LET - LUZ ENTRE TREVAS Seguir história

rafael-krause1577720877 Rafael Krause

A trama gira em torno de personagens que estão ligados a uma profecia sobre uma entidade que pode trazer a destruição ou salvação de toda a existência. Mesmo assim cada um possui um objetivo e ninguém necessariamente está do lado do bem ou mal.


Aventura Para maiores de 18 apenas.

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Treinamento da fé

LUZ ENTRE TREVAS

(LET)

Capítulo 1

Treinamento da Fé

Taylor – Você acordou, finalmente… - Disse com um ar de alívio e alegria. Taylor estava sentado em uma cadeira de madeira ao lado da cama onde Yue estava deitado e coberto com um lençol branco, seu rosto estava vermelho devido a febre, ele tentou dizer algo, mas não passou de um sussurro sem som perdido no ar e voltou a dormir.

Taylor tirou o pano branco da testa do garoto e colocou dentro de uma vasilha de água fria, onde ensopou, torceu e colocou novamente na testa de Yue.

Taylor – Vai ficar tudo bem… - olhando para o vazio com esperança enchendo seus olhos.

Já era de noite quando Yue acordou novamente, dessa vez sem febre, ele olhou ao redor, Taylor não estava ao seu lado, ele olhou o cômodo, um quadrado espaçoso, a pintura nas paredes parecia desgastada com o tempo, os móveis também eram antigos e desgastados. Ele se sentou na cama, sua cabeça doeu com o esforço, ele apertou os olhos para suportar a dor, assim que a tontura passou ele voltou a abrir os olhos e viu Taylor na porta do quarto, seu rosto irradiava alegria, ao notar o garoto a sua frente Yue sorriu, de alguma forma sabia que Taylor não faria mal a ele. Da porta o garoto grisalho foi até a cama sentando-se, ele tocou o rosto de Yue, uma lágrima se formava em cada um dos seus olhos, Yue o olhou um pouco preocupado.

Taylor – Não se preocupe, vai ficar tudo bem… - Taylor esfregou os olhos o que deixou uma marca vermelha abaixo deles. Uma luz branca acendeu na mão direita de Yue, ele tocou o rosto de Taylor que sentiu seu corpo todo aquecer, uma sensação boa invadiu seu corpo e de repente, milhares de palavras e sons começaram a soar em uma sinfonia afinada em sua mente, em poucos segundos Taylor estava esgotado, todo o conhecimento que ele tinha em sua mente havia passado por sua consciência, Yue estava de olhos fechados, concentrado em ouvir cada palavra com atenção.

Assim que a luz apagou, Yue parecia um pouco tonto, mas Taylor estava a ponto de desmaiar, ele se segurou pra não cair com a tontura, Yue segurou-o pela camiseta e disse:

Yue – Obrigado. - Sorrindo para seu novo amigo, demorou alguns segundos para Taylor assimilar o que Yue havia dito, mas quando se deu conta sorriu animado.

Taylor – Não precisa me agradecer…- Ainda piscando os olhos, tonto. Yue riu da expressão engraçada no rosto do garoto grisalho – Está com fome?

Yue – Sim! - Disse animado. Taylor se levantou

Taylor – Vou buscar algo para comer então, me espere aqui! - Cambaleou pelo quarto e saiu pela porta. Yue se levantou da cama e seguiu Taylor.

A cozinha ficava no andar de baixo da casa, Yue seguiu Taylor pelas escadas que estava tonto demais pra perceber. Ao chegarem na cozinha Taylor olhou pra trás e levou um susto ao ver Yue tão perto assustando Yue também.

Taylor – Desculpe… Não estava esperando… - Sorri – Você devia estar na cama e não andando por aí, tem que descansar… - O tom de Taylor era de preocupação, mas tentou deixar o mais descontraído possível.

Yue – É que eu não queria ficar sozinho… - Olhando tristemente para o chão, Taylor observa uma mexa de cabelo cair sobre o rosto corado e também fica vermelho um pouco embaraçado

Taylor – Está… Está bem… - Olha para o lado e se vira de costas indo até a geladeira e abrindo a geladeira tentando esconder o rosto - Então… Eu só tenho vegetais aqui… Deveria buscar algo mais para você, deve estar com fome, quando foi a última vez que você comeu? - Disse com tom casual tentando se disfarçar nervosismo, ainda vasculhando a geladeira

Yue – Eu não me lembro… - Incerto das palavras.

Taylor – Está bem! Eu tenho alguma coisa aqui! Deve dar por enquanto – Tirou uma vasilha imensa de dentro do congelador cheio de peixes – Estão frescos ainda…

Taylor começa a preparar a refeição enquanto Yue anda pelo jardim no lado de fora da casa, percebe que trata-se de uma casa de campo no alto de uma colina e está bem isolada de outras casas, só o que tem em volta são árvores e bem longe dali tem o mar. Yue observa uma borboleta pousar sobre uma flor, um esquilo subir pelo tronco de uma árvore, sente o vento fresco com a brisa do mar acariciar seu rosto e revirar seu cabelo, sua túnica branca dança à luz do luar. Taylor saiu na porta da cozinha que dava para onde Yue estava.

Taylor – Já está pronto, vamos comer!

Yue – Está bem! - Sorriu, se levantou e acompanhou Taylor. A sala de jantar ficava ao lado da cozinha separada apenas por um balcão. A mesa era grande, podia comportar mais de 10 pessoas, mas haviam só duas cadeiras, uma delas parecia ter sido concertada recentemente, Yue pôde perceber que havia um curativo em alguns dedos do garoto grisalho que andava a sua frente. Sentaram-se a mesa, Taylor na ponta, Yue a sua direita, na mesa o peixe estava sobre uma grelha em cima de um tipo de panela alta só que dentro tinha carvão e fogo, ao lado tinham bolinhos de arroz numa vasilha de barro e também tinha uma outra panela com legumes refogados.

Yue – O cheiro está ótimo! - Taylor sorriu e começou a servir os pratos.

Taylor – Espero que goste! - Espera Yue provar primeiro. Ao experimentar, Yue simplesmente começa a devorar a comida, ao terminar o primeiro prato pede mais com a boca ainda cheia, Taylor ainda nem teve tempo de começar a comer e já teve que servir o garoto faminto ao seu lado. Assim que Yue terminou de comer parecia difícil até de respirar, estava empanturrado.

Yue – Estava ótimo! Eu queria mais, mas tem alguma coisa errada comigo… - Olhou tristemente para a barriga estufada.

Taylor – Isso acontece quando se come de mais… Mas logo você vai se recuperar…

Yue – Eu não lembro de nada antes, mas acho que eu nunca tinha comido nada tão bom na minha vida… - Taylor riu quando Yue arrotou satisfeito.

Taylor – Está bem… Agora que você comeu, deve descansar um pouco… Amanhã tentaremos ver o que você consegue lembrar e também quero te mostrar as redondezas…

Yue – Está bem… - Yue se levanta com um pouco de dificuldade, sobe as escadas e vai para o quarto onde havia acordado, agora deitando novamente, o sono veio rápido.

Quando acordou no outro dia, sentia-se feliz. Ao ver que Taylor não estava ali, presumiu que ele estava na cozinha e desceu correndo as escadas, pensando nas delícias que tinha comido na noite anterior, quando estava nos últimos degraus pôde ouvir a voz de outra pessoa, era uma voz de um homem adulto, embora fosse calma parecia estar carregada de algo mais, Yue não podia interpretar o que era, mas sentiu a necessidade de se aproximar com cuidado. Taylor argumentava alguma coisa com o homem e parecia estar irritado, Yue se aproximou da porta do hall de entrada e viu Taylor pra fora da varanda da casa discutindo com um homem alto de cabelos brancos cacheados, num corte punk raspados dos lados e atrás e cheio em cima num topete bagunçado, alguns cachos caindo sobre a testa, seus olhos dourados fitavam Taylor como se a qualquer momento pudesse fritá-lo.

Então as duas esferas douradas cheios de energia fitaram Yue dentro da casa escondido atrás da parede apenas com uma parte do rosto o suficiente para espiar os dois la fora. Um sorriso repuxou os lábios do homem para o lado esquerdo do rosto num sorriso torto.

Os olhos de Taylor perderam o foco de terror quando sentiu que Yue estava ali, mas manteve-se parado firmemente.

Éolo – Então ele está ali… Sua habilidade de esconder coisas é excelente, se eu não o tivesse visto com os meus próprios olhos, você poderia ter me enganado… Mas é uma pena que todo o seu esforço tenha sido em vão… De qualquer forma eu deveria parabenizá-lo…

Taylor – Fique longe Anjo… Eu não quero ter que mostrar meus outros talentos. - Sorri desafiadoramente. Éolo olhou com o canto dos olhos para Taylor a expressão agora estava mudada para desprezo e nojo.

Éolo – Você não ousaria a enfrentar um anjo, filho do mar.

Taylor – Dê mais um passo e você não pode se surpreender… - O tom feroz. De repente o ar ficou pesado e úmido, a pressão do ar pareceu desestabilizar o anjo que deu um passo para trás. Seu rosto se enfureceu fechando como uma tempestade, o céu azul e ensolarado escureceu numa tormenta, eletricidade encheu o ar e a pressão ficou ainda mais forte.

Yue na porta parecia não ser afetado pelos fatores externos, mas estava aflito vendo Taylor enfrentar aquele ser sozinho, quando ia sair da casa, a porta se fechou pesadamente, Yue caiu no chão assustado.

Taylor – Yue! Fique onde está! Vai ficar tudo bem, só tenho um anjo pra depenar antes… - Éolo riu alto.

Éolo – Garoto insolente… Você vai precisar mais do que insultos para que eu possa te reconhecer como um inimigo a minha altura… Mas devo admitir que você tem coragem…

Taylor – Parece que eu não sou o único que gosta de falar…

O anjo explodiu eletricidade, nas sombras feitas dos raios, dava para perceber as sombras das asas que não apareciam fisicamente, um forte vento começou a se concentrar em espirais em volta dos braços do anjo, o atrito do vento parecia causar eletricidade, ao redor de Taylor, as gotículas da umidade se concentraram em serpentinas de água que serpentinizavam em volta de Taylor. Éolo sorriu:

Éolo – Desista garoto e me entregue o dragão negro, você sabe que não vai adiantar em nada o que você vai fazer, o fim está próximo e para todos nós… Você não pode salvá-lo, precisamos selá-lo, não seja teimoso… Depois que eu te destruir, vou destruir essa sua barreira fraca e capturá-lo de qualquer forma… Resistir é inútil…

Taylor – Desculpe, mas nenhuma galinha depenada vai me dizer o que fazer, é decepcionante saber que a fé dos próprios seres celestiais é tão fraca… Deveria aprender mais sobre a fé anjo.

Éolo – Já vi que é realmente inútil discutir com um filho do mar estúpido… Vou ter que destruí-lo!

As espirais de vento aumentam a intensidade de movimento e se transformam em uma argola em cada braço, o vento vai se tornando cada vez mais material e brilhante, as argolas de vento agora são duas argolas douradas, elas escapam voando de seus braços e ficam se movimentado em uma órbita aleatória, quando uma argola encostava na outra davam pequenos choques. Éolo se afasta e suas argolas atacam Taylor em fração de segundos, mas quando as argolas se aproximam, os jatos de água se tornam bolhas de água em volta das argolas, inutilizando-as. Éolo sorri e seus olhos brilham azul, as argolas liberam raios evaporam as bolhas e quase acertam Taylor, mas ele é mais rápido e consegue esquivar, as argolas seguem para Taylor, ele consegue desviar de uma que ia o atingir no rosto, mas outra o acerta nas costas e como previsto, ao acertar o corpo do garoto, libera choque, o impacto do choque é alto o suficiente para lançar Taylor no ar, mais longe da casa.

Éolo se apressa e dispara voando para perto da casa, mas quando está perto de chegar, os regadores disparam água e em menos de um segundo uma fera de água surge na frente do anjo. A fera com um rugido de água atinge o anjo com pressão da água e o lança para o céu. Taylor se levanta ainda se recuperando do ataque, as argolas estavam pousada no chão inertes, Taylor olha para a casa e vê os irrigadores disparados e corre para perto da casa, mas uma forte explosão elétrica destrói os irrigadores grama e terra na frente da casa, algo invisível parece proteger a casa. Éolo dispara do céu para o chão em direção a Taylor, esse se concentra e forma a sua frente um tridente de água e lança contra o anjo que consegue desviar, mas assim que ele passa pela lança, ela se transforma em uma rede segurando por alguns instantes o anjo no céu, mas mais uma vez o poder elétrico evapora toda a água e continua seu trajeto contra o garoto no chão. Taylor abre os braços e as mãos e um brilho azul-claro explode do corpo dele e as gotículas de água se transformam em pequenos espinhos que atacam o anjo furiosamente obrigando o anjo a mudar a direção pra tentar fugir dos espinhos, mas Taylor os controla para seguir o anjo que está concentrado em evitar o ataque, num contorno rápido e uma manobra, ele tem todos os espinhos atrás de si e se lança novamente contra Taylor, agora com duas bolas de energia em suas mãos, delas ele dispara dos raios poderosos contra o garoto, este bate o pé no chão agitando as gotas de água nas plantas e a fera surge novamente na sua frente e ela dispara um jato de luz azul que combate os raios dourados, fumaça de vapor nubla o céu e Taylor perde o anjo de vista, mas seu reflexo age antes que sua razão, ele consegue desviar por pouco de um raio dourado vindo da direção da casa.

Assim que Taylor se estabiliza no chão, as argolas vêm em sua direção, agora fumegando eletricidade. Taylor faz o que pode para escapar das argolas, embora elas sejam muito mais rápidas que ele, uma delas o derruba no chão e a dor do choque impossibilita que ele se levante novamente.

Éolo pisa na varanda e a barreira treme, depois ondula e finalmente sede, desaparecendo, caindo como gotas de chuva, a porta abre com Yue forçando para sair, ele está caído no chão devido a força que fazia pra abrir a porta que abriu livremente. Mas antes que ele pudesse pisar pra dentro da casa, a batente da porta pega fogo, Yue pula pra trás assustado, Éolo revira os olhos e vira a cabeça para o lado esquerdo, olhando de canto, vê Eriol ajudando Taylor a ficar em pé, este resmungando

Taylor – Por que demorou tanto?

Eriol – Taylor-chan luta tão beeeemmm!!! É tão lindo de ver! Sr fera-chan é tão fofinho!

Taylor – Não chame ele assim! Seu irresponsável!

Eriol – Maaaaa Maaaa Taylor-chan não precisa ficar bravo! - Na porta Éolo dispara um feixe de luz dourado contra os dois, Eriol empurra Taylor pro lado que cai desajeitado no chão por causa do machucado nas pernas, Eriol chuta a energia como se fosse uma bola de futebol, a energia volta a trajetória ainda com mais força, Éolo desaparece da frente do projétil que continua na direção de Yue, ele grita assustado e abaixa desviando por pouco. O projétil atravessa as paredes da casa e explode na terra. Taylor vendo a cena estava a ponto de ter um ataque

Taylor – No que você está pensando?

Eriol – Gol?

Taylor – Seu idiota!!!!! - Eriol começa a rir, Éolo aparece atrás de Yue que ainda está no chão chorando de medo, quando Éolo vai pegar Yue, uma fada de fogo sai das chamas do batente e toca na mão do anjo queimando-a e fazendo tsc tsc tsc balançando a cabeça e a varinha negativamente, Éolo dá um tapa na fada que desaparece como uma chama abafada, mas quando volta a olhar Yue, o garoto já não estava mais ali. Eriol estava com ele debruçado em um de seus ombros

Eriol – Salvei a hime-chan da galinha malvada! Hahahahaha… - Yue olhou pra Taylor se questionando “princesa?” Taylor olha com cara de que era melhor não contrariar. Éolo respira fundo, ajeita o cabelo com os dedos, o penteado havia sido destruído por causa da água, as argolas douradas estavam derretidas no chão.

Éolo – Eu cansei de brincar com vocês… Suas peripécias não me afetam, só me irritam e vocês não vão querer me ver irritado de verdade… Me entreguem o dragão, ou eu vou ter que usar minha verdadeira força…

Nobi – Ficar irritado não é elegante… - Todos olham para a direita, Nobi está em cima de um galho de árvore escorado no tronco, está cheirando uma flor de cerejeira de um dos galhos, seus olhos completamente negros e estreitos olhando perigosamente para Éolo que agora parecia tremer com uma expressão muito irritada. - Você não tem permissão para estar aqui, não é mesmo anjo? Por isso não pode usar seus poderes completamente… Sugiro que se retire antes que eu o convide para sair…

Éolo estreita seus olhos dourados queimando de ódio, por fim ele desaparece junto com o ouro derretido no chão. Eriol coloca Yue no chão:

Eriol – Pronto hime-chan! Você está salva! - Yue tomba a cabeça para o lado desconsertado.

Nobi – Essa foi por pouco… - Pula do alto da árvore e pousa elegantemente.

Taylor – Nobi? O que você está fazendo aqui?

Nobi – Um pouco de educação, por gentileza, fedelho… Desagrrr… - Eriol acerta uma voadora em Nobi, os dois caem no chão, Eriol por cima.

Eriol – Oni-chan! P… - Nobi acerta um tapa com as costas da mão arremessando Eriol para os arbustos que se tornam monstros espinhosos que o prendem e começam a tentar engoli-lo com suas bocarras vazando ácido e veneno, Eriol segurando uma das bocas com as pernas e a outra com os braços, choramingando para Nobi. Yue e Taylor chocados com a cena.

Nobi se levanta batendo a sujeira da roupa molhada e embarrada e desaparece, furioso. Taylor e Yue ainda paralisados, as plantas deixam de ser monstros e soltam Eriol que corre chorando dos arbustos

Eriol – Oni-chan é mal!!!

Taylor – Você é um pivete mal educado, isso sim… Bem… Vamos pra dentro, tenho que erguer a barreira, antes que a gente seja atacado novamente… Os três seguem pra dentro da casa, Taylor faz alguns gestos com as mãos e os destroços viram água e voltam para o lugar, reparando toda a casa, andando casualmente por ela assim como Eriol, mas Yue fica observando surpreso vendo a mágica acontecendo. Quando chegam na cozinha, Taylor se põe a cozinhar alguma coisa, enquanto Eriol e Yue se sentam a mesa de trabalho da cozinha.

Yue – Ahm… Posso perguntar, o que exatamente está acontecendo?

Eriol – Claro! Você é um deus alienígena que veio pra cá des… - Taylor quebra um rolo de massa de madeira na cabeça do Eriol, que cai desmaiado com a cabeça sangrando, Yue se encolhe surpreso e com medo de Taylor, este respira, pega uma colher de madeira e começa a mexer alguma coisa dentro da panela.

Taylor – Não preste atenção nele, ele gosta de fazer brincadeirinhas sem graça… - Sorrindo sem graça. - Na verdade… Nós íamos conversar sobre isso… Não era exatamente assim que eu queria abordar o assunto… Eu vou preparar nosso almoço e depois conversamos, prometo que eu vou te explicar tudo, só preciso pensar direito nas palavras…

Yue – Está bem… Estava mesmo pensando na sua comida… - Lambeu os lábios se lembrando do jantar, Taylor sorriu e voltou a cozinhar despreocupado com Eriol jogado no chão sangrando, Yue cutuca o garoto estranho no chão com o pé.

Depois do almoço, Yue e Eriol com dor no estômago de tanto que comeram, jogados no sofá da sala, Taylor sentado em uma poltrona com uma xícara de chá na mão, o olhar perdido no tempo. Yue se ajeita no sofá e vê Eriol dormindo profundamente, Taylor faz um sinal com a cabeça e os dois vão para a varanda agora intacta, eles sentam cada um em uma cadeira, Taylor respira profundamente, olha para o céu um pouco desconfiado depois olha para Yue.

Taylor – Eu não sei ao certo como começar a explicar isso… De alguma forma você sabe que veio de outro lugar, não sei ao certo de onde você veio… Mas sei o que você está pré destinado a fazer… E estou aqui para te ajudar no que você escolher fazer… Existe uma profecia a seu respeito… Bem… Na verdade não é sobre você, é sobre um deus que vive dentro de você… Eles chamam de Dragão Negro, o Deus da Destruição, a profecia diz que esse Deus vaga pelo universo julgando e destruindo os mundos que ele considera não dignos…

Mas a parte da lenda que eles não conhecem é que o Dragão Negro também é o Deus da Criação, em vez de destruir, ele pode trazer paz aos mundos e fazer coisas incríveis por povos que vivem em condições ruins, por isso é importante que antes que o dragão negro acorde e queira destruir tudo, ele tenha plena consciência de que cada vida é importante e vale a pena, indiferente de qual seja a forma de vida… E basicamente é por isso que estou aqui, quero trazer esse conhecimento para você, Yue, para que você possa ver o quanto as vidas valem…

Yue – Entendo… Não se preocupe, eu confio em você, se você diz que cada vida vale a pena, eu acredito! De certa forma eu sei que tem alguma coisa estranha comigo, eu não consigo me lembrar de onde eu vim ou o que aconteceu, só sinto um grande vazio, mas em algum lugar aqui dentro existe alguma coisa que me assusta… De alguma forma eu acho que o anjo está certo… Se eu represento algum tipo de perigo para tantos seres, eu deveria ser selado, eu não me importo, já atravessei sabe-se lá quanto tempo vagando inconsciente e isso foi bom para que todos continuassem vivos…

Taylor – Yue… Isso não é verdade… Se você continuasse no espaço, o dragão negro poderia despertar ao invés da sua consciência normal… Eu fiz tudo o que pude enquanto você dormia para trazer a sua verdadeira consciência ao invés do deus da destruição… Além disso eu tenho fé, que ao contrário de trazer dor, sofrimento e destruição aos seres, você poderia de alguma forma controlar esse poder para melhorar os mundos e as vidas que já existem neles… Eu acredito no poder da criação que existe também nesse Deus…

Yue – Então você realmente acredita que existe um deus dentro de mim? E esse anjo… É só ele que está atrás de mim? Como ele me achou? Eu não consegui ajudar vocês em nada… Eu só gritei, esperneei e chorei desesperado…

Taylor – Você ainda não tem ciência do que e de quem você realmente é e nem do que é capaz de fazer… A prova disso é você ter sobrevivido por tanto tempo sozinho no espaço…

Yue – Ah sim, mas isso é porque eu não sinto a necessidade de respirar… Além de também não sentir necessidade de comer ou dormir, eu consigo, mas se eu não fizer, não vai me matar… As vezes não é um poder, é só uma característica de sobrevivência….

Taylor – Não precisa ter medo… Vai ficar tudo bem Yue, estarei sempre ao seu lado.

A conversa acaba ali, com Taylor sorrindo para Yue que se sente confortado e também sorri, os dois se encaram por um tempo e depois encaram o céu azul.

Eriol acorda gemendo de dor na cabeça, passa a mão no galo onde a Tayor havia quebrado o rolo e vaga pela casa, quando vê os dois sentados na varanda e vai até eles.

Eriol – Isso não vale, não pode brincar com rolo de massa, é muito perigoso… - Taylor e Yue olham para ele que se senta na cadeira ao lado de Taylor.

Yue – Quem é ele mesmo? - Apontando para o garoto de cabelos loiros e pele escura sentado ao lado de Taylor

Taylor – Ah sim… eu não apresentei vocês… Esse aqui é o Eriol, ele é um guerreiro sagrado do fogo, aquele que estava nos atacando é o Éolo, um anjo que está agindo por conta própria, o outro que apareceu se chama Nobi, ele é um demônio, apesar dele ser muito chato, ele é muito forte, estaríamos realmente encrencados, se ele não tivesse aparecido… Ah… Que cabeça a minha… Eu me chamo…

Yue – Tayor, você vem de uma cidade escondida no fundo do mar, e é muito importante para o seu povo, mas veio para a superfície por causa da sua visão, de uma profecia que eu não consegui ver… Quando eu toquei a sua mente, pude ver e ouvir quase tudo na sua mente, você é realmente uma pessoa muito bondosa e acredita muito na sua missão… - Taylor o olha surpreso e depois sorri um pouco tímido, Eriol, abraça o garoto embaraçado.

Eriol – Taylor-chan é muito bonzinho, só precisa ficar longe de rolos de massa… - Diz rindo abraçado ao pescoço de Taylor.

Nobi estava encostado numa das pilastras de madeira pintada de branco ao atrás de Taylor e Eriol. Com roupas novas e limpas, havia algo diferente no cabelo também e em sua mão tinha um ramo de uma flor branca.

Nobi – Bem… Eu detesto interromper momentos tão fraternos, mas Dimom está esperando por vocês…

Eriol – Senhor tronco-sama? O que ele quer?

Nobi – Pergunte você mesmo, não sou pago para ser pombo correio de crianças de fraldas sujas – Nobi desce as escadas para o gramado, os três garotos o seguem. O demônio faz um círculo no ar com o ramo de flores brancas e uma luz azul esverdeada emana do círculo ondulando no ar, Eriol bate palmas e pula pra dentro da luz, Yue hesita, mas Taylor o puxa pela mão, Nobi revira os olhos, passa pelo portal que se fecha.

Do outro lado do portal, há um grande campo gramado verde perfeito, árvores no horizonte e também montanhas. Do outro lado tem uma casa de campo semelhante a casa de Taylor só que maior e mais bem cuidada. Ao redor da casa há um cercado de madeira pintado de branco, há uma abertura sem portão no meio do cercado, na varanda há um homem gigante e musculoso. Ao se aproximar da casa, percebe-se que na verdade ela estava mais longe do que parecia, pois ela era proporcional ao tamanho descomunal do homem na varanda, o cercado que deveria ter um metro de altura mais ou menos, tinha quase 2 metros. Yue olha tudo impressionado, Nobi está logo atrás do garoto observando-o como se fosse algum tipo de erva daninha, Taylor parece sentir o olhar de Nobi e puxa Yue para mais perto olhando pro demônio fazendo cara feia, Eriol anda distraído olhando a paisagem, parece achar alguma coisa no meio do mato e sai correndo igual um cachorro que farejou alguma coisa. Taylor parece não se importar, Nobi revira os olhos, Yue observa o garoto correndo livremente.

Taylor – Não se preocupe, ele não bate bem da cabeça mesmo, mas temos sorte dele estar do nosso lado, ele é mais forte e mais esperto do que parece…

Nobi – Tão esperto quanto uma ameba…

Eles chegam próximo à varanda e o homem se levanta com um sorriso no rosto, se espreguiçando.

Taylor – Esse é Dimom, ele é nosso mestre, ele também acredita que você pode promover o bem e está aqui para ajudar.

Dimom – Seja bem-vindo Yue! Esta é a minha dimensão, imagino que você tenha muitas dúvidas sobre de onde você veio e quem é, eu posso te explicar tudo! Venha! Entre! Tenho uma boa refeição esperando por nós… Não é tão boa quanto a de Taylor, mas ainda está quente… Taylor, vocês demoraram… O que houve?

Taylor – Tivemos um imprevisto…

Nobi – Éolo apareceu para o café da manhã, sabe como anjos gostam de minhocas pela manhã… - Dimom segurou a risada olhando para Nobi.

Dimom – Imagino que isso não te deixou de bom humor…

Nobi – É… Ele estava usando as cores erradas, além do cabelo desgrenhado, nada elegante… - Dimom olha nervosamente para Taylor.

Dimom – Então… Ele veio sozinho?

