Quando na ponte eu te vejo Seguir história

shogun Fernando Avendanha

Quando um homem desesperançado, sentindo-se abandonado, vê uma ponte e seu parapeito, o que faz ele, senão pular?


Poesia Romance Todo o público.

#poesia #romance
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Quando na ponte eu te vejo...

Ando, ando...

Paro, vejo uma ponte

O ar sibila em meus ouvidos

E diz:

Não vá...


Subo no parapeito

Ereto, fecho meus olhos

Abro os braços

Fecho-os

Solto-os

Abro meus olhos

E me sento no parapeito


Observo a água rastejar entre as pedrinhas

Brilhantes e clarinhas

Observo ela encontrar seus caminhos

E me pergunto se encontrarei os meus...


Olho agora aos céus

Está lindo

Olho ao sol

Minha mão cobre a visão

E penso

Naquele brilho que não é meu...


Me levanto novamente

Aperto minha mão fremente

E penso se deveria pular

Volta a sibilar em meus ouvidos o ar

E ele diz:

Não vá...


Meu corpo todo treme

Não atrevo olhar para trás

Meu âmago todo freme

Não me atrevo a me esperançar mais...


Não aguento o alfinete mal colocado

No lençol que me cobre, amado

Meu ombro faz uns movimentos

E olho para trás


O que eu vejo

Causa-me pejo

E desespero

Pois quem eu vejo

É você...


Minha menina dos olhos escuros

Minha querida dos cabelos obscuros

Da pele alva

Tão brilhante, contra meu corpo sem alma


A tremedeira aumenta e me desequilibro

Não sei, não sei se decido!

Não posso a mim mesmo aguentar

Mas você... você pega a minha cintura

E me segura

Não caio nas pedras, sozinho e morto

Meu sangue não se dilui na água

Caímos juntos na madeira

Bato minha cabeça na tábua, e você também

Você leva sua mão ao ponto doído

E eu, de olhos arregalados, apresso-me a lhe avaliar

Movo sua mão e descubro o ponto

Espero que não nasça um calo, mas não foi nada

Tiro os olhos do ponto, e ponho-os nos seus

Vejo? Nada vejo

Mas tudo vejo

Em seu olhar

Em que fico absorto

Você... você vale a pena amar


Você me olha de volta, e ficamos assim por alguns segundos

E então você me empurra para longe

Com lágrimas nos olhos, gritando:

Seu idiota! idiota! idiota!

E se você... e se você...

Você fala soluçando

E se você...

E se eu ficasse...

Ah, meu Deus, não, não...


Me desespero

Não em melancolia

Não no estado em que eu pularia

Mas no que ficaria

Com você...


Me desculpe, me desculpe...

Tento me desculpar

Não chore, por favor, não chore

Mas eu mesmo estou a chorar


E juntos choramos quietamente por um tempo

Até que uma geba passa andando lentamente

Nos olhando estranho

E diz baixinho:

Ah, esses jovens...


Sorrimos

Quando ela se distancia

Rimos

Um para o outro

E eu te digo

Que nunca, nunca

Nunca mais farei você chorar

Nem em vida, nem em morte

Irei te abandonar

Não deixarei o egoísmo me consumir

E nunca, nunca

Irei a imagem de teus doces olhos

Negros como a adaga do argonauta

Vivos como o brilho de Apolo

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30 de Dezembro de 2019 às 22:43 3 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Fernando Avendanha Ó Capitão, Meu Capitão

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A. G. Mars A. G. Mars
Pesado... mas o final é quase acalentador...
January 02, 2020, 08:13
SD Sheilla Darlen
Nossa! Muito profundo!
December 31, 2019, 22:04
Gabriel Antônio Gabriel Antônio
Parabéns, realmente muito bom
December 30, 2019, 22:50
~