dcsales Danieli Cavalcanti

Uma órfã chamada Clara observava em seu mundo vazio, Bernardo entrar na biblioteca com um livro e pouco depois sair com outro. Após um acidente, Bernardo fica intrigado com Clara, mas ela foge das investidas dele por medo da meia-irmã mais velha e a madrasta. Ao descobrir uma grave doença, os caminhos de Clara e Bernardo se cruzam novamente e ela descobre o motivo do garoto ir a biblioteca não ser o que ela imaginava.


Romance Romance adulto jovem Todo o público.

#romance #amor #amizade
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A vida tem a cor que seus olhos enxergam

Eu soltava as mãos da bicicleta e abria os braços para sentir o vento soprando a brisa da manhã. Ouvir os pássaros cantando era como música para meus ouvidos. O mundo perfeito que preferia enxergar. Talvez fosse apenas o cheiro da terra molhada, mas era o que me fazia seguir em frente.

Depois da ponte, gostava de colher flores coloridas e enfeitar o caixote que usava como cesta para minha bicicleta amarela, camuflado as suas ferrugens e com meu sorriso esconder minhas lágrimas.

Ainda que houvesse beleza em Paradise, a vida era como um livro que sempre voltava para o mesmo capítulo. Para os menos afortunados, a monotonia dos dias. Para os ricos, a futilidade das almas vazias. Sentia que não havia para mim um lugar no universo finito de Paradise, eu não pertencia a nenhum dos dois mundos que estavam diante dos meus olhos.

A casa onde cresci parecia ocilar entre o preto, o branco e o cinza. Depois da ponte, sentia o céu me iluminar. Ao menos Paradise tinha cores daquele ponto em diante. Mas ninguém parecia ver essa diferença.

A única forma de comprar comida era ir além da ponte. O que não era necessariamente ruim. Não importa o quão amargo tivesse sido o dia anterior, as quartas-feiras eram o momento em que usava o meu melhor vestido, o branco amarelado com pouco remendos, que a vida me permitia sonhar ter uma vida longe dos meus temores.

Nem tudo eram rosas, mas também não havia somente espinhos.

Eu cruzava a ponte de águas límpidas em direção ao centro de Paradise, a cidade de flores e pedras nos caminho. Eu era como água correndo através das pedras, em meio as belas flores coloridas.

Todos os caminhos levavam a biblioteca de Paradise, mesmo assim ela estava quase sempre vazia. Não havia como passar pela praça e observar um enorme tronco de árvore onde foram colocados muitos livros meticulosamente organizados.

O lugar onde uma árvore ancestral morta foi transformada na biblioteca da cidade. O conhecimento era como uma planta que precisava ser regada até que se tornasse uma bela árvore, e eu, uma semente que nunca fora plantada mas que ansiava um dia florescer.

Não tinha coragem de entrar na biblioteca e à distância observava aquele que acreditava que me salvaria de todos as preocupações. Não era um livro, e sim um garoto. O jovem com os cabelos estranhamente penteados, olhos castanhos sempre distantes e o uniforme de camisa branca com o emblema verde da escola Real Paradise. Eu havia me convencido que estudar na escola dos ricos tornava as pessoas mais importantes. Não havia conhecido ninguém para dizer o contrário, então cresci com essa ideia firmemente arraigada.

O garoto sempre muito sério entrava na biblioteca com um livro e pouco depois sair com outro. Sabia quem era ele e porque não podia me aproximar.

Bernardo era seu nome e ele certamente se tornaria médico em Paradise, exatamente como o pai. Não havia ascensão por mérito, apenas por herança.

Em mais uma manhã de céu azul, ouvi na praça de Paradise um trabalhador mal-humorado que limpava a fonte colhendo suas folhas tentava expulsar duas crianças que estavam molhando os pés com a água do chafariz.

Não havia como não reparar nas roupas rasgadas do menino e o cabelo emaranhado da menina um pouco menor. Os rostos sujos e seus olhares ingênuos se mostravam ainda assim que eles eram felizes e faziam parte de um mundo que havia parado no tempo e parecia estar bem com isso.