Taylor – Sim, por sorte… E de alguma forma ele não podia usar todos os poderes dele, fiz o possível para atrasá-lo, mas se não fossem por Eriol e Nobi, ele teria levado Yue… Preciso ficar mais forte…

Dimom – Se acalme Taylor… Você está indo muito bem, convocar uma criatura como Kraken apenas com gotas de água na grama é algo realmente bem difícil, mesmo num tamanho menor, o poder dele era realmente alto para o seu nível, fez muito bem… Aposto que mesmo ele teve um pouco de dificuldade em te enfrentar… - Taylor corou sem graça, Yue pareceu um pouco abatido por lembrar que não pôde fazer nada para ajudar, mas sorriu para o amigo.

Yue – Verdade, obrigado, você se arriscou para me salvar… - O rosto de Taylor agora chega a tons roxos de tão vermelho que ele ficou, apressou o passo pra dentro da casa cambaleando. Dimom sorriu ao ver a cena, virou-se para Yue.

Dimom – Não se preocupe, ele vai ficar bem… Nosso Taylor tem um fraco por elogios… Ele nunca acha que é bom o bastante, está sempre se esforçando, mesmo um filho do mar como ele não poderia ser tão forte e bondoso… - Yue sorriu, os dois entraram na casa enquanto Nobi se sentou num banco de madeira almofadada alto na varanda e acendeu um cigarro.

Dentro da casa, o teto era alto, tinha pelo menos 6 metros de altura. Dimom levou Yue até a sala de jantar, onde a mesa estava servida, cheia de pratos de comidas diferentes e servida para seis pessoas, Taylor veio da cozinha já vestindo um avental, mexendo algum tipo de molho em uma vasilha de vidro sorrindo:

Taylor – Esse é pra salada – Explicou satisfeito. Todos se ajeitaram à mesa que também era mais alta do que o normal, haviam almofadas grandes em cima dos assentos das cadeiras, menos na cadeira da ponta onde Dimom está sentado. Yue se senta ao lado direito da ponta, Taylor ao lado.

Taylor – Vou chamar os outros… - De repente um grito ecoa estilo Tarzan e Eriol despenca do teto em cima de Dimom, ele cai em pé em cima da cabeça do gigante, mas não causa dano algum, Dimom olha para o garoto em cima da sua cabeça sorrindo travesso.

Eriol – Tronco-saaaann!!! - Pula da cabeça de Dimom e pousa em pé no chão. O homem o olha de um jeito sinistro, até Eriol parece notar, todos ficam em silêncio com o suspense, quando o homem solta uma gargalhada, passa seu braço imenso e musculoso pelo pescoço fino do garoto, engancha e o puxa, ele aperta um pouco mais forte o braço, sufocando Eriol de leve e com a outra mão fechada, esfrega os nós dos dedos na cabeça dele, bagunçando os cabelos claros e curtos, de repente um furão sai de dentro da camiseta de Eriol, e sobe na cabeça do gigante e começa a puxar seu cabelo com as pequenas patas, guinchando furioso. Dimom continua sorrindo divertido enquanto diz:

Dimom – Eriol! Como é bom te ver! Me pegou desprevenido dessa vez! Tá melhorando garoto! - Eriol protestando se repuxando do braço de ferro de Dimom que finalmente solta, Eriol cai no chão. O furão pula de cima da cabeça de Dimom e fica ao lado do garoto caído no chão, preocupado. Eriol – Está tudo bem senhor furão, Dimom só estava brincando – O animal guincha mais uma vez para Dimom que parece estar se divertindo com a dupla. Eriol se levanta um pouco emburrado e se senta a mesa de frente para Yue que olha maravilhado para o senhor furão que subiu na cabeça do garoto loiro alerta para reagir a qualquer ato de violência contra seu amigo. Nobi está parado na entrada da sala, observando a cena, havia um sorriso de divertimento nos lábios do rapaz. Ele se aproxima, seguido de outro rapaz um pouco mais alto que Nobi, loiro de cabelos compridos, está sorrindo depois de dizer algo baixo o suficiente pra ninguém escutar. Ao ver Yue seus olhos azul se intensificam, ele vai direto na direção do garoto ignorando o resto das pessoas.

Douyga – Yue! Então você finalmente veio! Estávamos te esperando! - Yue se encolhe na cadeira imensa, parecendo menor do que já era. Douyga pára ao seu lado entre Yue e Taylor e se inclina para passar a mão na cabeça do garoto – Que bom que está aqui! - Olhou para a mesa – Nossa! Quanta coisa gostosa! Estou morrendo de fome!

Nobi – Vocês está sempre morrendo de fome…

Douyga – Nós, humanos sempre queremos mais, não é mesmo? - Lança um olhar desafiador para Nobi que está sentado a uma cadeira de distância de Eriol.

Dimom – Bem… Já que estamos todos aqui, vamos comer… - Douyga dá a volta na mesa e se senta na cadeira entre Nobi e Eriol. Quando ele se senta, Eriol se vira para ele e os dois começam a fazer um toque combinado cheio de movimentos estranhos e barulhos com a boca, depois que acabam, eles dão risada, Taylor se apressa, se servindo de salada e passando a tigela para Yue ao seu lado, Eriol e os outros se servem do que está mais próximo de si e passa para a pessoa ao lado até todos se servirem de todas as coisas que quisessem.

Depois da refeição, Taylor está na cozinha fazendo a limpeza enquanto Eriol e Douyga estão correndo no quintal da casa brincando com o Sr furão. Nobi está deitado confortavelmente em um sofá enquanto Dimom leva Yue para a biblioteca.

Dimom – Então Yue, o que está achando da sua estada aqui até agora?

Yue – Divertida… Um pouco misteriosa, mas divertida… É estranho como todos sabem o meu nome e me cumprimentam como se me conhecessem e falam comigo como se eu fosse alguém importante, mas eu sou uma pessoa comum, pelo menos eu gostaria de ser tratado assim…

Dimom – Sinto muito, mas você é uma pessoa importante Yue e vai ter que aprender a viver com essa responsabilidade… Eu vou te contar sobre o seu passado…

Há muito tempo, num planeta muito distante daqui, chamado ASA havia um reino, o maior reino deste planeta estava fadado a não ter um herdeiro, apesar disso, era um reino muito próspero, o povo vivia muito feliz naquele reino, não havia fome ou pobreza e as pessoas eram muito educadas e generosas, esse povo ajudava outras terras, outros reinos e até outros planetas. Porém, havia uma profecia, bem… Era mais uma lenda… sobre uma das luas que brilhava no céu apenas a cada seis mil anos… Essa lua era conhecida como lua negra e a lenda dizia que na verdade aquela lua era um lacre que continha uma criatura muito poderosa selada lá desde tempos imemoráveis, essa criatura era conhecida como dragão negro, o senhor julgador de mundos, deus da destruição… Não existem registros de onde surgiu essa lenda e nem por que havia se espalhado naquela forma… A questão é que em noite de lua negra, nenhum ser nasce vivo… Foi nesta noite que você nasceu e todos os outros seres morreram… O motivo pelo qual você não morreu, foi porque você foi o envólucro escolhido, desde muitas eras, finalmente o deus escolheu um ser para habitar e sair de seu lacre… - Yue engoliu seco.

Dimom – Você era o príncipe regente desse nobre reino, orgulhosamente chamado de Reino da Pluma da Paz, ou Apenas Pluma. Seu pai era um rei bondoso e muito poderoso. Quando você nasceu, ele fez questão de mostrá-lo à corte, organizou uma grande festa para comemorar o seu nascimento. Mas o próprio povo do reino não estava feliz, assim como muitas pessoas que perderam filhos, animais e plantas por causa da lua negra. Eles acusaram o rei de seu egoísmo e falta de compaixão pelos povos que tiveram perdas… Além disso, começou a circular a notícia de que a profecia havia sido cumprida… Que o dragão negro havia encarnado em você… Então houve uma grande guerra… Muitos reinos, até mesmo aqueles que recebiam ajuda do seu pai se voltaram contra ele, se aliaram a outros planetas que enviaram suas tropas para matá-lo antes que o deus da destruição pudesse acordar dentro de você e destruísse seus planetas… A guerra tomou proporções inimagináveis, o povo que vivia pacífico e feliz abandonou suas terras e propriedades, muitos saíram até mesmo do planeta por medo, foi um caos absoluto… - Yue agora chorava, Dimom fez uma pausa enquanto via o garoto tentando recuperar o controle do choro.

Yue – Por favor Dimom… Continue… Eu preciso saber o que aconteceu… - Segurava a gola da túnica como se estivesse tentando estrangular as lágrimas. Dimom o olhou incerto, mas continuou falando, tomando cuidado com as palavras:

Dimom – Bem… Seu pai era um ser realmente muito poderoso e apesar das dificuldades e até mesmo falta de homens e equipamentos apropriados, estava vencendo os inimigos aos poucos. A guerra já durava anos e você crescia num ambiente hostil, sem amigos, num castelo ruindo, quase sem serviçais ou mesmo família. Sua mãe era um ser também muito importante, além de rainha do mais importante reino do planeta também era princesa de um outro reino em outro mundo, ela conseguiu alianças com seu antigo lar para ajudar a te proteger, mas quando você completou 11 anos… - Fez uma pausa incerto se deveria continuar, Yue o fitava com o rosto vermelho, mas agora sem chorar – Quando você completou 11 anos, você estava no campo de treinamento, seu pai estava certo de que com seus poderes ele finalmente venceria a guerra… Você treinou pesado, mais do que qualquer soldado ou cavaleiro, ainda criança. Você foi levado para o campo de batalha já que você tinha técnicas e também um nível de energia mais alto que a maioria das tropas, sua energia chegava a se comparar com a de seu pai, sem dúvidas ele era o guerreiro mais poderoso de que já tive notícias… Bem… Durante a sua primeira batalha as coisas saíram de controle… Os poderes do Deus acordou por um momento, mas foi o suficiente para destruir o seu planeta… - Yue começou a tremer, seus olhos assustados, arregalados, ele fitava Dimom em pânico.

Yue – Eu… Matei um planeta inteiro de seres vivos? Minha família… Todos…? Como eu pude? Como eu pude fazer isso? - Os olhos azuis do garoto começaram a ficar enevoados até ficarem completamente brancos, o corpo de Yue começou a brilhar uma luz branca que tomou forma de uma aura em torno dele. Dimom o olhava um pouco preocupado, mas não disse nada nem fez nada. De repente a luz começou a espiralar e ganhar uma pressão poderosa, tudo começou a tremer, livros caiam das prateleiras, o chão começou a tremer, as paredes começaram a rachar. Dimom estalou os dedos e Yue desabou na poltrona desacordado. Taylor apareceu na porta da Biblioteca ofegante:

Taylor – O que houve?! Ele está bem?

Dimom – Está dormindo… Contei a ele sobre seu passado, ele entrou em estado de choque, pode ser que demore para acordar novamente, mesmo assim quando ele acordar, temos que ficar de olho nele, saber de tudo o que aconteceu pode despertar as memórias dele…

Taylor – Dimom! Ele não estava preparado para tanto… Porque…?

Dimom – Temos que saber como ele vai se comportar daqui pra frente… Ficar escondendo a verdade dele só pioraria a situação mais tarde, você sabe que eu não sou o único que pode viajar no tempo… Com certeza eles também sabem e vão usar isso, deixá-lo ciente disso vai nos dar alguma vantagem, além de ser justo… Por mais doloroso que isso seja… -Taylor foi até Yue desacordado e abaixou ao seu lado, ajeitou algumas mechas de cabelo que estavam no rosto de modo protetor, depois o pegou no colo e saiu da biblioteca. Dimom ficou sentado perdido em seus pensamentos.

Alguns dias depois, Yue estava acordando, quando sentiu alguém pegando na sua mão, olhou para o lado e viu Taylor dormindo, debruçado sobre a cama, Yue sentiu a cabeça e o corpo doerem

Taylor – Yue… Você está bem? - Soltou a mão para limpar a baba da boca, bocejou sonolento. Yue tentou se sentar na cama, mas sentia sua cabeça muito pesada, então permaneceu deitado.

Yue – Há quanto tempo estou dormindo?

Taylor – 3 dias… Você desmaiou depois de entrar em estado de choque, não sabíamos quanto tempo você passaria dormindo…

Yue – Ah sim… - Ficou com o olhar distante, tentando alcançar suas memórias.

Taylor – Sinto muito pelo que houve… Devo confessar que eu já sabia sobre o seu passado e fiquei com muito medo quando você entrou na minha mente… De que você descobrisse algo…

Yue – Não… Eu não vi essa parte, você estava guardando fortemente, então eu resolvi não entrar, não queria ver nada privado, só aprender a me comunicar…

Taylor – De qualquer forma eu queria que você soubesse, eu não tenho nenhum motivo ou vontade de mentir ou esconder coisas de você, só faria isso, se fosse para te proteger.

Yue – Está bem, eu sei que seus motivos foram bons, não se preocupe quanto a isso… Apenas me diga… O que posso fazer agora? Eu destruí o meu mundo, não tenho mais ninguém…

Taylor – Yue… Você pode contar comigo, sempre! - Segurou a mão do amigo com força, os olhos decididos olhando para Yue.

Yue – Obrigado… - Sorri bondosamente.

No outro dia cedo Yue já estava de pé, na cozinha ajudando Taylor com o café da manhã, os dois pareciam estar se divertindo enquanto quebravam os ovos pra fazer os omeletes, nem parecia que Yue tinha passado a noite passada toda chorando e em claro pensando nas coisas que Dimom lhe contara, mas não conseguira lembrar. Eriol foi o primeiro a descer pra cozinha, ainda sonolento, sentou-se a mesa e já se serviu do pequeno banquete que Taylor e Yue acordaram cedo para preparar, em seguida desceu Douyga, tinha um olho roxo e metade do rosto inchado, Taylor lançou um olhar para Yue como quem diz: “nem pergunte…” Dois segundos depois Nobi estava descendo as escadas, vestido impecavelmente, os cabelos compridos alinhados, assim como as roupas de algodão. Dimom veio logo atrás. Yue levou dois pratos com omeletes para a mesa, todos pareciam um pouco emburrados, mas ao verem-no esboçaram um sorriso e um bom dia, mas era visível o quanto estavam esgotados. Taylor trouxe os últimos omeletes, todos se serviram e comeram.

Dimom – Yue? Está se sentindo melhor hoje?

Yue – Sim! Estou muito bem, desculpe por ter deixado vocês preocupados, acho que estava cansado, ainda não me recuperei completamente do período de hibernação…

Dimom – É… Foi um longo tempo… O que acha de se juntar a nós hoje para começar o seu treinamento? Prometo não pegar pesado…

Yue – Sim! Vou ajudar Taylor com a limpeza e depois vou junto!

Taylor – Ah… Não se incomode com a limpeza, eu posso fazer isso, é importante que você vá se divertir um pouco e não tem nada mais divertido para se fazer aqui além dos treinamentos do Dimom.

Yue – Tem certeza? Você também parece cansado…

Taylor – Eu só não dormi muito bem ontem… Mas agora já me sinto melhor…

Nobi – Bem… Vejo vocês no campo… - Se levantou e saiu.

Dimom – Parece que alguém está de mal humor hoje… - Lançou um olhar para Douyga, cujo machucado no rosto já havia sumido quase que completamente, ele sorriu

Douyga – Ele está sempre fingindo que está de mal humor… Mas na verdade ele está bem feliz… - Riu malignamente. Eriol se espreguiçou ainda sentado na cadeira imensa, soltou um longo bocejo bem alto e preguiçoso, uma chama saiu da sua boca e apagou, ele saltou da cadeira e balançou o corpo. Sr Furão saiu preguiçosamente da camiseta do garoto, guinchando por causa dos movimentos bruscos.

Eriol – Bom dia!!!! - Saiu correndo para o quintal enquanto Sr furão ficou no chão parado tentando acordar, mas preferiu deitar no chão mesmo e continuar a dormir – Yue olhou confuso para Taylor

Taylor – Ele tem delay de manhã…

Yue – Ah tah… - Dimom ri

Dimom – Nosso Eriol é uma figura, agora que ele comeu, vai funcionar com energia total!

Yue – Também vou me esforçar!

Alguns minutos depois, Yue estava no quintal vestindo uma roupa de treino, atrás da camiseta estava escrito “O foco é vencer!” na frente da camiseta branca tinha uma logo de um smile com uma faixa preta amarrada a nuca. Taylor o chama:

Taylor – Yue…! - Ele se vira para trás, Taylor apressa o passo, vestindo as mesmas roupas de treino – Esqueci de mencionar, mas essas coisas vieram junto com você… - Ele tira do bolso um masso de papel em formato retangular que lembram cartas de baralho, porém são maiores e em textura de pergaminho antigo, papel amarelado.

Taylor – Eu senti muito poder emanando delas, mas quando as peguei, elas de repente ficaram frias e sem nenhuma energia… Acho que deve ser algum tipo de lacre… - Entrega as cartas para Yue, que as recebe um pouco confuso, mas quando o olhou a primeira carta do baralho, o símbolo parecia um ¢ como a guarda de uma espada de esgrima, o traço reto mais alongado, como se fosse a lâmina dela.

Uma luz branca emanou da carta e entrou na mão de Yue, Taylor olhou intrigado

Taylor – Um feitiço de laço sanguíneo… Os feiticeiros do seu planeta levavam muito a sério os artefatos mágicos… - Yue olhava da mão para as cartas com medo de que mais alguma coisa entrasse nele, mas nada aconteceu.

Dimom se aproximou dos dois:

Dimom – O que está acontecendo por aqui?

Taylor – Estreguei os pergaminhos para ele, incrivelmente, eles estavam lacrados com feitiço de sangue, por isso elas não reagiram a nossa energia…

Dimom – Bem… isso explica algumas coisas…

Taylor – Sim… Uma delas entrou na mão de Yue, acho que ele deve ter convocado os poderes dela sem saber…

Dimom – Bem… precisamos saber qual o poder que elas têm.... - Dimom se aproximou de Yue que ainda estava confuso, Yue se virou para Dimom, mas quando o mesmo se aproximou mais uma vez, todas as cartas na outra mão de Yue começaram a brilhar, Yue cambaleou e soltou as cartas, todas elas começaram a flutuar e fizeram um círculo em volta de Yue, como se fosse para protegê-lo, Dimom avançou mais um passo cauteloso. Da mesma mão onde a luz entrou, saiu mais um brilho e uma espada de esgrima, de cabo negro, cravejado de pedras roxas apareceu em sua mão, de alguma maneira, Yue assumiu uma postura de luta, seus olhos observavam Dimom como se o mesmo representasse algum tipo de perigo. Taylor parecia confuso olhando a cena

Taylor – Yue… O que está fazendo? - Deu um passo na direção do amigo, mas uma outra carta parou na frente do garoto – Yue? - Chamou Taylor, agora num tom um pouco assustado.

Yue – Elas estão agindo sozinhas… Não sei o que há de errado… Não consigo fazê-las parar…

Dimom – Elas estão tentando te proteger de alguma coisa… - Dá mais um passo, e de repente salta para longe a tempo de evitar ser atingido por um raio caindo diretamente do céu. Dimom parece surpreso, a camisa branca está chamuscada do raio da costura do ombro até o cotovelo. - Incrível… Magia elemental… Simplesmente inacreditável ele conseguir manipular a minha dimensão sem a minha permissão…

Taylor – Yue… Tente encontrar uma forma de controlá-las… Isso é realmente perigoso….

Yue – Como?

Taylor – Elas estão ligadas a você… Você deve acessá-las de seu subconsciente… Pode ser que elas estejam reagindo a algum sentimento seu…

Yue – Um sentimento meu? Mas eu não quero ferir ninguém… - Disse com um tom triste, de repente as cartas voltaram para a mão de Yue e a espada desapareceu.

Taylor – Ufa… deu certo…

Dimom – Interessante… - Disse pensativo observando Yue e as cartas em suas mãos – Acredito que isso será útil para o começo do treinamento.

Yue – Sim! Eu vou me esforçar – Disse ele sorrindo.

O campo de treino é uma planície mais ou menos do tamanho de um campo de futebol e estava bem afastada da casa, Dimom disse que não era para eles se preocuparem, pois mesmo que de alguma forma alguma coisa fosse em direção a casa, ela estava protegida com uma barreira.

Douyga e Eriol treinavam afastados, enquanto Nobi levitava e meditava próximo as árvores, Taylor estava concentrado com as mãos no gramado, Dimom e Yue estavam do outro lado do campo conversando:

Yue – Você está treinando todos eles?

Dimom – Não todos… Nobi é um demônio bem antigo, apesar de não aparentar… Ele já não precisa de treinamento… Nem mesmo Éolo se meteria com ele num combate direto sem ter permissão para isso…

Yue – Então é por isso que ele foi embora daquela vez… - Dimom ri

Dimom – Você presenciou uma cena muito rara na verdade… Em outra situação Éolo invocaria seus verdadeiros poderes e tentaria combater os três, mas acho que ele hesitou por sua causa também… Se seus poderes viessem a tona naquele momento, ele não teria nenhuma chance…

Yue – Eu ainda não acredito que eu poderia botar medo em um anjo, afinal de contas…

Dimom – Você precisa conhecer o que pode fazer de verdade e eu não estou nem falando do Dragão Negro… Seu poder sem a ajuda de um Deus já é suficiente para ganhar de Éolo, problema é que você não tem conhecimento sobre seus limites e nem tem consciência do seu potencial.

Yue – Eu já disse… Eu não quero machucar ninguém…

Dimom – Yue… Não existe outra forma… Eles virão atrás de você então o máximo que nós podemos fazer para equilibrar as coisas é simplesmente te treinar, você precisa conhecer os seus poderes, assim poderá proteger os seus amigos.

Yue – Está bem… Posso treinar, mas eu não quero que ninguém se machuque, então, eu vou treinar e depois que eu estiver bom o suficiente, partirei sozinho, se eles estão atrás de mim, isso quer dizer que quem estiver próximo a mim correrá risco e eu não quero isso…

Dimom – Infelizmente isso não é uma escolha sua Yue… Há uma profecia que só Taylor sabe, Eriol e os outros estão envolvidos na visão dele. Ele tem se preparado para isso há anos… Taylor é o príncipe regente de Atlântida, ele deixou seu lar por causa dessa visão e está se movendo pelo seu próprio propósito. Eriol é um guerreiro sagrado, ele foi enviado para cá por sacerdotes do fogo para te proteger.

Yue – Mas se eu ficar forte o suficiente eles poderão voltar para casa…

Dimom – Sim… Se você for forte o suficiente não precisará deles… A questão é: “Eles precisam de você, Yue”.

Yue – Não entendo…

Dimom – Não precisa entender tudo de uma vez… Apenas vamos fazer uma coisa de cada vez… Primeiro vamos cuidar do seu treinamento.

Yue – Está bem…

Dimom – Certo…Para começar vamos fazer um exercício de meditação – Dimom cruza as pernas no ar levitando, as mãos unidas na frente do meio do peito formando um círculo entre as duas mãos, um brilho azul-escuro contorna seu corpo, seus olhos fechados. Vai diminuindo a distância até o chão, pousando sentado em posição de meditação. Yue observa impressionado.

Yue – Como você fez isso?

Dimom – Canalização de energia… Apenas sente-se aqui, feche os olhos e respire. Yue senta-se ao lado de Dimom na mesma posição e começa a acompanhar a sua respiração.

Do outro lado do campo onde Taylor estava treinando gotículas de água estavam flutuando no ar, parecia estar no seu limite, mais gotículas eram extraídas do orvalho da grama e se juntavam às outras, uma gotícula se unia a outra formando gotas cada vez maiores cada gota do tamanho de uma bolinha de gude era um esforço imenso para ele. Por fim ele abriu os olhos esgotado e caiu sobre os joelhos suspirando, quando viu uma sombra ao seu lado, virou-se e viu Eriol o encarando com um sorriso largo no rosto.

Eriol – Hey Taylor-chan! Você está bem?

Taylor – Um pouco cansado… Minha conexão com o elemento está no limite…

Eriol – Não se preocupe… Você vai conseguir!

Taylor – Sim, eu vou! E o seu treino?

Eriol – O Douyga precisou de um tempo e eu não encontro Sr furão… - Taylor olhou para Eriol observando o garoto e percebeu que Eriol não havia suado e nem apresentava nenhum sinal de cansaço, a resistência dele era incrível e ter Douyga como companheiro de treinamento não era algo para qualquer um, Taylor não aguentara treinar com Douyga nem por uma hora e ficara acabado e nesse caso era Douyga quem pedia um tempo… Taylor não tinha ideia do quanto Eriol era forte, pois nunca o vira próximo de seu limite, as lutas e os treinos contra Nobi eram inconclusivos e Nobi sim era dos cinco o mais poderoso, tirando Dimom que ele não conseguia sentir a energia, isso o deixava confuso, pois se Dimom podia criar uma dimensão e também tinha tanto conhecimento, mas, mesmo assim, sentia ele apenas como um ser humano comum. Uma vez ele chegou a perguntar para Douyga, mas ele também não sabia o motivo, Nobi nunca quis tocar no assunto.

Eriol – No que está pensando? Alguma coisa está te preocupando? Alguém brigou com você?

Taylor – Ah não… não foi nada… - Era estranho como Eriol de repente começava a se comportar como uma criança brincalhona e arteira do nada… Os dois tinham a mesma idade, mas Taylor era mais maduro, enquanto Eriol tinha seus momentos de jardim de infância no meio de uma conversa profunda. Próximo a eles, Douyga se aproxima de Nobi que continua com sua meditação

Douyga – Está levando a sério o treinamento hein…

Nobi – Só estou entediado, Dimom me trancou aqui…

Douyga – Não é como se você não conseguisse sair daqui de qualquer jeito…

Nobi – Viajar pelo inferno não é algo que eu realmente goste… - Nobi ainda está de olhos fechados respondendo casualmente enquanto Douyga se aproxima e o toca no joelho

Douyga – Obrigado por ficar…

Nobi – Não precisa agradecer por nada, eu preciso ficar de olho nesse outro aí… Eu ainda não sei o que ele quer com o garoto… - Douyga sorri

Douyga – Sei… Então… o que você acha que está acontecendo?

Nobi – Não sei ao certo, mas coisa boa não é… Pelo que Taylor me contou, esse garoto é a reencarnação de um deus muito antigo, muito mais antigo do que os deuses que a gente conhece… A presença que eu sinto vindo dele é tão profunda que eu não duvidaria se me dissessem que ele é o ser que criou tudo e o nada…

Douyga – Isso quer dizer que nem você teria poder suficiente para lutar com ele… - Nobi ri em sinal de deboche, abre seus olhos de ônix e encara o loiro.

Nobi – Ninguém, nem nada do que a gente conhece seria capaz de deter essa criatura, se ela sair do controle do garoto… A única coisa que mantém a criatura presa é a falta de condicionamento dele, a energia oculta que tem dentro dele é tão grande que se o deus usar o mínimo de esforço, seu invólucro viraria pó e ele voltaria para sua prisão, acredito que é nisso que Dimom conta… Que se algo der errado, ele vai destruir o corpo do garoto e assim se livrar do deus… A questão é… Por que Dimom quer se arriscar tanto?

Douyga – Isso é um mistério… Só saberemos quando Dimom mostrar seu verdadeiro objetivo, não?

Nobi – Ah não… Isso seria suicídio… Temos que saber disso antes que ele comece…

Douyga – Nesse caso, acho que estamos um pouco atrasados, não acha?

Nobi – Não… Só chegaremos elegantemente na hora certa…

Os dois observam Yue e Dimom de longe meditando.

Depois do almoço, Dimom estava sentado em uma das cadeiras de balanço na varanda da casa sozinho, quando Nobi se aproxima.

Nobi – Então… Você vai me manter preso aqui até quando?

Dimom – Oh! Que descuido meu… Me desculpe, eu não fiz de propósito…

Nobi – Vindo de você, isso é quase uma ofensa, exceto pelo fato de que eu não me importo…

Dimom – Ora… Por que você é sempre tão amargo?

