Obsessão Seguir história

paolaconsigliere Paola Consigliere

Imperium é um reino dentre muitos neste mundo alternativo muito parecido com o nosso em termos tecnológicos e científicos, dessa forma, conta tanto com elementos contemporâneos quanto medievais e fantásticos. Inspirado em histórias e videogames do estilo arcanepunk, como a coleção de Final Fantasy, Imperium é um reino de sistema monárquico centralizador, uma monarquia decadente que quase não consegue mais se sustentar frente ao poder das guildas de comércio, sendo suas decisões muitas vezes influenciadas por passadas de dinheiro por debaixo dos panos ou por alianças políticas. Kyeler, em seus vinte e três anos, é um recém-formado advogado que se dedica à área de Direito Digital em um dos grandes escritórios da capital. Por ser privilegiado em sua posição de elite, Kyeler sempre teve tudo ao seu dispor e seu ego não foi poupado de crescer tanto quanto os fundos de sua família. Agora, em seu primeiro e novo caso como advogado, Kyeler terá de promover uma simples ação em defesa de seu amigo acusado de estupro cujo nome foi exposto e denegrido na internet sem provas concretas do ato. Sua função era apenas promover uma ação indenizatória em nome de seu amigo, sem se envolver com detalhes do caso, mas tudo começou a desandar com a chegada de Aubrin, uma mulher intrigante e incomum que acaba se tornando o maior pesadelo de Kyeler - e também sua maior obsessão.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

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I

Eram quase cinco da manhã e Kyeler fazia um brinde comemorativo junto de seus amigos, Zyre e Colemin, pelo ano de sucesso que tiveram. Faltava apenas trinta minutos para terminar o ano de 3.020, trinta minutos para terminar uma década e parecia que todos estavam muito animados para isso, como se a década seguinte representasse uma nova vida, mas era apenas um ano novo, como todos os outros, e seria apenas uma passagem invariável na vida de todo mundo.

Sua vida já era boa daquele jeito, tinha conseguido efetivação no escritório de advocacia em que estagiara durante dois anos. Formado na melhor universidade de Direito do Imperium, a Universidade de Allectia, e empregado em um dos maiores e mais famosos escritórios de Direito Digital da capital tecnológica de seu país, a própria Allectia. Era extremamente difícil conseguir o seu feito – claro que dinheiro sempre foi um fator importante, sua família era uma das mais abastadas do Imperium e nada nunca lhe faltou –, mas ele se orgulhava disso, pois seu esforço tinha sido determinante para que aquilo acontecesse, dinheiro não teria sido o suficiente.

Os três bebiam e festejavam em um bar da Alta Classe com música ao vivo e muitos ali vestiam ternos longos que chegavam aos joelhos, típica moda da nobreza, ou vestidos cobertos por joias e ouros para as mulheres. Kyeler em particular não vestia nem um nem outro, preferiu um conjunto social básico com um terno cinza com uma camisa branca por baixo e uma gravata prateada para comemorar o ano novo. Ele não fazia parte da nobreza em específico, esta nada mais era que um pequeno grupo de sanguessugas que rodeavam o rei em busca de um pouco de sangue para se alimentar; já ele era um dos novos ricos, a classe que mantinha a sociedade em funcionamento, a classe dos comerciantes. Sua família, em específico, era dona de uma companhia de importação e exportação de tecidos, comercializavam principalmente com os reinos do Norte e possuía inúmeras embarcações e alguns aviões ao seu dispor para realizar a transação.

Kyeler nunca fora interessado em herdar os negócios da família e, muito menos, de ingressar na faculdade de Direito com o intuito de proteger os seus bens. Sempre preferiu a área de Direito Digital, a que estava em alta já há alguns anos. Tudo era controlado pela tecnologia e, portanto, os crimes e as violações passaram a ser, em sua maioria, digitais; uma mudança como essa exigia uma movimentação da sociedade, o Direito teve de considerar esse mundo e as autoridades também, tudo era pautado na tecnologia e tinham de se adaptar àquilo.

