natchimendes Natanael L. Chimendes

Nate é um repórter de turismo que viaja para Cork, Sul da Irlanda com o projeto de escrever um artigo sobre a cidade e se distrair um pouco das tensões familiares. O que parecia ser uma viagem moderada, se transforma num romance inesquecivel ao se envolver com Owen, um rapaz intenso de origem nobre e cercado pela alta sociedade local. Mas à medida que revelações surgem, fica claro que o passado de ambos é mais sombrio, distorcido e chocante do que se pode imaginar.


Romance Suspense romântico Todo o público.

#viagem #irlanda #lgbt #suspense #drama #gay
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No avião servem refrescos de laranja em copos plásticos e sanduíches embalados por um papel bem fino. O lanche é preparado com duas fatias de pão, salame e requeijão. Tiro o salame, pois minha experiência com carnes processadas não é pra lá das memoráveis - e começo a tomar meu suco.

As poltronas são confortáveis demais. Forradas por um tecido sintético com aroma de baunilha, elas parecem estar novinhas em folha. As aeromoças exibem um sorriso como se suas vidas dependessem disso. Todas usam o cabelo curtíssimo e vestem uniformes de poliéster vermelho escuro com minúsculos aventais claros. Perambulam pelos corredores com facilidade, indo e vindo como se cada serviço fosse mais animador do que o anterior. Mesmo com os trancos do avião elas se agarram suavemente no encosto mais próximo e continuam seus trajetos como se nada tivesse acontecido.

Observo tudo enquanto me delicio com o suco de laranja. Os assentos estão praticamente lotados, porém na minha fileira há apenas uma senhora sentada. Ela veste uma roupa simples, com detalhes bordados à mão. Segura um jornal que parece ter sido recém comprado no aeroporto, e - apesar do frio - deixa os braços nus descansando sob a poltrona como se estivesse em casa. Quando meu suco termina, ela me nota e fala comigo, erguendo a voz como se eu estivesse a quilômetros de distância.

"Você não é daqui."

Não consigo identificar se aquilo seria uma constatação ou uma pergunta. Ela tem cerca de setenta anos, estatura baixa com o rosto gordo, nariz fino e pele branca quase rosa, plenamente irlandesa. Seu queixo quadrado e lábios pequenos dão a impressão de que não é muito de conversa o que - claramente - não é verdade.

"Exato... " digo exibindo um sorriso envergonhado. "E você? É daqui?" devolvo uma pergunta que não tinha sido feita.

"A maioria das pessoas acham que sou irlandesa, mas na verdade eu sou britânica. Os nativos não gostam muito de nós, os turistas..." e como se tivesse feito uma breve pausa, ela lembra da pergunta que estava no ar: "E você? De onde vem?"

"Brasil" respondo com um sorriso ensaiado.

Seu rosto se ilumina.

"Muitos brasileiros estão vindo pra cá, não?" Dou um sinal de positivo com a cabeça e ela continua. "Vocês estão em todo lugar! Quando alguém precisa de ajuda, sempre há um brasileiro para doar seu tempo e disposição. Acho lindo!" novamente não consigo entender se não passava de uma constatação ou se tudo aquilo seria pura ironia. É bem raro ver alguém de fora - de uma certa idade - falando bem de nós brasileiros. Especialmente os britânicos.

Não soube o que dizer depois disso e apenas ensaio um sorriso no rosto. Esta elegante senhora está querendo puxar papo ou zombar de mim?

"Se me permite perguntar, por que você está vindo para Cork?" - ela pergunta, como se fosse extraordinário alguém como eu indo para um município desconhecido no sul da Irlanda.

"Vou escrever sobre a cidade" respondo. "Um artigo sobre a cultura do lugar focado em turismo".

"Oh! Um repórter? Que ótimo! Para atrair mais brasileiros..." - novamente não consigo identificar a sua real intenção. Começo a ficar irritado. Olho para o bolso no assento à minha frente e pego um livro que tinha trazido na expectativa de que houvesse alguma coisa para fazer. Mas na correria ele cai no chão. A senhora continua como se nada tivesse acontecido.

"Você acabou de chegar, não?

"Isso" digo e coloco o livro no meu colo.

"É melhor tomar um cuidado em Cork. As pessoas não são exatamente aquilo que você imagina. Se eu fosse você dobrava a proteção com relação ao seus materiais de trabalho. Já ouvi algumas histórias por aí. A Irlanda não é mais a mesma desde os anos 80, quando toda aquela revolução sexual começou..." depois disso acabo desligando meu atenciômetro e me concentro em abrir o livro. "... mas não tenha medo de procurar a polícia se quiser, eles são bem prestativos pelo que ouvi dizer. Vem cá, qual o seu nome?"