Nobi – Não me venha com os seus “oras” não estou com paciência pra isso…

Dimom – Já que é assim, por que você simplesmente não usa a passagem para o inferno?

Nobi – Engraçado você, né? Você sabe que eu detesto viajar pelo inferno, poderia me fazer o favor de abrir o lacre por um instante para que eu possa sair?

Dimom – Nobi… Você não está aqui por isso… Eu sei que você pode quebrar o meu lacre facilmente não é mesmo? Por que não me diz logo o motivo de ter vindo me perturbar?

Nobi – É o que os demônios fazem, não é? - Sorri sarcasticamente. Dimom revira os olhos – Me diga por que você quer treinar esse garoto… Sabe que enquanto ele não desenvolver suas habilidades o ser oculto nele jamais despertará, com o treinamento, o corpo dele vai conseguir suportar o despertar da criatura.

Dimom – Você nunca se perguntou o propósito de estarmos vivos? Do por que tudo isso existe? E todas as besteiras filosóficas que ninguém… Nem o ser mais antigo de todos conseguiria responder?

Nobi – Espera… Você simplesmente está treinando a criatura mais perigosa que poderia existir por que tem curiosidade? Que decepção… Achei que você queria completar a sua coleção de criaturas perigosas…

Dimom – Nem tudo o que eu faço é por capricho sr demônio…

Nobi – Entendo… O problema é que eu não confio no seu senso altruísta…

Dimom – Olhe… O lacre está desfeito, você já pode voltar para os seus desfiles, fotos e mundo artístico…

Nobi – Nossa conversa não acabou… - Desaparece numa nuvem verde que desvanece.

Já é de noite. Douyga vem do andar de cima descendo as escadas, vai até a cozinha onde Taylor está terminando de lavar a louça.

Douyga – Você viu o Nobi por aí? - Sem parar de fazer o que estava fazendo, ele fechou os olhos e depois de um rápido momento abriu os olhos e respondeu olhando para Douyga:

Taylor – Não… Ele não está mais por aqui…

Douyga – Você consegue sentir a presença dos outros?

Taylor – Sim… É uma técnica bem simples…

Douyga – Apesar de você ter pouca resistência física, você é bem habilidoso…

Taylor – Eu me esforço… - Sorri.

Douyga – Taylor… - Hesitou parando um passo a frente, olhou pensativo para o teto – Deixa pra lá… Não vá dormir tarde… Boa noite… - Dá as costas e volta pela escada. Taylor olha um pouco confuso onde Douyga estivera e sua expressão muda para preocupação.

Alguns dias se passaram, Yue estava desenvolvendo bem suas habilidades, agora treinava com Taylor já que a resistência dos dois era parecida, apesar de Yue não saber muito sobre luta corpo a corpo, ele tinha mais ímpeto em sempre levantar depois de levar um golpe ou mesmo continuar depois de Taylor já demonstrar um pouco de desgaste físico. Agora Yue já conseguia convocar as cartas e seus reflexos estavam um pouco mais aguçados.

Dimom – Está indo muito bem Yue… - Yue estava levitando, tentando manter a concentração, ele pousa no chão antes de se virar para Dimom.

Yue – Obrigado, mas ainda não consigo fazer nada enquanto levito…

Dimom – Ah sim.. Isso vem com o tempo só… Não e fácil no início, mas depois você se acostuma…

Yue – Acho que ficar vagando pelo espaço durante tanto tempo me fez sentir falta de manter os pés no chão…

Dimom – Isso pode ter relação mesmo… Mas você vai ter que superar isso… Aprender a voar vai ser muito importante para melhorar o seu condicionamento físico e mental

Yue – Entendo… só quero entender uma coisa…

Dimom – Sim?

Yue – Assim que o treinamento acabar eu vou voltar para a terra e enfrentar o anjo, certo? Mas se ele é um anjo eu não deveria ouvir o que ele tem a dizer?

Dimom – Os anjos não podem interferir no livre arbítrio dos seres vivos, você deve escolher o seu destino… O que ele está tentando fazer é encurtar o caminho e não de um jeito bom… Sabe Yue… Eu tenho que te contar uma coisa… O motivo pelo qual o ser que existe dentro de você não consegue acordar e utilizar seu corpo e poderes é simplesmente por que o seu corpo não aguentaria a presença dele… Algumas pessoas me perguntaram por que eu insisto em treinar você, já que enquanto não tiver condições de utilizar seus verdadeiros poderes todos estarão a salvo… Eu pensei muito nessa resposta… Então eu cheguei a uma conclusão… De uma forma ou de outra o ser que está aí dentro vai arranjar uma forma de fazer com que seu corpo fique forte o suficiente para que ele possa acordar, então que seja de uma forma boa, fora que Taylor iria te ajudar de qualquer forma e isso também o colocaria em risco… Portanto eu resolvi te treinar, para que você possa se proteger e proteger quem estiver perto de você…

Yue – Mas se eu me entregasse, ninguém estaria em perigo, nenhum de vocês…

Dimom – O problema Yue, é que você não tem ideia do que fariam contigo… e como eu disse, o ser que está dentro de você vai achar meios de fortalecer seu corpo… Eles não conseguiriam te destruir completamente, muito menos a criatura dentro de você. A verdade é que nem eu sei para o que eles te querem…

Yue – Então eles querem me destruir? - Dimom observa a expressão revoltada no rosto pálido do garoto, sua feição estava um pouco retorcida, apesar de ser um pouco assustador, Dimom manteve a expressão calma, mas pensou cautelosamente antes de continuar

Dimom – Não vai demorar muito até eles encontrarem essa dimensão para tentar te capturar, a verdade é que está até demorando um pouco mais do que imaginei… Logo vocês terão de sair daqui, mas o importante Yue é que você veja como a vida é preciosa… Taylor vai te levar para viajar, ele quer te mostrar coisas boas, ele quer te mostrar o que você deve proteger… Éolo e algumas outras pessoas que sabem de você estão com medo, por isso estão atrás de você. Você deve mostrar para eles que não há o que temer… - Aos poucos a feição de Yue voltou ao normal, parecia lutar com algo dentro dele, tentando acreditar nas palavras de Dimom. Taylor aparece na porta do quarto de Yue às pressas.

Taylor – Eles estão chegando… - Yue olha confuso de repente, seus olhos são tomados pelo pânico, Dimom desaparece, Taylor se aproxima de Yue e pega em sua mão. - Não se preocupe, nós vamos proteger você… - Sorri e sai as pressas.

No gramado para fora da cerca, Estão quatro rapazes, Éolo o mais alto, cabelos alvos, olhos dourados, pele levemente bronzeada. Ao seu lado um punk com cabelos pretos curtos, pele branca, tinha piercing em uma das orelhas, outro em uma das sobrancelhas, e outro no canto inferior do lábio, sua expressão era uma carranca mal humorada, levava um taco sobre o ombro, usava roupas curtas e jeans rasgado e largos de mais para ele, parecia observar ao redor cautelosamente. O Outro vestia roupas indianas de cores vibrantes, como laranjado, dourado e vermelho, tinha o cabelo vermelho e liso, sua pele era morena, os olhos vermelhos brilhavam como rubis em chamas, também tinha a mancha na testa no lugar do terceiro olho, ele parecia empolgado, o que lembrava um pouco Eriol. Por fim, o último era realmente estranho, vestia roupas comuns, uma blusa de lã, calça de jeans e um jaleco branco por cima de tudo. Usava óculos quadrados de armação preta, estava mexendo no celular distraído.

Dimom já está na frente deles de braços cruzados, Eriol também está ali, Douyga se aproxima com Taylor na sua cola.

Éolo – Dimom… Há quanto tempo… Estava com saudades, por que nunca me convidou para te visitar?

Dimom – Eu não sou muito fã de pássaros e coisas com plumas…

Éolo – Vamos parar com os gracejos… Só me entregue o garoto, você não entende com o que está lidando…

Dimom – Ao que me parece nem mesmo o céu sabe com o que está lidando… Se bem que na minha opinião eu não estou lidando com nada… Estou ajudando uma pessoa a encontrar seu próprio caminho… Não era isso o que os seres de luz deveriam fazer?

Éolo – Existem pessoas que já tiveram esse direito e perderam por se mostrarem perigosas de mais… - Dimom sorri.

Dimom – Perigosas de mais ahn? Falando nisso… Você não acha que foi um erro ter vindo aqui?

Éolo – Isso foi uma ameaça?

Dimom – É melhor ir embora anjo, não estou com paciência para o seu atrevimento…

Martinus – Olha… eu até to achando o papinho de vocês bonitinho, mas eu não to a fim de ficar aqui segurando vela… - O punk encosta a mão na barreira de Dimom que se desfaz, Taylor engole seco, os olhos verdes profundos e afiados do punk parecem estripar Taylor de longe. Eriol dá um grito empolgado como se fosse pular numa piscina de bolinhas, de repente ele saca uma espada estilo árabe e parte para cima do inimigo, Douyga coloca a mão na frente do rosto e uma pintura lembrando o rosto de uma raposa aparece em seu rosto, garras de energia aparecem em suas mãos, ele curva o corpo numa posição de luta selvagem e desaparece. Do outro lado, o indiano está esquivando dos golpes de Eriol enquanto um arco de fogo aparece em sua mão. Os dois são extremamente rápidos, O que parecia um cientista tirou um machado de emergência de dentro do jaleco e defendeu um golpe do que pareciam garras de energia.

Belatom – Douyga, Douyga… Você realmente não aprende mesmo né? Sua velocidade não é nada impressionante… - O cabo do machado cede com a força do próximo golpe, as garras passam de raspão em Belatom rasgando um pouco do jaleco, o cientista roda e se afasta agilmente para bem longe, seguido por Douyga – Isso vai ser divertido… - Ajeita os óculos desaparecendo.

Martinus anda calmamente em direção de Taylor que está logo atrás de Dimom, batendo de leve com o taco de beisebol na mão. Dimom encara o anjo ainda parado e observa que acima da cabeça do anjo tem uma luz dourada e suave sendo emanada. Dimom sussurra para Taylor

Dimom – * Pegue Yue e fuja, vou tentar segurar os dois… Você ainda não está preparado para enfrentar Martinus e Éolo está com a benção… Não imaginei que ele conseguiria… Mas devia ter imaginado que para ter entrado aqui tão desprevenido, algo assim teria acontecido…

Taylor – Dimom… Isso quer dizer que..

Dimom – Apenas pegue Yue e siga o plano, salve a vida de quantos conseguir…- Taylor reluta um pouco, mas o pavor é maior ao perceber que Martinus se aproximava, deixando cair duas lágrimas, Taylor se vira e corre em direção a casa, quando nota que Yue estava descendo as escadas da varanda, seu desespero fica ainda maior ao notar que Yue carregava a espada invocada da carta, uma luz branca e fria tremeluzia em volta de seu corpo. De longe Éolo olhava para o garoto e seus olhos brilharam. Dimom sorriu

Dimom – Vocês acham mesmo que vão conseguir? Não esqueça anjo, existem pessoas perigosas de mais para ter o direito de escolha… - Éolo o olha e um ínfimo brilho de medo se acende.

Éolo – Martinus! Cuidado! - Em uma fração de segundo Martinus estava no chão. O imenso corpo de Dimom estava chocando contra Éolo. Ao redor do anjo, a aura dourada refletiu Dimom, mas cedeu, o anjo agora estava no chão e cuspia sangue. Dimom vestia uma luva em uma de suas mãos com umas escritas estranhas.

Éolo – Maldito… Eu devia ter te destruído quando tive a chance… Você é pior do que qualquer demônio que existiu na face da terra…

Dimom – Ah Éolo… Eu deixei essa vida de lado… Hoje eu sou apenas um homem tentando fazer a coisa certa…

Éolo – Você nunca me enganou, não vai ser dessa vez… - Se levantou e limpou o sangue da boca – Prepare-se mortal! - Uma forte explosão elétrica ergueu poeira e grama, o céu começou a se fechar em pesadas nuvens negras e uma forte tempestade caiu sobre eles. Éolo agora tinha asas brancas, seus cabelos agora compridos até os ombros, os olhos dourados ainda mais brilhantes, segurava uma lança dourada em uma de suas mãos e levitava no céu. Um raio caiu do céu e atingiu Dimom, houve um forte estrondo com se a terra fosse se partir, o barulho ensurdecedor, Yue caiu sobre seus joelhos devido a pressão da energia do anjo.

Éolo – Yue! Entregue-se, você não tem mais nenhum destino… Dimom o está enganando… Tudo o que essa força que tem dentro de você representa é dor, escuridão e medo. A essência da destruição… Venha comigo e ninguém mais vai se machucar…

Dimom – E quem disse que alguém se machucou? - Éolo olha para baixo, onde a poeira está se dissipando e vê que Dimom está sem nenhum dano. - Taylor! Vá logo! - Assim como Yue, Taylor também estava imóvel por causa da pressão do poder do anjo, mas lutava com todas as suas forças para se mexer enquanto Yue mal conseguia respirar.

Martinus começa a se levantar, se recuperando do golpe que levara, assim que vê Taylor e Yue imóveis pega o taco e corre na direção do dois, quando de repente um vulto branco cai a sua frente, Martinus para por reflexo e vê o cientista caído inconsciente. Nobi aparece rapidamente, carregando alguém maior do que ele em um dos ombros, toca os dois garotos e todos desaparecem numa nuvem verde.

Éolo – Maldito demônio!

Dimom – Acho que ficar irritadinho não vai te ajudar agora… - Quando Éolo vê Dimom está pulando em sua direção, uma forte luz atordoa todos, então Éolo e seus companheiros desaparecem.

Eriol aparece ao lado de Dimom gravemente ferido por uma flecha no peito, assim que Dimom o vê, ele toca a flecha com a mão vestida com a luva e a flecha desaparece, assim que tocou no ferimento este também desaparece.

Eriol – Foi divertido… - Sorri e desmaia. Dimom toca em Eriol e os dois desaparecem.

Arcom estava sentado de ponta cabeça no sofá, emburrado, de braços cruzados.

Arcom – Você estragou a minha brincadeira… Eu estava ganhando…

Éolo – O objetivo não é se divertir com Eriol… Temos que capturar Yue… Aquele demônio usou a passagem do inferno, por isso não consegui segui-lo… Mas agora eles não estão mais com Dimom… O que é uma grande vantagem…

Martinus – Como assim? - Passando a mão na cabeça onde havia sido atingido – Ele consegue passar pelas dimensões de tempo e espaço, ele pode aparecer onde ele quiser quado ele quiser…

Éolo – Não por um bom tempo… Consegui causar danos suficientes nele a ponto dele precisar ficar quieto por um bom tempo… Espero que o suficiente para conseguir o que precisamos…

Belatom – Não esqueça o demônio…

Éolo – Aparentemente ele é o nosso único empecilho no momento, mas nem ele pode me deter agora…

Belatom – Talvez não em um combate direto, mas ele tem muitas artimanhas… Pelo que conheço ele vai nos pregar muitas peças antes que consigamos o que queremos…

Arcom – lálálá… Meu nome é Belatom e eu sou um fracote… - Martinus tenta segurar o riso, Belatom os olha desafiadoramente

Belatom – Pelo que me lembro ele já enganou vocês não é mesmo?

Arcom – Mas, pelo menos, eu não fui nocauteado e jogado como um saco de batatas…

Belatom – O que foi que você disse?!

Éolo – Isso não é hora de brigar… Temos que nos concentrar…

Quando Taylor acorda, eles se veem em uma espécie de caverna, estão se movendo, flutuando pelos túneis. Nobi está a frente segurando Douyga em seus braços, Yue também estava desacordado flutuando logo atrás, voltou o olhar para Nobi e percebeu que o demônio tinha uma expressão aterrorizada no rosto, segurando Douyga como se segurasse sua própria vida, isso era algo que Taylor nunca pensou que veria, Nobi sempre fora frio com todos e não se envolvia com nenhum deles, pelo que sabia, ele não estava ali por que queria e sempre demonstrara que não dava a mínima para nada daquilo, mas vê-lo daquele jeito o impressionara.

Taylor – Para onde estamos indo? - Disse um pouco hesitante.

Nobi – Não achei que você se recuperaria tão rápido… Para um lugar seguro, preciso tratar os ferimentos de Douyga… Espero que ele aguente até lá… - Algo na voz de Nobi fez com que Taylor sentisse um nó na garganta.

Capítulo 2

Destruição

A viagem continuou sem mais nenhuma palavra. Quando Yue acordou, estava deitado em um sofá vermelho, moderno e bem confortável. Ele se viu em um cômodo imenso com o teto bem alto e um enorme lustre dourado com vários cristais em formato de gotas no meio, bem acima do sofá, ele se levantou um pouco atordoado, esfregou o rosto se perguntando o que havia acontecido, mas tudo o que se lembrara era de que mal conseguia respirar a alguns momentos atrás, depois disso havia apagado e não sabia onde estava.

Andou um pouco atordoado pela sala, haviam esculturas e pinturas postos em lugares iluminados para se destacarem, já era dia. Taylor irrompeu por uma das portas. Ele vestia um avental branco manchado de vermelho, haviam manchas na camiseta, rosto, cabelo e nas luvas que vestia também. Yue levou um susto quando o amigo o chamou esbaforido.

Tayor – Yue! Venha comigo! - Sem hesitar, Yue seguiu Taylor pela porta dupla, entrando em um corredor largo e longo, após outra porta dupla, haviam máquinas de hospital, o ambiente era todo branco, Douyga estava deitado em uma mesa de cirurgia, Nobi estava vestido como um cirurgião e parecia operar Douyga no peito, quando Yue viu a cena e aquele monte de sangue, ficou desesperado.

Yue – O que está acontecendo?

Taylor – Ele foi atingido por Belatom, as farpas são explosivas, elas liberam uma toxina que está matando Douyga dolorosamente… Yue… Precisamos que você o cure!

Yue – Sim! Claro! - Ele se aproximou de Douyga, Nobi estava tentando manter a calma, mas era nítido o seu desespero. Yue tocou Douyga e por um momento ele pôde sentir algo que ele não conhecia o sentimento de morte, o medo da morte. A espada apareceu em sua mão e uma outra carta com o desenho de uma folha, uma lágrima escorria de seus olhos, a carta entendeu o que ele queria e se posicionou em cima de Douyga ainda flutuando no ar. Yue empunhou a espada com as duas mãos com a lâmina para baixo, ergueu os braços e gritou com todas as forças que tinha.

Yue – Cura! - Abaixou a espada com a lâmina posicionada a perfurar a carta. Um brilho verde suave emanou da carta e as farpas começaram a desaparecer, assim como seus ferimentos, a carta foi ficando vermelha enquanto curava os ferimentos. Taylor observava maravilhado, Nobi estava na expectativa do que aconteceria.

Quando terminou, a carta estava completamente vermelha e caiu sobre Douyga sem mágica. Yue a pegou olhando-a um pouco preocupado com a carta, pois não sentia mais nenhuma magia ali. Douyga abriu os olhos

Douyga – Onde estou?

Nobi – Na sua casa – Seu tom de voz agora era frio, mas estava um pouco tremida

Douyga – O que aconteceu?

Nobi – Você foi um idiota! Foi isso o que aconteceu! O que estava pensando? Enfrentar o Belatom? Serio? Se eu não tivesse aparecido, agora você ia parecer um baiacu! Eu só não te bato por que você quase morreu e eu tenho medo de você ficar ainda mais burro!

Todos ficaram chocados com a explosão de Nobi que fechou as mãos como se quisesse esmurrar o primeiro que aparecesse e saiu do quarto. Douyga sorriu

Douyga – Parece que ele estava mesmo preocupado comigo… hehehe… Eu sou um homem de sorte… - O sorriso convencido se transformou numa careta de dor quando tentou levantar.

Yue – Você precisa repousar… Não está curado completamente…

Taylor – Yue tem razão, descanse um pouco, vou trazer uma sopa pra você… - Taylor saiu do quarto às pressas.

Douyga – Foi você quem me curou? - Yue afirmou sem jeito com a cabeça. - Bem… muito obrigado! Desculpe deixá-los preocupados…

Yue – Não foi nada… - Yue conseguiu sorrir – Apenas descanse, eu vou ver se mais alguém se machucou… - A espada desaparece de sua mão e ele também sai do quarto, quando chega no corredor, tira a carta do bolso e a observa de repente uma náusea nasce em seu estômago, ele sai correndo quando sente o gosto de sangue na garganta, avista uma porta entreaberta e entra, por sorte era um banheiro, parecia de algum estabelecimento, pois tinham várias cabines, deu tempo dele entrar na primeira e abrir o vaso. Sangue esguichava de sua boca aos montes, como se engolira vários litros. Quando sentiu que acabou, tirou a carta do bolso novamente e viu que parte dela voltara a ficar verde.

Na cozinha, Nobi estava encostado na porta enquanto Taylor procurava o que precisava para cozinhar, maravilhado com os utensílios de luxo disponíveis ali.

Nobi – Você pode parar de ficar vasculhando as coisas dos outros e fazer logo essa maldita sopa?

Taylor – Ah sim… Estou só pegando o que eu preciso, mas é que eu nunca usei coisas tão finas e perfeitas… Está vendo? Nenhum risco no metal! E está polido! Dá pra usar de espelho… Vou fazer uma sopa maravilhosa com todo esse equipamento! Por falar nisso… Você disse que essa casa era do Douyga, isso?

Nobi – É uma das propriedades da família do Douyga…

Taylor – Nossa… Como ele é rico!

Nobi – Pare de pensar em besteira seu pirralho!

Taylor – Mas assim… Não tem problema? Não deveríamos avisar alguém?

Nobi – Não é necessário… Esta casa está vazia faz alguns anos… Os pais e a família dele não vem ao Brasil desde… - Nobi hesitou um momento – Bem… Eu não preciso explicar nada pra você… Faça logo essa sopa e pare de se intrometer!

Taylor – Nossa… Que frio… - Nobi sai da cozinha e volta para o quarto onde Douyga está, quando entra, vê que ele está dormindo. Nobi se aproxima e se senta em uma poltrona ao lado da cama, percebeu que o lençol estava machado de sangue. Se levantou e foi ate um dos armários, pegou outro lençol branco e limpo e voltou até Douyga. Ele puxou o lençol sujo, ajeitou Douyga na cama e colocou o lençol limpo sobre ele. Quando viu que Douyga o observava, desviou os olhos, Douyga sorriu.

Douyga – Você fica tão bonitinho quando está sem jeito…

Nobi – Cale-se seu humano estúpido! Tá a fim de experimentar a morte de novo?

Douyga – Então você sabe…

Nobi – Lógico que eu sei! Eu ainda sou um ser sobrenatural, esqueceu?

Douyga – Não… Eu não esqueci… Obrigado…

Nobi – Só não morra de novo…. - Os dois se encaram, Nobi com o rosto vermelho enquanto Douyga sorria ternamente.

Não demora muito e Taylor entra no quarto com um prato de sopa em cima de uma bandeja de prata polida com um prato com torradinhas, uma laranja cortada ao meio e um copo com um suco de morango. Os dois se separam rapidamente, Douyga se ajeita na cama se sentando.

Douyga – Oh! Isso tudo pra mim? Taylor! Cara! Você é demais! - Nobi revira os olhos e senta-se na poltrona. Taylor sorridente vendo Douyga tomar a sopa – Está muito bom como sempre Taylor! Obrigado!

Taylor – Não foi nada, eu gosto de cozinhar! Alguém viu Yue? - Coincidentemente o garoto entra no quarto – Aí está você! Aonde estava?

Yue – Eu fui ao banheiro…

Taylor – Ah sim… Bem… Eu vou achar roupas limpas pra gente e depois vou cozinhar uma bela refeição… Douyga, onde encontro roupas para nós?

Douyga – Acho que não vai ter nada, mas Nobi pode ir até uma loja aqui perto para comprar roupas novas para todos, já que vamos precisar… Não dá pra sair por aí vestido de discípulo do Dimom não é mesmo?

Nobi – Eu não vou nas lojas baratas, não posso ser visto em lojas populares…

Taylor – Ah não… Não precisa… Eu posso lavar essas roupas mesmo e fazer alguns ajustes…

Nobi – Sem chance… Se eu vou ter que andar com vocês por ai, vocês vão usar grife!

Yue – O que é grife? - Pergunta inocentemente.

Nobi – Ah Yue… Grife é uma coisa muito importante… Você já imaginou andar por aí sem? Isso é questão de vida ou morte, sucesso ou fracasso em qualquer evento ou rede social… Não dá pra aparecer por aí sem… Se você vai viver na terra daqui por diante, tenha pelo menos um par de tênis de grife e sempre tire selfies com eles… Vamos… Eu posso te mostrar tudo o que você precisa saber para sobreviver nesse mundo!

Yue – Grife parece uma coisa realmente importante…

Nobi – E é… Muito, muito importante…

Taylor – Claro que não tão importante quanto todas as outras coisas não é mesmo? Pode trazer qualquer coisa pra gente, qualquer coisa serve… - Nobi olha entediado para Taylor e sai.

Douyga – Eriol não veio junto?

Taylor – Não… infelizmente ele não estava junto com a gente quando Nobi nos salvou…

Douyga – Entendi… Então ele deve estar com Dimom ainda…

Taylor – Sim.. Bem… Eu vou preparar o jantar pra gente, não sei por quanto tempo poderemos continuar aqui, o Brasil não é exatamente do outro lado do universo para eles demorarem muito para nos achar…

Douyga – De fato… - Taylor sai, Yue olha para Douyga

Taylor – Me desculpe por isso… Se eu não tivesse caído aqui, nada disso aconteceria…

Douyga – Está brincando? Graças a você eu pude dar umas porradas naquele cientista de meia tigela! Foi da hora! - Douyga sorria divertido.

Yue – Quem são eles?

Douyga – Ah… Eu não sei bem… O cara do taco é um general de Atlântida, o cara indiano é um guerreiro sagrado do fogo assim como Eriol seria se ele não tivesse interrompido o treinamento. O cara de óculos é um caçador de demônios o Éolo você já conhece…

Yue – Então essa não é a primeira vez que vocês se enfrentam…

Douyga – E nem vai ser a última… Antes disso tudo acontecer, Eriol era meio que um discípulo do Arcom, o cara indiano. O Martinus era da guarda pessoal do Taylor, que a propósito é um príncipe também… E o Belatom é meio irmão do Nobi…

Yue – Caramba! Então antes de eu chegar vocês todos eram amigos…

Douyga – Bem… O Belatom e o Nobi definitivamente não eram amigos… Mas o Arcom e o Eriol definitivamente tem um bom relacionamento até hoje… O Martinus de alguma forma desenvolveu muita raiva do Taylor e virou um punk vida louca, mas bem… isso não tem nada a ver com você, não é mesmo? Eles escolheram seus próprios caminhos, ninguém os está forçando a nada…

Yue – Entendi… De qualquer forma, acho que eles estão agindo assim para proteger este mundo não é? Eu sou uma ameaça… Além disso, Dimom me contou que eu destruí meu próprio mundo… Se eu fui capaz de fazer isso com o meu próprio planeta, onde eu nasci… Não sei do que mais eu seria capaz, por isso, preciso conseguir controlar essa força que existe em mim… Mesmo que eu seja destruído, O dragão negro voltará em outra pessoa… Então eu tenho que ser forte!

Douyga – Exatamente, nós acreditamos em você, por isso vamos protegê-lo a todo custo - Douyga sorri.

Mais tarde todos estão a mesa, Douyga estava recuperado e com roupas novas, uma camiseta branca meia estação com a gola em V e dois botões, a calça jeans preta e botinas marrons. Taylor estava vestido com uma camiseta branca, suspensórios vermelhos e bermuda de camurça marrom, um par de tênis estilo all star. Yue estava vestido com uma bata branca comprida, uma calça meia canela amarelo queimado, vestia um par de alpargatas pretas. Nobi vestia uma camisa polo de manga curta bem justa ao corpo abóbora, calça jeans marrom escuro e um par de sapa tênis pretos.

