Felipe Seguir história

bhpoiano B. H. Poiano

Felipe está em um relacionamento estagnado e infeliz, em uma das discussões com sua esposa, sai de casa e se encontra com seu a amigo Eduardo, onde discute seu relacionamento.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#familia #amigos #infeliz #bar #relacionamento-abusivo #divorcio #filhos #relacionamento
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Jantar

Ela ama minha barba. Encarei o espelho e odiei a pessoa que me olhou de volta. Passei a espuma, peguei a navalha e passei-a rente ao meu rosto. E em menos de dez minutos parte da minha identidade foi apagada. Joguei água gelada no rosto, sequei com uma toalha áspera e logo em seguida manchas vermelhas apareceram e sangue escorreu timidamente pelas minhas bochechas.

Olhei no espelho por alguns instantes e observei aquela pessoa, não soube o que sentir e gostei dessa sensação. Limpei o rosto com a toalha, balancei a cabeça e sai do banheiro. Pelo corredor, passei por fotografias antigas e felizes. Desci as escadas e encontrei Carla bebendo vinho e fazendo o jantar, não fui incomodá-la. Peguei meu celular e subi novamente, passei pelos quartos e entrei num quartinho, solitário, que ficava no fim do corredor.

Destranquei a porta e entrei no apertado espaço que ali era. Nas paredes, caixas com diversas coisas que, na maioria esmagadora, eram minhas. Caixas com meus CDs antigos, meus livros e histórias em quadrinhos. Meu violão estava ali, jogado no canto quase empenado, ao lado da minha guitarra. Ali havia antigas camisetas que Carla achava que não eram “adultas” que eu recusei jogar fora.

Separei meus CDs, filmes e livros e os coloquei em uma caixa separada das outras. Havia um tempo que eu já fazia isso. A única coisa que faltava era a coragem de ir embora. Escutei a campainha e olhei no relógio, quase oito horas, minha irmã já havia chegado.

Sai dali levando um box de DVDs, bati a poeira que ficara na minha roupa e desci. Carla abrira a porta e eu os encontrei na sala. Minha esposa nada comentou, mas minha irmã sorriu ao me ver. Seu esposo fez uma piadinha sem graça, mas meu sobrinho não gostou do que viu.

– Não acredito. – Ele tentava cultivar a dele próprio, mas não ia muito bem. – Não acredito que você fez isso. – Sorri.

– Se quiser, acho que ainda dá para colar no seu rosto. – Ele sorriu.

Jantamos. Comemos, bebemos, conversamos e rimos. Minha irmã mora em outra cidade e sempre demorávamos para nos ver, mas sempre que nos víamos conversávamos sem parar. Ela ainda conseguia arrancar alguns sorrisos de mim. Na sala, ela me contou sobre seu emprego, sobre a possibilidade de estar gravida novamente. E eu contei a ela sobre a vontade que eu tinha de ter uma filha.

– Carla não quer. Ela quer focar em sua carreira primeiro. – Carla era advogada.

– Mas vocês estão...?

– Quando não brigamos. O que é raro ultimamente.

– Olha, essa é uma decisão complicada, que vocês devem conversar muito antes de decidir. – Ela usava sua voz de professora. – Mas se vocês deixarem para segundo plano sempre vai ter alguma coisa na frente.

Olhei para a cozinha, onde ela conversava com meu cunhado. As duas nunca se deram realmente bem, sempre conversaram da maneira mais educada e distante possível, e eu no fundo sabia que elas não se gostavam.

Senti o sangue escorrer da minha bochecha novamente e limpei com a manga da camiseta. Meu sobrinho entrou na sala e eu lhe entreguei o box, o sorriso que ele deu foi o mesmo que o meu na primeira vez que assisti o primeiro filme. Ele agarrou o box e retirou o primeiro filme, o DVD ainda brilhava como no dia que comprei.

– Essas são as versões estendidas. – Disse. – Deve dar umas doze horas de filme. – Ele sorriu.

– Olha, nem sei como vocês aguentam essas coisas, eu durmo nos primeiros cinco minutos. – Disse minha irmã, olhando a felicidade no rosto do filho.

– Duvido que você consiga assistir tudo de uma vez só. – Falou meu cunhado entrando na sala. Meu sobrinho encarou-o.

– Quer apostar?

– Eu quero. – Disse minha irmã.

– Quanto? – Perguntou meu cunhado.

– Cinquenta. – Disse meu sobrinho.

– Feito. – Disse minha irmã e seu esposo ao mesmo tempo.

Minha esposa entrou na sala, arrumando as almofadas no sofá antes de se sentar. Olhou para meu cunhado sentado no braço do sofá e revirou os olhos. Somente eu e minha irmã percebemos. Contei a ela sobre o filme e ela não pareceu surpresa.

– Achei que eu havia guardado.

– Guardou no quartinho. – Disse no mesmo tom e voz. Olhei para meu sobrinho, que agora segurava o box como um tesouro. – Ele vai adorar o filme.

– Ele está na idade de gostar dessas coisas. – Encarou-me fundo nos olhos.

Minha irmã foi embora algumas horas depois, abracei-a forte, apertei a mão de meu cunhado e recebi um abraço esmagador de meu sobrinho. Os observei subirem no carro e saírem rua acima. Olhei para cima e a lua cheia no meio do céu pareceu gigantesca. Entrei e encontrei Carla arrumando as almofadas dos sofás, terminando, ela acendeu um cigarro e pegou uma garrafa de vinho.

– Não estou me sentindo bem, vou deitar. – Subiu as escadas para nosso quarto. – Pode ir lavar a louça. – Disse como se eu tivesse treze anos de idade. Fui.

17 de Dezembro de 2019 às 12:58 1 Denunciar Insira 2
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Ruan Gabriel Ruan Gabriel
Sempre bom deixar uma mensagem de incentivo e de agradecimento! Estou curioso com o que guardam os outros dois capítulos!
December 19, 2019, 15:39
~

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