Iron Knight Seguir história

abysswalker Cicero De

Um cavaleiro em uma armadura negra chega até uma cidade afastada, muito ao norte, para aceitar uma missão. Ele é de uma ordem específica de cavaleiros, que é temida e admirada por todo reino, e colocará a fama dos cavaleiros de ferro pétreo à prova.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fúria #caçador #lutador #guerreiro #cavaleiro #demônio
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O Cavaleiro de Ferro

I


Diante de uma vasta amurada de madeira e ferro estava um homem muito alto, parado frente aos grandes portões. Estendendo a mão direita recoberta por uma manopla feita de um metal negro e fosco, ele agarra a aldrava e a bate contra a peça de ferro, causando um estrondo. Imediatamente uma cabeça coberta por um elmo férreo polido aparece sobre as toras enfileiradas, bradando:

– Alto lá! – Com uma voz rouca e um tanto insegura, o guarda continua – Já anoiteceu e Holz não recebe forasteiros a esta hora! Dê meia volta e se perca na escuridão.

O homem revestido por uma armadura de um metal negro e fosco, como se fosse a mistura improvável de pedra e ferro, leva a destra até o bornal menor que trazia preso à cintura, retirando um objeto irregular, semelhante a uma pepita escurecida. O guarda imediatamente pega a tocha que jazia ao seu lado, na torre de vigia ao lado do portão e se inclina sobre a madeira, esticando a fonte precária de iluminação até conseguir identificar o objeto. Imediatamente o homem de meia idade se puxa novamente para a torre, empreendendo uma descida alucinada pelas escadas de madeira até chegar ao chão, correndo até um grande dispositivo composto por uma manivela, grandes engrenagens e correntes de ferro, pondo-se a operá-lo, abrindo sem demora os portões.

– Peço desculpas… Não tinha como eu imaginar que era você… Sabe como são os tempos atuais. Temos que ter sempre cuidado redobrado. – O guarda trava a manivela e retira a tocha do pequeno suporte onde a havia deixado antes. Comete o erro de iluminar melhor o forasteiro, evidenciando ainda mais sua pequenez diante daquela pessoa cujo porte não parecia sequer o de um ser humano comum, sobre seus quase dois metros de altura, cujo rosto até então coberto por um capuz negro e de tecido grosso, revela sua parte inferior, gelando a espinha do pobre homem.

– É sensato, guarda. Certamente mereceu ter chegado até sua idade. – Diz o homem caminhando em direção ao interior da cidade, passando ao lado do guarda que parecia ainda mais encolhido. Seus passos pesados são denotados pelo barulho de sua armadura rangendo conforme se movia, seguindo pela rua de terra batida até que o guarda se dê conta do risco e feche novamente os portões de forma apressada, perdendo a figura sombria de vista nas irregularidades das ruas do interior da pequena cidade.

Não demora muito para que o estranho enxergasse seu objetivo, uma mansão mais a frente, sobre uma pequena colina, cercada por muros feitos de grades de ferro reforçado. Enquanto se dirigia para ao seu destino, cruza por casas um tanto afastadas umas das outras, porém uniformemente fortificadas, com hastes de ferro em portas e janelas, além de também apresentarem tais reforços em partes que não eram feitas de alvenaria. Por entre as poucas frestas visíveis nas moradias, podia ver uma fraca luz, mesmo debaixo de seu capuz, porém não conseguia diferenciar vultos nos interiores, indicando que mesmo tendo tão pouco tempo desde o crepúsculo, muitos dos cidadãos já se recolhiam ao sono misericordioso.

Em alguns minutos para chega até a frente do casarão, sendo identificado logo por outro guarda, sentado em uma cadeira junto as portas da casa, alguns bons metros do portão e grades. Antes que o pobre vigia pudesse bradar seu protocolo, retira do bornal a pepita e ganha imediato acesso ao jardim arruinado. Caminha sobre as pedras que pavimentavam o estreito caminho até varanda, evidenciando mais ainda pelos rangeres e estalos de sua armadura o seu peso sobre-humano. O próprio homem de tenra idade que guardava a entrada abre o caminho, permitindo que entrasse, anunciando sua chegada.

Não leva mais do que dois minutos até os moradores aparecerem. Um homem de meia idade com roupas bem confeccionadas, três empregadas ainda com as mãos molhadas e um outro homem, de vestes mais simples e trazendo uma espada longa à cintura, bem construída, demais até para ser um simples guarda. Antes que o vigia pudesse falar mais do que duas palavras, é interrompido pelo dono da mansão.