Estavam comendo uma bela refeição que Taylor havia preparado, o mesmo estava orgulhoso do bom trabalho enquanto os outros estavam satisfeitos com a refeição. De repente Douyga olha o celular e sorri.

Douyga – Acabei de receber uma mensagem de Dimom, Eriol está recuperado, está sendo enviado para cá… Deve chegar até amanhã e então vocês poderão partir…

Yue – Você não vai vir junto?

Douyga – Desculpe… Eu sou só um humano não tenho preparo para seguir viagem com vocês… Mas vou trabalhar duro no treinamento com Dimom para ajudar no que eu puder…

Yue – Entendo… - Fez uma cara triste

Taylor – Não se preocupe Yue! Eu estarei com você! Estou cada dia mais forte!

Nobi – De qualquer forma o pirralho folgado também está vindo, então você não tem com o que se preocupar… Você estará em boas mãos…

Yue – Você também não vem?

Nobi – E andar com um bando de pirralhos? Claro que não… Vou ficar de olho em vocês o quanto puder de longe… Eu tenho a minha própria carreira e fãs por aqui, não posso deixá-los esperando… Além do mais eu tenho meus próprios problemas para resolver… - Douyga fechou a cara numa expressão emburrada

Douyga – Ele voltou então… Taylor e Yue olharam para Nobi esperando a resposta.

Nobi – Você sabe… Ele aparece sem ser convidado, é realmente um estorvo, de qualquer forma eu tenho que mantê-lo longe de vocês ou as coisas podem piorar bastante…

Finji – Piorar o que? - Nobi suspirou e abaixou a cabeça, Douyga e os outros olharam para uma das janelas onde um homem estava sentado sobre o parapeito, a cortina branca de tecido leve esvoaçava com o vento, o pôr do sol lançava sombras fortes sobre a figura, mas dava para perceber o cabelo curto partido ao meio em um tom de louro escuro, os traços finos no rosto comprido a pele levemente bronzeada, os olhos cor de mel. Ele era quase tão alto quanto Éolo, tinha o corpo esguio e vestia um traje encouraçado, na testa tinha uma espécie de tiara com um cristal no meio da testa, tinha um sorriso presunçoso no rosto.

Taylor – Quem é você? - Disse Taylor segurando uma concha ameaçadoramente.

Finji – Eu sou Finji, um pirata espacial… Seu amigo tem uma dívida muito grande para acertar comigo… Não é Nobi?

Douyga – Corta essa cara… Você estava roubando todo aquele tesouro, nada daquilo é de fato seu, portanto, não há dívida alguma…

Finji – Ainda não se livrou dele? Que persistente…

Nobi – Eu já disse para não me seguir por aí, combinamos um local justamente por que eu não gosto de inconveniências… Você sabe o quanto isso não é elegante e me irrita… Um vento gelado esfriou o ambiente, de alguma forma a presença de Nobi agora era algo desconfortável e mortal, Finji sorri:

Finji – Ah sim… eu não quero problemas com você, só quis fazer uma surpresa…

Nobi – Vá para o ponto de encontro, discutiremos os termos lá…

Finji – Uh! Que frio… Eu já estou aqui, esse cheiro está ótimo, poderia ficar para o jantar? Aliás… Esse lugar é grande o suficiente para discutirmos nossos termos com privacidade, não acha? - Douyga bate as mãos na mesa e se levanta irritado.

Douyga – Esta é a minha casa! Você não é bem-vindo aqui!

Finji – Ah… o cãozinho está irritado… É melhor dar um jeito nele, ou ele vai fazer xixi pela casa… - Taylor também fecha a cara.

Taylor – Isso é imperdoável! Como ousa entrar em um lar, interromper a felicidade das pessoas e ainda zombar? Douyga é uma pessoa, não um cão como você está dizendo, antes de fazer críticas sobre os outros, tente ser educado e peça por favor! - Todos ficaram surpresos com a explosão repentina do garoto. Finji sorri, se vira para Nobi e diz:

Finji – Está cuidando de crianças agora? - Ao olhar novamente para o garoto, seus olhos caem sobre Yue, Nobi repara que Finji estava olhando atentamente para o garoto, Douyga também repara. - Hey… Quem é esse outro garoto? É novo na turma?

Nobi – Finji, você quer mesmo me irritar? - Finji volta a olhar para Nobi, seus olhos parecem ver outra coisa, pois sua expressão muda rapidamente.

Finji – Está bem… Eu vim de uma viagem longa, voltarei a vê-los em outra ocasião… Com licença… - Desaparece.

Taylor – Que pessoa mais mal educada…

Nobi – Não vale a pena se incomodar com Finji, ele é um pirata sem modos… Vou ter que deixá-los com essa agradável refeição enquanto vou ter uma conversinha sobre bons modos com ele… Com licença…

Douyga – Volte logo… - Disse emburrado, sem olhar para trás, Nobi responde que sim com um murmúrio e sai.

Taylor – Nobi… - Taylor sussurra preocupado, Douyga cruza os braços

Douyga – E lá vai ele outra vez…

Yue – Pessoal… o que nós vamos fazer agora?

Taylor – Comer a sobremesa! - Disse sorrindo, empilhando os pratos e pegando o máximo de coisas de cima da mesa, quer me ajudar?

Yue – Claro! - Yue pega mais algumas coisas e os dois vão em direção da cozinha. Douyga volta a se sentar pensativo. Já é de noite, Yue e Taylor estão em um dos quartos de hóspedes que é imenso e luxuoso, tem duas camas de solteiro uma ao lado da outra separada por um criado-mudo com dois abajours. Yue está olhando para o teto enquanto Taylor está virado para o lado preocupado.

Yue – Taylor? Está acordado?

Taylor – Sim… Precisa de algo?

Yue – Não… só estou pensando… o que vamos fazer agora? Se vamos andar por aí com eles atrás de nós….

Taylor – Não se preocupe com isso, eles não vão conseguir nos achar, tudo o que precisamos fazer é esconder a nossa presença… Além do mais é entediante ficar parado não acha? - Yue sorri:

Yue – Sabe Taylor… Desde que eu te conheci, todas essas coisas acontecendo e as pessoas que eu conheci… Isso já seria suficiente para querer proteger este mundo, mas eu quero fazer mais do que proteger esse mundo de mim mesmo, vai ser bom conhecer novas pessoas e fazer coisas boas por elas… Estou empolgado.

Taylor – Fico muito feliz em ouvir isso Yue, nós vamos fazer muitas coisas boas sim, mas para isso é bom ter uma boa noite de sono… Durma bem e não se preocupe, tudo vai dar certo. - Ao terminar de falar, percebe que Yue já havia dormido - * Espero que tudo dê certo… - Fecha os olhos e dorme.

Yue acorda com o barulho, parecia uma grande festa no andar de baixo, olhou para a cama de Taylor e viu que ele já não estava mais ali, então decidiu se levantar e ir ver o que estava acontecendo. Eriol estava acontecendo, ele havia chegado e com isso acordou a casa inteira com suas brincadeiras.

Quando chegou no andar de baixo, Eriol estava sentado em cima de Douyga no chão torcendo uma de suas pernas, Douyga batendo com a mão no chão “Desisto! Desisto!”

Eriol – É Pe Ni Co! - Torce mais a perna

Douyga – AAAAAhhhhh!!! Penico! Penico!!! Aaaaahhhh!!! - Eriol solta a perna e pula no pescoço de Taylor.

Eriol – Hey! O que tem para o café da manhã? Estou com fome! - Olha Yue ainda nos degraus da escada – Yueeee!!!! - Alcança Yue em um pulo e aperta as bochechas dele – Quanto tempo! Estava preocupado! Sentiu a minha falta? Alguém te irritou? Quer que eu bata em alguém? - A expressão boba e elétrica do garoto loiro fazia Yue rir. Eriol soltou as bochechas de Yue e olhou para as roupas novas dele, depois se virou para os outros – Ah! Todo mundo ganhou roupas novas menos eu? Não é justo! Eu também quero roupas novas! Pra onde foi o Nobi? Aposto que foi ele que comprou essas roupas maneiras! Eu quero! Eu quero! - Abriu a boca chorando igual uma criança mimada, mas isso só durou um segundo, no outro estava pulando para o outro lado da sala de estar, pegou um inseto e colocou na boca – Uhmmmm… Uma delícia! Adoro insetos! - Taylor começa a passar mal vendo a cena, Douyga estava se recuperando da torção, Yue só ria da euforia do amigo doido.

Taylor estava terminando de colocar as coisas sobre a mesa para o café da manhã, Eriol havia desaparecido, provavelmente explorando a casa. Douyga estava sentado no sofá da sala assistindo algum programa de televisão, embora estivesse com o pensamento longe. Yue ajudava Taylor com o café da manhã.

Taylor – O café está pronto! Venham logo antes que a comida esfrie! - Chama alto. Yue tira o avental da cintura e pendura em um suporte na cozinha e vai até a mesa, lá Taylor já está sentado sem o avental e Eriol olhando toda a comida com os olhos brilhantes, Douyga se aproxima distraído ao lado de Eriol que se vira entusiasmado para começar o ritual da comida com sua combinação de toques, gestos e barulhos, mas vê que Douyga não está prestando a atenção, o garoto faz biquinho e se volta para a comida, assim que pega o bacon começa a chorar emocionado.

Eriol – Bacon é tão bom! Sr furão adora bacon! Mas… - Todos olham preocupados para o garoto que continua chorando

Taylor – O que houve com o Sr furão Eriol? - Perguntou num tom triste.

Eriol – Ele… Ele… O Dimom não deixou ele vir!!!

Yue olha preocupado para Eriol, como se estivesse comovido com sua dor, mas Taylor e Douyga voltam a comer tranquilamente, em questão de segundos, Eriol também está comendo como se nada tivesse acontecido e Yue fica sem entender nada…

Depois do café, todos estão sentados na sala, Douyga no sofá enquanto Eriol e Yue estão sentados no tapete macio, Eriol está com uma lupa observando as fibras do tapete enquanto Yue está apenas observando a decoração da sala. Quando Taylor vem da cozinha com uma bandeja com várias taças de sorvete incrivelmente decoradas com cobertura de sorvete. O garoto coloca a bandeja na mesinha de centro, todos surpresos com a sobremesa ficam animados.

Douyga – Taylor! Você é o melhor! Como conseguiu sorvete?!

Taylor – Tinha no freezer…

Douyga – Ah…

Yue – Está muito bom! - Disse enquanto já tinha acabado de comer um pouco, Eriol já tinha a cara toda melada de calda doce e sorvete, enquanto Douyga se servia inseguro da data do sorvete na geladeira, mas prova já que ninguém tinha morrido até então. Taylor pega a sua taça de sorvete e olha para ela indeciso… De repente Nobi aparece na sala em pé perto da janela.

Nobi – E aí? - Todos olham para o rapaz vestido impecavelmente com um sorriso destruidor no rosto. Todos ficam chocados com o sorriso – O que estão fazendo?

Douyga – Ahm…

Taylor – Nobi! Que bom que você está aqui! Ainda tem sorvete na geladeira… - Nobi olha pra cara de bobo de Douyga e já fecha a cara.

Nobi – Sorvete só engorda… preciso manter a boa forma…

Taylor – Ah sim! De qualquer forma… É bom que você tenha vindo… Chegou em boa hora, eu preciso contar uma coisa importante para vocês sobre a profecia… - Um clima de tensão se instala, até Douyga se liberta da cara de bobo.

Eriol – Você vai revelar sobre a profecia?

Taylor – Sim…

Douyga - Até que enfim… - Nobi se aproxima olhando para os lados desconfiado.

Nobi – Tem certeza de que essa é a hora certa?

Taylor – Sim… Eu sei que ainda faltam algumas pessoas que também estão envolvidas, mas elas vão aparecer apenas na hora certa…

Nobi – Entendi…

Douyga – Então, desembucha! Não aguento mais esse suspense todo!

Taylor – Bem… A profecia não vem pronta, eu tive que solucionar primeiro sobre do que ela realmente fala… - Taylor fecha os olhos para se concentrar – “São sete os pecados, para acordar a danação. Para cada pecado uma virtude, para acordar a salvação. Luz sem sombra, sombra sem luz, nenhum paradoxo deve existir. Sete serão os escolhidos da total existência.” - Quando Taylor abre os olhos, Eriol está com a cabeça apoiada no chão e as pernas para cima. Douyga parecia pensativo, enquanto Nobi olhava preocupado para Yue que tinha o semblante pesado.

Yue – “Luz sem sombra, sombra sem luz…” Eu já ouvi isso em algum lugar… Mas eu não consigo me lembrar onde foi…

Taylor – Teremos tempo até lá… Não precisa se preocupar, as coisas serão reveladas na hora certa… Pelo que eu entendi… A profecia fala de 7 pessoas que contém cada um uma essência da existência, a parte de luz sem sombra e sombra sem luz, deve ser algum tipo de provação, já que não existe estado de luz sem enfrentar as provações da evolução… Cada um dos envolvidos deve passar por uma provação para que possa evoluir em alguma coisa… Por isso eu peço que vocês olhem para dentro de si e encontrem a coisa mais dolorosa, a provação mais difícil que encontraram e que ainda não superaram, só assim encontraremos a salvação…

Douyga – Taylor… Você disse que eu sou um dos envolvidos, certo?

Taylor – Sim! Você é uma das pessoas que carrega uma das essências da existência… Tem alguma ideia de como fazer isso?

Douyga – Não estou certo, mas realmente existe uma coisa que eu nunca consegui lidar e sinceramente eu preciso tentar isso novamente…

Nobi – Está certo de que isso é realmente necessário? - Douyga olha o semblante belamente preocupada do demônio e afirma com a cabeça, sorrindo. Taylor observa Eriol ainda de ponta cabeça e os dois amigos se entre olhando, enquanto Yue apenas parece perdido em seus pensamentos.

Yue – Taylor… Eu seria um dos envolvidos? Digo… um dos 7?

Taylor – Certamente você carrega uma das essências da existência, mas não estou certo de que você seja um dos selos… Já que você seria a danação ou salvação… Pelo que eu entendi, existem 14 selos, sendo eles 7 pecados e 7 virtudes. Se os 7 selos da danação forem rompidos, a consciência do Dragão Negro será despertada e trará a destruição, enquanto que se os 7 selos da virtude for rompido, a consciência do Deus da Criação será despertada trazendo a salvação…

Nobi – Então o que você está dizendo é que se falharmos, o Dragão Negro vai acordar e todos nós estaremos perdidos? Taylor… - Faz uma pausa tentando manter a calma – Você tem ideia do que está dizendo? Eu sou um demônio! Demônios não são conhecidos por fazer coisas boas! O que você espera que eu possa fazer de virtuoso?! - Douyga olha assustado para o parceiro descontrolado enquanto Taylor examina Eriol de perto incerto se o amigo estava vivo ainda, Yue cutuca o garoto que cai duro na mesma posição, Nobi para de esbravejar.

Douyga – Acho que ele quebrou de vez…

Yue – Tem conserto?

Taylor – Estou pensando…

De noite, todos estão reunidos à mesa comendo as coisas maravilhosas que Taylor preparou, todos descontraídos elogiando a comida, ou concentrados em comer, Eriol já havia voltado de seu estado de choque. Quando Douyga chama a atenção de todos batendo de leve um talher em uma taça, o barulho ressonante fez com que todos olhassem para ele atentos.

Douyga – Mais cedo eu disse que tinha uma coisa que talvez fosse suficiente para romper um selo… Eu estive pensando a tarde toda a respeito e cheguei a conclusão de que teremos que tentar. Por isso, nós iremos a prefeitura amanhã cedo, tenho certeza de que se não romper um selo, vai ser benéfico para muita gente, a pergunta é: “Vocês estão prontos?” - Eriol solta mais uma vez seu conhecido grunhido empolgado de que vai mergulhar em uma piscina de bolinhas com todo o ímpeto dentro de si. Todos olham para o garoto loiro.

Yue – Ele sempre faz isso quando está empolgado? - Pergunta baixinho para Taylor

Taylor – Como eu vou saber?

Douyga grunhi em resposta e os dois começam a fazer seu toque secreto. Nobi simplesmente finge que aquilo não está acontecendo e continua comendo sua refeição e fazendo a mastigação correta.

No outro dia pela manhã todos estão prontos. Nobi passou em uma loja que abriu especialmente em um horário fora da programação só para atendê-lo e comprou roupas novas para Eriol também. Era uma calça estilo árabe cor de areia e um colete de mesma cor, com detalhes em roxo verde e vermelho. Eriol pregou uma correntinha na calça, Nobi ignorou o acessório.

Quando estavam andando em direção a prefeitura, Yue percebeu que a sua volta outra realidade, já que até então estava sempre em construções bonitas e grandes, entendeu porque Taylor e os outros diziam que a casa de Douyga era de luxo, ele entendia o que era luxo de acordo com a percepção de Taylor, mas até agora ele não tinha nada para comparar.

Então Douyga começou a contar a história para seus amigos e porque eles estavam indo para a prefeitura. O calor ali estava absurdo, Nobi tirou uma sombrinha e óculos escuros não se sabe de onde, Douyga andava normalmente, assim como Eriol que também parecia acostumado com o clima, diferente de Yue e Taylor que já pareciam exaustos e até mesmo um pouco chamuscados, mas andavam do mesmo jeito entretidos com a história de Douyga.

Douyga – Bem… Tudo começou quando eu ainda era uma criança… Eu nasci em uma família privilegiada, meus pais eram muito ricos e viajavam o mundo, como diplomatas eles também faziam muitos trabalhos sociais e arrecadavam muito dinheiro de donações por todo o mundo, sendo eu filho deles também segui os mesmos passos desde de muito cedo. Eu admirava muito meus pais por tentar trazer tantas coisas boas para as pessoas, meus pais são pessoas maravilhosas em todos os sentidos, sempre fizeram questão de que a educação e boa vontade fossem prioridades.

Enquanto eu crescia, ganhava responsabilidades… Então começava com coisas pequenas, desde ir a lares adotivos e brincar com as crianças, onde fiz vários amigos e crescemos juntos, ou mesmo levar comida para os necessitados, tanto em casas, quanto nas ruas a noite… Até que meus pais em colocaram para trabalhar em uma ONG, para que eu pudesse ajudar a organizar teto para as pessoas de rua.

Para todos esses projetos, haviam verbas dadas pelo governo para que a gente pudesse trabalhar, além é claro das doações que a gente conseguia com as campanhas. O problema é que o dinheiro nunca foi o suficiente e as pessoas mesmo com toda a nossa ajuda ainda passava necessidade e continuava carente… Vendo aquela situação eu comecei a ficar desanimado… Pensava comigo “como é que eu vou conseguir ajudar todas essas pessoas a não precisarem mais viver nessas condições?” Aquele desespero de ver aquelas pessoas na mesma situação sempre e as vezes até pior, já que elas as vezes não estavam nem em condições mentais e físicas para procurar a nossa ajuda… Mesmo o resgate social, as vezes demorava dias para achar os desaparecidos e as vezes ainda não encontravam eles com vida… Em um desses dias revoltantes eu fui até a prefeitura, tentei falar com qualquer que fosse o responsável por projetos sociais ou qualquer coisa assim… Eu precisava de ajuda… Quando eu finalmente consegui falar com um vereador e eu só consegui porque usei a influência da minha família… Foi algo decepcionante… Ele disse que era impossível ajudar aquelas pessoas, que como eu bem sabia elas mesmas não se esforçavam para mudar de vida… Que seria melhor que elas morressem, já que elas era apenas sanguessugas… Eu não sei o que deu em mim na época, aquelas palavras foram difíceis de serem ouvidas daquela forma… Eu fiquei muito irritado, mas de certa forma eu também estava propenso a acreditar nelas… Eu lutei…

Voltei para casa, reuni todos que eu conhecia, pessoas que pudessem ter algum tipo de influência para tentar ajudar aquelas pessoas, mas todos também tratavam daquele assunto, como se aquelas pessoas fossem apenas uma atração para campanhas políticas, para conseguirem mais votos.

Eu perdi o chão… Mesmo assim eu continuei indo ao centro, meses depois nós tivemos uma ordem de despejo, dada pelo mesmo vereador, pois ali seria construído outro prédio para qualquer que fosse o fim… Eu consegui abrigos alternativos, superlotando lugares menores, a falta de estabilidade fez com que muitos dos nossos se perdessem… Sem mais nenhuma opção, eu levei eles para um galpão da minha família, era um lugar grande, que inclusive seria uma boa oportunidade, já que lá teria como eles plantarem e se auto sustentarem…

Quando chegamos lá eu expliquei e ensinei o que eu sabia sobre plantio, trouxe voluntários para ajudar com as coisas, mas aquelas pessoas não estavam interessadas em nada, parecia que qualquer esperança que eu pudesse proporcionar não era o suficiente… A verba que recebíamos do governo e das organizações foram todas cortadas, o plantio não estava pronto o suficiente para colher. Todas aquelas pessoas passariam fome e abandonariam a comunidade em breve… Entrei em desespero, eu abandonei todos eles, quando mais precisavam de mim, por que eu realmente não tinha mais condições de lidar com aquilo… - Enquanto Douyga contava com a voz embargada, Nobi estava de cabeça baixa. Os outros garotos estavam tocados com toda a situação.

Douyga – Depois de algum tempo… um mês talvez ou mais… Um homem me reconheceu na rua… Ele me atacou, me bateu e eu não conseguia fazer nada, não tinha vontade de me defender… Ele disse aos prantos e desespero que todas aquelas pessoas do galpão haviam morrido, os policiais invadiram por causa de uma denúncia anônima, dizendo que as pessoas daquela comunidade estavam agindo de forma suspeita, a polícia invadiu o galpão e matou todas as pessoas, pois elas reagiram armadas contra a polícia, para defender aquele lugar… Na hora eu sabia que aquilo poderia ser verdade e que se aquelas pessoas morrera, a culpa era toda minha…

Taylor – Isso não é verdade!!!! - Explodiu o garoto – isso não é verdade! Você fez tudo o que podia por aquelas pessoas! Você não pode se culpar por isso!

Douyga – Eu as abandoei Taylor… Se eu estivesse presente, nada daquilo teria acontecido, eles não trariam armas para defender o galpão e se eu me esforçasse mais, com certeza eu poderia usar minha influência ou mesmo o próprio dinheiro da minha família para aguentar até a colheita… Mas eu fui fraco e abandonei todos… Meus pais ficaram furiosos comigo quando souberam, eles vieram de outro país por causa do escândalo e eu vi que a reputação deles era mais importante do que a vida daquelas pessoas… Desde então eu não me envolvo mais em questões sociais e com nada do que eu não tenho vontade. Meus pais nunca mais voltaram a esta cidade, nem mesmo eu… Por isso a casa está abandonada desde então…

Mas desta vez vai ser diferente! Eu não estou sozinho nessa! Nós vamos fazer com que as coisas sejam melhores para as pessoas carentes, que os projetos voltem a funcionar! - Taylor comovido apenas soluça, enquanto Yue tem um brilho nos olhos de esperança, Eriol estava distraído com algum pensamento, o que era realmente bem raro. Nobi apenas soltou um ar pesado.

Depois de mais uns minutos de caminhada, Yue e Taylor estavam vermelhos do sol e completamente exaustos e desidratados. Chegaram ao prédio da prefeitura, a recepção era simples e não tinha quase nada, nem mesmos cadeiras, apenas bancos compridos de madeira, não havia ninguém ali, exceto a recepcionista que estava atolada em papéis e mal conseguiu perceber que eles chegaram. Douyga se aproximou do balcão fechado com vidro, onde tinha apenas um buraco redondo para o som entrar.

Douyga – Com licença… - Chamou a mulher, ela levantou os olhos dos papéis e olhou para Douyga por cima dos óculos, depois olhou para os garotos e suspirou revirando os olhos.

R – Pois não? - Disse em um tom mal humorado.

Douyga – Me chamo Douyga Acegaki… gostaria de falar com o vereador Gomes… Ele está?

R – Tem horário marcado?

Douyga – Na verdade não…

R – Sinto muito, ele só atende com horário marcado, entre em contato e volte no dia da reunião…

Douyga – Desculpe, acho que você não entendeu quem eu sou de verdade…

R – Eu deveria saber? - Ela se levantou da cadeira pegando o telefone e olhando ameaçadora para o rapaz. Nobi entrou na frente do loiro encarou a mulher, tirou os óculos escuros e piscou seus olhos ônix exibindo seu melhor sorriso. A mulher simplesmente entrou em estado de euforia com a presença do demônio.

Nobi – Desculpe… Eu gostaria muito de falar com o vereador Gomes… Será que você poderia nos ajudar, senhora…?

R – Rita! Me chamo Rita! Vou falar com ele imediatamente… - Nobi resmunga um xingamento baixo, Douyga foi o único a ouvir e segura o riso. Todos estavam impressionados com a demonstração de poder de Nobi que parece irritado por mais algum motivo.

R – Senhor! Eu já consegui marcar com o vereador, ele receberá vocês em instantes… Só para registro…. - Hesitou um momento ruborizando – Poderia me passar o seu nome e telefone para futuro enc… Digo, contato? - Uma veia saltou na testa do demônio.

Douyga – Sinto muito Rita, mas ele não pode revelar a identidade, já que eles está disfarçado, por que ele é um modelo muito famoso… - Nobi xinga baixinho novamente. Então uma mulher um pouco mais nova e magra, vestindo roupas caras, uma saia preta e uma camisa de seda em um tom de violeta, usando um colar de pérolas requintado, e óculos com detalhes em ouro, na presilha que usa para prender o coque, também tem detalhes em ouro e uma pedra branca que podia ser mármore, os brincos combinavam com a presilha e tinha anéis de ouro e prata cravejados de pedras preciosas. Douyga evitou olhar, mas Nobi estava atento.

S – Senhores… O vereador Gomes os receberá agora – Os garotos acompanham a mulher de feições belas por um corredor e depois por uma escadaria, ali dentro estava com ar-condicionado para manter uma temperatura agradável. Nobi havia guardado sombrinha em algum lugar, mas mantinha seus óculos. Mesmo ali onde não havia tanta luz.

Quando chegaram na sala do vereador, o escritório era bem luxuoso e espaçoso. Tudo muito elegante e de primeira. A secretária fez um gesto para que todos entrassem. O vereador era um homem magro, com a aparência bem cuidada, parecendo mais novo do que era, vestia um terno muito elegante num tom de creme e a camisa branca por baixo. Usava uma barba muito bem-feita, os cabelos curtos muito bem-arrumados, no pescoço uma corrente grossa de ouro maciço com uma um rubi retangular em uma armação de ouro de pingente, no pulso, um relógio também de ouro com algumas pedras em volta da órbita dos ponteiros, nos dedos anéis que seguiam a mesma lógica de ouro com pedras preciosas. Ele estava terminando uma ligação e tinha um grande sorriso de satisfação no rosto. Douyga senta-se, a secretária fecha a porta pelo lado de fora.

O vereador desliga o telefone e olha para o grupo de garotos a sua frente, um pouco confuso, mas logo diz num tom de saudação.

V – Olá meus jovens! O que posso fazer por vocês?! - Nobi fecha a mão em punho. Taylor encara o homem furioso, Yue e Eriol ficam olhando o homem com cara de desaprovação. Antes que Douyga pudesse começar a falar, Taylor explode:

Taylor – Seus jovens?! Como você tem coragem de começar uma conversa com essa frase? Você me ofende desse jeito.