A função dos escritórios não era a de apenas consultar a lei e escrever contratos e ações pautados nela, mas também de fazer a sua própria investigação virtual sobre o caso. Ultimamente era difícil de identificar a outra parte para trazê-la ao Tribunal uma vez que, em geral, as contravenções eram cometidas por anônimos protegidos por seus VPN’s e proxys: claro que o próprio escritório tinha um setor destinado à investigação cibernética com o objetivo de identificar os suspeitos e correr atrás de provas.

Recentemente, logo nos primeiros dias de serviço já havia conseguido seu primeiro cliente. Um amigo seu muito próximo, Adran, o procurara quase em desespero pedindo que o defendesse contra uma acusação de estupro realizada em uma rede social e compartilhada mais de um milhão de vezes. Independentemente de a acusação ser falsa ou verdadeira, o amigo não entrou em detalhes e Kyeler também não queria saber, seria proposta uma ação para indenizá-lo por danos morais, afinal, seu rosto e suas informações de identificação tinham sido expostas na postagem feita pela suposta vítima comprometendo sua vida pessoal e profissional.

A polícia já havia aberto um inquérito contra o seu cliente, mas obviamente que seria inútil uma vez que estupro é o tipo de crime que raramente deixa vestígios e só pode ser confirmado através de testemunhos. Com certeza o amigo seria absolvido por falta de provas, a autora da denúncia em nada tinha como comprovar o fato a não ser a coincidência de ambos estarem na mesma festa no mesmo dia. Aquilo em nada provava uma vez que o ambiente das festas eram, em geral, escuros, o que significava que ela não poderia identifica-lo com precisão, e o fato de não haver nenhuma testemunha ocular que vira os dois juntos ou o ato em si já era suspeito uma vez que a festa contava com mais de duzentas pessoas reunidas em um cubículo.

Felizmente não teria de lidar com o caso do crime em específico, sua função se restringia ao Direito Civil de apenas conseguir a indenização por exposição desnecessária e prejudicial sem ao menos existir uma sentença judicial condenando-o. Seria muito fácil conseguir aquela indenização, não havia provas, não havia um inquérito completo e, muito menos, um transito em julgado. Por isso que estava ali comemorando seu final de ano como se não houvesse obrigações ou preocupações.

Os fogos começaram a subir no horizonte e todos ali no salão, localizado no terraço de um dos maiores prédios de Allectia, puderam apreciar a vista colorida quando o relógio bateu à meia-noite, dando início ao novo ano e à nova década. Felicitou seus amigos e até os mais próximos dele que também estavam extasiados e tão bêbados quanto ele.

– Que ano, puta merda. – disse Zyre, seu amigo mais velho com vinte e seis anos e um cargo de gerente invejável no Banco Real pertencente à sua família.

– Pra você deve ter sido – respondeu Colemin. – Depois de trocar de namorada cinco vezes...eu não aguentaria.

– Nós sabemos que você não aguenta nem essa cerveja na sua mão, Col. – zombou Kyeler.

– Bom, pelo menos não estamos que nem aqueles ali. – o amigo apontou para o grupo de nobres do outro lado, perto do balcão de bebidas. Todos mantinham um considerável distanciamento deles, suas posturas arrogantes e frígidas afastavam a todos.

– Eles não vão estar mais ali no final desse ano. – garantiu Zyre, afastando a mecha negra que caía em seu rosto. – Ouvi uma conversa entre os cavalheiros do Banco sobre a instabilidade desse governo, duvido que dure mais alguns meses. E vocês sabem que se o rei cair todos eles caem juntos.

Encarou o palácio real acima da colina ao fundo da vista no terraço, atrás dos prédios comerciais e residenciais. Ele se erguia imponente e com centenas de janelas acesas que brilhavam como um farol.

– E quem será o próximo ao trono? – provocou Kyeler. Política era seu assunto preferido, por isso escolhera Direito como área profissional. – Será que aqueles fanáticos do Credo vão pegar o poder antes de nós?