– Sei quem é este homem. Pode voltar para o seu posto. A noite é longa.

– Então este é um Cavaleiro de Ferro Pétreo. – O homem de espada na cintura se afasta de seu senhor e começa a descer o lance de escadas que os separavam do visitante. Quando enfim atravessa a pequena distância coberta por um assoalho de madeira, se prostra em frente ao desconhecido, se sentindo involuntariamente pequeno e fraco – Achei que fosse maior. Não estou impressionado.

– O medo que você exala nesta gota de suor que corre por sua face diz o contrário. – A voz dura do homem parece quebrantar o chão e as paredes, atingindo todos de surpresa.

– Não há motivo para animosidade. Eu o chamei aqui pois tenho um trabalho para alguém como você. Venha, suba e me siga até a minha sala de troféus. Lá nós e o senhor Voiger poderemos tratar melhor de nossos assuntos.

O convidado meneia a cabeça, passando pelo chefe da guarda e tomando as escadas, chegando ao andar superior e seguindo o seu contratante. Logo os três somem das vistas das empregadas, que rapidamente voltam aos cochichos para a cozinha que deveriam ter deixado de lado poucos minutos atrás. Após um longo corredor iluminado por lamparinas, chegam a uma sala ao final de sua extensão, adentrando-a sem dificuldades.

Logo o anfitrião se senta em sua poltrona de madeira estofada, detrás de uma mesa e convida o forasteiro a se sentar em uma das cadeiras a frente. A oferta é recusada com um menear de cabeça, deixando claro o motivo ao se observar como as tábuas do assoalho, embora fossem de ótima procedência e dureza, pendiam e dobravam ante seu peso descomunal. Sem enrolação, com seu homem de confiança ao seu lado direito, começa a falar.

– Sei que são uma ordem de poucas palavras, então serei breve. Esta cidadezinha esquecida por tudo que há de divino resistiu como pôde até hoje, mas está em suas últimas. Temos poucos guardas, recursos limitados e estamos longe demais de qualquer outro lugar para uma evacuação em massa. Não demorará muito para que todos aqui estejamos nas entranhas pútridas dos demônios que nos assolam. Minha filha, porém, não precisa sofrer este destino. Ela não é a senhora destas terras e não fez um voto de zelar por este chão até sua última respiração. Ela pode continuar vivendo em uma cidade fortificada, como Hart, ao sul, onde ainda existem terras mais verdes e não se perde um cidadão ou guarda por noite, além claro, de serem as terras de meu irmão mais novo. Enviarei todo ferro que ainda temos com ele para que possa se estabelecer, e metade deste ferro será doado por ele para a sua Ordem, como disse na carta que enviei por meio de um corvo um mês atrás.

– Senhor Albern… Reconsidere. Ainda tenho bons homens. Podemos levar a jovem lady em segurança. Não precisa apelar para aqueles da laia deste homem. Olhe para ele. Nem podemos ver o seu rosto. Nem parece um homem de verdade com esta armadura e atrocidade pendurada em suas costas. Não confio nele.

– Agradeço a preocupação, Voiger, mas já disse que meus homens lutarão até a última respiração pelos cidadãos de Holz. Mas tem razão, de fato é contra o bom senso entregar a vida de minha única filha nas mãos de alguém que eu sequer vejo o rosto. Mostre sue rosto para que possamos fechar o acordo.

O forasteiro num movimento joga o capuz preso ao tecido que jazia por baixo de sua armadura para trás, revelando algo que imediatamente faz Voiger sacar sua espada e Albern torcer o rosto e ficar paralisado por alguns instantes.




II


– A única coisa que te peço, além da segurança de minha filha, é que não mostre seu rosto para ela, se for possível. Prefiro poupá-la desta experiência tão desagradável. – O lorde pega uma jarra de vinho e se serve em um copo grande de madeira, sorvendo tudo em um gole – Guarde a espada, Voiger. Não precisa ficar assim. Ele já cobriu esta face…

– Tudo bem, meu senhor. Mas se ele remover este capuz perto de mim novamente, eu não posso prometer nada.

O forasteiro sem afetação cobre o rosto, mantendo seu corpo imóvel. Observa o lorde, que sorve mais um copo de vinho em um gole.