Garotos como aqueles jamais estudariam na Real Paradise. Também não me era permitido ir a essa escola, nem a essa ou a outra qualquer, mas a Alice sim. Minha meia-irmã era aluna da escola onde os herdeiros de Paradise se preparavam para seguir as carreiras de seus pais.

Ouvir as crianças gritando dentro dos portões do colégio meu causavam um misto de desejo, inveja e fascínio. Mas tentava não pensar nisso quando chegava ao comércio pouco variado de Paradise onde eu fazia as compras de alimentos suficientes para uma única semana.

Na mercearia, quitanda e açougue eu recebia diferentes nomes: Cristina, Clarisse e Cecília.

Nem todos que perguntam como está querem realmente saber se você está bem. A pergunta mais mentirosa de todos os tempos. E nem precisavam, afinal eles sabiam tudo sobre mim — exceto o nome —, e o que não sabiam com certeza criariam histórias da pobre criada e sua desventura.

Eu acreditava que o sorriso era a minha melhor camuflagem, ainda que por dentro estivesse destruída de tantas formas que poderia imaginar, estava sempre com um sorriso no rosto. Ao mesmo tempo que me sentia transparente perto de Alice que parecia ler os meus pensamentos.

Minha irmã —não que eu pudesse chama-la dessa forma —, sempre me lembrava que eu era pequena e magra para minha idade e se gabava do quanto era admirada pelos meninos da escola. Ela não precisava dizer essas coisas, pois eu já sentia que não poderia ser amada por ninguém.

Aprendi a acreditar que havia algo de errado comigo. Por mais que sempre me esforçasse para ser cordial e educada, eu via a dona da mercearia revirar os olhos quando eu saía. Ou o Sr. Bigode da quitanda que nunca me cumprimentar. Apenas pegava o dinheiro da minha mão e guardava no caixa.

O universo de Paradise conspirava contra mim?

Quanto mais acreditava que as pessoas não se importavam comigo, tanto mais eu me esforçava para ser agrada-las. Um esforço quase sempre em vão.

Eu tinha até o pôr do sol para retornar para casa e vagava a bicicleta pela cidade de Paradise.

A solidão era minha melhor companhia. O mundo que não girava ainda era melhor que o sombrio que me aguardava do outro lado da ponte.

O sino da escola funcionava como um toque de recolher. Voltava para a casa do outro lado da ponte para evitar encontrar com Alice e suas colegas de Real Paradise. Esses encontros eram quase sempre desastrosos — ao menos para mim. Perseguição, provocação e agressão.

Eu parei com a bicicleta e me sentei junto ao chafariz da praça, observando os pombos voarem com um sorriso no rosto e uma dor no coração desejando ser um pássaro voando no horizonte.

Duas crianças sentarem-se nas margens da fonte, eram as mesmas que encontrei mais cedo. Elas dividiam um pequeno saco de pipoca com queijo e pareciam famintas.

Após comerem todos os grãos até mesmo os que não estouraram, o menino mais velho quis mostrar algo que ele chamava de especial. Para ele, uma habilidade, mas para mim, uma memória. Uma lembrança confusa e incompleta.

Ele rasgou o papel e ensinou a irmã a fazer um pequeno barco com o saco de papel e o colocou para flutuar na fonte.

As nuvens encobriram o sol e meus olhos se voltaram para um passado não tão distante nas margens do rio de Paradise. Eu não estava sozinha. Com a mesma bicicleta que agora me pertencia e eu sentada na garupa, ela me levou às margens do rio que passava pela cidade. Minha mãe pegou duas folhas de papel e fez um barco grande e outro pequeno. Ao colocar dois barquinhos na água ela me explicou:

— Um dia vamos navegar muito além de Paradise.

Navegar para longe era tudo o que minha mãe queria. Não importava a direção seja norte ou sul, das profundezas do mar ou até as nuvens.