Se havia uma guilda tão poderosa quanto a dos comerciantes era a guilda do Credo, fanáticos pelas Duas Divindades, o Sol e a Lua, o Branco e o Preto, a Escuridão e a Luz, o que quer você quisesse chamar. Na sua crença, existiam dois deuses opostos e complementares que mantinham o universo em equilíbrio constante. A Igreja das Duas Divindades era a religião predominante no Imperium, diferente dos reinos do Norte que preferiam acreditar em dezenas de deuses selvagens e brutais, alguns reinos até utilizando-se de sacrifícios humanos para saciar seus deuses. Kyeler achava tudo aquilo uma grande bobagem, fora criado em uma casa religiosa, admitia, mas nem ele e nem sua família eram muito presos a isso. Preocupavam-se primeiro com o seu dinheiro e depois com os deuses.

– Nem quero pensar nisso, imagina como seria uma sociedade governada por fanáticos. – Col se manifestou. Sua família era dona de uma rede de lojas de roupas finíssimas espalhadas por todo o reino. – Se nos obrigarem a usar aqueles mantos na cabeça vai ser o maior inferno na terra.

Os três riram frente à imagem que se formou em suas mentes.

– Kyeler. – Zyre o chamou. – Eu achei que você se tocaria em determinado momento, mas como não foi o caso preciso te avisar de que há uma moça muito elegante e sensual ali do outro lado que está te encarando há um tempo já.

Olhou na direção apontada pelo amigo. O salão era relativamente pequeno com o teto baixo e algumas poltronas posicionadas aos cantos entorno de pequenas mesas de centro onde grupos se reuniam. À direita havia o balcão de bebidas sempre cheio de demanda onde dois bartenders vestidos à caráter com coletes e gravatas preparavam os drinks. Ao fundo e onde a visão de Kyeler era direcionada naquele momento, havia dois degraus que levavam a um piso superior onde mesas de sinuca serviam de divertimento. Encostada ao corrimão do mezanino e olhando diretamente para ele estava uma mulher esguia, de aparência bem jovem, com cabelos longos e platinados e com um vestido longo vermelho e elegante cuja parte de cima consistia em apenas duas alças de tecido que lhe cobriam os seios.

Quando percebeu seu olhar, a mulher sorriu e ajeitou o cabelo para trás, expondo a pele branca de seu pescoço.

Ele se virou para seus amigos suspirando.

– Não faz o meu tipo. – declarou, dando o assunto como encerrado. Seus amigos, por outro lado, não desistiram.

– Pelo menos vá lá falar com ela e depois você fala se gostou ou não, cara! – repreendeu-o Col. – Não precisa casar com ela, é só uma noite, a primeira do ano em!

– Começou o ano já do jeito certo! – divertiu-se Zyre, incentivando-o.

Por apenas pura insistência dos amigos, Kyeler decidiu ir até lá. Entregou seu copo de champagne para Zyre e atravessou o salão até a mulher que o esperava.

– Olá. – ele disse, confiante. – Percebi que olhava há um tempo...

– Por que demorou tanto, então? – ela sorriu maliciosamente. Seus olhos eram de um cinza hipnótico.

– Quis deixar mais interessante.

Ele se aproximou dela, apoiando um dos braços no corrimão onde ela estava encostada.

– Deixou bastante. – ela o olhou de cima a baixo, mordendo o lábio inferior. – Qual o seu nome?

– Você quer saber nomes? – questionou. Em geral, não perguntava nomes para seus casos de uma noite. – Fale o seu primeiro.

– Laeila. – ela respondeu imediatamente. – E agora?

– Prazer Laeila. – ele sorriu calorosamente. – Sou Kyeler.

– Kyeler? Interessante o nome. Aposto que é filho de algum grande comerciante, a julgar pelas suas roupas, que controla a empresa do papai.

Ele riu. Esse seria seu perfil caso sua vida fosse decidida pelos seus pais.

