Vladmir era um canalha Seguir história

psiu_psycho Billy Who

Meus amigos não são de bem. Motociclistas baderneiros, garotas vulgares com voz alta, músicos infiéis, anti-sociais reclusos com a língua afiada. Vagabundos. E existe Vladmir. Vladmir é uma praga, um incitador do caos, uma desgraça que critica tudo; mas ele é sincero. Por isso eu prezo o bastardo tanto.


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Para o maldito Vladmir


N/A – Acredito que os escritores quando se deparam com determinadas situações, não conseguem fazer outra coisa se não pensar que precisam escrever algo sobre aquilo. Às vezes, as situações são tão incompreensíveis que você ri da piada que a vida é, mas às vezes junto, vem uma história.
Bem, ela veio.
Vladmir, seu canalha, espero que goste da história baseada no que lhe aconteceu e enfeitada pela minha mente, é claro.



Vladmir era um canalha.

Desde a primeira vez que ouvi falar sobre ele, fiquei sabendo dessa informação, a meu ver, bastante útil já que precisava me preparar para enfrentar o Diabo em pessoa que ouvi de bocas miúdas que o sujeito era.

Precisava trabalhar com ele, disse-me meu chefe, e desenvolver um artigo gastronômico de um restaurante que estava sendo inaugurado naquela semana, e para meu azar, Vladmir iria ser meu colega.

No começo cheguei desconfiado, o cara era uma figura que não calava a boca, falava pelos cotovelos e criticava uma tonelada de chefes, me deixava zonzo.

Para esclarecer, eu sou um canalha também, mas sou um canalha preguiçoso.

Vladmir era um crítico assíduo; eu um crítico entediado que preferia dar qualquer nota, dizer qualquer merda ou simplesmente ignorar restaurantes ruins, seguindo para comer de graça em outros que me agradavam mais. Embora seja assim, também não me oculto na fachada de bom rapaz, não pense isto, mas considero minha petulância a sabedoria dos arrogantes, sinceramente, eu não peço desculpas por não prestar desde o meu nascimento.

Um canalha reconhece o outro e imediatamente nos tornamos amigos, não antes dele quase acabar comigo me depreciando, porque dizia que eu era um animal.

Sim, ele não possuía o menor tato, dizia que não ligava e ia vomitando o que lhe convinha, mas em um mundo de palavras polidas e uma hipocrisia cada vez mais enfeitada, eu gostei do bastardo e sabia que poderia contar com a sinceridade dele quando precisasse.

Vladmir se tornou meu amigo, um dos bons, daqueles de qualquer hora e mesmo com suas críticas ácidas, eu não ficava chateado, não com ele, mas comigo por persistir em certos erros que a culpa não era dele, mas minha.

O canalha odiava quando eu insistia em avaliar um restaurante que visivelmente eu não gostava com nota alta, dizia que eu estava sendo feito de bobo e de fato, ás vezes estava mesmo.

Confesso que a maioria das pessoas não gostava do sujeito; era tudo aquilo que ninguém suporta, Vladmir era sincero.

Era justo também, mas normalmente exigente e com opiniões ácidas. Ele não estava neste mundo para agradar ninguém, passava por cima de você sem ao menos perceber e arrastava suas certezas, enquanto você ficava apenas olhando e nada poderia fazer.

Acho que simpatizou comigo porque embora diferentes, éramos parecidos e quando eu não concordava com ele, batia de frente; “está errado, Vladmir, não acho que seja assim”.

De quebra, ele me olhava daquele jeito traiçoeiro e me ouvia, soltava uma longa gargalhada e respondia; “eu não acho, Billy, pra mim isso é um lixo”.

Um detalhe importante é que tudo para o Vladmir era um lixo.

Quase tudo, precisamente.

Pense em uma pessoa chata. Agora a torne insuportável, certeza que ainda não será o Vladmir.

Eu sei, estou denegrindo a imagem santa do psicopata, mas possuímos hoje intimidade para isso, embora eu possa dizer com sinceridade que ele é uma das minhas pessoas favoritas.

A razão é de todo modo, muito simples: o Vladmir não mente pra você em hipótese alguma, ele ouve seus dilemas e dá seus palpites – juro, às vezes delicados e gentis, mas porque ele acha que assim você o merece. Ele vibra com as suas conquistas e torce por suas vitórias. Sorri quando você sorri e chora se você chorar.

Vladmir é um canalha, mas ele não é de todo mal se você passar por sua aprovação, então, ele se torna uma pessoa como qualquer outra.

Acredito que o retrato de vilões seja pintado de uma maneira lateral de mais para ser apresentado, diria que Vladmir busca e se orgulha do seu papel de vilão, de ver o circo pegar fogo, de gargalhar com a desgraça alheia, mas não é apenas feito de matéria maligna.

Mas expor as qualidades e defeitos deste desgraçado não é a razão que estou contando isso, pois o Vladmir, este é um canalha nato, sem mais nenhuma observação, e também não quero criar uma empatia com Vladmir, na verdade, preciso que desprezem esse sujeito.

Não estou querendo que amem Vladmir, mas quero desenhar o quadro da repugnância que sinto quando olho para o rebanho que se diz superior a ele.

Vladmir fez uma critica ácida sobre um pulgueiro barato que abriu recentemente. Ele o viu com uma placa de “aberto”, entrou, se serviu e comeu a comida que ali serviam, pois para criticar algo,precisa-se comer antes.

