Ilhado — Conto Seguir história

stefanippaludo Stéfani Paludo

Você já imaginou poder ler os pensamentos que permeiam a mente de qualquer pessoa? Um sonho ou um pesadelo? Essa é a sina de Mel, uma jovem adulta que descobriu um poder único que dificulta sua vida e ainda lhe dá graves crises de enxaqueca. Conhecendo o íntimo do ser humano, sua maldade inerente e os medos e anseios jamais ditos, Mel tenta usar seu dom para o bem, ajudando quem puder, mesmo quando isso significa ir atrás de um desconhecido e deixar-se envolver emocionalmente por ele.


Ficção adolescente Todo o público.

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CAPÍTULO 1: O Rapaz Melancólico do Parque

Respirei fundo outra vez e continuei massageando o ponto dolorido entre meus olhos, enquanto ao fundo os pássaros cantavam e o vento amenizava o calor do meu corpo. Felizmente os seres vivos da natureza — animais e plantas — não possuem pensamentos. Podia descansar e apreciar minha mente em silêncio por alguns minutos.

Ainda de olhos fechados, ergui minha cabeça em direção ao sol aproveitando a tardinha de um dia típico de primavera. O canto dos pássaros sendo uma melodia suave e calmante. Tirei minha sandália e botei os pés no chão, a textura úmida e gelada da grama em contato com a sola de meus pés.

Inspirei e expirei de novo, abrindo os olhos e distinguindo uma borboleta branca voando em direção às flores silvestres a alguns metros de mim. A sensação de paz me dominou. Minha respiração era tranquila, meus lábios se curvavam em um sorriso involuntário de satisfação. Por um momento apreciei e me senti como parte da natureza e de todo o universo. Um ser em harmonia e condizente com tudo mais que existia.

Voltei a fechar os olhos.

Realmente, eu não merecia essa vaga”, o pensamento interrompeu minha tranquilidade, recordando que eu não fazia parte da consonância da realidade. Eu era diferente. Uma aberração. Esquisita.

Abri os olhos e vi um rapaz magro e de cabelos cacheados andando em minha direção, a coluna levemente curvada e os olhos nos seus próprios pés. Talvez, como uma menina comum, eu devesse sentir medo de um homem aproximando-se de mim, eu estando tão sozinha e distante de outras pessoas. Voluntariamente, quando cheguei ao parque, quis me sentar na parte mais distante e pouco frequentada da praça. Já que ninguém costumava cruzar por essa região, pensei que aqui poderia ter paz. Porém, agora percebia que o local também me tornava mais vulnerável à crimes e violência.

Só quero chegar em casa!

Voltei a observar o rapaz, todo vestido de preto. Suas roupas estavam amassadas e velhas, mas ele não parecia ser um ladrão ou um drogado. Era mais um rapaz comum, pobre, mas provavelmente trabalhador. Porém, como maldade não tem estereótipo e eu mais do que ninguém sabia bem disso, decidi usar meus dons para ter certeza. Usar minha estranheza a meu favor para me manter segura, pelo menos.

Foquei minha mente e encarei o garoto que se aproximava cada vez mais de mim, ainda sem me notar. Sem muitas dificuldades acessei sua mente.

De novo vou ter que dizer que fracassei. Sou uma farsa. Uma merda. Nem sei porque ainda tento. Seria apenas pra não decepcionar a mãe? Mas ela já sabe. Todo dia uma falha diferente. Não é mais surpresa pra ela. Só não sei se tenho forças de novo de dizer a ela que não. Que não foi dessa vez. Só queria que ela não tivesse em casa e eu pudesse entrar direto e me jogar na cama. Dormir e não acordar nunca mais…”. Os pensamentos dele eram lentos e baixos, apesar da melancolia. E não havia intenções de me fazer qualquer tipo de maldade. Relaxei, ainda vendo em sua mente alguns flashes desconexos do que parecia ser uma entrevista de trabalho.

De repente, seus pensamentos mudaram e eu deparei com minha própria face me encarando de volta, séria e sem piscar, encarando firme e de forma inquisidora. Quase psicopata. Ops… Acho que agora seria ele quem ficaria com receio de mim.

Chacoalhei a cabeça de meu corpo físico rapidamente e voltei para minha própria mente.

— Ah! Oi — tentei dizer a ele, amenizando o constrangimento e buscando uma explicação plausível para eu estar lhe encarando por tanto tempo.

Ele já estava bem em frente ao banco onde eu permanecia sentada e também me observou por alguns instantes antes de dizer qualquer coisa. Pude reparar em sua expressão facial, os olhos negros e tristes, as sobrancelhas baixas e a boca fina, fechada em linha reta. Ele era bem mais alto que eu.

— Oi — respondeu ele, sem jeito, desviando o olhar, mas com uma voz forte e marcante.

— Eu sou a Mel — disse, sem saber bem a exata razão. Eu ainda buscava uma desculpa para minha gafe e para afastar o rapaz de mim. — Eu sei que parece que eu estava te encarando… Mas eu não estava. Quero dizer, estava, mas não do jeito que você acha. Não estava olhando pra você. Estava perdida em pensamentos e acabei deixando meus olhos fixos em sua direção. Desculpa.