– Vocês deverão partir logo pela manhã. Irão em nossa carruagem mais resistente, puxada por nossos dois cavalos mais robustos. Voiger escolherá dois de seus homens para apoiá-los, guiando a carroça e ajudando em qualquer imprevisto. Assim que amanhecer tudo já estará pronto, inclusive minha filha, que já aguardará para seguirem para o estábulo. – Albern ameaça encher mais um copo, porém se detém – Enviei um corvo para meu irmão, avisando que dividiria metade do ferro que Evellyn levaria assim que ela chegasse em segurança em sua cidade. Entendido, de acordo com meus termos?

– Sim. Temos um trato.

– Pois bem. Voiger, quero que leve nosso convidado até o andar inferior e peça para providenciarem um quarto para ele, aquele mais aos fundos, com uma cama de carvalho reforçada. Certifique-se também que lhe darão comida e bebida ao seu gosto, claro, dentro das nossas atuais limitações.

– Entendido. Venha comigo.

Por um instante o forasteiro parece ouvir algo como passos apressados vindos do corredor, porém como parece ser o único a notar isto, fica quieto e segue Voiger.

O chefe da guarda deixa a sala, ainda com uma das mãos sobre o punho de sua espada. Ele conduz o imenso cavaleiro de volta pelo corredor, tomando novamente as escadas e atingindo o salão principal. De lá tomam a direção da esquerda, ganhando um longo corredor de paredes de pedra sem revestimentos de madeira, pobremente iluminado por duas lamparinas. Ao final do corredor param em frente a um quarto, cuja porta é escancarada e o interior é desbravado primeiramente por Voiger, que pega instintivamente uma pequena pederneira sobre uma mesa de cabeceira, acendendo a única e pequena lamparina do local.

– Mandarei trazerem para você pão e cerveja. Acho que está de ótimo tamanho para aqueles da sua laia. Agora saia da minha frente.

O cavaleiro fecha a porta e observa o quarto, cujo tamanho razoável dava uma ilusão de conforto, mesmo para alguém de sua estatura. Ele leva a mão direita por sobre os ombros, onde despontava um longo e levemente curvado cabo de ferro maciço, revelando então algo que poderia ser descrito como um machete longo, parecido com uma guilhotina curva presa pelo dorso ao cabo por uma espécie de fundição, tendo um talho para colocar a mão próximo ao seu final e ao seu meio. O barulho que a coisa faz ao ser apoiado no chão indica seu peso descomunal. Em seguida o homem pensa enfim em sentar-se, começando a livra-se de parte de seu fardo. Sem dificuldades, solta as tiras de couro duro que prendem as ombreiras compostas por camadas de placas em forma de escamas, depois o peitoral, que cobria seu dorso totalmente e se estendia até suas costas, em seguida as placas que cobriam as coxas, depois as placas que cobriam suas canelas e joelhos, mantendo apenas suas manoplas, revelando apenas uma vestimenta de tecido preto e grosso, usado por baixo de sua proteção. Ainda com o capuz, senta-se e escora as costas na parede, ouvindo passos vindos do corredor.

– Trouxe o pão e a cerveja. – A empregada abre a porta com desconforto, segurando a travessa com o grande pedaço de pão com uma mão e a jarra grande de barro com cerveja na outra.

Sem dizer mais nada, a empregada deixa a comida e bebida sobre a mesa de cabeceira e sai tão rápido quanto podia. O homem pega o pão e em seguida agarra a bebida, começando sua refeição, que não dura mais do que um minuto. Estica-se sobre a cama, que mesmo sendo feita de peças brutas de madeira rangiam e estalavam. Fecha os olhos e diminui sua respiração.




III


– Volte Judith! Não vá até a porta!

– Mas eu preciso fechá-la, minha senhorita. – A velha empregada soava muito menos segura do que pretendia parecer, caminhando a passos vacilantes em direção a porta do salão principal da mansão, que estava escancarada, permitindo que gritos hediondos de agonia adentrassem por todo o recinto, causando arrepios intensos em ambas.

Evellyn estava em pânico, pois havia acordado com as duas empregadas correndo pela casa balbuciando coisas sobre a morte ter recaído de vez sobre Holz. Quando a jovem de longos e volumosos cabelos cor de avelã tomou o corredor do segundo andar, onde ficava seu quarto, pôde ver apenas as costas das empregadas ainda em roupas de dormir correndo para as escadas. As pobres diabas não conseguiram chegar sequer ao portão exterior, pois assim que ganharam o caminho de pedra lisa do jardim fizeram seus gritos de dor reverberarem por toda mansão, assim como o som de carne sendo rasgada e sangue jorrando.