V – É melhor você se acalmar e falar de modo civilizado comigo, ou serei obrigado a chamar a segurança, vocês estão agredindo uma figura política, um membro legítimo do governo! - Nobi Sorri de modo irônico. O vereador olha para Nobi e parece levar um susto – Você…! - Exclamou o homem se levantando de sua cadeira de couro, pegou o telefone da mesa e quando começou a discar, viu Nobi tirando os óculos escuros, nesse mesmo momento o vereador deixa o telefone cair apavorado.

V – O que você quer de mim? - Douyga toca o braço de Nobi que coloca os óculos novamente e desvia o olhar. O homem passa os olhos do demônio para o rapaz loiro sentado a sua frente, e engole em seco.

Douyga – Por favor, Senhor Gomes… Sente-se e se acalme, prometo não tomar muito do seu tempo… - O homem se senta tomando o máximo de distância possível e junta as mãos como em uma prece.

Taylor – Acho que você está reconhecendo a pessoa errada… É dele – Aponta para Douyga – Que você deveria se lembrar e de tantas outras pessoas que por sua causa tiveram suas vidas perdidas!

V – Garoto! Você está me confundindo… Eu não matei ninguém! - Faz cara de pobre coitado – Quem foram essas pessoas que morreram? Eu não estou sabendo de nada… Se vocês quiserem, eu posso chamar uma coletiva de imprensa e dar o meu depoimento de tal atrocidade….

Douyga – Foi ano passado, no galpão da minha família, e eu vou dizer o que o Sr disse em uma coletiva de imprensa… O sr disse que com a morte de todos aqueles bandidos que vinham depredando e ameaçando a comunidade agora está acabada e que a comunidade estaria livre de bandidos que pudessem ameaçar a paz de todos… - Disse com uma feição sombria.

V – Bem… Se eles ameaçavam a comunidade e traziam riscos à população…

Douyga – Eles não eram bandidos! Eles eram desabrigados, pessoas que não tinham condições de se manterem, não tinham acesso à educação, a saúde não tinham condições para conseguir um emprego, eram rejeitados, exclusos do convívio social, tiveram suas vidas massacradas, jogadas fora por simples preguiça de lutar e fazer alguma coisa para melhorar a vida delas!

V – E o que elas faziam por elas mesmas? Eu sei que essas pessoas eram parasitas, que viviam de verbas e favores, inúteis! Melhor que morreram mesmo! Assim o dinheiro público pode ser aplicado em coisas mais urgentes!

Taylor – Como as suas joias e as joias de sua secretária? Como os seus bens materiais e o seu conforto?

V – Olha garoto! Eu tenho o mínimo que um homem trabalhador deve ter, está bem!

Taylor – Trabalhador? O que o Sr está fazendo agora, por exemplo? O que o sr fez hoje? Me passe a sua agenda de compromissos, quero ver o seu trabalho!

V – Isso não é da sua conta! O povo me elegeu! Eu estou aqui pelo voto popular!

Yue – Imperdoável… - Disse Yue sombrio. Todos olham para o garoto que está envolto em uma aura negra, algo estava diferente, uma marca apareceu em seu rosto, mas o cabelo tampava de uma forma que não dava pra ver o que era exatamente. - Eu escutei o suficiente… Você não tem o mínimo respeito pela vida do próximo, pela criação divina, pelo direito do próximo ou mesmo pela existência… Você, mortal, deve pagar por isso, deve pagar por sua preguiça! De agora em diante esta sala não lhe pertence mais, suas joias ou as joias das pessoas envolvidas nessa corrupção não serão mais delas, você pagara com seus bens, com seu trabalho duro pelo resto dos anos de sua vida, dedicados apenas ao próximo, você não comerá se enquanto o próximo passar fome, não dormirá no conforto de sua casa enquanto houver pessoas sem um teto… Só assim você poderá escapar da danação! - O homem olhava atentamente para Yue, seu corpo estava tão tenso que parecia que a qualquer momento poderia se encolher a ponto de entrar em uma caixinha de fósforos.

Ao terminar a frase, Yue desmaia, mas Taylor o ampara, todos ficam olhando a marca no rosto do garoto desaparecer, estavam incertos do que aquilo significava… O selo de um dos pecados havia sido liberado?

Eles saíram sem dizer mais nenhuma palavra, o homem estava arrancando todas as joias que vestia e esvaziava suas gavetas com dinheiro e mais pertences de valor. Quando voltaram para a recepção, a mulher olhava para Nobi e soltava gritinhos eufóricos, havia uma imensa plateia ali também, provavelmente a mulher espalhou para todos sobre a celebridade ali no prédio da prefeitura, também haviam profissionais da emissora local, prontos para fazer perguntas, quando eles se aproximaram, Nobi segurou Douyga pelo braço e pediu para que Taylor e Eriol levasse Yue dali.

Quando o pessoal da emissora se aproximou e abordou Nobi, ele abriu um sorriso estonteante, e concordou com uma rápida entrevista, desde que pudesse falar sobre os projetos que junto ao vereador Gomes implantariam e implementariam na comunidade para melhorar a vidas das pessoas. O projeto tinha como partida do jovem Douyga Acegaki que desde muito jovem já trabalhava para a comunidade em serviços comunitários, para começar eles fariam um monumento para fazer justiça aos nomes de todas as pessoas que foram mortas no galpão de sua família e abririam um inquérito de investigativo para apurar os nomes dos policiais envolvidos, para saber de onde veio a denúncia e quem deu a ordem dos disparos.

Ao chegarem em casa, Yue já estava acordado, ele estava muito assustado, algo dentro dele estava muito estranho. Mas quando viu Douyga, ele se aproximou do rapaz e quando o tocou, uma luz branca incendiou os dois e toda aquela sensação ruim passou, junto com todo o peso do coração de Douyga.

Yue – “Você libertou um selo da bondade dentro de mim, agora eu faço parte de você e você faz parte de mim… Douyga Acegaki, sua virtude jamais se apagará.” - A voz de Yue era a voz de alguém mais maduro, embora houvesse muita doçura na voz.

Douyga é dominado por uma grande paz dentro de si e suas lágrimas escorrem por seu rosto. Nobi olha a cena de longe, assim como Taylor e Eriol que também se aproximam e sorriem para Douyga dando força para o amigo.

Mais tarde, com Yue dormindo exausto, os outros conversam do lado de fora da casa.

Douyga – Então é isso? Dois selos foram libertos?

Nobi – Não há dúvidas, aquela marca que apareceu em seu rosto era definitivamente um marca infernal…

Taylor – Mas aquela luz de agora a pouco… Tenho certeza que também foi de um selo e, com certeza, foi algo bom…

Eriol – Yue-chan estava estranho nos dois momentos… Hora uma presença esmagadora, depois uma presença pura e leve… Mas aquela voz definitivamente não era dele… Quem será que estava falando por ele? Taylor olha para Nobi e Douyga que fazem caras de que não fazem ideia do que o garoto estava falando, exceto que realmente a voz era diferente da voz de Yue.

No outro dia, Yue acordou antes que todos, ainda não havia amanhecido, ele olhava para a lua no céu já quase desaparecendo no céu, enquanto o sol acendia forte e glorioso. Ele pegou seu baralho e começou a olhar atentamente, como se procurasse por respostas, mas nada aconteceu. Ele vestia a sua costumeira túnica branca que Taylor havia lavado e reparado cuidadosamente. “você faz parte de mim e eu de você” “luz sem sombra, sombra sem luz”… Essas frases passavam pela mente de Yue num turbilhão, repetidas vezes, cada vez mais rápido e mais alto. “Você será a danação!” Disse a última voz, uma dor atingiu seu coração e ele caiu sobre seus joelhos, apertando as mãos contra o peito e sofrendo, a marca tremulava em seu rosto e ele conseguia vê-la pelo reflexo escuro do vidro, também avistou uma pessoa atrás de si, parecia uma mulher com cabelos compridos e encaracolados, vestindo um vestido longo, ela estendia a mão para Yue, mas com uma rajada de vento no lado de fora, os reflexos desaparecera, e a luz do sol passou a governar o novo dia. Ele ficou ali parado, a dor já havia passado, mas sua mente só conseguia pensar nas palavras que ficavam se repetindo em sua mente e na pessoa que apareceu no reflexo, de alguma forma, ele tinha certeza que já a havia visto no seu passado.

Quando todos acordaram na manhã seguinte, o clima entre eles estava um pouco estranho, já que ninguém tinha certeza do que se passava com Yue, mas Taylor decidiu que devia falar com seu amigo. Ele se aproximou de Yue que ainda estava na frente da janela onde vira o reflexo, mas agora olhava para o lado de fora sentado nela casualmente com sua túnica branca e cabelos negros esvoaçando com o vento. Ele estava ouvindo um carro de som na rua que chamava o povo para a praça da cidade, onde o vereador Gomes faria um comunicado.

Taylor – Yue… Você está bem? - Mesmo sabendo a resposta nos olhos do amigo, ele gostaria de tentar ajudar de alguma forma. Alguns segundos depois, ele se vira para Taylor abrindo um largo sorriso, os olhos cheios de luz.

Yue – Estou sim, não se preocupe comigo… Eu tenho a fé que eu vi dentro de você, eu acredito que tudo vai ficar bem no final das contas! Por isso precisamos seguir em frente…

Taylor – Yue… - Pronuncia o nome como se fosse um milagre, ao mesmo tempo que admirando o garoto, também com uma certa preocupação, alguma coisa não estava bem, mas Yue não diria de qualquer forma, dava pra ver que ele não diria, mesmo que fosse um caso de risco, aliás… Principalmente se fosse algo que traria riscos a todos.

Nobi aparece empurrando Douyga da cozinha que tem um pedaço de pão na boca.

Douyga – Mas eu nem terminei de comer ainda!

Nobi – Você não precisa comer, já está gordo de mais! Vamos Douyga, você precisa estar em boa forma para aparecer na televisão, agora você é uma pessoa pública, não se esqueça disso!

Douyga – Mas eu não vou para nenhum concurso de beleza ou qualquer coisa assim…

Nobi – Fica quieto e vai logo! As pessoas vão querer ouvir sobre os seus projetos sociais!

Douyga – Nobi!

Nobi – Não se esqueça, você estará comigo, eu não suporto gente feia e mal vestida, não me faça passar vergonha! A minha carreira depende disso!

Douyga – Oi?! Nobi… - O demônio continua empurrando Douyga para fora da casa vestindo um belo terno cinza claro com uma calça social bem cortada e com sapatos pretos brilhantes, os cabelos amarrados em um rabo de cavalo firme e discreto, havia maquiagem em seu rosto também, e nenhum fio de cabelo fora do lugar, os dois vão andando pela estrada até Yue e Taylor perderem eles de vista.

Taylor – Esses dois… - Ri divertido vendo a cena de Nobi empurrando Douyga enquanto este esbraveja emburrado.

Yue – Nem parece que Nobi é tão assustador…

Taylor – Ah sim… Vendo ele desse jeito, não dá imaginar o quanto ele pode ser assustador…

Yue – E o Eriol, está onde?

Taylor – Falando nele… Ele não apareceu para o café da manhã… Deve estar por aí….

Yue – Isso não é perigoso?

Taylor – Pensando bem… Sim… Isso é perigoso…

Os dois saem da janela e começam a procurar pelo garoto arteiro.

Não muito longe dali, Eriol está sentado em cima de uma construção alta, quando Arcom aparece sentado ao seu lado. Sem tirar os olhos do horizonte, para onde Arcom também olha.

Eriol – Então você veio… Alguém tentou te seguir?

Arcom – Não… Nenhum deles pensa que um desmiolado vai ter alguma ideia boa ou mesmo ir atrás de seu adversário para conversar amigavelmente, não é mesmo?

Eriol – Então você está usando a mesma tática que eu….

Arcom – Ahm… Ainda não sei se o que você faz é bem uma tática, já que você parece mesmo desmiolado… - Eriol pigarreia.

Eriol – Então… Sobre o que você quer conversar?

Arcom – Foi você que me chamou aqui!

Eriol – Ah é… - Os dois ficam em silêncio por um momento – Por que você veio atrás de mim? Digo… não hoje, mas desde que essa coisa começou… Digo… desde que fui designado para cá…

Arcom – Você não tem ideia… Tem certeza de que você apenas se faz de desmiolado? - Eriol o encara por um instante e Arcom continua – Bem… o que acontece é que eu também fui designado para cá, não pelos sacerdotes, mas sim pelo povo… Desde que você fugiu do santuário para cá, as coisas apenas têm piorado… Você sabe exatamente porque um guerreiro do fogo é designado, certo? Não é atoa que nós somos convocados e recebemos habilidades que somente os escolhidos podem carregar…

Eriol – Diga logo… O que está acontecendo…

Arcom – Se você realmente ligasse para o que está acontecendo… Não hesitaria em voltar para lá reparar o que você deixou estragar… Se bem que pode ser tarde de mais, então só restará a sua morte…

Eriol – Você sabe que eu amo o meu povo e que morreria, se isso pudesse salvá-los!

Arcom – Esse foi o nosso juramento, não foi? Morrer por nosso povo, ou matar quem deixa seu dever… - Arcom desaparece. Eriol olha para o horizonte, em direção à casa onde seus amigos estavam e então também desaparece.

Na casa, Yue e Taylor estão procurando pelo garoto por todos os lugares, mas sem sucesso. Quando de repente ele escutam o grito de Tarzan do garoto do lado de fora da casa, quando eles olham pela janela de andares diferentes veem Eriol pendurado em um cipó de uma árvore se balançando divertido. Quando ele vê Taylor no andar de cima, ele aponta o balanço na direção do garoto, Taylor sai da janela, sabendo que Eriol pularia em cima dele pela janela, nesse mesmo momento, um baque treme as paredes, quando Taylor vai ver o que aconteceu, Eriol estava caído no chão lá embaixo, Yue o observava de longe, tinha pego uma vassoura e cutucava o menino estirado perto da janela.

Taylor desce as escadas as presas e vai para o lado de fora. Quando se aproxima, Eriol dá um pulo e assusta Taylor que grita de susto e depois joga um pé de seu calçado na cara do garoto esbravejando. Yue ri da cena. De repente Eriol começa a chorar, como de costume, quando ele queria chamar a atenção, Taylor se aproxima do garoto pegando o calçado do chão e calçando.

Taylor – O que foi dessa vez? Diz impaciente

Eriol – Eu tô com saudade de casa!!! - E chora ainda mais. Yue e Taylor se entreolham, Yue levanta os ombros sem nenhuma opinião.

Taylor – Sua casa? Onde fica? É por aqui perto?

Eriol – Não! Fica na Índia!

Taylor – Índia?!!! Mas isso fica muito longe! Não tem como ir pra lá, assim do nada… Temos que esperar Nobi voltar…

Eriol – Não! Eu quero ir agora! Oni-chan é malvado, não vai querer me levar pra lá, vai dizer que eu tenho que sofrer porque sou mal educado e não tenho modos!!! - Chora mais.

Taylor – Mas nem eu, nem o Yue conseguimos viajar pelas dimensões… - Neste exato momento Eriol para de chorar.

Eriol – Mas eu sei um jeito! - Taylor e Yue se entreolham novamente, como se já soubessem que isso aconteceria.

Taylor – Está bem… E como nós faremos isso? Imaginando que você realmente saiba como fazer…

Eriol – É simples… Dimom me deu isso… - Puxou a correntinha da calça e na ponta dela tinha uma pata de um mamífero… Quando Taylor se aproximou para ver do que se tratava, ficou furioso

Taylor – Não! De jeito nenhum! Eu não vou usar isso, eu me recuso! Largue isso imediatamente!

Yue – O que está acontecendo? - Ainda pro lado de dentro da casa, observando os dois.

Taylor – Eriol está com uma pata do Sr furão!

Yue – O quê????! Eu pensei que vocês fossem amigos…!

Eriol - Dã… Ele é um furão! - Disse como se aquilo fosse a explicação para todas as coisas. Yue levanta uma sobrancelha.

Yue – E o que isso tem a ver? - Taylor bate na cabeça como se para encaixar algo dentro e fazer o motor funcionar.

Taylor – É claro que ele é um furão!

Yue – Tá… essa parte eu entendi…

Taylor – Os furões da dimensão de Dimom tem propriedades mágicas, eles usam as patas para viajar pelas dimensões… Nesse caso, eles também deixam as patas de presente antes de partir, caso goste muito de alguém…

Yue – Partir, você diz… PARTIR…?

Taylor – Não no sentido de morrer… Eles são como lagartixas que podem regenerar suas caldas, nesse caso os furões perdem as patas no processo da viagem pelas dimensões…

Yue – Tá… você quer dizer, que quando eles vão viajar pelas dimensões, eles tiram as patas?

Taylor – Bem… Isso é difícil de explicar… Mas o fato é que ainda há mágica na pata, o que quer dizer que ele não está morto e entregou a pata voluntariamente.

Yue – Uhm…. Certo, agora que nós sabemos que não há nenhum assassino de furões entre nós, o que nós vamos fazer com a pata dele?

Taylor – Existe um ritual para se fazer… Mas eu sinceramente não gosto de pensar na ideia…

Eriol – Sopa de Sr furão!

Yue – Eu sinto que não quero saber o que isso significa, mesmo sabendo que Taylor cozinha muito bem eu não quero comer sopa de furão não… Ainda mais se for da pata de presente…

Taylor – É melhor esperarmos o Nobi, ele pode nos levar, eu me… - Eriol volta a chorar, Taylor fica vermelho de raiva e sai de perto, mas Eriol o segue chorando – Está bem! Eu faço a maldita sopa, agora pare de chorar! - Eriol sorri feliz enquanto Taylor pega a pata de presente do Sr furão e começa a pegar as coisas necessárias para a sopa.

Yue – Ahm… Não querendo ser intrometido… Mas você sabe como fazer essa sopa?

Taylor – É lógico que eu sei! - Responde irritado – Eu já tive que fazer ela várias vezes quando Dimom me mandava para os lugares e me dava uma pata para que eu pudesse voltar por conta… Ele dizia que eu tinha que me acostumar ao processo… Eu odeio sopa de furão! - Yue se assusta um pouco ao ver o amigo nervoso, mas se aproxima mesmo assim.

Yue – O que está acontecendo? Você não está nervoso por causa da sopa, não é mesmo?

Taylor – É claro que é por causa da sopa!

Yue – Taylor…

Taylor – Está bem! Eu não estou… não estou nervoso por causa da sopa, embora eu realmente a deteste… O que acontece é que mal deu tempo da gente conversar sobre os selos ou entender o que realmente aconteceu e já estamos indo para o próximo… Eu não suporto a ideia do processo, parece que você sofre tanto quando os selos aparecem… Aliás… Já na primeira vez, foram logo dois… Fico imaginando se isso acontecer de novo, o que pode acontecer com você?

Yue – Eu já disse… Você não precisa se preocupar comigo, eu estou preparado, eu já aceitei o meu destino… - Taylor o olha novamente, reconhecendo aquela luz que vira antes e isso não aquietava o seu coração, nem mesmo aliviava a sua preocupação, mas algo dessa vez parecia diferente…

Taylor – Está bem… Eu confio em você… - Disse olhando diretamente no fundo dos olhos de Yue.

Yue – Ótimo! Agora eu já posso saber se eu vou detestar sopa de furão tanto quanto você… - Os dois dão risada enquanto Eriol os observa de longe com uma expressão um pouco triste.

Feito a sopa em apenas alguns minutos, os três estão em volta da panela de sopa de furão, Taylor sente-se enauseado, enquanto Eriol está com o nariz tampado, Yue olhava a sopa com cara de quem não estava achando muito saborosa a ideia de experimentar.

Eriol – Eu não lembrava que ela fedia tanto… Nada pessoal Sr furão!

Taylor – Temos que comer antes que a pata regenere um novo Sr furão…

Yue – Ah… Isso também pode acontecer… Quer dizer… Estaríamos comendo um Sr furão júnior?

Taylor – Bem… Seria mais como um Sr furão 2.0… mas é mais ou menos isso…

Eriol – Quem vai ser o primeiro? - Yue e Taylor olham acusadoramente para Eriol que sorri sem graça – Sabe… Eu nem to mais com tanta vontade de ir pra casa agora…

Taylor e Yue agarram Eriol, Taylor abre a boca do garoto e Yue derruba sopa dentro da boca aperta do loiro malignamente, então Eriol fica tremeluzente, depois Taylor olha para Yue pega a concha da mão do amigo, pega um pouco de copa com a concha com ela e oferece.

Taylor – Você não vai querer fazer isso por vontade própria, confie em mim… - Leva a concha até a boca de Yue e o faz tomar, Yue também fica tremeluzente. Taylor pega mais uma concha de sopa e toma rapidamente e logo também fica tremeluzente, depois disso, os três ficam com aparência fantasmagórica, Eriol começa a voar como um fantasma pela sala Taylor segura-o pela mão e dá um tapa na cara do garoto, Eriol faz biquinho e passa mão no lado do rosto ardendo. Yue fica parado.

Yue – Isso é estranho…

Taylor – Calma… Vai ficar um pouco mais estranho, sabe quando Nobi ou mesmo Dimom abre um portal bonitinho e segundos depois nós já estamos no lugar para onde o portal foi aberto? Então… Isso vai ser muuuito mais demorado… Por que nós viajaremos na velocidade Sr furão…

Yue – Não sabia que para viajar entre as dimensões havia algum tipo de velocidade…

Taylor – Ah sim… e ah… vai doer…

Yue – Doer?

Taylor – Sim… Apenas vamos começar logo… Taylor se concentra e avança contra uma parede ainda segurando Eriol pela mão, Yue fica parado sem entender, a metade da cabeça te Taylor surge da parece por onde ele entrou olhando para Yue que toma um susto, Taylor o olha sério, tentando não dar risada do garoto fantasma – Vamos Yue, é por aqui…

Yue – Não tem perigo de eu me machucar na parede?

Taylor – Dã… você é um fantasma, a matéria física não ocupa o mesmo espaço da matéria etérea, pode ficar tranquilo…

Yue – Isso quer dizer que eu morri?

Taylor – Não… O efeito vai passar em algumas horas, por isso nós precisamos nos apressar, ou precisaremos tomar mais sopa de furão…

Yue – Ah… Vamos nos apressar então… - Taylor volta pela parede e Yue o segue um pouco inseguro sobre a explicação da matéria e tal… Mas passa pela parede sem problema algum e se vê em um longo túnel cheio de outros túneis em várias bifurcações. Taylor se concentra e de repente um dos túneis começa a brilhar.

Taylor – É por ali… Me sigam… - Começa a vagar para o túnel, seguido de Yue e Eriol.

O túnel se estende por vários e vários quilômetros.

Yue – Ahm… Será que não dá pra ir mais rápido?

Taylor – Não… Essa é a velocidade máxima por aqui…

Yue – Certo… E a parte que dói?

Taylor – Ah… Logo você vai entender… - Continuaram vagando por mais quilômetros incessantes até que viram uma luz no fim do túnel. E chegaram até outra estação de tubos. Taylor faz o mesmo processo e outro túnel se acende e eles continuam seguindo pelo próximo túnel e assim foi por mais algumas horas, todos cansados e em silêncio da viagem longa e inacabável.

Taylor – Estamos chegando… - Eriol que flutuava dormindo na mesma velocidade se espreguiça e vibra a vitória enquanto Yue boceja e se repuxa se alongando. Taylor se mantém na mesma posição com olheiras profundas, basicamente sem energia.

Finalmente atravessam outra parede, logo identificam que estão em outro país, parecia uma pequena aldeia, com muitas casas simples de madeira, o chão de barro, o céu nublado, as árvores secas e um cheiro ruim vindo do rio mais próximo, Eriol começa a vagar fantasmagoricamente pelo céu desesperado, como se não quisesse reconhecer onde estava.

De repente ele tem um acesso de tosse, seus olhos e rosto começa a ficar roxos, logo Yue também começa, como se estivesse sufocando, em seguida Taylor também começa com o processo, Yue queria perguntar o que estava acontecendo, quando de repente Eriol expele um ovo branco pela boca, do tamanho de um ovo de galinha normal, Yue sente que algo está tentando passar por sua garganta e também expele um ovo, Taylor em seguida também pega um ovo e seus corpos se tornam material novamente.

Taylor – Essa é a parte da dor…

Yue – Imaginei…

Eriol – Sr furão Jr! - Yue e Taylor fazem cara de nojo.

Yue – Agora eu já sei que detesto sopa de furão, é a única coisa que você fez que eu não quero comer nunca mais…

Taylor – Calma… Tem coisas piores…

Yue – Eu recuso!

Eriol – Não se preocupe… Papai está aqui para te proteger…

Taylor – Pare de falar com esse ovo e diga logo o que estamos fazendo aqui… Essa é a sua casa?

Eriol – Era… Tudo está realmente mudado – Coloca o ovo dentro da calça, Yue coloca no bolso da manga enquanto Taylor simplesmente o faz desaparecer. Eriol e Yue ficam surpresos

E.Y – Como é que você fez isso?

Taylor – Apenas o escondi com uma ilusão…

E.Y – Também quero! - Tiram os ovos dos esconderijos e entregam a Taylor que nem toca neles e eles desaparecem.

Taylor – Não se esqueçam que nós temos que voltar aqui e rápido! Pelo clima quente, esses ovos vão eclodir rapidamente… E nós não queremos furões dimensionais andando por aí, né…?

Yue – Eles parecem furões normais… ninguém acharia estranho… Acho que o Sr furão quando é filhotinho fica bem fofinho…

Taylor – Eles são criaturas dimensionais, podem abrir portais por aí e nos deixar trancados aqui… Fora que nós nem avisamos ninguém sobre essa viagem! Tudo por causa do Eriol!

Eriol – hey! Não me culpe por sua irresponsabilidade… - Yue segura Taylor para que não mate Eriol.

Yue – Certo… E agora? Para onde nós vamos?

Eriol – Preciso ir ver alguém… Vocês podem vir comigo, se quiserem…

Taylor – É lógico que nós vamos junto com você, ou você acha que a gente vai ficar aqui plantado esperando você voltar? Ainda mais um desmiolado, chorão como você!

Yue – Certo… Apenas vamos ver o que está acontecendo aqui…

Eriol toma a frente, eles andam por mais alguns minutos pelo pequeno vilarejo e chegam até a capela da aldeia, onde está tendo um enterro. Ao se aproximarem, eles se dão conta de que na verdade não era um funeral comum e sim, um funeral comunitário, já que haviam vários mortos. Eles se chocam com os poucos sobreviventes que choram pelos mortos que parecia ser ainda maior do que o número de sobreviventes. Eriol corre até uma mulher vestida tipicamente com roupas pretas de luto, segurando as contas do rosário budista, chorando dolorosamente próxima a 3 caixões.

Eriol – Mia! O que está acontecendo aqui? - A mulher olha para o garoto atordoado, se levanta e cospe no rosto de Eriol, se vira de costas e volta a chorar entre rezas e um choro tremido. Eriol fica ali parado em estado de choque. Outro homem se aproxima e olha para Eriol.

H – É ele! O guerreiro sagrado está aqui! Venham! Ele não cumpriu sua missão! Ele deve pagar pelo que ele fez! - Os outros aldeões olham de longe para Eriol e se armam com pedaços de pau e pedras e começam a atirar contra Eriol, que desvia desesperadamente e foge para longe. Yue e Taylor ficaram chocados com a recepção, então outro aldeão grita:

A – Esses garotos vieram junto com o traidor! Matem-nos! - Taylor desvia de uma pedrada na cabeça e então decide correr puxando Yue que ainda não tinha percebido o que estava acontecendo.

Quando eles chegam em um lugar seguro, logo atrás de Eriol, Taylor se senta exausto.

Taylor – O que está acontecendo aqui?!

Eriol – Como é que eu vou saber? Ninguém me diz nada, só querem me matar…!

Taylor – Ah! Não me diga!