Em resposta a pausa que ela acabou de gerar, me concentro na última pergunta e respondo.

"Nate, Nate Garcez ". Gosto de me apresentar dessa forma para não gerar conflito. Me divertindo demais com as pessoas realizando cálculos mentais para falar meu sobrenome.

"Garcez" ela repete quase que corretamente. Devolvo a pergunta.

"Eu sou Dara. Meu pai tinha uma obsessão por nomes curtos, o nome do minha irmã é Mab, imagina o quão frustante deve ter sido pra ela carregar esse fardo...". ambos rimos. "Quando eu era menina, morávamos em Dublin por conta do trabalho da minha mãe. Nós morávamos naqueles apartamentos conjugados em que era possível compartilhar a cozinha e o banheiro, sabe? Os dias eram sempre nublados e isso me irritava. Foi aí que decidi mudar pra Inglaterra. Mas não adiantou muita coisa..." nesse momento percebo que estou entrando numa conversa longa e que pode durar mais alguns minutos. Até que a voz suave da aeromoça nos interrompe no sistema de voo.

"Dentro de minutos estaremos pousando em Cork. Peço por favor que vistam o cinto de segurança e aguardem o pouso em seus assentos.” O avião inclina para a direita. Por instinto olho pra janela na esperança de ver alguma coisa, mas tudo que consigo ver são quilômetros de mar escuro. A aeronave desce num ângulo mais profundo e segundos depois toca o solo. Uma voz masculina que provavelmente deveria ser o piloto diz com uma animação ensaiada: "Bom dia passageiros. O horário local marca que agora são 9:23 da manhã. A clima da cidade é bom, não passando dos 20º graus. Sem nuvens. Sejam muito bem vindos à Irlanda!"

Antes de tudo ficar imóvel, o corredor fica cheio.

"Foi um prazer te conhecer" digo esboçando um sorriso para Dara.

"Igualmente. Espero que seja uma ótima reportagem, meu amigo. Que Deus te ilumine pelo caminho. Se precisar de algo, é só me encontrar no Rearden's, um pub que fica bem no centro. Estou sempre lá! E lembre-se: tome bastante cuidado aqui!" e olha para mim com uma expressão de ansiedade. Naquele momento percebo que todo o seu humor durante a viagem não era sarcasmo ou coisa da idade, era preocupação.

"Fique tranquila, vou ficar bem" afirmo. Mas no fundo eu sabia que ela pensava o contrário.

-

Desço a escada do avião e o frio desliza sobre meu rosto. O portão é nada mais do que uma porta baixa e pequena. Esbarro em algumas pessoas para sair, enquanto as luzes fracas do aeroporto me cegam. Acima de uma entrada mais a frente há um pôster gigantesco agradecendo pela visita e desejando boas vindas aos turistas com uma foto profissional da Catedral de São Finbarr, um dos cartões postais da cidade.

Na imigração, o funcionário veste um uniforme verde-claro, como se fosse um soldado. No fundo também há mais soldados encostados e observando cada pessoa que passa com olhares inexpressivos. Outros realizam a revista dos pertences pessoais. Naquele momento lembro do comprimido de ecstasy que trago no bolso esquerdo da calça. Como pude esquecer? Era um presente de despedida... Abro a mochila para guardá-lo mas quando percebo, um dos soldados do canto aparece na minha frente. Minha vez. Congelo.

Ele pede os documentos oficiais, e entrego cada um respectivamente. Um leve suor começa a dar sinais na minha nuca. Ele aprova tudo e me dirijo à revista. Outro soldado pega uma lanterna e pede para eu abrir a mochila. Ele varre cada canto e depois desliga a luz. Olha pra mim como se estivesse se divertindo e diz no maior sotaque irlandês:

"Bem vindo! Divirta-se!" essa última frase tinha um tom levemente humorístico mas antes que eu pudesse digerir tudo, minhas pernas mexem sozinhas e caminho acelerado em direção à saída.

"Eles só fazem cara de mau, mas são todos cachorrinhos procurando por biscoitos." viro para trás e Dara - a senhora de setenta anos - está me observando enquanto recolhe suas coisas. Aceno minha partida e continuo meu caminho. "Que Deus te abençoe, meu amigo!" ouço a voz dela me dizer ao fundo. Eu nunca tinha conversado tanto tempo com uma idosa religiosa, era um recorde. Trato de pegar minha mala o mais rápido possível e parto para o portão de desembarque.