Judith considerava-se sortuda por ter vivido uma vida tão longa, e em seu interior sentia que já vivera tudo que poderia viver, se colocando como voluntária para fechar as portas do salão. Quando enfim atingiu seu objetivo, antes que pudesse descer a tranca de ferro, é empurrada para trás num solavanco que abre caminho parcialmente para um longo e ensanguentado braço terminado em longas garras recurvas, que em duas tentativas consegue agarrar o rosto rechonchudo da mulher, que solta um grito estridente de dor enquanto tenta empurrar a porta, mesmo sendo rasgada viva. Quando cede para a dor, a porta se abre a seu algoz ganha o salão. Era a mistura profana de um homem esguio e pálido com um morcego monstruoso, tendo além dos quatro membros humanos, um par longo de asas membranosas e um rosto longo e repulsivo, com lábios finos, olhos negros pequenos e nariz e orelhas característicos do animal que evocava.

– Pelo divino… – A velha cai sentada diante da fera, com o rosto se movendo sozinho, retalhado, fazendo seu sangue correr corpo abaixo.

Evellyn, até então em choque, ganha o impulso para agir, lançando seus olhos castanhos sobre o grande salão, procurando algo que pudesse usar como arma, encontrando em um canto da parede sobre um quadro uma besta leve, modificada para caça, com doze virotes de pontas de ferro dispostos em um semicírculo decorativos em torno da arma. Ela se lança em frenesi em direção de seu instrumento de morte, ouvindo os berros abafados da mulher que durante sua vida toda esteve presente, as vezes como mentora, outras como amiga. Quanto pousa as mãos trêmulas sobre o objeto, o arranca de seu suporte e agarra um dos virotes, puxando a corta com maestria e o engatilhando, voltando-se e buscando seu alvo. Contudo, a jovem encontra apenas a velha empregada retalhada, com a carne dilacerada e encharcada no próprio sangue. Nada da criatura, e é então que percebe o lufar de asas, acima de sua cabeça. O monstro mergulha em sua direção.

Rápido demais para conseguir ser atingido pelo único virote disparado por Evellyn, o demônio busca o pescoço de sua vítima com suas garras dos pés, que eram articulados como suas mãos compridas. Antes que pudesse fazer mais sangue cair sobre o assoalho de madeira, um estrondo vindo por seu flanco o distrai. Eram os passos do cavaleiro que disparava em sua direção, sem armadura, agarrado com ambas as mãos à sua arma, que é arremessada com tanta força e velocidade que tudo que a fera consegue fazer é bater as asas e se lançar para trás, porém não antes de ser atingida e perder seus membros responsáveis por seu voo, caindo pesadamente ao chão, soltando um guinchado medonho. O machete para do outro lado da sala, cravado na parede.

Em um frenesi, a nêmese começa a correr na direção de Evellyn, garras e presas à mostra. Não havia tempo para virar as costas, pegar outro virote da parede e atirar. Tudo que ela pode fazer é assistir outra investida do homem desconhecido, que com uma ombrada lança seu agressor de mais de dois metros de altura para junto da arma ainda cravada na parede. Com uma pisada em seu peito, o cavaleiro segura o monstro, agarrando sua arma e a puxando pela parede até tocar o chão, separando as metades do corpo de seu alvo.

A jovem não diz nada, não agradece ou chora, apenas se volta para a parede e agarra quantos virotes podia segurar, já armando a besta novamente e se voltando para a porta, ainda escancarada. O homem de preto arranca sua arma do chão e a apoia em seu ombro direito, caminhando em direção da entrada do salão, porém no meio do caminho é obrigado a correr, uma vez que um estrondo e o som de barras de ferro caindo pesadamente sobre as pedras do jardim. Antes de conseguir selar o interior da mansão, uma figura enorme irrompe recinto a dentro, carregando consigo parte do umbral, urrando e emitindo outros sons graves, quase simiescos. Era duas vezes mais alto que o cavaleiro, com longos e robustos braços que tocavam o chão enquanto estava de pé. Sua pele era podre, e seu rosto, hediondamente humano, era desprovido de nariz, orelhas e lábios, deixando escancarados fileiras afiadas de grandes dentes.