Yue – Gente… acho que tem alguma coisa errada comigo… - os dois olham para Yue e se deparam com uma cascata de sangue jorrando de onde ele foi acertado por uma pedra. Taylor grita desesperado, o que chama a atenção de seus perseguidores, mas habilmente ele levanta uma cortina de ilusão para despistar os aldeões.

Eriol – Cara! Como eu gostaria de fazer isso… - Taylor ignora Eriol se voltando para Yue, ele impõe as mãos em cima do machucado do companheiro e uma luz azul clara ilumina o machucado. Taylor – Eu não aprendi direito a técnica de cura que o Dimom me ensinou, mas eu vou dar tudo de mim! Eriol! Arranje algo para que Yue possa se cobrir, ele perdeu muito sangue, está entrando em estado de choque! Eriol esfrega as mãos e assopra através de suas palmas. Uma bola de fogo se forma flutuando suavemente para perto de Yue.

Taylor – Ta… isso deve servir… - Olha preocupado para o rosto cada vez mais pálido e frio.

Eriol – Não que eu ache que uma pedrada poderia realmente matar ele, não é mesmo? Ele não é uma espécie de imortal ou coisa assim?

Taylor – Não… Ele é um ser eterno! É diferente… Ele pode morrer se for gravemente ferido, tirando as habilidades de não precisar comer ou dormir, ele pode adoecer, pode sangrar até a morte… Ou seja, basicamente é um corpo humano nesse sentido… Ou você acha que se ele fosse imortal teria gente tentando matar ele?

Eriol – Ah é… Mas mesmo assim… Acho que ele não morreria tão fácil… - Um brilho verde sai do bolso da manga da túnica de Yue, era uma carta com a gravura da folha, ainda vermelha pela metade. A carta pára novamente na frente de Taylor que a reconhece da vez em que ela o impediu de se aproximar de Yue no dia do treinamento com o Dimom, mas dessa vez, parecia que ela queria que ele pegasse nela, Taylor segura a carta gentilmente e ela guia sua mão para mais perto da cabeça de Yue, a medida que o ferimento vai se fechando, a carta vai ficando cada vez mais vermelha, até que fica completamente vermelha e o ferimento de Yue desaparece, em instantes ele abre os olhos consciente.

Yue – O que aconteceu? - Taylor está zonzo na sua frente, Yue vê a carta vermelha na mão do amigo e sua expressão vira pura preocupação, Taylor se vira para o lado e começa a vomitar sangue, litros de sangue, assim como Yue da outra vez. Assim que termina de vomitar, ele se vira para Yue sorrindo com a boca cheia de sangue e desmaia. Yue acode Taylor rapidamente e vê que o amigo está apenas dormindo. Ele pega a carta da mão do amigo e vê que ela está novamente vermelha pela metade e coloca ela junto com as outras cartas.

Eriol está espionando por uma fresta da cortina de ilusão e vê que seus perseguidores perderam a pista e foram embora.

Eriol – Não estamos mais sendo seguidos, mas isso é por que já está escurecendo… Temos que arranjar alguma coisa para Taylor comer quando ele acordar, assim ele vai se sentir melhor… - Eriol sai do campo de ilusão, enquanto Yue fica sentado, encostado em um galho de árvore olhando para Taylor deitado na grama, ele percebe que estava dentro de uma tenda, quando escuta o barulho da chuva do lado de fora e lembra que Eriol estava lá fora e que isso não era nada seguro, estava pronto para pegar Taylor e sair correndo ou investir ferozmente contra os aldeões embora ele não achasse que seria a melhor solução, não quando eles tinham pedras e sabiam usar. Alguns minutos depois Taylor acordou um pouco tonto, Yue segura-o para ele não se mexer.

Yue – Fique quieto por um instante… Eu não sei quais são os efeitos colaterais para alguém que usou aquela carta e que não seja eu…

Taylor – Ah… Ainda bem… Vocês está bem…

Yue – Sim… Estou… Muito obrigado mais uma vez por me salvar… - O olhar de Yue era de preocupação para com seu amigo.

Taylor – Ah… Não foi nada! Farei quantas vezes forem necessárias… - Onde está Eriol – Pergunta vendo a esfera de fogo ainda acesa.

Yue – Ele foi buscar alguma coisa pra você comer… - Taylor se levanta em um pulo

Taylor – Eriol o quê???? Será que ele não pode me dar um minuto de descanso?! - Yue olha para Taylor já em pé e cheio de energia.

Yue – Pelo visto você se recupera bem… - Taylor cora desviando o olhar.

Taylor – É um dom de família… Somos ótimos com a arte da cura… Mas eu ainda estou aprendendo…

Yue – Entendi… Vamos esperar mais alguns minutos, se ele não aparecer, nós vamos atrás dele…Taylor – Mas…

Yue – Temos que confiar nele…

Taylor – Naquele miolo mole?

Yue – Você mesmo disse que ele é mais esperto do que aparenta…

Taylor – Eu queria te impressionar…

Yue – Ah… Bem… Nesse caso, acho melhor a gente ir atrás dele mesmo… - Nesse mesmo momento a cortina ilusiva se mexe e se abre, por um momento Taylor faz uma posição de luta, pronto para nocautear quem quer que fosse, mas então vê que é Eriol.

Eriol – Ah! Você já acordou… Eu trouxe uma comidinha pra você! - Quando ele abre a panela de barro, Taylor vê um ensopado com um monte de coisas estranhas dentro, mas reconhece as batatas.

Taylor – Eu não vou comer isso…

Eriol – Mas foi a Bá-san que fez especialmente pra você! Não se pode rejeitar qualquer coisa que Bá-san faz! Experimenta Yue-chan!

Yue – Ah não… eu já tive a minha cota de sopas por hoje…

Eriol – Abre a boca Taylor-chaaaaan!!!! - Diz monstruosamente forçando a colher de sopa contra a boca do garoto, até que entra um pouco na boca e Taylor pára para sentir o gosto, depois de algumas caras para ter certeza de que não tinha nenhum gosto estranho, ele aceita mais um gole da sopa e então começa a tomar sozinho. Eriol olha para o amigo e sorri satisfeito, até que a colher acerta algo no fundo, quando ele pega algo pesado do fundo, é um sapo morto, cozido. Depois de vomitar tudo e mais um pouco, Taylor olha com ódio para Eriol.

Taylor – O que você tem nessa sua cabeça?! Um sapo morto dentro da sopa!!! Sério?! Você quer me matar mesmo né?! - Eriol estava com o sapo inteiro na boca.

Eriol – Ta shalgadchin… - Taylor volta a vomitar, Yue olha curioso para o sapo e a cara contente de Eriol, mas prefere não dizer nada, não tinha certeza, mas não parecia muito apetitoso… Depois de terminar o sapo, Eriol explica.

Eriol – Os sapos daqui tem propriedades curativas e desintoxicantes… Veja como Taylor já está melhor… Jogou tudo o que não estava fazendo bem pra ele fora…

Taylor – Isso é por que é nojento!!!! - Yue desvia os olhos. - De qualquer forma… Quem é essa Bá-san? E como você falou com ela? Por acaso ela também não é um sapo, é?

Eriol – Ah não… Bá-san é uma anciã da vila, ela trata e cura todos os que pedem ajuda a ela, sem olhar a quem… Por isso ela não contará que me viu… Na verdade ela disse que queria muito conhecer vocês dois… Agora que está escuro lá fora, nós podemos chegar a tenda dela, sem levantar suspeitas…

Taylor – Será que ela vai poder explicar o que está acontecendo ou tentará nos envenenar com mais sapos?

Yue – acho que é um risco que nós temos que correr, se quisermos alguma resposta…

Os três saem da tenda e andam rapidamente pela estrada de barro, Eriol os orienta até chegarem bem perto de uma casa de madeira simples como todas as outras. Eriol pede para que eles esperem escondidos enquanto ele vê se tem mais alguém na casa. Enquanto Yue e Taylor esperam olhando para a casa veem ele sair na porta acenando para que saiam do esconderijo e entrem, os dois vão o mais rápido que podem e entram na pequena casa de madeira.

Quando entram, se dão conta de que a casa era realmente pequena, havia uma pequena cozinha e logo depois uma sala que cabia apenas uma mesa redonda com algumas cadeiras e algumas almofadas no chão em cima de um tapete, havia uma porta que provavelmente dava para um quarto e o banheiro devia ser lá fora.

A mulher era grande e redonda, vestia um véu na cabeça com alguns adornos, tinha uma cara bem séria, os olhos espremidos no rosto grande com a pele escura, os cabelos eram negros com algumas manchas grisalhas. Usava um vestido de manga comprida bem fechado e um xale colorido por cima. As mãos eram grandes também com dedos roliços, a casa estava iluminada apenas por uma lâmpada fraca na sala, de alguma forma a luz parecia ser sugada para algum outro lugar.

Quando Taylor viu a mulher, ficou pasmo, sentindo algo estranho, Yue observava cuidadoso. A mulher não disse nada quando os viu, nada, nenhuma saudação.

Eriol – Bá-san! Esses são os meus amigos, eles vieram me ajudar! - Bá-san nada disse, seus rosto estava imóvel, Eriol insistiu – Bá-san?! Bá-san! Você está aí? - Eriol se aproximou da mulher e começou a mexer nela, puxando um braço, depois fazendo caretas na frente dela e nada, de repente ele subiu em cima da mesa, ficou de joelhos e olhou o rosto da mulher bem de perto e depois gritou – Báááááá-saaaaaaannnnn!!!!! - A mulher fungou fundo, uma respiração pesada de catarro e então ela olhou para Eriol com pequenos olhos leitosos e pretos

B – O que foi garoto? - Disse numa voz fina, sonora e doce, parecia ser a voz de uma pessoa bem mais nova.

Eriol – Você estava dormindo? - Disse Eriol pulando de cima da mesa.

B – Sim! Eu já sou velha, preciso dormir mais do que os mais jovens! - Seus pequenos olhos encontraram os outros meninos – Quem são vocês?

Eriol – Eles são os meus amigos, vieram me ajudar…

Yue – Me chamo Yue – Apontando para si – E este é Taylor… - Aponta para o garoto grisalho.

A mulher observa os dois, como se seus olhos pudessem dar um zoom de longe.

B – Uhm… Vocês não são pessoas simples… O garoto de cabelos negros está amaldiçoado e o de cabelo grisalho está fadado a um grande sofrimento… - Yue e Taylor se entreolham e dão de ombros.

Eriol – Bá-san! Nós precisamos que você nos conte o que está acontecendo… porque tanta gente morreu? - A mulher fita-o, os lábios grossos retorcidos em uma carranca, seus olhos abriram mais do que todos achavam possível e isso assustou Yue e Taylor que deram um passo para trás.

B – Você é o culpado de tudo! - Apontou um dedo roliço para Yue, que deu mais dois passos para trás e se encostando na parede sem respirar, Taylor olhou para o amigo

Taylor – Y… Yue… Você está bem? - colocando um pé para trás, como se fosse começar a correr a qualquer momento, ora olhando para o amigo, ora olhando para a mulher.

B – Foi por causa desses garotos que os monges te mandaram para longe e por isso, todos nós estamos fadados a perecer nas mãos de um homem ambicioso e cruel! O fogo está furioso com todos nós! Assim que você saiu, ele destruiu nossas plantações e trouxe esse homem com suas fábricas e salários… Salários de miséria! Sem nenhuma escolha, todos nós estamos à mercê das leis que ele nos impõe! Sem o guerreiro do fogo, nada podemos fazer, com a falha do guerreiro do fogo, devemos nos vingar e matá-lo! Só assim o fogo voltará a nos abençoar! Todos olham para a mulher abismados. Taylor dá um passo para frente, parecia ter algo em mente, algo mais além de querer sair correndo.

Taylor – Então… Bá-san! Me diga… Esse homem chegou junto com o incêndio?

B – Ele nos salvou das chamas com seus caminhões-pipa… E deu empregos para os aldeões em troca de migalhas! Nossas terras estão estéreis, nada que planta cresce… Nada dá frutos, essa foi a vingança do fogo! Por você ter nos deixado e desrespeitado o seu juramento…

Taylor – Certo… Então esse homem veio ajudar vocês a combaterem o fogo, e depois oferecer emprego… E essas pessoas? Como elas morreram?

B – Foi o Fogo! As chamas ferozes e famintas levaram tudo o que sua gula teve capacidade de levar consigo! Crianças, animais, plantas, adultos, nossos sábios e várias casas! Nossas belas casas! - Taylor olha para Yue que ainda está contra a parece com um sorriso no rosto.

Taylor – Está pensando o mesmo que eu?

Yue – Estou, mas acho que nossos furões ainda não eclodiram… - Taylor bate com a palma da mão na testa, como se lembrasse dos ovos.

Taylor – Droga! Nós não temos muito tempo! - Virou-se para a mulher imensa e imóvel – Bá-san! Eu sou a água! E eu vim salvar vocês! Mas preciso que me conte mais sobre esse homem… - Enquanto a mulher contava o que sabia, Eriol tinha o semblante sério e sombrio, como nunca antes. Ele não espera a mulher terminar de falar, simplesmente dá as costas e sai da casa. Yue olha para o amigo, como se sua garantia de continuar vivo estivesse junto com ele, mas fica com Taylor, pois não queria que seu amigo ficasse ali sozinho.

A mulher conta sobre Babid, um homem rico e esnobe que começou a trazer indústrias para as regiões próximas, haviam rumores de que Babid era muito ganancioso e que comia apenas as melhores especiarias do mundo. Por onde ele trazia suas fábricas, trazia a pobreza e a infelicidade para o povo, já espalhou mais de 10 fábricas em povoados vizinhos e desde então, os rios estão sem peixes e as terras estéreis… Com isso, os homens tinham que ir trabalhar para o homem e se submeter a um salário de miséria… Nunca mais as aldeias voltaram a ser as mesmas… Os mercados próximos as aldeias também eram dele, os únicos da região que traziam toda a comida de suas fazendas longe dali e os enlatados da própria fábrica, não importava o que, tudo o que os moradores dos vilarejos tinham ou podiam comprar era provido por Babid.

Taylor – Não se preocupe Bá-san! Nós vamos ajudar vocês! - Dito isso, Taylor e Yue saem da casa da mulher, Yue tinha as pernas bambas enquanto Taylor procurava por Eriol, mas não o viu em lugar algum. - Yue! Temos que achar o Eriol, antes que ele faça alguma besteira! - O garoto grisalho fecha os olhos e respira fundo, pega a mão de Yue e os dois desaparecem. Eriol estava com as mãos envoltas em chamas no meio de uma floresta seca, a chuva cai fina e constante, deixando a estrada ainda mais barrosa, Taylor e Yue aparecem na frente do garoto loiro que aponta as chamas para eles.

Taylor – Hey! Calma aí! Somos nós! - Eriol abaixa as chamas.

Eriol – O que querem aqui? Vocês não tem nada a ver com isso… Voltem para a tenda enquanto eu resolvo isso…

Taylor – Calma Eriol, o que você pretende fazer?

Eriol – Cumprir o meu dever! Eu sou o guerreiro sagrado, eu sou responsável por todas essas pessoas que estão perecendo nas mãos desse homem tirano! - Yue e Taylor olham o garoto pasmos pelas frases bem elaboradas e o uso competente da linguagem. Taylor balança a cabeça tentando manter o foco.

Taylor – Sim! Mas tem mais de uma maneira de se fazer alguma coisa… Além disso, você não pode sair por aí destruindo fábricas com pessoas trabalhando dentro delas… - Eriol desvia o olhar como se não tivesse pensado naquilo direito – Eriol… Nós vamos te ajudar! Apenas precisamos bolar um plano, um que não coloque a vida das pessoas em risco e que não traga a destruição… - Eriol passa o olhar de Taylor para Yue que se encolhe. Eriol se aproxima do garoto com os longos cabelos molhados, coloca uma mão no ombro molhado da túnica e sorri.

Eriol – Isso não é culpa sua… - Seus olhos verdes antes cheios de energia, agora estavam baixos e apagados. Yue coloca a mão no ombro de Eriol também, no mesmo gesto e só com o olhar tenta o confortar, Taylor se aproxima e passa os braços por cima dos ombros dos dois.

Taylor – Nós vamos resolver isso! - Depois de um momento abraçados daquele jeito. Eles olham para a grande construção a sua frente, uma fábrica imensa com muitas chaminés soltando fumaça a todo vapor, com seus muros altos e portões impenetráveis.

Yue – Ahm… Como é que nós vamos entrar aí? Aliás… A gente tem algum plano? - Taylor começa a pensar, de repente, seus olhos brilham com uma ideia, Yue se encolhe.

Taylor – Eu tenho um plano! - pega na mão dos amigos e todos desaparecem.

Os três aparecem no mesmo lugar onde chegaram. Yue parece um pouco tonto.

Eriol – Ah não! Isso não! De novo não!

Yue – Eu preciso me acostumar com isso… - Taylor coloca a mão dentro da parede dimensional e pega os três ovos, ao vê-los a ânsia de Yue aumenta – Eu imaginei que não seria a última vez que eu teria que comer sopa de furão, mas não sabia que seria tão cedo… Você tá querendo mandar ele para alguma fenda dimensional e deixá-lo lá preso para sempre?

Taylor – Apesar de ser uma boa ideia… Não… Com algumas modificações, nós podemos fazer apenas uma sopa para uma viagem astral… Se esse plano não funcionar, nós jogamos ele no limbo e voltamos para desativar as fábricas e curar o solo… - Eriol e Yue engolem em seco, quando Taylor queria, ele era bem assustador e o que era mais assustador, não era nenhuma cara ou força e sim sua mente, aquela caixola guardava segredos obscuros de mais…

Yue – Certo… Mas para fazermos a sopa, nós precisamos de ingredientes…

Taylor – Sim! E eu já sei onde consegui-los! - Taylor coloca os ovos dentro de algum bolso disfarçado na roupa, pega os dois pelas mãos e aparecem na frente da casa da Bá-san. Ao ver a casa, as pernas de Yue voltam a tremer.

Yue – E o show não pára… - Diz com a voz trêmula… Dessa vez não havia luz alguma na casa. - Gente… Acho que a Bá-san já está dormindo, é melhor voltarmos outra hora…

Eriol – Não… Tem alguma coisa errada – Apontando para a porta aberta em seguida sai em disparada para a casa. Yue e Taylor pensam a mesma coisa… “Se Bá-san estava ainda dentro da casa, ou não” Qualquer uma das duas alternativas era assustadora. De qualquer forma, eles seguiram Eriol para dentro da casa escura.

Quando entraram, Eriol usava seus punhos em chama para iluminar a casa, Bá-san não estava mais ali, o que fez Yue e Taylor tremerem. Eriol chega próximo a cadeira onde a mulher ficara sentada e imóvel, como se procurasse alguma coisa. Taylor se adiantou em acender a luz da casa e incrivelmente a luz estava mais forte, iluminando bem o ambiente.

Eriol – hey! Apague logo essa luz! Você vai matar a Bá-san! - Continuava procurando pela sala, Taylor apaga a luz com cara de choro.

Taylor – Isso é assustador… - Um barulho de algo úmido soa no chão, todos ficam atentos para saber de onde veio. Taylor solta um gritinho baixo e espremido na garganta, o barulho volta a acontecer, Taylor aponta para o chão – Está vindo dali! - Yue e Eriol olham para onde Taylor apontava e veem um sapo do tamanho de uma bola de basquete com duas bocas, havia um musgo escorrendo dos olhos da criatura, Taylor cambaleia, Yue segura-o.

Yue – Aguente firme Taylor! - Eriol se abaixa e estende a mão para o anfíbio que vai em sua direção. O sapo pula num ritmo pegajoso, deixando musgo pelo caminho, Taylor e Yue ficam imóveis e nem notam que estão abraçados com cara de medo e nojo. Quando o sapo pula em cima da mão de Eriol que ainda estava acesa, os dois fecharam os olhos, imaginando que o sapo ia começar a queimar, mas a chama que se apaga e mais gosma agora começa a sair pelos poros do animal pegajoso, Yue e Taylor seguram a ânsia, então Eriol leva o sapo para mais perto de seu rosto e o beija. Yue e Taylor tremem com um calafrio. O sapo começa a pegar fogo descontroladamente, o fogo aumenta inúmeras vezes chegando até o teto da casa, mas não queima nada, de começo era um fogo laranjado, normal, mas, de repente, começou a ficar vermelho e então roxo, e depois tomar forma ainda em cima da mão de Eriol que parece começar a fazer força no braço. Quando o fogo cessa, uma mulher jovem e bonita com olhos escuros, pele escura e cabelos cacheados negros aparece sorrindo para todos.

B – Ah…! - solta um alívio e desce da mão do garoto loiro – Como é bom estar de volta! - Ela olha para os dois garotos abraçados – Sou tão assustadora assim? - Os dois garotos continuam abraçado, olhando atentamente para os olhos brilhantes da mulher. - Bem… deixa pra lá… Eriol, obrigado por me ajudar a me transformar…

Eriol – O que aconteceu aqui?

B – Invasores… Eles vieram aqui querendo saber de vocês… Eu disse que não sabia de nada, então eles começaram a gritar comigo… Bem… Você sabe que eu não suporto gente escandalosa, então eu tive que dar um jeitinho neles… - Pisca um olho – Eriol engole em seco.

Eriol – Certo, então foi por isso que você se transformou…

B – Sim… Foi necessário… - Taylor solta Yue do abraço com cuidado, Yue também, mas os olhos fixos na mulher.

Taylor – Bá-san? - pergunta inseguro.

B – Sim! Quem mais eu seria? Sherazade? - Taylor a olha incerto, mesmo assim continua.

Taylor – Ahm… É… De qualquer forma… Nós temos um plano para acabar com a ambição de Babid, mas nós precisaremos da sua cozinha e de alguns ingredientes…

B – Ah sim! Usem o que precisarem…

Taylor – Ah… E… Será que eu posso acender a luz? - A mulher sorri mexendo em um cacho do cabelo.

B – Claro! Vá em frente! - Sem tirar os olhos da mulher, ele tateia a parede procurando o interruptor, até que a luz acende, forte, Yue fecha os olhos por causa da claridade repentina, assim como Eriol e Taylor também. Mas a mulher mantém os olhos fechados e apertados. - Eriol… Meus óculos por favor… - Eriol pega em cima da mesa o par de óculos escuros de borboleta roxa e coloca na mulher, que sorri satisfeita – Ah… Bem melhor agora, Taylor queria perguntar sobre o significado daquele óculos, mas decidiu que seria arriscado de mais saber… Puxou Yue pelo braço que ainda estava paralisado e foram para a cozinha, deixando a mulher e Eriol na sala.

Taylor começa a procurar as coisas nas gavetas da casa e encontra poucas coisas, a maioria parecia que algum dia fora objetos muito luxuosos, mas agora não passavam de metal manchado e velho, uma das portas do armário cede e cai no chão se espedaçando, Taylor fica com o puxador na mão.

B – Ah! Não se preocupe! Está tudo muito velho mesmo… Tome cuidado para não se machucarem… - Grita a mulher da sala. Yue e Taylor se entreolham e Taylor continuar reunindo todos os utensílios que precisava. Quando a sopa estava pronta, feita com os ovos da sopa anterior, Taylor reservou um pouco em uma vasilha com tampa, sorriu satisfeito.

Taylor – Aqui está! A sopa de viagem astral! - Yue olha de longe com o nariz tampado, assim como Eriol e a mulher.

Yue – Essa deve ser pior que a anterior…

Taylor – Ah… pode apostar… - Diz o garoto com um tom sombrio na voz. - Certo! Agora nós vamos precisar fazer uma visitinha ao Sr Babid! Alguém sabe aonde ele mora?

B – Sim… Apenas siga para o norte, vocês vão ver de longe o palácio dele…

Taylor – Certo! Vamos lá então! - Dessa vez é Eriol que pega os dois amigos pelos braços e some se despedindo da mulher.

Eles aparecem na chuva, na frente de um palácio digno de um sultão, não haviam muros, apenas uma praça imensa e no final dela, o palácio, mas deu pra notar que toda a propriedade era fortemente vigiada por câmeras e homens escondidos. A praça era bem iluminada então não tinha como eles passarem despercebidos.

Eriol – Acho que eu vou ter que entrar em ação… - Coloca um capuz negro na cabeça, Yue e Taylor olham para o amigo loiro que desaparece. De repente ouvia-se sons de homens sendo nocauteados, como em filmes de ação, quando menos esperam, Eriol está de volta ainda vestindo o capuz. - Vamos entrar… - Pega nos dois e desaparece. Os três aparecem agora dentro do palácio em um cômodo vazio, onde parecia que devia ser algum tipo de sala de reunião, ela era imensa, decorada com tecidos caros e tapeçaria.

Yue – Certo… E agora? Qual é o plano? - Diz baixinho.

Taylor – Temos que fazer ele tomar a sopa… e eu já sei como… - Olhando para Yue fixamente. - Com alguns pequenos ajustes na roupa de Yue e mais uns retalhos dos tecidos caros, ele transformou Yue em uma serviçal do palácio.

Yue – Eeeehhh!!!! Por que eu?!

Taylor – Por que você é o menor de nós… e ninguém vai desconfiar de você… - Entrega a vasilha com sopa para Yue – Agora vá… Nós esperaremos aqui… - Yue choraminga, mas Taylor e Eriol o empurram para fora do salão depois de verem que não havia câmeras nos corredores, nem mais guardas. Yue começa a andar pelos corredores observando a decoração nas paredes, as maçanetas das portas feitas em ouro, as tapeçarias caras, as luminárias cravejadas de pedras preciosas, de repente sente um puxão.

G – Hey! O que você está fazendo aqui?! Sabe que não deve andar pelos corredores e sim pelas passagens de serviços, Sr Babid não ficaria satisfeito em ver um lixo como você perto de suas tapeçarias… - Empurra Yue para dentro de uma passagem pela parede, ele quase cai derrubando a sopa do pote, mas consegue se equilibrar, olhando para trás vê que tem um lance de escadas descendo e outro subindo, então ele decide subir.

S – Hey! Garoto! - Chama uma voz áspera de mulher, Yue olha para trás e vê uma mulher de pele escura com um pano de prato pendurada no ombro – O que é isso aí? Desça já daí! - Yue faz o que a mulher pediu e desce, ela pega ele fortemente pelo braço e começa a descer as escadas, apressada – Você está atrasado! O que pensa que está fazendo… Se continuar assim vai perder o emprego e nós seremos despejados daqui! É isso o que você quer?! - Yue não responde, apenas observa a mulher terminar de servir uma bandeja com vários tipos de frutas, ela olha para o pote nas mãos de Yue e desaprova – Você não pode levar a comida nessa vasilha horrenda! Ele vai ficar furioso! Passe isso pra cá! - Toma a vasilha da mão de Yue bruscamente, que entrega com medo que a mulher derrube. Ela abre a tampa e segura a respiração – Nunca vou conseguir entender como é que ele come esse tipo de coisa fedida! - Yue congela, os olhos arregalados olhando para a mulher pronta para experimentar a sopa.

Yue – Ele também não vai gostar de saber que você experimentou a sopa dele, não é mesmo? - Pensou rápido, quase ofegante… A mulher deixa a colher de lado olhando irritada para Yue, dá as costas e pega uma outra vasilha muito mais bonita e passa a sopa para ela, tampa e coloca em cima da bandeja de prata com adornos de ouro e joias, ao lado, mais alguns outros alimentos..

