta, e na hora sentiram uma sensação estranha, um ar pesado. Subitamente, todos os sons comuns da mata, que inundava os seus ouvidos antes, subitamente interromperam-se. Estavam em um silêncio mortal.

— E agora, continuamos seguindo em frente? — Perguntou Shane.

— Sim, sim, acredito que sim — respondeu Onir.

— Mas para onde é a frente, chefe? — Perguntou um dos ajudantes.

— Ora, só ir reto, sim.

— Você não tem uma bússola? — Perguntou Shane.

— Tenho, tenho sim.

Enquanto o comerciante procurava sua bússola, Raymond percebeu uma figura estranha observando-os — Ei, estão vendo aquilo? Lá atrás?

— O quê? — Perguntaram, em uníssono.

— Ali, ao longe. Parece um... cervo.

— Não vejo nada — falou o comerciante.

— Nem eu — disse Shane.

O Patrulheiro via o que parecia ser um grande cervo branco, com uma enorme galhada. “Droga, será que já estou alucinando? ” Pensou.

— Não está tentando nos assustar, está? — Falou Shane, em tom ameaçador.

— Não, acho que estou só vendo coisas — Flynn deu de ombros.

— Aqui, minha bússola, mas... ela... estranho — falou o comerciante.

— O que foi? — Perguntou Shane, se aproximando para olhar. O ponteiro girava freneticamente, sem apontar para nenhuma direção.

— Deve ser uma interferência magnética — falou um dos ajudantes de Onir.

— Ou mágica — pontuou Raymond.

— Parece que teremos que confiar em nossos instintos — falou Shane — Ótimo.

— É só irmos reto — falou o comerciante — Em algum momento sairemos daqui.

Foram em frente, seguindo sempre reto. Diferente da floresta comum, cheia dos mais diversos animais, ali não havia um sinal de vida. Nenhum inseto, nem pássaro. Até as plantas pareciam mortas, de certa forma. Raymond estava com um sentimento constante de ser observado. Continuava vendo o cervo branco, acompanhando-os à distância.

— Que horas são? — Perguntou Shane.

— Pela iluminação, parece ser... de manhã — respondeu Onir.

— Exato. Improvável, não?

— Sim, agora que você mencionou. Estamos aqui ao quê, três, quatro horas? E a iluminação continua parecendo a de cedo na manhã, mas nem era de manhã quando chegamos!

— Quatro horas? Parece que estamos aqui há pelo menos um dia — falou o outro mercenário.

— Não. Eu diria umas dez horas, talvez doze, mas não um dia — falou Raymond.

— Estão loucos. Não faz nem uma hora que entramos — falou um dos ajudantes do comerciante.

— Isso é efeito da Floresta — falou Raymond — Está confundindo nosso senso de tempo. Sugiro descansarmos.

— Descansarmos?! — Indagou Onir — Ora, não seja tolo, não há necessidade disso. Não importa quanto tempo estamos andando, certamente não é mais de um dia, e todos parecem dispostos. Esperemos ao menos o anoitecer.

— Será que saberemos quando anoitecer?

— Imagino que sim, seria difícil não...

— Terei que concordar com o Patrulheiro — falou Shane — Esse cenário já está mexendo com nossa cabeça. Vamos descansar e quando acordarmos continuamos. Estaremos com nossos sentidos funcionando melhor.

— Ora, vamos pelo menos andar mais um pouco então. Repito, não há necessidade de pararmos agora.

— Isso não foi nem uma sugestão nem um pedido. Pararemos por um tempo. Depois, continuamos.

Montaram acampamento ali mesmo. Tentaram acender uma fogueira, mas não conseguiram. Mesmo usando várias técnicas diferentes, nada funcionava. Raymond tentou usar um de seus feitiços, mas até mesmo isso falhara. Tiveram que se contentar em comer algumas rações que Shane levava. Depois, tentaram dormir, mas ninguém conseguiu. Havia algo que não os deixava pegar no sono. Ficaram horas tentando, até que Shane desistiu e, em uma pequena explosão de raiva, fez todos levantarem. Continuaram andando.

— Tem certeza que estamos indo pelo caminho certo? — Perguntou Flynn — Parece que estamos andando em círculos.

— Honestamente — falou Onir — Não há como saber. Tudo parece exatamente igual. Parece que não avançamos nada desde que chegamos!

Quanto mais andavam, menos certeza tinham de que avançavam alguma coisa. Tentaram mudar a direção, às vezes virando à direita, às vezes à esquerda. Uma vez até mesmo viraram para trás, no sentido contrário. Pararam para descansar mais algumas vezes, mas não conseguiram pegar no sono nem uma única vez. Os cavalos não obedeciam mais às ordens direito, às vezes parando de súbito e mudando a direção. Um deles se recusava a sair do lugar, e teve que ser deixado para trás. Aos poucos, começaram a alucinar. Viam vultos e criaturas, sentiam toques e ouviam gritos e barulhos. Uma vez, ouviram um grito quase humano, como o de uma mulher, pedindo ajuda. Onir mandou seus ajudantes verificarem. Não voltaram, e nunca mais foram vistos novamente. Raymond percebia que quanto mais eles andavam, mais perto o cervo parecia estar. Ele continuava sendo o único a vê-lo.

— Senhores, vamos parar novamente — o Patrulheiro falou — Estou morrendo de fome.

— Minhas rações acabaram — falou Shane — Não tem mais nada, Onir?

— Não, a não ser que não se importe de comer carne crua.

— A essa altura do campeonato, senhor Onir — falou Raymond — Comeria até mesmo um boi vivo.

— Certo, então... — subitamente, Onir caiu de costas, como se algo o tivesse puxado pelas pernas. Shane pegou sua besta, já carregada, e o outro mercenário sacou sua espada. Raymond ficou a postos, com a espada em mãos e pronto para lançar um encantamento.

Onir gritou e começou a rolar no chão. O mercenário começou a agitar sua espada freneticamente pelo ar, e parecia que recebia golpes do ar. Shane, desesperado, passou a atirar no ar, quase acertando em Raymond. No chão, poderiam ser vistas sombras, que os circulavam, aproximando-se lentamente. Um barulho muito alto, uma espécie de silvo, inundou os ouvidos de todos. Passaram a sentir uma súbita vontade de gritar, mas não conseguiam. As sombras, cada vez mais próximas, começaram a engoli-los e a trazê-los à escuridão. Todos, com exceção de Raymond.

O Patrulheiro estava ajoelhado no chão, imóvel. A sua frente, estava o cervo, olhando-o nos olhos. Sentiu um abraço ao redor do pescoço. Via um braço amarelo brilhante abaixo de seu queixo, e sentia um toque quente e acolhedor.

— Acalme-se — falou uma voz feminina — Vai ficar tudo bem.

A voz era calma e tranquila, e lhe passava uma sensação de bem-estar. Começou a sentir sono, e seus olhos agora tentavam fechar-se.

— Durma meu bem. Não tenha medo. Apenas durma.

Dormiu.

19 de Janeiro de 2020 às 18:45 0 Denunciar Insira 1
Fim

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