Não foi preciso dar a ordem, Evellyn toma a frente e dispara contra o novo terror, atingindo um de seus olhos grandes e pretos, que sangra e queima com o ferro puro das pontas do virote, porém sem causar dano letal, apenas enfurecendo o monstro que parte em sua direção. O cavaleiro, que já estava no meio do caminho, agarra a arma com ambas as mãos e se prepara, buscando o cotovelo esquerdo da monstruosidade assim que estava tenta lhe esmagar com um soco devastador, porém erra e enterra a pata no assolho, tendo como retaliação um golpe preciso em sua articulação, fazendo-a urrar e babar de dor. Contudo, o golpe de alguma forma não foi o suficiente para atravessar todo o braço, deixando a arma presa parcialmente. Imediatamente o monstro contra ataca, esmurrando o chão onde o homem estava, errando mais uma vez devido a um salto para trás que este é obrigado a fazer, ao preço de deixar sua arma presa em seu inimigo.

Evellyn aproveita o momento e recarrega a besta, ciente que precisaria atingir novamente o olho da criatura para ir mais fundo e ser mais letal desta vez. Seu maior empecilho seria o fato de seu alvo não para mais quieto, socando o chão de um lado para o outro e urrando, balançando seu braço esquerdo parcialmente separado, fazendo enfim a arma cair pesadamente. O guerreiro por sua vez estava em uma posição perigosa, uma vez que sabia que mesmo com um mão apenas, um soco seria o bastante para ter boa parte de seus ossos quebrados, uma vez que estava sem sua armadura, largada para trás dada a urgência de toda situação. Tudo que podia fazer é esquivar e procurar uma abertura, e a encontra quando o braço balançante passa em sua frente, o agarrando com as duas mãos e puxando com força, apostando que apenas a pele que o mantinha ao corpo imenso de seu dono seria forte o bastante para fazê-lo perder o equilíbrio, e foi o suficiente. A criatura urra e cambaleia para frente, abaixando a cabeça ao ponto de poder ser socada diretamente no olho onde o virote estava preso, afundando-o mais ainda.

Em convulsão, o brutamonte demoníaco rola para trás, cindo de costas contra o assoalho. O forasteiro salta sobre seu corpo, buscando sua cabeça enorme e a socando em um frenesi que ao olhos da jovem fazia-se difícil saber quem era o verdadeiro demônio na sala. A caba soco as manoplas de ferro afundavam mais o crânio da fera, encharcando-se com seu sangue escuro e espesso, além de enterrá-lo aos poucos no assoalho. Em um certo momento parecia que pequenas ondas de fumaça saíam dos punhos e costas do agressor. Para de repente, fazendo-se enfim ser ouvida sua ofegante respiração. Pula de cima do grande peitoral do monstro, caindo pesadamente e caminhando em direção da sua arma, pegando-a e voltando-se contra sua vítima, que agora apenas tremia e soltava pequenos gemidos simiescos. Com um golpe utilizando as duas mãos a cabeça enorme é separada do corpo.

Instintivamente aquela mulher aponta a arma contra a figura ensanguentada que jazia em sua frente, com aquela coisa que parecia uma guilhotina móvel apoiada em seu ombro direito. Dispara, porém o virote passa por cima de seu ombro esquerdo, atingindo a cabeça de outro monstro voador que vinha pela porta. Logo outros chegam, começando a tomar o salão. O único lugar para se ir era para cima, porém por meio de janelas, mesmo reforçadas com ferro, mais uma dúzia dos terrores alados invadem.

Eles não se lançam imediatamente, olhando o semelhante partido ao meio e o grande ogro destruído. Sabiam que não podiam vacilar, embora ao mesmo tempo instintivamente apostassem em seus números. Quando avançam em uma primeira onda, vindos da porta, são feitos em pedaços por um golpe radial da arma de ferro monstruosa, fazendo os demais saltarem para trás. É a chance que os dois precisavam. Não precisavam conversar sobre aquilo, ambos sabiam que a sala de troféus seria o local mais seguro, uma vez que era desprovida de janelas e possuía apenas uma porta, reforçada por um quadro de ferro.

– Abrirei caminho através daqueles que estão esperando no segundo andar. Suba em minhas costas e não solte até que eu mande, caso deseje viver.