S – Pronto! Agora você pode levar! E por favor, não derrube desta vez! - Pressiona a bandeja contra Yue que a pega um pouco desajeitado, mas depois consegue se ajeitar e volta pela escadaria, havia pouca luz nos corredores, tudo era iluminado por castiçais com velas que liberavam um cheiro estranho. Sem erro, ele viu uma porta fortemente decorada e iluminada, haviam inscrições em outro idioma nela, mas Yue não conseguiu ler, quando passou pela porta, viu que todo o ambiente era um labirinto de véus, haviam dançarinas executando um dança ao som de flautas suaves e tambores… Também haviam serviçais e guardas por todos os lados, todos vestidos com tecidos finos e adornos. Em uma cama imensa também guardada por véus tinha um homem imenso deitado na cama, também vestido com tecidos caros, haviam algumas serviçais próximas a cama abanando o homem que tem um sorriso satisfeito no rosto, ouvindo a música, quando Yue se aproxima, o homem esbraveja.

Babid – Vai esperar a minha comida esfriar para me entregar? - Yue demora um pouco, mas depois entende que o homem estava falando com ele. Yue se apressa com a bandeja e se aproxima da cama hesitante – Venha logo! Estou morrendo de fome! - Yue se aproxima mais, agora alcançando a bandeja diretamente para o homem, mas quem pega é uma das serviçais que estava ajoelhada ao lado da cama – Ei! Eu conheço você! Não pense que eu esqueci da louça que você quebrou! Você pagará por ela! Guardas! - Em segundos dois dos guardas levantavam Yue do chão enquanto aguardavam ordens – 100 chicotadas! - Yue arregala os olhos e depois estreita-os de raiva – O que foi? Não gostou? Torça para que eu não perca as contas no meio da contagem senão vou ter que começar de novo… - O homem sorri malignamente – Amarrem-no! Nada como um bom divertimento para acompanhar uma boa refeição… - Destampa a vasilha com a sopa e cheira a comida, enquanto amarram Yue em um dos véus pendurados ao teto para que comece o castigo. O homem pega a colher e pega um pouco de sopa e toma apreciando o sabor – Comecem! Um! - Começou a contar o homem e a primeira chibatada arde nas costas do garoto que se contorce inutilmente – Dois! - Continua a contar tomando mais um gole da sopa… As chibatadas seguem de acordo com as colheradas da sopa, porém, não demora muito e o homem desmaia sonolento. As serviçais se afastam com medo de serem esmagadas pelo peso do homem. Os guardas param as chicotadas e soltam o menino, um deles cochicha.

G – Sinto muito! Nós não queríamos fazer isso! Por favor saia daqui imediatamente, se puder suma do palácio e nunca mais apareça, nós diremos que nos livramos de você! - Yue olha furioso para o guarda com as costas sangrando, depois olha para o homem deitado, dormindo e então sai correndo pela porta por onde entrou, volta pelas escadas, espiona pela passagem e atravessa o corredor até chegar no aposento onde Taylor e Eriol os aguardava e se aproxima.

Yue – Consegui dar a sopa, Babid está sob o encantamento… O que nós faremos agora? - Taylor tira de um esconderijo na roupa três mais um pote com sopa, abre a tampa e Yue é o primeiro a tomar a sopa, tomando a tigela da mão do garoto grisalho, que se surpreende, entrega para Taylor que passa para Eriol, os três tremeluzem como fantasmas e começam a vagas pelo palácio atravessando paredes até chegar no quarto de Babid, Seu corpo físico não se tornara o de um fantasma.

Yue – O que está acontecendo? Por que ele não virou fantasma?

Taylor – Não é assim que acontece com pessoas normais… seu invólucro não é desenvolvido o suficiente… Algo começa a se manifestar dentro do corpo do homem e um espírito sai do corpo imenso do homem, mas o espírito é completamente diferente, magro e enrugado, curvado com os olhos assustados e fundos. Ao se depararem com a imagem um arrepio passa pelas espinhas dos três. Mas nenhum deles recua, pelo contrário, eles partem pra cima do espírito que tenta fugir, mas está preso pela imensa barriga de carne. Os Três o seguram e puxam o espírito para fora que urra de dor alto e tremido. Taylor bate na cara do espírito e este parece recobrar a consciência.

Taylor – Eu sei que você está escondido aí! - Os olhos fundos do espírito parecem ganhar lucidez,

Babid – O que está acontecendo? Quem são vocês? Para onde estão me levando? Vocês sabem que eu sou?!

Eriol – Ah sim! Nós sabemos! Somos os três espíritos natalinos e estamos aqui para te levar por uma viagem inesquecível!

Babid – Você quer dizer que são o passado, presente e futuro? Vocês vieram me mostrar o quão rico e serei no futuro?

Taylor – Ah não… permita que nos apresentamos direito… - Eu sou o cara na lama! - Taylor joga o espírito na lama fora do palácio, a lama suja toda a sua roupa e joias caras.

Babid – Ei! Veja só o que você fez!

Taylor – Não! Veja só o que você fez! - Apontando para as terras dos aldeões toda destruída e envolta em lama e sujeira.

Babid – Ah! O que eu posso dizer? Lama para os porcos… Esse povinho merece isso!

Eriol – Ah… agora é a minha vez! - Pega o espírito do homem e leva para a igreja onde estão sendo os enterros, ele joga o espírito do homem contra um dos caixões, os corpos atravessam a matéria do caixão e dentro se deparam com um cadáver desfigurado e retorcido – Eu sou o arrependimento… Você sabe… Arrependimento pode matar… - O homem grita e esperneia, tentando se afastar do cadáver desesperadamente, mas Eriol o mantém ali.

Eriol – Foi você, não foi? Você começou o incêndio e devastou as terras do meu povo, não é mesmo?

Babid – Não! Eu não…

Eriol – Fale a verdade! Ou eu juro que você vai ser um espírito errante para o resto da sua existência! - A expressão no rosto do garoto era combustão de raiva, pura.

Babid – Está bem! Está bem! Eu contratei homens para incendiar os campos… Mas eu fiz isso com o intuito de ajudá-los! Tudo o que eles sabiam era plantar, pescar e comer! Agora eles sabem operar máquinas, sabem procedimentos de fabricação… - Eriol transpassa a cabeça do espírito de Babid no corpo e depois puxa novamente quando o homem começa a gritar ainda mais – Está bem! Está bem! Os deuses estão me punindo! O que eu fiz de errado? Por favor me perdoe!

Eriol – O que você fez de errado?! - A fúria transborda o rosto de Eriol – Você matou homens, mulheres, crianças, animais, plantas… Matou tanta vida que eu teria de espedaçar em pedacinhos bem pequenininhos para representar cada morte que você causou! Além de tirar a dignidade do meu povo! Você tem ideia do que cultivar a terra significa para o meu povo?! Você tem ideia do que você tirou do meu povo?! - O homem grita mais uma vez de pavor pedindo por perdão. Eriol sai de dentro do caixão puxando o homem, acende um punho de fogo e aproxima do rosto do homem – Vamos ver… Será que se eu te deixar parecido com aquele homem, ele te perdoa?

O homem grita ainda mais apavorado e consegue se livrar das mãos de Eriol, cambaleando no ar, esbarrando em árvores secas e eventualmente caindo na lama, quando ele levanta o rosto da lama, se depara com Yue a sua frente. Havia uma aura negra em volta dele e uma marca em seu rosto. Yue se abaixa ao lado do homem que reconhece seu rosto de minutos atrás.

Babid – Você! De novo você! - Disse irritado, depois passou a choramingar – Por favor! Me perdoa! Eu nunca mais vou torturar ninguém! Eu prometo!

Yue – Eu sou o julgamento… E você é culpado! Culpado da gula, da pobreza de espírito e do mais desprezível de todos os crimes… - Pega o homem do chão e o leva até uma aldeia vizinha, onde mostra a ele um homem magro e retorcido em trapos sujos, miseravelmente. Quando o homem encara o velho, toda o fingimento desaparece, agora há lágrimas em seus olhos de verdade.

Babid – Isso não é possível…! Eu procurei por ele a minha vida inteira! Ele não podia estar tão perto!

Yue – Ele sempre esteve aqui, durante todos os anos, mas ele nunca teve vontade de se aproximar de você, desde que se tornou tão mesquinho e cruel… Como ele poderia viver com alguém que era exatamente o contrário de tudo o que ele mais apreciava?

Babid – Maldito! Maldito! Como ele ousa a me julgar? Esse velho molenga e preguiçoso! Tudo o que sabia era falar de plantar, pescar e viver na ignorância! Como ele teve a capacidade de me julgar dessa forma? Por que? Porque ele simplesmente não apareceu…

Yue – Babid… Você foi um homem cruel, mas eu vou te dar uma chance… Se a partir de agora, você usar todos os seus recursos para ajudar todas essas pessoas a superarem suas perdas e demonstrar generosidade para com todos, restaurando tudo o que havia de bom nestas vilas e dar condições dignas de viverem, você será perdoado… Os dois aparecem no quarto do Palácio do homem e seu espírito se liga novamente com seu corpo grande e pesado. Quando acorda, ainda tem um vislumbre da imagem de Yue o olhando, já com sua aparência normal, até que desvanece aos seus olhos. O homem desmaia novamente exausto.

Quando os garotos se reúnem novamente, Taylor nota que a túnica de Yue estava toda cortada e que havia manchas de sangue nela, mas observa que não há ferida alguma em suas costas.

Taylor – O que aconteceu com você? - Tocando as costas do garoto

Yue – Não foi nada de mais… Já sarou… - Sorri para o amigo que ainda o olha preocupados.

Taylor – Tem certeza?

Yue – Tenho… - Engasga com alguma coisa, a sensação é familiar, o mesmo acontece com os outros dois, Expelindo ovos por suas bocas novamente, e seus corpos voltando ao estado normal. Já era dia, quando eles olharam por uma das janelas do palácio. Taylor segura seus amigos e desaparecem. Já na casa da Bá-san a aparência da bela mulher já era novamente de uma senhora imensa sentada em sua cadeira de costume. Mas dessa vez ela tinha o semblante alegre que lembrava um pouco da jovem Bá-san, mas também um pouco do sapo gosmento. Eriol desaparece deixando seus amigos para trás.

No santuário do vilarejo, ele acende todas as velas funerárias e também a tocha com fogo sagrado e volta para a pequena casa. A senhora a olha com seus olhos esbranquiçados que de repente começam a ficar normais.

Eriol – Bá-san! Eu sinto muito por ter me ausentado, infelizmente eu ainda tenho coisas para fazer, então eu peço para que mantenha a crença e a fé acesa com a chama sagrada, para que todos se sintam protegidos e abençoados… Babid também fará sua parte… Tenho certeza de que as coisas vão melhorar muito a partir de agora… Mas antes… Eu tenho a sua benção? - A velha senhora tem uma expressão emocionada.

B – É claro que sim… Eriol, você tem a minha benção e eu farei o que for necessário para manter a chama acesa… Vá em paz e volte assim que puder…

Eriol – Eu voltarei… - A senhora se virou para os outros dois garotos de modo acusador.

B – É bom que vocês cuidem muito bem desse menino! Ou eu vou fazer tudo o que vocês forem comer, se transformar em sapo! - Os dois garotos seguram a ânsia com a ameaça, a mulher ri jovialmente da cara deles.

Nobi – Então vocês estão aí! Vocês têm ideia dos problemas que me causaram?! - Todos olham assustados para trás e veem Nobi flutuando sem tocar em nada. Taylor fica com os olhos brilhando.

Taylor – Nobi! Você veio!!! Veio buscar a gente?

Nobi – Bem… eu até poderia deixá-los comer mais sopa de furão, mas Dimom quer falar com vocês urgentemente, então eu não tenho escolha.

B – Ah… Um demônio… Que raro um desses por essas bandas… - Nobi estreita os olhos para a velha que olha para ele perigosamente. Nobi engole em seco sem tirar os olhos da velha e diz cuidadosamente.

Nobi – Venham, entrem no portal, Dimom está com pressa…

B – Uh… Mas tão rápido? Não vai ficar nem para um lanchinho? Passa a língua mais comprida do que o normal pela boca de onde saem presas desproporcionais para o tamanho da cabeça. Yue e Taylor não hesitam em passar rapidamente pelo portal, Eriol acena alegre para a velha e some no portal, num estalo de dedo duas línguas de sapo saem das laterais do corpo da velha em direção a Nobi, mas este consegue repelir com alguma coisa que explode e ricocheteia as línguas para trás voltando agilmente para dentro das laterais de seu corpo, Nobi o portal desaparecem junto com a explosão.

Do outro lado, Nobi aparece junto com os outros, batendo a poeira da roupa impecável e arruma alguns fios de cabelo que estavam desalinhados. De repente Yue começa a passar mal, vomitando sangue, seu corpo começa a se contorcer, seus olhos mudam de cor, de azuis para vermelho sangue e depois para amarelo, voltando a ficar azuis. Instintivamente Eriol se abaixa ao lado do amigo e o envolve em um abraço. Uma voz desconhecida soa:

Yue - “Você libertou um selo da bondade dentro de mim, agora eu faço parte de você e você faz parte de mim… Eriol, guerreiro sagrado do fogo, sua virtude jamais se apagará.” - Desmaia emanando uma luz branca entre Eriol e ele.

Dimom se aproxima.

Dimom – Então os selos estão sendo libertados realmente…

Taylor – Sim… Parece que o estado de saúde dele tem piorado toda vez que um selo é liberado… Não estou certo… Mas acho que existe o risco do corpo dele não aguentar a transição…

Dimom – Entendo… Levem-no para dentro, vamos cuidar dele… - Nobi fica para trás observando de longe enquanto eles carregam o garoto para dentro da casa de Dimom.

Douyga – O que está fazendo aí sozinho? Venha para dentro, o sol está forte hoje! - Acena Douyga da varanda da casa, Nobi faz uma careta e desaparece. - Poxa… ele tá irritado mesmo dessa vez… O que será que aconteceu? - Entra na casa e se depara com todos em volta de Yue desacordado.

Taylor – A energia dele não está mais baixa, a respiração está estabilizada, parece que ele está apenas dormindo… Mas isso pode demorar anos, ou até mesmo, séculos se ele entrar em estado de hibernação…

Eriol – Isso não seria bom… - Voltando ao seu tom infantil e descontraído. Abre um sorriso e sai correndo – Sr furãaoooo?!!

Taylor – É… ele não tem jeito mesmo…

Dimom – E como foram as coisas por lá?

Taylor – Eu não quero me lembrar disso por muito tempo… - Treme com um calafrio – Por falar nisso… Eu preciso de um banho! - Taylor se afasta dos outros, Douyga está escorado na mesa de jantar imensa distraído.

Dimom – O que aconteceu com Nobi?

Douyga – Eu não sei, mas ele parecia realmente irritado com alguma coisa… E não do jeito normal…

Dimom – Isso também não é bom…

Douyga – Não… Definitivamente… - Os dois ficam pensativos.

Eriol está no jardim brincando com o Sr furão, quando Nobi aparece.

Nobi – Como você conheceu a velha Bá?

Eriol – A Bá-san? Ela praticamente me criou depois que meus pais morreram, ela me ensinou quase tudo o que eu sei e também me entregou para os monges quando eu tinha a idade certa….

Nobi – Até se fingir de bobo? - Eriol faz uma pausa.

Eriol – Oni-chan! Você é muito desconfiado, isso não faz bem para a pele…

Nobi – Garoto insolente… você não me engana, eu sei que existem traços de morte no seu espírito…

Eriol – Nobi… - Disse em um tom sério, agora olhando para o demônio com os olhos incandescentes – Você não vai querer se meter comigo, você sabe que somos criaturas de polos contrários… E provavelmente eu venceria… Já que nós temos uma regra nesse plano, não é mesmo?

Nobi – Sim… Eu sei das regras… Mas seria bom você demonstrar um pouco de respeito, ou eu vou te colocar no seu devido lugar… e você não quer voltar para lá, não é mesmo? - Os olhos de ônix de demônio de Nobi reluzem poder, enquanto as chamas de Eriol são hesitantes.

Eriol – Maaa maaa… Nobi-san! Que clima pesado! Nós estamos do mesmo lado, não é mesmo? Logo você também terá a sua provação… Não tenha pressa… - Nobi desaparece irritado.

Algum tempo depois Taylor desce as escadas depois de tomar um bom banho, Dimom havia preparado algo para todos comerem, Yue ainda estava desacordado no solfá da sala, quando do mesmo tamanho de uma cama, coberto por uma manta de cor clara, Taylor dá uma olhada em Yue de longe, para não acordar o garoto.

Douyga – Pra quem disse que seu corpo não sente necessidade de dormir, ele dorme bem e come bem também… - Taylor dá um cutucão no rapaz que faz cara de dor e alisa a parte machucada.

Taylor – Toda vez que ele passa pela abertura de um selo, há um desgaste absurdo de energia… Não é atoa que ele fica tão cansado assim…

Douyga – hey! Calminha aí… Não estou acusando ele de nada… Só estou feliz por ele descansar e estar bem… - Taylor fica parado olhando para Douyga que parece ter uma luz a mais dentro de si.

Taylor – Douyga… Depois que você passou pela provação… Alguma coisa mudou em você não é mesmo?

Douyga – Sim… É como se houvesse um universo dentro de mim, algo que eu nunca senti na vida… Algo que eu não consigo compreender na verdade…

Taylor – E quando Yue está compartilhando seu poder com outros, você sente? Digo… Quando algum selo é aberto?

Douyga – Não… Na verdade não… Eu só a ligação quando estamos próximos, quando ele está longe, é como nós fossemos sistemas solares independentes… eu não sei te explicar direito, mas é mais ou menos isso…

Taylor – Uhm… Isso quer dizer que quando você está perto dele, você pode falar com o inconsciente dele, ou se conectar de alguma forma?

Douyga – Olha… Eu nunca tentei… Mas nós podemos tentar… Afinal de contas, se isso der certo, pode ser de alguma ajuda mais pra frente não é mesmo?

Taylor – Sim… Com certeza. - Os dois se aproximam de Yue, Douyga coloca a mão sobre a testa do garoto dormindo…

Finji – Olha… não é que eu queira me intrometer, nem nada… mas como eu sou experiente em conexão mental… Talvez eu possa ajudar… - Douyga e Taylor olham para o homem de cabelos loiros escuros de braços cruzados, vestindo uma espécie de traje colado no corpo. Douyga revira os olhos como se não fosse dar ouvidos para o homem, assim como Taylor – Olha… Sério… Você não pode acessar a mente de uma pessoa por aí… É perigoso… - Douyga perde a paciência

Douyga – Certo espertalhão… - Se interrompe – O que raios você está fazendo aqui? Nobi não está, pode procurar ele no inferno, que provavelmente ele estará por lá… - Diz emburrados

Finji – Ah… Como você é fofinho… Não precisa sentir ciúmes de mim… Nossa relação é apenas profissional… Aliás… Eu vim aqui por que eu queria ter certeza de que ele lembra dos nossos compromissos para esta semana…

Douyga – Perdeu a viagem…

Finji – Easy, easy… - Erguendo as mão defensivamente.

Taylor – Certo… E como poderemos acessar a mente de Yue? - Finji sorri satisfeitos

Finji – Já que você me perguntou… - se aproxima dando a volta no sofá, encara Douyga.

Douyga – O que foi?

Finji – Me permite? - Faz um sinal para que Douyga dê suas mãos para ele mostrar onde ele deve tocar. Douyga revira os olhos e entrega as mãos, Finji sorri satisfeito – Bem… Como ele está inconsciente… Você tem que acessar pela região da nuca, onde está concentrado mais energia durante o sono, se você acessar pela parte da frente, você pode gerar uma sobrecarga e fritar o miolos da pessoa em questão… Olha aqui… Aqui é exatamente onde você deve…

Douyga – Ok! Ok! Eu já entendi… Pode me soltar agora… - Finji solta as mãos do rapaz e levanta as mãos novamente como defensivamente.

Finji – Está bem… Só estava ajudando… - Douyga se concentra e de repente leva uma descarga de energia que o atira para longe. Taylor corre para socorrer o amigo

Taylor – Você está bem?

Douyga – Não sei ao certo… O que aconteceu?

Finji – Eu disse… Você tem que tomar cuidado, ali é onde está concentrado a maior parte da energia quando alguém está desacordado… - Diz enquanto limpa alguma sujeira imaginária nas luvas, Douyga sorri.

Douyga – Eu já sei onde você quer chegar…

Finji – Ah é? Eu quero chegar onde?

Douyga – Você quer descobrir quem Yue é de verdade, pra ver se você pode vender para alguém, não é mesmo?

Finji – Nossa… Você pensa muito mal de mim… O que Nobi anda espalhando por aí ao meu respeito?

Taylor – Nada do que a má impressão que você mesmo passa…

Finji – Agora eu estou magoado… Sabe… Nem sempre eu estou a negócios… Tá… A maior parte são negócios, mas já pensaram em quanto benefício um ser psíquico como eu poderia trazer para todos? Digo… Eu posso fazer coisas pequenas, como ler mentes, invadir sonhos, conversar com o subconsciente… Entre outras coisinhas, mas não só isso… Eu posso ser um ótimo aliado…

Douyga – Nós não queremos nada de você! Sinto que não posso confiar em você…

Taylor – Nem eu…

Nobi – O que está fazendo aqui?! - Finji olha para o demônio parado ao seu lado

Finji – Você tem que parar de aparecer assim, cadê o glamour?

Nobi – Você não vai querer saber… - Finji sorri nervoso – As coisas já estão de acordo, nós já podemos ir…

Finji – Está bem… e aí galera… Tô indo nessa, me chamem quando o garotinho acordar, eu quero levar um papo sério com ele… Nobi e Finji desaparecem, Douyga faz cara feia, assim com Taylor que levanta ajudando Douyga a ficar em pé

Taylor – Eu vou cozinhar alguma coisa – Diz emburrado indo para a cozinha.

Douyga – As coisas estão ficando tensas por aqui… - Diz baixinho olhando para Yue.

Yue acorda no seu quarto no meio da noite, ele olha para Taylor dormindo na cama ao lado, se levanta e caminha para fora do quarto, descendo as escadas, indo em direção a janela da sala, por causa da noite, o vidro estava escuro, era possível ver o seu reflexo escuro contra o cenário la fora. Ele pára na frente da janela e seu reflexo tremeluz como se ele não fosse real, novamente ele vê o reflexo da mulher atrás dele no reflexo, chamando o seu nome com carinho. Yue apaga novamente e acorda com os primeiros raios de sol iluminando seu rosto, ouve Taylor descendo as escadas, chamando o seu nome preocupado. Yue levanta do chão e olha para Taylor.

Taylor – Yue… O que está fazendo aí? Acordou faz tempo? - Se aproxima preocupado, Yue sorri seu sorriso iluminado

Yue – Ah sim… Eu acordei de noite e vim ver o sol nascer, mas acabei adormecendo… Desculpe se deixei vocês preocupados…

Taylor – Que bom que está bem… Quando quiser ver o sol nascer, pode me chamar eu sou bom nisso! - Sorri divertido enquanto Yue coça a cabeça sem jeito.

Taylor – Vou começar a cozinhar o café da manhã, quer me ajudar? - Yue afirma com a cabeça e os dois vão para a cozinha preparar o café.

Não demora muito e Douyga desce as escadas, suas mãos ainda chamuscadas por causa do choque que havia tomado outro dia.

Douyga – Bom dia! - Diz ainda bocejando em seus pijamas – “Bom dia!” - respondem os dois da cozinha, animadamente.

Douyga – Poxa… Vocês acordam cedo mesmo hein… O que tem para o café de hoje?

Taylor – Preparei pães de queijo, mini sanduíches e panquecas, tem frutas frescas para o Nobi, caso ele apareça, chá com leite para Dimom, café para todos nós, pães frescos e mais um monte de coisas… É só escolher!

Douyga – Hoje você tá animado!

Taylor – Yue me ajudou com tudo, por isso deu tempo de fazer mais coisas…

Douyga – Oh… Então é assim… Obrigado então, Yue….

Yue – Imagina… Eu só to aprendendo… - Ruboriza, assim como Taylor. Douyga ri dos dois e se senta a mesa já começando a se servir. Os outros também descem para o café, todos comem animadamente o pequeno banquete da manhã. Algum tempo depois, todos estão no quintal da casa, descansando tranquilamente, Taylor havia preparado picolés caseiros para todos se refrescarem. Yue olhava fixamente para o céu, ele se lembrara do anjo e isso o deixou um pouco triste, pois todas as vezes que ele aparecia, Yue não conseguia fazer nada, apenas ficava olhando apavorado.

Yue – Dá próxima vez… - decidiu – Da próxima vez eu não vou me esconder… - O semblante sério encarando o céu, Taylor senta do seu lado tentando disfarçar a preocupação que sentia.

Taylor – Está tentando ver formas nas nuvens? - Yue olha para o amigo sentado bem perto dele

Yue – Ah sim… É divertido né?

Taylor – Sim… Ele não vai vir… O último embate com Dimom não foi muito bom pra ele… - Yue desvia o olhar.

Yue – Como você sabia?

Taylor – Foi um palpite, na verdade…

Yue – É… Você me pegou…

Taylor – Não se preocupe com isso, nós vamos te proteger a todo custo!

Yue – Taylor… - Faz um pausa – Eu não quero ser protegido… Eu quero lutar por mim mesmo… Quero provar para mim mesmo que eu sou real, que eu existo e que eu mereço pelo meu próprio esforço viver… Senão eu só vou ser um fardo para vocês… e não serei forte o suficiente para aguentar a presença dos seres que vivem dentro de mim… Como é que vou conseguir faze alguma coisa nessas condições? Por isso eu te peço… Se tivermos outro embate… Eu quero enfrentar os meus inimigos… Está bem? - Taylor pensa um momento.

Taylor – Ok… Eu não vou impedir você de lutar, mas eu não vou ficar parado! Eu vou lutar junto! - Abre um sorriso confiante.

Yue – Desde que você não fique no meu caminho… - Imitando a voz de Nobi – Taylor começa a rir

Taylor – Eu nunca ouvi ele dizer isso…

Yue – Tenho a impressão seria algo que ele diria…

Taylor – Você está certo, do jeito que ele é, não seria difícil ele dizer algo assim… Mas acho que vai ficar no meu caminho vai ser você…

Yue – Ah é…! - Se levanta e puxa a espada.

Taylor – tsc tsc tsc… Ainda não aprendeu nada, esse garoto…

Yue – Ah! Você vai ver! - Os dois começam a treinar divertidamente. Douyga e Dimom de longe observando.

Douyga – Ah… Como esses jovens têm energia, não é mesmo?

Dimom – Eu fico cansado só de ver… - Douyga ri

Douyga – Que isso? Tá desanimado?

Dimom – Não… O meu último embate com o anjo não foi nada bonito… Por pouco eu não viro churrasquinho de energia celestial…

Douyga – Olha… Não sei como é, mas acho que eu não gostaria de estar no seu lugar… Apensar de frágil, aquele cara tem uma energia destrutiva estrondosa…

Dimom – Nem me fale… Por um momento eu achei que já era…

Douyga – Então foi difícil, realmente…

Dimom – Foi… Mas eu também deixei uma lembrancinha pra ele…

Douyga – Ah! Daí sim! Aposto que ele não vai conseguir mostrar as asas tão cedo…

Dimom – Digamos que sim…

Douyga – Então… Você vai dizer por que chamou a gente aqui?

Dimom – Sim… No momento certo…

Todos estavam animados na sala de jantar conversando, então Nobi aparece na sala ainda com a cara feia e mal humorado.

Dimom – Que bom que você chegou… Só estava te esperando…

Nobi – Ah… Você ainda não disse o que você queria com eles? Que enrolação… Eu nem precisava estar aqui…

Dimom – Na verdade… Sim… Você precisava estar aqui, já que você estará de certa forma envolvido… - Nobi suspira revirando os olhos e então se senta pesadamente no sofá o mais longe possível de Douyga.