Eu ainda não entendia, talvez ainda não entenda, mas a âncora de mamãe estava firmemente agarrada a ideia de que meu pai me reconheceria como filha dele. Ela não se importava se teria de dar a vida por isso.

Foi nas margens do rio de Paradise que eu vi o barco maior afundado e o pequeno encalhado na margem.

Uma lembrança deu lugar a triste realidade. Ao finalmente encontrar as crianças e conseguir faze-las voltar para suas vidas comiseradas, o pai tomou das crianças todo dinheiro que haviam arrecadado das esmolas que os filhos haviam recebido.

O menino sendo puxado pela orelha e a garotinha chorando porque o pai acreditava que as crianças haviam gasto parte do dinheiro que ganharam comprando pipoca.

Eu poderia ter dito alguma coisa , mas nos meus 15 anos de vida, não era ainda capaz de enfrentar a realidade da minha própria vida. Queria ser diferente mas me comportava como todos os outros de Paradise.

O limpador da fonte — dono de uma barba mal aparada e roupas sujas — colocou o barco feito do saquinho de pipoca na sacola preta. Como se o brinquedo fosse apenas mais uma daquelas folhas que um dia já enfeitaram uma bela árvore, mas agora eram apenas lixo.

O céu se fechou novamente, e me lembrei que em meus pesadelos eu podia ver uma mulher cruel afogar os sonhos de mamãe e levá-la para navegar para longe de mim. Isso era um devaneio ou apenas mais uma lembrança?

Não importa, a visão se tornou tão vívida ao ponto de não ter ouvido o sino da escola. Era tarde demais quando percebi que Alice se aproximava e ela não estava sozinha.

Ofegante corri com a bicicleta o mais rápido que pude. Não seria a primeira vez que elas me machucariam sem qualquer motivo. Mas dessa vez seria diferente, um acidente seria confundindo com uma provocação.

Eu desnorteada andei com a bicicleta em direção a biblioteca e esbarrei no jovem que sempre observava à distância sair de dentro da biblioteca. Acabei derrubando o livro de letras prateadas que ele carregava e a minha bicicleta que entortou a roda. Bernardo estava atrasado e pareceu não se incomodar com o fato do livro ter caído e ajudou a me levantar.

— Você se machucou? — perguntou Bernardo parecendo preocupado com o fato da minha perna ter se cortado com a bicicleta sujando meu vestido branco.

Aquela seria apenas mais uma das muitas cicatrizes que já tinha. Bernardo tateou o chão me ajudou a recolher as frutas minúsculas que havia comprado no mercado e haviam se espalhado com a queda.

— Estou bem, obrigada! — eu disse sem ter coragem de olhar nos olhos dele.

Terminei também de recolher as maçãs me preparando para subir novamente na bicicleta, só então percebendo que não conseguiria voltar a pedalar.

— Qual o seu nome? Porque nunca te vi na escola? É nova em Paradise? — O garoto insistia em fazer tantas perguntas, embora eu não respondesse nenhuma delas.

— Desculpe! — Engoli a saliva quase não conseguindo falar.—Preciso ir agora!

— Meu nome é Bernardo, posso ajudar com a roda da sua bicicleta. Conheço alguém que pode conserta-la.— Ele insistia de alguma forma prender a minha atenção.

Eu me distanciava empurrando a bicicleta. Parei por um instante e olhei para trás, Alice e as outras meninas vinham em minha direção. Não havia tempo a perder.

— Estou grata, mas não será necessário. Perdoe-me por ter derrubado o livro.

Eu me distanciava ainda tentando pedalar a bicicleta com a roda empenada e acabei por apenas empurra-la.

— Foi um prazer conhece-la! — foram as últimas palavras ditas por Bernardo, embora eu preferisse que ele não as tivesse dito, pois acredito que Alice tenha ouvido.