A jovem acena com a cabeça, saltando sobre as costas largas do desconhecido assim que este se abaixa, passando as duas mãos em volta de seu pescoço, largando a besta e fechando os olhos. O que se seguiu foi uma investida sobre-humana, onde o cavaleiro agarrou a arma pelo cabo e pelo entalhe ao meio da lâmina, firmando-a em sua frente subindo as escadas, ganhando rapidamente o segundo andar, cortando tudo em seu caminho até seu destino. Quando chegam enfim à sala de troféus, Evellyn salta das costas do homem e o ajuda a trancar a porta, ouvindo em seguida golpes de ombro e garras contra a madeira e ferro.




IV


O cavaleiro crava seu machete no chão por trás da porta, usando como uma proteção extra. Em seguida senta-se recostado em sua arma ensanguentada, deixando pingar de seu próprio corpo seu sangue, minando de cortes diversos em seu peito e braços. Levaria um tempo até recompor-se, uma vez que arfava feito um cavalo após um intenso galope.

– Está ferido. – Diz Evellyn inquieta, aturdida pela adrenalina da investida final para chegar até aquela sala.

– É observadora, senhorita. – Diz ofegante, deixando pingar mais sangue, agora de seu rosto por baixo do capuz.

Evellyn torce o nariz pela resposta – Vai ficar bem?

– Estaria melhor se tivesse tido tempo de colocar minha armadura. Eu deveria ter previsto algo assim e ter dormido com ela, em pé.

– Precisamos fazer alguma coisa. Meu pai deve estar lá fora agora.

– Se estiver lá fora, está morto. Não esperava que realmente lutasse pela sua cidade. Estou surpreso.

– Meu pai é um homem de honra. Eu insisti para ele desistir de me tirar daqui. Eu queria lutar ao lado dele e proteger a cidade.

– Não há proteção suficiente para uma cidade tão afastada quanto essa. É idiotice. Pode ver que de nada valeram os esforços dele. Tudo que importa é que você está viva e assim que amanhecer partiremos.

– Mas… – Evellyn respira fundo – A cidade está mesmo acabada. Eu só… Como pretende me tirar daqui? Como pretende receber por seus serviços? Não há garantia que encontraremos o ferro que meu pai prometeu para você…

– Foi você que estava nos espionando então. Estou mais surpreso por não ser uma donzela indefesa. Pensei que teria que carregar uma garota mimada daqui até Hart. Sabe usar bem a besta.

– Caço desde minha infância. Sou melhor atiradora que qualquer um dos homens de meu pai. Eles teriam uma melhor chance se me tivessem levado com eles para proteger a cidade… Mas agora acho que não adianta mais.

Evellyn caminha até a poltrona de seu pai, sentando-se lentamente e pegando um odre de vinho que estava sobre a mesa à sua frente. Ela não oferece ao seu salvador, bebendo direto do gargalo. O cavaleiro não diz mais nenhuma palavra, concentrando-se apenas em se recuperar, mesmo sendo empurrado constantemente pelas batidas violentas na porta atrás dele, a qual ele esperava suportar pelas poucas horas que ainda faltavam para a aurora.

O tempo transcorre entre o silêncio dos sobreviventes na sala de troféus e os urros e golpes dos demônios do lado de fora. Após algumas horas, enfim os sons exteriores cessam, fazendo o cavaleiro se levantar e remover sua arma cravada no assoalho. Evellyn havia pegado no sono com a ajuda do álcool, acordando com o chão sendo partido pelo pedaço de ferro em forma de machete. Ela se levanta antes que seu guarda-costas abrisse a porta, ciente de que além das cabeças de animais e peles, haviam armas naquele local, abrindo um baú mais ao canto, retirando uma besta leve e de intrincada decoração de ferro sobre a madeira. Junto da arma havia uma pequena aljava, com pouco uma quantidade boa de virotes.

A porta é aberta e num movimento o cavaleiro se lança para o corredor, com a arma apoiada no ombro direito, e como esperado não havia nenhum monstro no local iluminado pelos raios de sol que entravam pelas janelas quebradas. Evellyn o segue, e logo os dois ganham as escadas e chegam ao grande salão. A jovem vira o rosto para a empregada morta, seguindo o homem até o jardim de pedra. A visão daquela parte mais alta da cidade mostrava toda a destruição, com casas queimadas e parcialmente destruídas, além de um cheiro pungente de sangue que subia até a mansão. Assim que passaram pelo jardim e superaram o portão retorcido, seguiram pela rua em direção aos estábulos da cidade. Como esperado, não haviam mais cavalos nem carruagens, apenas destroços e corpos equinos dilacerados e com as vísceras espalhadas sobre a terra e palha. Nada do baú com ferro.