Finji – Hey! Posso participar também? - Todos olham irritados para ele que se senta tranquilamente em uma das cadeiras da mesa – Então, já que estamos todos aqui, podemos começar…

Nobi – Você é muito folgado mesmo… - Dimom observa o homem ali parado.

Dimom – Então, Finji… Pelo que tenho percebido, está cada vez mais presente por aqui… Está buscando por treinamento?

Finji – Na verdade eu já tenho todo o treinamento de que preciso… Então não, obrigado… Eu só sou um cara curioso que está sempre antenado nos acontecimentos do universo… - Ele se levanta dando a volta no sofá, olhando para Yue – E esse carinha não me é estranho… Tenho certeza de que o conheço de algum lugar… - Nobi se irrita.

Nobi – O que você quer Finji?! Diga de uma vez…!

Finji – Ainda não sei ao certo, mas tem alguma coisa a ver com ele… - Os olhos cor de mel do homem pareciam hipnotizar o garoto. Nobi se levanta e o empurra – Uhm… Então é isso o que vocês estão me escondendo… Vocês são muito bons! Olha só… O dragão negro! - Todos ficam surpresos, menos Nobi e Dimom.

Finji – Caramba… Ele existe mesmo… E aí como vai ser? Vai começar a destruir as coisas agora, ou ele tem itinerário, época de férias… Como funciona? - Nota-se uma nota de revolta nas palavras de Finji.

Nobi – Pare já com isso! Ninguém te chamou aqui!

Finji – Na verdade… Sim… Eu fui chamado! - Disse ele olhando fixamente para Yue – Não é mesmo Yue?

Douyga – Do que ele tá falando? Alguém pode me explicar…?

Yue – No universo… - Disse Yue baixinho, o semblante triste, os olhos marejados fixos no chão – Eu o chamei… Ele é um dos escolhidos para a provação… Eu pedi a ajuda dele, não foi proposital, mas foi o único que conseguiu captar a minhas ondas, mesmo de tão longe, mas ele nunca chegou a me encontrar…

Finji – E assim foram anos e mais anos da minha vida… Não importasse quão longe eu estivesse, as ondas dele sempre chegavam e mim… Até que parou… Eu pensei que ele havia morrido… Achei que tinha acabado… Mas você está aqui, vivo! E é o dragão negro! Aquele que destruiu um planeta inteiro só por causa de uma guerra estúpida! Eu estava lá, sabia? Eu fui jogando para o outro lado do universo dentro da minha nave, foram dias sem conseguir estabilizar a nave por causa dos danos que ela sofreu… Eu podia ter morrido ou estar preso no espaço até hoje, você sabia disso?

Yue – Eu sinto muito… Eu não me lembro muito bem do que aconteceu… Mas eu estou tentando, estou me esforçando para melhorar, para reparar o crime que eu cometi… - Finji aponta a mão aperta para Yue. No meio da palma da luva, havia uma gema vermelho sangue brilhante, carregando de energia.

Finji – Vai… Você vai pagar pelo crime que cometeu! - O homem pronuncia as palavras com muita raiva.

Taylor – Ei! O que você acha que vai fazer com isso aí? Você não vai machucar Yue! Só passando por cima do meu cadáver!

Dimom – Se você quiser confusão é melhor ir embora… Aqui você só vai encontrar a sua morte… - Finji hesita mesmo com raiva e abaixa a mão.

Finji – Por que vocês defendem ele? Ele vai destruir a todos nós! Não é melhor matá-lo antes que ele nos mate?

Taylor – Isso não é verdade! Ele também é o deus da criação! Ele pode trazer a salvação para todos nós! - Nobi desvia o olhar.

Finji – Parece que eu não sou o único que não acredita nesta baboseira, não é verdade Nobi?

Nobi – Eu prefiro ficar fora disso, até a hora que eu tiver que agir… Façam como quiserem… Matem ou o deixem viver, para mim não faz diferença alguma… - Cruza os braços.

Taylor – Nobi… O que…

Finji – Chega desse lenga-lenga… Se nem o Nobi quer matar o garotinho, então eu já tenho algum motivo para não matá-lo… Me digam logo o que está acontecendo, sinto que de alguma forma eu vou ter que colaborar com alguma coisa…

Dimom – Taylor… Por favor…

Taylor conta tudo sobre a profecia, e sobre os selos que já foram libertos em Yue, sobre as duas personalidades divinas que existem. Quando termina Finji ri.

Finji – Vocês estão realmente em uma missão suicida… Não sei se vocês perceberam… Mas um selo da bondade só é liberado depois que um selo da danação é libertado… Espero que exista uma maneira de reverter isso, ou o dragão negro vai acordar primeiro… - Um clima tenso corta o ambiente. Finji se levanta – Quando o mundo estiver a um passo de ser destruído… Vocês podem procurar, assim eu posso matá-lo com minhas próprias mãos, se ninguém tiver coragem… - Desaparece. Douyga respira fundo

Douyga – Ufa… Ainda bem que ele foi, estava ficando difícil respirar…

Nobi – Ainda é difícil respirar com tantos segredos… - Atinge Eriol com um olhar provocador, este finge não ter notado e continuar brincando com os fio do tapete.

Taylor – O que você queria nos dizer? Antes que a gente seja interrompido novamente…

Dimom – Bem – Respira profundamente – Então… Eu decidi que, se estiver tudo bem para vocês… - Olhando para Yue – Eu serei o próximo da provação… Eu até gostaria de ter sido o primeiro, mas como eu não fazia ideia do que exatamente seria e também as coisas foram acontecendo sem que eu pudesse fazer nada… Bem… Não há mais motivos para que eu deixe para mais tarde… Então eu conto com a ajuda de vocês…

Yue – Sim! Pode contar comigo! - Disse animado, os outros seguiram com a mesma confirmação, exceto Nobi que ainda encarava Eriol com cara feia.

Nobi – E por que eu tenho que ir junto? Não seria melhor eu ficar aqui e vigiar as coisas?

Dimom – Você dizer, ficar sem fazer nada?

Nobi – Ao contrário de todos aqui, eu tenho um emprego…

Dimom – Sinto muito Nobi, mas isso vai ter que esperar… Principalmente depois que eu contar o que nós vamos fazer… - Nobi olha para Dimom entediado.

Nobi – Ah… Eu sei do que se trata… - Vira a cara. Dimom sorri sem graça enquanto os outros ficam na expectativa.

Dimom – Então… Continuando… Há muito, muito tempo atrás… Mais do que vocês podem imaginar, havia uma civilização, talvez a mais antiga civilização de todas… Nasciam duas almas gêmeas… Um era eu Dimom e a outra se chamava Otoméria… - Taylor tinha os olhos brilhantes com o início da história e já tinha puxado um lencinho de um dos bolsos, enquanto os outros ouviam atentamente.

Dimom – Ainda éramos muito pequenos para entender o que estava acontecendo, apenas sabíamos que algo de errado estava acontecendo quando vimos nossas famílias e amigos sendo mortos por exércitos que apareceram do nada e começaram a nos atacar… Eu e Otoméria estávamos chorando próximos aos cadáveres de nossos pais, quando fomos pegos e levados para longe e nunca mais tivemos notícias do que aconteceu com a nossa terra.

Quando chegamos à nova terra, o Egito, fomos separados, eu fui para os campos de trabalho enquanto eu não fazia ideia do que ia acontecer com Otoméria. Nunca mais nos vimos… Eu fui crescendo, me tornando um jovem forte, mais forte do que qualquer outro homem e isso causava medo por parte dos guardas que tentavam me humilhar e desmotivar para poderem me matar… Eu percebi não muito depois que eu não era como os outros, eu podia fazer coisas que os outros não podiam… Sem propósito eu manipulava fragmentos de dimensões para criar ilusões, as vezes de que eu continuava ali trabalhando, mas, na verdade, estava em outro lugar, tentando encontrar Otoméria ou mesmo arranjando formas de escapar… Mesmo com minhas habilidades eu não podia ficar muito longe das minhas ilusões… Por isso eu fui treinando e me fortalecendo para conseguir escapar dali algum dia… O problema era que eu não podia simplesmente sair dali e deixar todas aquelas pessoas naquela situação, por isso eu me empenhei e fiquei ainda mais forte, minha raiva daquela vida me ajudou muito a conseguir isso, eu via meus companheiros de trabalho sofrerem humilhações, serem tratados com desprezo e morrerem…

Uma certa noite eu consegui armar uma forma de escapar dos guardas criando uma grande ilusão, onde não só iludia os guardas, mas também os meus parceiros, para que eles fugissem dali… O problema do meu plano é que eu não consegui reunir a todos, eles ficaram desesperados, então acabei fugindo com poucas pessoas…

Fomos para uma cidade longe dali, longe o suficiente para que o faraó não quisesse nos seguir… Mas o caminho foi árduo e mais pessoas morreram no processo… Foi uma época muito triste… Mas eu tive que seguir em frente. - Taylor já estava aos soluços.

Taylor – Desculpe, eu me emociono muito com filmes de época… - Se justificou para ninguém, só deixou no ar.

Dimom – Cheguei nessa cidade e logo consegui trabalhar para um comerciante meio trambiqueiro… Eu fazia alguns truques e a gente dividia o que a gente ganhava, o problema é que ele era trambiqueiro, muito mais do que ganancioso, por isso mataram ele, mas eu continuei com os meus truques e consegui fazer o meu nome na época… Foi então que eu conheci Dália, ela era filha de um outro comerciante, muito bonita por sinal… Nos apaixonamos e decidimos ficar juntos…

A minha vida estava indo muito bem, próspera e em paz… Dália acabara de me dizer que esperava um filho meu… - Taylor aos prantos, Yue oferendo um copo com água.

O que eu não sabia é que Otoméria estava viva… Bem… Eu tentei encontrar ela para que pudéssemos fugir, mas não havia nenhuma forma de adentrar as pirâmides, havia uma forte barreira lá dentro… Minhas ilusões não funcionavam nem perto delas… Então, um certo dia, ela apareceu na cidade onde eu morava, provavelmente por eu ter me tornado um homem de muita fama por causa dos meus produtos… Quando eu a vi, reconheci na hora! Ela me disse que ainda vivia no Egito como uma serviçal e que estava ali de passagem a pedido do faraó… Convidei-a para ir a minha casa, lá a gente conversou um pouco, lembramos das poucas boas lembranças que nós tínhamos, Dália gostou muito dela… Quando eu comecei a perguntar sobre a vida dela lá no Egito, ela se apressou em ir embora, mas deixou uma garrafa com especiarias…

Tarde de mais descobri que era um veneno e que na inocência Dália havia tomado e jazia… A dor foi incomparável com qualquer outra que eu já sentira antes… Senti que aquilo era pura maldade… Senti tanto ódio dentro de mim que saí do meu juízo! Fui para o Egito a fim de confrontar ela. Mas quando cheguei lá, descobri que ela era esposa do faraó. Fizeram uma emboscada e me aprisionaram e me torturaram, apenas pelo prazer dela! Eu não conseguia mais ter forças para lutar pela minha vida, apenas vivia… Quando ela aparecia para ver o meu castigo, eu implorava pelo mesmo veneno que matara Dália e meu filho… E isso era motivo para me torturar ainda mais com falsos venenos de morte, venenos que faziam eu sentir o inferno…

Eu não sei em que momento isso aconteceu… Mas quando acordei de uma das sessões de tortura, pude reparar que estava tudo paralisado, como se o tempo naquele momento estivesse parado. De repente eu já não estava mais acorrentado, nem mesmo dentro da pirâmide, eu estava no céu, olhando de cima para a pirâmide, eu nem sonhava que voar pudesse ser realmente possível… Mas naquele momento aquilo não me importava… A ira tomou conta de mim e descarreguei ela com toda a força que eu tinha criando em volta de toda aquela região, uma outra pequena dimensão em looping eterno… Eu não tinha ideia do que eu tinha feito na época, apenas descobri o que tinha acontecido quando eu vi a mim mesmo e as outras pessoas fazendo tudo do mesmo jeito todos os dias… Até o momento em que eu desmaiava e voltava no outro dia do mesmo jeito. Confesso que aquilo me enlouqueceu por algum tempo, eu tentei desfazer, mas sem sucesso… Até que eu descobri que eu na verdade podia viajar pelas dimensões, e foi o que eu fiz… Existe em várias épocas de vários lugares desde então… A questão é que eu nunca deixei aquilo pra trás… Eu sempre voltava lá naquele mesmo lugar, as vezes com a esperança de que o looping havia sido interrompido, as vezes só pra zombar da cara da Otoméria… As vezes para ver o rosto de Dália e tentar imaginar como o meu filho seria… - Dimom passa um dedo sob um dos olhos e depois respira.

Dimom – Bem… Essa é a história, o que eu proponho a vocês é que nós iremos até o looping dimensional para quebrarmos e fazer com que o tempo naquela dimensão siga com seu fluxo natural. - Concluiu Dimom finalmente com ar de cansaço. Douyga estava apagado babando no sofá, enquanto Nobi mexia nas pontas do cabelo. Eriol parecia não ter prestado atenção em uma palavra, enquanto Yue avisava para Taylor que a história já havia acabado, mas o amigo ainda estava inconsolável.

Dimom – Posso contar com vocês para isso? - Nobi cutuca Douyga que acordar limpando a baba.

Douyga - Claro Dimom! Claro! Os omeletes… Eu prefiro claros… - Voltou a dormir.

Yue – Sim! Pode contar comigo! Nós vamos conseguir quebrar esse looping e fazer o ciclo voltar ao normal! - Disse sorrindo animado, tentando salvar o clima de heroísmo.

Taylor – Dimom… Eu não sabia que você tinha sofrido tanto na sua vida! - Fungando no lenço, se levanta e abraça o gigante sentado em uma das cadeiras da sala, tentando consolá-lo. Dimom sorri sem graça olhando para Yue que retribui o sorriso.

Nobi – Ok… O meu palpite é que você vai ter que enfrentar a parente das orquídeas e ver se você consegue tirar um pouco das ervas daninhas que cresceram no senso de noção dessa mulher… Ou você nunca vai conseguir quebrar o looping…

Dimom – Você está certo Nobi… Eu vou ter que enfrentar ela… pode ser que a energia que tenha gerado esse looping não foi só a minha, pode ter a ver com ela também.

Nobi – Certo… Então sem mais delongas… Vamos?

Dimom – Bem… Tem mais uma coisa que vocês precisam saber…

Nobi – Tava fácil de mais… - Olha para o lado emburrado.

Dimom – Depois com a batalha contra Éolo, eu acabei ficando um pouco debilitado, então nós usaremos um artefato de emergência, para casos como esse…

Nobi – Não to vendo nenhum asteroide caindo do céu… - devolveu Nobi.

Eriol – Por um acaso… - Disse o garoto levantando do tapete animado com os olhos brilhantes – Seria a senhora engrenagens? Sim? Diga que sim! - Quase esfregando a própria cara no rosto de Dimom.

Dimom – É… Seria a senhora engrenagens… - Eriol entoa seu grito de piscina de bolinhas e acorda Douyga que com o reflexo começa a fazer o toque secreto com Eriol.

Nobi – O que tem de tão especial naquela coisa enferrujada e estragada?

Dimom – Ela vai nos levar aonde nós precisamos e ainda vai garantir que a gente volte, mas a parte que eu acho importante dizer é que eu vou precisar canalizar a energia de vocês… Porque, como eu estava dizendo… Estou debilitado de mais para levar a todos nós sozinho até lá… por isso preciso que Nobi vá junto…

Nobi - E por que tem que ir todo mundo? Leva o Yue para o lacre e fechou!

Taylor – Eu não vou deixar o Yue ir sozinho!

Eriol – Eu não vou deixar a senhora engrenagens ir embora sem mim! - Douyga volta a roncar.

Depois de um tempo, Taylor estava recomposto, Yue e os outros parados na frente do que seria a escultura de uma mulher com as mãos juntas na frente do rosto, feita de engrenagens, sendo que muitas peças estavam faltando.

Nobi – Você vai consertar isso aí antes da gente sai por aí né?

Eriol – Não fala mal da senhora engrenagens… - Dimom ri dos dois.

Dimom – Na verdade, Nobi… Ela não está quebrada, ela apenas tem um sistema um pouco mais limitado do que eu gostaria, ainda estou aperfeiçoando, mas pode ficar tranquilo que ela está funcionando perfeitamente… Bem… E ela tem um nome… Nada mais nada menos que Otoméria… Acreditem… Eu tentei colocar outro nome, mas só esse consegue acordar a máquina.

Eriol - Senhora engrenagens é temperamental… Eu gosto de máquinas temperamentais…

Taylor – Tem certeza que isso vai funcionar direito? – Olha incerto, Yue apenas observa de longe.

Dimom – Fiquem tranquilos… Quando eu começar a operar a máquinas, vocês vão entender… Vocês confiam em mim, não? - Todos se entreolham e então se aproximam da máquina…

Nobi – Certo… E como isso funciona?

Dimom – Eu preciso que vocês formem um círculo…

Nobi – Já começou mal…

Dimom – Façam um círculo em volta da Otoméria e deem as mãos… Depois fechem os olhos e se concentrem – O círculo é feito conforme a orientação. Nobi dá a mão para Dimom que tem Douyga do outro lado que dá a mão para Eriol que está com Yue do lado e o círculo se fecha com Taylor entre Nobi e Yue.

Dimom – Eu vou começar, eu preciso que vocês sigam a minha vibração, eu vou passar as coordenadas de tempo e espaço para que a gente não se desencontre… Estão prontos?

Douyga - Bora lá! Tô doido pra saber se aquele povo usava peruca mesmo…

Uma onda forte de energia emana de Dimom, a pressão é forte e pega os outros desprevenidos, mas estes resistem e também começam a liberar energia para corresponder a vibração. A energia é tão forte que tudo ao redor começa a estremecer. A máquina começa a responder, suas engrenagens quebradas começa a trabalhar em uma órbita normal no ar e alguns pedaços delas grudam na roupa deles, que não percebem na hora. Um brilho poderoso retumba na sala onde estavam e eles todos desaparecem. Otoméria volta a inatividade, com menos algumas peças.

Yue e os outros estão em cima de uma duna, onde de longe dá pra ver várias construções imensas e pessoas trabalhando como inúmeras formiguinhas. Apesar de usarem roupas apropriadas para o clima, a calor que fazia era muitas vezes pior do que eles imaginavam. Dimom olhava para os lados buscando orientação de onde estavam. Nobi estava envolvido em uma bola de energia transparente que não permitia que a areia tocasse nele e estava tão envolto por panos que dava para ver apenas o brilho de seus olhos de ônix por baixo.

Nobi – Onde nós estamos? - Indagou irritado.

Dimom – Um pouco fora da rota, mas não muito longe – Disse o gigante calmamente olhando o horizonte

Nobi – Em outras palavras… Você não sabe… - Eriol já brincava na areia enquanto Yue e Taylor se abanavam inutilmente.

Douyga – Olha… Não querendo interromper vocês, mas eu acho que não é bom a gente ficar aqui parado no meio do nada, não é mesmo?

Dimom – Sim… Você tem razão… Eu conheço uma rota que vai nos levar até a passagem para dentro da pirâmide.

Douyga – Ahm… Nós vamos invadir uma pirâmide? - Eriol Enche os pulmões de ar para seu grito, mas Taylor consegue segurar a boca dele antes disso. Todos suspiram de alívio.

Eles começam a andar, sendo guiados por Dimom. Nobi resmungando do calor e da sujeira da areia, embora estivesse limpo. Os outros continuam caminhando desanimados pelo calor. No meio do caminho Dimom pára e todos acham estranho já que não havia nada ali, além de areia. Então o gigante pisa com força no chão fazendo um buraco na areia.

Nobi – Nós não estamos no vale perdido Dimom… Se você quiser água, nós temos nos cantis… - Fugindo da poeira que foi levantada instintivamente.

Dimom – Onde será que era mesmo? - Tentou novamente um pouco mais para o lado, o mesmo resultado, só areia… Dimom tentou mais e mais vezes até dar mais ou menos uns dez passos até que finalmente um barulho de algo quebrando e soltando – Aqui está! - Diz satisfeito. Os garotos se aproximam e veem uma espécie de poço.

Nobi – Ótimo! Era tudo o que eu precisava, um poço fedorento…

Douyga – Se não estiver tão quente quanto aqui em cima, tá valendo… - Eriol passa todos e pula para dentro do poço dando o seu grito de piscina, todos ficam tentando ouvir até onde o grito ia, Eriol teve que recuperar o fôlego algumas vezes até que o som da voz dele sumiu, ninguém estava certo se ele parou de gritar ou se ele alguma outra coisa aconteceu.

Yue – Ahm… Ele é mortal, certo?

Taylor – Sim… Como todos nós…

Yue – Vocês acham que…

Taylor – Não… Eriol pode ser desmiolado, mas ele não morreria em uma queda… Eu acho…

Nobi – Seria um favor… - Resmungou baixinho.

Douyga – Parece que a gente só tem uma forma de descobrir…

Dimom – Vamos nos apressar, o tempo é curto! - Empurrou Taylor e Douyga e suas vozes também são ouvidas pelo poço abaixo. Nobi suspira irritado mas também pula pra dentro do buraco em silêncio – Yue… Como você ainda não dominou a levitação completamente, eu vou primeiro, você tem que vir logo depois, caso você comece a cair, eu vou te segurar – Yue engole em seco, mas faz positivo com a cabeça.

Dentro do poço, nada acontecia, não dava para ouvir sons, nem sentir o calor do deserto. O interessante era que a pele de Yue reluzia no escuro completo, portanto ele era o único que conseguia enxergar direito. Não demorou muito para atingirem o fundo, onde Taylor e os outros os esperavam, Taylor parecia um pouco ressentido por causa do empurrão, mas não deixou transparecer muito, assim que viu a pele de Yue brilhando. Nobi já havia tirado todo o bolo de panos que estava vestindo no deserto, agora ele vestia apenas uma roupa leve, básica preta. Os outros ainda vestiam seus trajes normais.

Nobi – Ótimo… Agora ele brilha no escuro… Como é que a gente vai esconder ele? - Apontando Yue.

Dimom – Isso não vai ser necessário… Ninguém conhece essa passagem, além disso, com o looping, seria muita coincidência que alguém estivesse preso por aqui… Vamos rápido ou ficaremos sem tempo…

Começaram o trajeto por dentro dos corredores que mais parecia um buraco de minhoca gigante, Nobi mantinha a barreira envolta de si, embora Yue estivesse curioso, ele preferiu ficar quieto. Chegaram até um lugar que parecia uma grande câmara abobadada de uma grande ruína, havia uma pintura no teto e também nas paredes, haviam anjos por todos os lados e paredes demolidas e pilares imensos, ainda mais altos do que os da casa de Dimom.

Taylor – Isso não é bom… - Diz Taylor vendo observando o cenário, de repente um raio cruza o caminho deles. Dimom recua puxando Yue que não havia percebido.

Éolo estava voando próximo ao teto da abóboda segurando a sua lança. Perto de uma pilastra saía Martinus, Arcom estava equilibrado em cima de um pilar quebrado e Belatom saía do solo. Nobi torceu o nariz.

Nobi – Não é a toa que o poço tava fedido…

Dimom – Como você…

Éolo – Ah Dimom… Eu sou um anjo… Eu sei das coisas… Aliás… Essa máquina sua… Foi um empecilho, mas está acabada! Vocês não vão mais poder voltar… Entreguem-me o dragão negro e eu salvarei todos de ficar presos aqui para sempre…

Nobi – Ah meu filho… Hoje você me pegou num péssimo dia… Dimom! Vá logo resolver o que você tem que resolver, eu vou ter que ensinar boas maneiras pra essa gente mal educada… - Dimom concorda com a cabeça e começa a correr.

Dimom – Voltarei o mais rápido que eu conseguir! - Passando por uma passagem longe dos oponentes.

Belatom – Péssima escolha demônio… Você está em desvantagem aqui… Esse território é meu! - Nobi puxa um fio de cabelo e ele floresce em um ramo de flores coloridas e deixa cair no chão.

Nobi – Não… Nenhum território é seu na minha presença…

O taco de beisebol aparece reluzindo na mão de Martinus e o arco chameja na mão de Arcom. Taylor está desarmado e Eriol já havia sacado a espada. Douyga puxa a máscara de raposa e suas carras de energia aparecem. Yue se aproxima de Taylor, vendo que o amigo está em desvantagem.

Martinus – Isso vai ser interessante… - Yue tira uma carta da manga e sua espada aparece em sua mão, a carta brilha em azul, Taylor reconhece o símbolo de gota de água e tenta se adiantar para impedir que Yue usasse a magia pegando em sua mão.

Yue – O que…?

Taylor – Ele consegue manipular a água também… Não tem como a gente combater ele com o mesmo elemento…

Yue – Entendi… E como?

Taylor – Não se preocupe… Vá ajudar Douyga, eu cuido dele…

Martinus – Oh… Vai cuidar de mim? - Disse cinicamente.

Taylor – Não se preocupe comigo Yue, Douyga está em uma situação muito pior do que a minha, mesmo eu sendo um exilado do meu país, ele não pode me ferir mortalmente…

Martinus – Vai usar os seus privilégios então…

Taylor – Uma luta justa… Mãos limpas…

Martinus – Você não quer que os outros vejam a sua arma? Tem tanta vergonha assim do seu povo?

Taylor – Eu não tenho vergonha… Eu só não posso me apoiar na minha herança…

Martinus – Sendo assim, você não tem nenhum privilégio…

Taylor – Uma luta justa não tem nada a ver com privilégios… Lute comigo de mãos limpas…

Martinus – Isso vai ser tão injusto…

Taylor – Está esperando o que Yue? Se Douyga levar outro golpe como aquele, não teremos como salvá-lo! Vá! Depressa! - Taylor diz sério, sem tirar os olhos do oponente que sorri parado vendo a cena. Yue começa a correr em direção a Douyga que já cercava Belatom.

Éolo – Ah não vai! - Conjurou um raio na direção do garoto, mas é defendido por Nobi com uma mão nua. - A expressão no rosto belo de Nobi era tão afiada e mortal quanto uma lâmina.

Nobi – Eu sou o seu oponente…

Éolo – Você não é páreo pra mim aqui… Eu sou um Deus aqui! - As asas começam a produzir eletricidade.

Douyga está em desvantagem, Belatom tem parte do corpo fundido a terra e conseguia manipulá-la como queria, ao ver que Yue vinha no auxílio do parceiro, tentou prendê-lo em uma parede de terra, mas Yue conseguiu esquivar usando em seguida uma carta que o ajudou a chegar mais rápido até Douyga.

Arcom e Eriol já estavam lutando, Arcom estava com um pouco de dificuldade de manter Eriol longe o suficiente para liberar suas flechas, mas, mesmo assim, ainda conseguia vez outra infligir algum dano no garoto que mesmo sendo atingido de raspão pelas flechas ainda mantinha o ritmo animado e respondia a altura. A luta estava mais para uma competição de acrobacias de espetáculo de circo.

Enquanto Martinus e Taylor lutavam sem armas, Martinus levava vantagem, sua resistência era melhor e também a sua técnica, mas, mesmo assim, ele não conseguia achar nenhuma abertura na defesa do garoto. Yue e Douyga se esquivavam dos ataques massivos agilmente, porém Douyga já apresentava algum desgaste na energia, volta e meia ele disparava feixes de luz das garras para destruir alguma armadilha de terra que Belatom soltava. Yue estava envolto pela magia do vento e sua agilidade era superior à de Douyga, o problema é que ele não conseguia fazer mais nada além de esquivar, sua espada era inútil contra um inimigo vestido com grossas camadas de terra.

Do outro lado da câmara, Dimom corria para o seu objetivo.

30 de Dezembro de 2019 às 16:09 0 Denunciar Insira 0
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