– Realmente, sou filho de um grande comerciante, mas a segunda parte está errada. Sou formado em Direito e trabalho como advogado.

– É mesmo? – os olhos dela se iluminaram. – Em que área você advoga?

– Direito Digital. – e terminou como para se gabar. – No escritório Nayel em Nova Cidade.

– Uau. – ela se impressionou, abrindo um gigantesco sorriso branco. Ele causava isso nas mulheres. Seu tom de voz mudou, tornando-se mais sedutor. – Quer que eu busque algo no bar para nós?

– Acredito que eu devesse fazer essa cortesia...

– Ah, não se preocupe, eu não me dou bem com tradições.

Ela deu um sorriso e saiu em direção ao bar.

Enquanto isso olhou em direção aos amigos que conversavam com ele à distância com gestos e expressões faciais, Kyeler não entendia nem em parte o que estavam dizendo, mas presumia que perguntavam o que estava acontecendo, se o flerte estava dando certo, se ela era bonita e charmosa como tinham previsto, se ele logo mais sairia com ela atrás de um hotel. Apenas sorriu e acenou com a cabeça positivamente, sabia que seu charme nunca falharia e sua posição social era um atrativo ainda maior. Nenhuma mulher nunca lhe negou nada, pelo menos, não depois de conhecer seus atributos – e sua conta bancária.

Laeila voltou com dois copos pequenos e largos na mão com muito gelo e uma quantidade mínima de alguma bebida cor de bronze, provavelmente whisky. Os dois brindaram antes de beberem de uma vez todo o conteúdo da taça.

– Então, conte-me mais sobre seu trabalho. – ela começou. – Sou muito interessada na área, acho brilhante aqueles que se saem bem nisso.

Ele depositou o copo em cima do apoio do corrimão cuja superfície era larga e reta o suficiente para apoiá-lo.

– Bem, eu acabei de me formar e fui efetivado logo de cara nesse escritório, por enquanto estou trabalhando em um caso pequeno, mas bem simples de indenização, qualquer um conseguiria ganhar.

– É mesmo? E qual o caso? – ela parecia bem curiosa. Kyeler conseguia chamar bem a atenção das mulheres.

– Um amigo meu foi acusado de estupro nas redes sociais, a menina postou a foto dele e fez um texto expondo o crime. Acontece que ela não tem nem provas de que o crime ocorreu e nem uma sentença do juiz confirmando que ele foi o autor, isso significa que a acusação dela foi caluniosa, é um crime contra a honra. Por isso, estou levantando uma ação contra essa menina pedindo uma indenização por danos morais, eu poderia até leva-la à prisão já que calúnia é um crime que leva à detenção, mas meu amigo não aceitou fazer isso com a coitada, ela é claramente perturbada.

– Nossa, é um caso muito sensível. – ela franziu o cenho, pensativa. – E se ele for mesmo o culpado?

– Não é o meu trabalho descobrir, a polícia tem que fazer o trabalho dela. – ele riu da sua própria piada, o álcool já fazendo efeito e o deixando mais estúpido e tagarela.

– Mas ele é seu amigo, certo? Você não tem interesse em saber com quem anda?

– Ele é meu amigo e nunca deixará de ser.

– Nem se ele for culpado?

Sua cabeça já começava a rodar e começou a achar estranho o efeito tão rápido e inesperado de alguns milímetros de whisky. Ela, por outro lado, parecia perfeitamente bem e tinham bebido a mesma quantidade.

– Nem se ele for culpado. – respondeu, as palavras embaralhadas em sua mente por fim conseguindo formar uma frase.

– Uau, você é realmente um babaca.

Kyeler nem ouvia mais o que ela dizia, sua visão passou a ficar embaçada e sua audição, comprometida. Tentou se agarrar ao corrimão quando sentiu suas pernas cederem, quando o fez deixou cair o copo de vidro e nem se importou, pois em seguida já não sentia mais nada.

3 de Janeiro de 2020 às 23:54 0 Denunciar Insira 0
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