– Como vai fazer agora? Não terá pagamento por me escoltar. Vai me deixar aqui?

– Seu tio em Hart me pagará. Terá que honrar a promessa de seu pai.

– Entendo.

Eles passam por uma fresta aberta nos muros, uma vez que o portão estava empenado e distorcido, um obstáculo que não merecia o esforço de ser superado. Deixando as ruínas e pilhas de corpos para trás, os dois seguem pela estrada margeada por bosques secos e sombrios. Esperavam em menos de uma hora chegarem a uma ponte que cruzava o único rio da região. A caminhada seria longa, e ambos mantém o silêncio a fim de preservar energia. Após caminharem pelo tempo esperado, passam por uma pequena subida e avistam a ponte, porém para a surpresa dos dois havia uma carroça quebrada próxima a ela, ainda com um cavalo e pessoas.

Evellyn corre, reconhecendo quem estava junto da carroça. Seu pai e o chefe da guarda tentavam sem sucesso recolocar a roda enquanto três guardas urravam para levantá-la, pesada demais para estar vazia como aparentava.

– Você está vivo… O que está fazendo aqui, são e salvo enquanto nossa cidade está destruída?

– Não venha me questionar agora, garota. Nos ajudem aqui.

– Você fugiu assim que o ataque começou? – Evellyn enxerga no interior da carroça um grande baú, provavelmente contendo todo ferro que seu pai prometera ao forasteiro por sua segurança – Me deixou para morrer? É tão covarde assim?

– Não ouse falar com seu pai dessa maneira, sua insolente. – O chefe da guarda solta a roda da carroça e avança sobre a jovem, desferindo um tapa com as costas da mão em seu rosto, porém tem a mão agarrada pelo punho firme do cavaleiro, que assim que percebe que o velho guarda leva a outra mão à espada agarra seu outro braço e o joga para longe, sobre uma moita de espinhos.

– Espere um pouco. – O nobre solta a roda e se encolhe, vendo o cavaleiro caminhar em sua direção – Eu tenho uma boa explicação para tudo isso. Eu o esperaria em Hart, e…

– Você acha que somos uma piada? Você me achou apenas para servir de distração enquanto você fugia. Creio que sabe a pena por trair um contrato com nossa organização.

– Seu verme… – Voiger se levanta do meio dos espinhos, ferido e vermelho – Vamos lá! Matem este maldito!

Os três guardas avançam, enquanto Evellyn olha para o nada, não acreditando em tudo que acontecia. O cavaleiro sequer saca sua arma, agarrando o primeiro guarda com as manoplas de ferro, arrancando a espada de sua mão e o derrubando com um soco que faz ecoar o som de seu crânio se partindo. Os demais hesitam, mas ao verem Voiger avançando pelo flanco investem. O guerreiro agarra ambas as espadas com suas duas mãos, puxando os dois para cima de si, dando uma joelhada no estômago de um, que cai imóvel ao seu lado e enterra a espada livre no pescoço do outro, atravessando seu dorso e saindo em sua barriga.

– Morre, maldito… – Voiger atravessa sua espada na barriga do cavaleiro, porém claramente acerta apenas a lateral, não atingindo nenhum órgão. Ele arregala os olhos azuis quando seu alvo solta o corpo de seu último guarda e se vira, golpeando sua cabeça com a parte interna de seu antebraço com tamanha força que sua cabeça quase se desprende do corpo, quebrando seu pescoço inteiramente e afundando sua face como uma fruta pisada por um cavalo.

Arrancando a espada de sua carne, o cavaleiro enfim continua em direção de Albern, que cai sentado mijando nas calças. Evellyn pousa a mão esquerda na base das costas do cavaleiro, que corria sangue devido a perfuração de Voiger. Ela olha para cima, vendo claramente embaixo de seu capuz. Fica muda, apenas assentindo com a cabeça e virando o rosto. O homem leva a mão direta ao cabo de sua arma, presa por um gancho preso em uma cinta às suas costas e a ergue acima de sua cabeça, tão alta quanto uma guilhotina, deixando seu peso cair sobre Albern, que é partido em dois sem sequer conseguir gritar.

11 de Janeiro de 2020 às 19:23 0 Denunciar Insira 1
Fim

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