— Sem problemas — ele deu de ombros e voltou seu corpo em direção ao trajeto que fazia, voltando a seguir seu caminho.

Assim que se afastou alguns passos, me tranquilizei, vendo-o ir embora. Antes de voltar ao meu relaxamento interrompido, dei uma última espiada em sua cabeça, apenas por curiosidade e hábito.

“Pelo menos alguém parece estar aproveitando o dia e a vida”, senti seu corpo se retesar em um suspiro de insatisfação e, antes que eu pudesse controlar meu próprio corpo, chamei sua atenção e disse, alto o suficiente para que mesmo distante ele ouvisse:

— Sei que seu dia foi difícil, mas vão vir dias melhores. Apenas aguente e tenha paciência. Um dia a tempestade acaba.

Ele virou-se em minha direção por alguns instantes, seu olhar indo de novo de encontro com o meu. Mas sem dizer nada, voltou a andar, dando as costas para mim e andando mais rápido. Já estava distante demais para que eu distinguisse com clareza o que ele pensava.


* *


Cheguei quando anoitecia e meus pais já estavam em casa. De volta do parque ao meu bairro, pelo transporte público, deixei o relaxamento de lado e me concentrei em distanciar as vozes que adentravam minha mente, pensamentos exaltados e, na maioria das vezes, irritados, das pessoas que estavam em meu entorno. Hoje em dia era mais fácil me controlar e com certo esforço conseguia manter minha sanidade evitando o tumulto de consciências. No passado, porém, logo que descobrira meu “dom”, sofri muito com isso. Ainda assim, os esforços diários para manter as vozes distantes me rendiam longas e doloridas enxaquecas, como a que iniciava naquele instante.

Estava tão focada em abafar os pensamentos alheios e preocupada com a dor que surgia, que sufoquei até mesmo os dos meus pais e só me dei conta de que estavam em casa, quando passei da sala de estar para o meu quarto.

— Oi filha, tudo bem? — falou minha mãe. — Está com fome? Tem comida na geladeira.

— Agora não, mãe. Tô com dor de cabeça. Vou tomar um banho e depois tentar descansar pra ver se passa.

— Tá bom. Eu te chamo na hora da janta.

Entrei embaixo do chuveiro e deixei a água o mais gelada possível cair sobre meu couro cabeludo e aliviar a dor. Aproveitei o momento também para massagear os pontos doloridos na intenção de que a dor amenizasse.

Quando saí do banheiro, ao contrário do que eu esperava, a situação havia piorado. Além da dor, a luz começou a machucar meus olhos e me obrigar a deixá-los semi-abertos, absorvendo o mínimo de iluminância possível. O topo do meu crânio latejava, parecendo aumentar e diminuir de tamanho a cada bombeada de sangue das artérias. Do caminho do banheiro até meu quarto, senti o cheiro da comida sendo preparada por minha mãe e franzi o nariz, enjoando na mesma hora. Uma pequena náusea também se fez presente.

Como opção, me joguei na cama de cabelos molhados e desgrenhados, apaguei todas as luzes, fechei a cortina, a porta, a janela e coloquei um som ambiente no celular, abafando todas as vozes e pensamentos de meus pais e dos vizinhos. Pude enfim, novamente relaxar e deixar com que minha mente se libertasse.

Depois de mais de meia hora, a dor amenizou e eu consegui adormecer. Fui acordada por minha mãe para ir jantar, mas como ainda estava enjoada e nauseada, preferi dispensar a comida e dormir por mais algumas horas. Acordei quando todos já haviam ido deitar e passava-se da meia-noite.

Apesar do horário avançado, eu me sentia em completa forma, desperta e animada, sem dor e sem sintomas da enxaqueca. Levantei e, feliz, apreciando o silêncio que o sono das outras pessoas trazia, fui até a cozinha, comi alguma coisa, enquanto checava minhas redes sociais.

Após responder todas as mensagens recebidas em meio a minha crise enxaquecosa, entrei no Facebook e me deparei com uma nova solicitação de amizade de um rapaz chamado “Théo Pereira”. Fucei seu perfil: ele morava em minha cidade, e cursava História numa faculdade daqui. Apesar disso, nenhum amigo em comum. A foto de perfil era em preto e branco e não mostrava o rosto, mas os cabelos cacheados e a sua magreza eram inconfundíveis. A camisetona preta da foto também parecia ser a mesma de mais cedo. Só podia ser o garoto melancólico do parque!

Aceitei a solicitação, só para ver qual era a dele e aproveitei para mandar uma mensagem com “Você é o cara do parque?”. Como ele não estava online há várias horas e já era tarde, fui dormir. E na manhã seguinte acordei já com uma resposta, mandada minutos antes.

31 de Dezembro de 2019 às 00:11 0 Denunciar Insira 1
Leia o próximo capítulo CAPÍTULO 2: Segredos

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