suianne Suianne Souza

Sem perceber me encontro em frente a uma praça com um único banco pintado de branco. Não. É o banco.


Conto Todo o público.

#romance #drama #amor #ficção #239 #suianne-souza
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Capítulo Único

Estou cansada e molhada pela chuva que cai lá fora. Minhas pernas doem e subir essas escadas parece um sacrifício maior do que é nos outros dias. Devia fazer uma reclamação ao síndico sobre a demora para consertar o elevador, mas nem ao menos sou moradora de verdade do prédio, o máximo que receberia seria uma risada sarcástica.

Com certa dificuldade chego a porta do apartamento 505 e procuro pelas chaves. Vincent, provavelmente, ainda irá demorar a chegar, então, talvez, eu tenha tempo para tomar um banho e preparar um jantar minimamente romântico, afinal cinco anos de namoro não deveriam passar pelo esquecimento.

Deixo minha bolsa ao lado da porta de entrada, vou até a cozinha onde separo alguns ingredientes e encontro algumas velas que acendo e espalho pelo apartamento. Só então percebo que as luzes do quarto estão acesas, talvez Vincent tenha chegado mais cedo hoje.

Ouço, então, uma voz doce e suave, sussurrando baixinho. Me aproximo com cuidado, pela porta entreaberta consigo ver duas silhuetas na cama. Uma mulher tão branca que chega a parecer doente, deitada sobre o peito de Vincent, enquanto ele brinca com as pontas de seus cabelos pretos e curtos.

Tenho vontade de entrar ali e arrancá-la a força da cama, puxar seus cabelos até que não reste nenhum para contar história. Tenho vontade de quebrar uma garrafa na cabeça de Vincent e xingá-lo com todos os palavrões possíveis. Mas não consigo.

Me viro e saio do apartamento, correndo pelas escadas com uma força que eu não sabia ainda existir em mim. Na portaria o síndico me deseja um “Boa noite” educado que ignoro enquanto sinto meus olhos arderem com lágrimas. Ali, na porta, de frente para a rua, observando a chuva cair penso mais uma vez em voltar e cometer um duplo homicídio, mas não vale a pena, sei disso.

Dou um passo a frente deixando que a chuva molhe-me ao mesmo tempo que grandes lágrimas escorrem pelo meu rosto. Não sei o que fazer, não tenho para onde ir nesse estado e não quero nada.

Na verdade quero que tudo desapareça. Quero que isso seja apenas um sonho ruim do qual vou acordar e Vincent vai estar ao meu lado, vai me abraçar dizendo que está tudo bem e no fim vai realmente estar tudo bem. Mas os minutos passam, um após o outro e a sensação dos lençóis contra meu corpo não vem, só a água encharcando minhas roupas.

Meus pés me levam pela rua inconscientemente, da mesma maneira que minha mente vaga entre meus pensamentos, até chegar a uma caixinha. A caixa que ocupou o lugar mais importante da minha vida por cinco anos.

A caixa que enchi com coisas como quando Vincent me convidou para morar com ele, nossa maior briga, nosso primeiro ano novo juntos, quando me levou para conhecer seus pais no natal, a primeira vez que conversamos sobre nosso futuro juntos, nosso aniversário de um ano de namoro e a primeira vez que nos beijamos.A caixa que por tanto tempo foi motivo de tantas alegrias.

A cada passo, a cada lágrima e cada memória uma pequena parte de mim se perde, um pequeno pedaço morre lentamente, como uma tortura da qual não tenho como escapar.

Sem perceber me encontro em frente a uma praça com um único banco pintado de branco. Não. É o banco. Me encontro no lugar onde tudo começou. Onde ele sorriu para mim em uma manhã fria de sábado e me ofereceu um café. No lugar onde eu pensava em terminar tudo e encontrei uma razão para tentar mais uma vez.

Parada, no meio da rua deserta, pela primeira vez, não penso em nada, apenas sinto a chuva caindo sobre mim, escorrendo pelo meu rosto e se misturando as lágrimas. Observo o banco, como se ele estivesse me encarando, me mostrando a contradição dos fatos.

Então o som de uma buzina me tira do transe, olho para o lado procurando pelo som. Uma luz forte atinge meus olhos.

21 de Dezembro de 2019 às 00:01 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Eduardo Miranda Eduardo Miranda
Olá Suianne, tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Puxa! Que conto denso, forte em todos os aspectos. Um tema que sempre será polêmico e que exige muito do autor por tratar de emoções fortes. A personagem demonstra todo um cuidado com seu amor Vincent que depois, já no final, descobrimos que de certa forma ele a salvou emocionalmente, lá no banco quando ela já pensava no pior para sua vida. E no final, pelo menos o que eu entendi, ela ao retornar no mesmo local, no mesmo banco e estar ali estagnada refletindo sobre sua vida e é desperta por uma buzina e faróis de um automóvel, reencontra o final ao qual foi salva. Enfim, o texto nos faz refletir muitas coisas e esse é o charme do Conto. Não encontrei erros gramaticais ou de concordância, fato que eleva muito a qualidade do conto e o torna muito mais interessante e rico. Suianne, adorei seu texto e espero ter a oportunidade de ler outros trabalhos de sua autoria, parabéns!
October 10, 2020, 17:35
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