-

O aeroporto está abarrotado de gente. Motoristas de táxi aguardam com euforia no lado externo, enquanto eu caminho em busca do ponto de ônibus mais próximo, não quero chegar num país europeu e se dar ao luxo de gastar com transporte caro e desnecessário. Até que encontro uma placa indicando que a estação mais próximo ficava ao lado do hotel do aeroporto. Mas onde ficaria esse hotel? Muito útil... Nesse momento me viro para a pessoa mais próxima e pergunto:

"Com licença, você sabe onde fica o hotel do aeroporto?"

É um rapaz de pele clara e olhos azuis. Deve ter vinte e poucos anos, quase trinta. A barba clara e o cabelo vermelho acobreado com fios ondulados que caem sobre a testa de forma generosa. Ele veste uma camiseta roxa simples e calça jeans escura. Capto um vislumbre de surpresa no seu rosto. Ou seria fascinação?

"Claro! Você irá cruzar o Swissport, bem ali." - e aponta para uma fileira de cadeiras com uma placa enorme escrito 'Swissport' - "e depois descer até chegar no estacionamento, o hotel fica bem na frente".

Agradeço e faço um movimento em direção ao lugar que acabou de mencionar.

"Olha, eu não me hospedaria ali se fosse você..." - diz.

Viro, solto um riso involuntário e digo: "Ah obrigado, mas não estou indo para o hotel. Vou pegar um ônibus para o centro" respondo.

"Você não é daqui?" - agora sim, era uma pergunta.

"Brasileiro. Primeira vez na Irlanda. Primeira vez na Europa na realidade".

"Puxa! Então é uma honra! Seja muito bem vindo!" - diz levantando as mãos e exibindo um sorriso elegante. Será que todos os irlandeses são carismáticos assim? Seu tom de voz tem um sotaque carregado, mas a dicção está perfeita, como se fosse um político discursando em plena eleição. Ele ajeita a camiseta no ombro e diz: "Em todo caso, se quiser se hospedar num lugar agradável e barato te indico a tentar o Reader's Hotel, fica no coração da cidade".

Logo me recordo que aquela não era a primeira vez que tinha escutado aquele nome. E questiono:

"Mas esse não é o nome de um pub?"

"Também. O pub faz parte do hotel. São dois negócios em um. Coisa de família, sabe?"

"Entendi. Bem, infelizmente eu já estou com uma reserva no Clayton's. Mesmo assim, muito obrigado pela cordialidade!" Pergunto qual o seu nome e percebo um sorriso singelo surgindo no rosto antes dele dizer:

"Owen"

"Owen" repito.

"E você?" ele pergunta.

"Nate"

"Nate..." ele repete e contempla meu rosto como se estivesse procurando por algum motivo para transmitir um sorriso.

"Nos vemos por aí então, Owen" digo enquanto arrumo as malas no carrinho.

"É só me encontrar no Reader's, hoje à noite estarei lá". Ele diz enquanto caminha em direção à entrada principal, seus ombros largos e firmes criam um movimento atraente enquanto anda. Ele vira pra trás e olha pra mim. Nossos olhos se esbarram e ele finalmente revela um sorriso acanhado. Que curioso, Owen não era a primeira pessoa que me contava sobre esse pub/hotel... Mas agora eu tinha uma nobre justificativa para visitar o lugar.

19 de Janeiro de 2020 às 04:40 3 Denunciar Insira Seguir história
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Mya  Zurck Mya Zurck
Olá, Natanael L. Chimendes! Eu estava uns dias atrás pesquisando histórias com temática Yaoi e me interessei pela capa da sua. Achei o título igualmente agradável. Então resolvi conferir e me deparei com a escrita em primeira pessoa, o que, confesso, me incomoda um pouco. No entanto, persisti, fui adiante e, para minha boa surpresa, eu gostei! A senhorinha britânica com cara de irlandesa, de fato, pareceu algo misteriosa e dúbia em sua maneira de falar e agir, mas se, na verdade, foi fruto de preocupação com o Nate, podemos tirar disso a conclusão que é uma pessoa de coração bondoso, humanitário, com um senso maternal apurado. O Owen foi descrito de modo a me fazer simpatizar com ele automaticamente e vê-lo como um homem jovem e atraente... Uhum! Bom, eu já suponho mais ou menos o que virá a seguir, mas prefiro confirmar as impressões sobre o tal pub/hotel coisa de família acompanhando o desenrolar dos eventos... hahahah... Parabéns! Valeu pela leitura cativante e até breve ;)
September 06, 2020, 14:02
Vanessa Liberman Vanessa Liberman
AAAAH, completamente apaixonada pela escrita <3 é séria, até formal mas NÃO CANSA! Quero muito o proximo capitulo, parabens <3
January 20, 2020, 17:48

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