Olhei novamente para trás por um momento onde Bernardo conversava com Alice. Ela me olhou por um segundo, senti um arrepio passando pelas minhas costas. As amigas de Alice aproximavam e me seguiam. Fugir era o mais importante. Deveria ter cruzado a ponte, mas eu estava sem fôlego empurrando a bicicleta e era um longo trajeto até a casa da família Esperandio.

Entrei por uma viela sem saída achando que as havia despistado. Vão engano. Tentei fugir novamente, mas as amigas de Alice que eram bem maiores do que eu e me seguraram contra a parede.

Alice apareceu se aproximou da bicicleta e jogou no chão todas as frutas que haviam restado. Se eu não chegasse a casa antes do por do sol, certamente seria castigada por Teresa. Minha meia-irmã se aproximou segurou no meu queixo e olhou bem próximo dos seus olhos.

— A princesa recolheu flores no campo para enfeitar a sua bicicleta? Acorda Gata Borralheira, quem disse que você pode conversar com o Lorde? Ele é meu e eu a proíbo de se aproximar dele.

Esse era o apelido que Bernardo havia recebido das meninas de Paradise ao longo dos anos, agora eu talvez entendesse o porquê.

— E eu não estava conversando com ninguém, houve um acidente... — eu respondi a Alice e ela cuspiu no meu rosto.

Minha meia-irmã gritou:

— Não me interessa suas desculpas! Quando eu contar a mamãe que você vem para a cidade para ficar conversando com rapazes, ao invés de fazer compras, ela nunca mais vai permitir que você saia de casa. É o que quer? Ficar presa naquele porão? Você é uma qualquer como sua mãe!

Essas ofensas era uma das poucas coisas que ainda me despertavam alguma reação.

— Nunca mais fale da minha mãe, ou eu sou capaz de...de...

Alice desdenhou:

— Você não é capaz de nada. Pois é isso o que você é: um nada.

As amigas da minha meia-irmã riram e finalmente me soltaram, mas Alice facilmente me colocou contra a parede novamente. Alice tinha 16 anos, um ano a mais do que eu. O seu cabelo preto e a franja moldava seu belo rosto, era tão bonita quanto a mãe, e as vezes mais cruel que ela. E agora minha irmã tentava me agredir.

Meus pés eram pequenos, mas os braços fortes. Eu segurava as mãos de Alice tentando evitar que ela batesse e acabei acertando minha meia-irmã fazendo-a cortar a boca. Alice acertou um soco no meu olho deixando-me pouco depois com um hematoma no olho.

Eu sabia que aquela violência não era apenas para me ferir fisicamente. Ao perceber meu silêncio e que finalmente havia me atingido além do meu olho, Alice não se deu por satisfeita e ordenou as suas amigas:

—Deem uma lição nela, para que ela nunca mais se aproxime do Lorde. E quanto a você Clara — falou meu nome com desdém —, quer se livrar de tudo isso? Vá embora e não volte nunca mais.

Era certamente o maior desejo de Alice, mas havia alguém que queria com mais intensidade que eu partisse. Eu sabia que a madrasta permitia que eu saísse da mansão todas as semanas com a esperança que eu simplesmente fosse embora. E como Teresa se decepcionava as quartas-feiras no fim da tarde quando me via retornar para casa e não raro encontrava algum motivo para me castigar.

Antes que as amigas de Alice me machucassem, uma falta de ar e dor no peito e um pedido de socorro rouco e praticamente sem voz me fizeram quase desmaiar. Eu nunca havia sentido aquilo. As duas meninas achando que eu estava morrendo, entraram em pânico ao ouvirem passos se aproximando e antes que eu perdesse os sentidos completamente, fugiram.

Eram um par de sapatos verdes amarrados com cardaços, e meias coloridas até o tornozelo. Eu não consegui identificar de quem eram, mas certamente salvaram a minha vida.

4 de Fevereiro de 2021 às 20:10 1 Denunciar Insira Seguir história
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Kehillah Sanchez Kehillah Sanchez
😍😍😍
February 04, 2021, 20:46
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