Fez algumas observações ao sujeito gordurento por trás do balcão e este, ao que parece, lhe acenou a cabeça pateticamente. Como pano de fundo da cena o bife de carne de gato explodia com bolhas de gordura, saltando nos azulejos mal decorados por trás de uma chapa suja de restos mortais de outros pequenos animais abatidos.

Vladmir crispou os lábios, deixando claro sua opinião sobre a gordura que havia em demasia e estragava um prato simplório, sem nenhum atrativo, ainda assim, o homem queria continuar comendo, sem que houvesse um cabelo em sua refeição.

Todos querem, acredito e que Deus abençoe a vítima que pensa o contrário.

E lá seguia Vladmir, sentado na pocilga imunda, o restaurante lotando cada vez mais, os ventiladores de teto já não dando conta de refrescar o ar superlotado de suínos que resolveram invadir o ambiente e se lambuzar de lanche com cabelos, que poderia até mesmo não ser cabelos, se é que me entende.

Cabelo aqui, cabelo lá, um rato morto deslizando de um lado, uma barata de outro e Vladmir bateu na mesa, se levantou com a frieza de uma geleira, como sempre. Enfiou a mão nos bolsos, andou até o balcão e chamou o subproduto dos delírios de Kafka, que era o cozinheiro e lhe encarou nos olhos.

E o inferno começou a sair da boca de Vladmir, golpeando o homem de forma direta e por vezes cruel.

— Você possuí um estabelecimento que vende comida estragada, o mínimo que eu deveria fazer além de chamar a polícia, era queimar o local, para que ninguém mais pudesse sofrer a dor de precisar engolir este monte de lixo sem perceber a quantidade absurda de erros que existem aqui. De inicio, você não é um cozinheiro, é uma barata que está se passando por cozinheiro e agora usa a cozinha a seu bel prazer, empesteando os estômagos alheios com sua total falta de conhecimento sobre sequer fritar um bife.

E não parou por ai, pois Vladmir era um crítico entusiasta, ele levava tão a sério a arte culinária que simplesmente tratar a comida como um brinquedo lhe deixava de estômago revirado, e ele não poupava palavras para diminuir o chefe em questão até que lhe entrasse na cabeça o caminho correto a tomar.

Vladmir era um bastardo, mas Vladmir pisou de tal forma no ego daquela barata que se passava por homem que ao fim, ela apenas se manteve em pé, as mãozinhas sujas apoiadas no balcão, os olhos sob as antenas olhando esporadicamente para Vladmir, o vilão e vendo seu sorriso cruel se estender, a barata passou a gritar.

E foi aí que a merda estava feita, para total divertimento sádico do canalha que observava a cena, completamente divertido.

E a barata gritou por dois dias inteiros, seus gritinhos de barata ecoaram por todo o esgoto da cidade, trazendo à tona ratos e suas companheiras baratas.

A barata medíocre nada respondeu propriamente à Vladmir, não diretamente, mas em sua linguagem converteu sua humilhação em raiva.

Vladmir nunca disse que baratas não deveriam cozinhar, mas que ao menos, usasse um pouco de decoro.

Logo as outras baratas e ratos começaram a se agrupar, enquanto isso, Vladmir ria observando o tumulto.

Agruparam-se, e em suas línguas repugnantes passaram a informação de uma para outra, alegando que Vladmir se quisesse criticar, deveria ter feito diretamente em segredo, outras que não deveria, já que a barata era uma novata no ramo alimentício e estava passando por uma crise, houveram outras inflamadas, que diziam que não se critica ninguém, embora estivessem criticando Vladmir.

E elas armaram um circo e o devoraram vivo.

Usaram exatamente as mesmas armas que ele, alegando que usá-las era cruel.

Apontaram o dedo, quando alegavam que apontar o dedo era errado.

Julgaram-no para que não julgasse, por não ser seu direito.

Fingiram apoio à sua amiga Barata Cozinheira, quando na verdade a única coisa que existia era sede por sangue alheio, mesmo assim, com a premissa de serem bondosas, corretas.

Não se tratava das críticas. Tratava-se o quanto elas se identificaram com elas e as verdades doeram em cada uma.

Não se tratava de exigir respeito, mas de pregar alguém que ia contra seu rebanho de sordidez em uma cruz de vilão.

Reclamaram sobre ele reclamar.

Protestaram para que ele não protestasse.

Usaram violência alegando que ele era instrumento dela.

Sobretudo, provaram para Vladmir apenas o que ele já sabia: não se abala com a opinião das baratas, ao contrário, soa assombroso o quanto elas podem se tornar manipuláveis e correrem em círculos contra seus próprios argumentos.

A hipocrisia é um doce elixir para Vladmir que senta e ri observando sua teoria estar completamente correta, pois basta uma pequena faísca que elas incendeiam da maneira mais torpe possível.

Ele sabia disso, mas eu não havia me dado conta.

As baratas são hipócritas e sua hipocrisia é assombrosa.

Um ratinho em questão, o conheço inclusive, estava há alguns meses à choramingar sobre seus amigos ratos que o abandonaram e usaram na ida à um concerto, se lamentou e criticou, falou mal destes por suas costas e em seguida, voltou para eles com lágrimas nos olhos, mas na crucificação distante de Vladmir, lá estava ele falando sobre o quão errado é falar mal das outras pessoas.

Todos pregavam o quão era errado criticar a culinária alheia, mas atacavam diretamente Vladmir com frases como “você é um lixo” e não “sua crítica é um lixo, sua comida é um lixo”, como ele tão bem sabe pregar sobre.

Você é um lixo, você é patético, você é um monte de merda, entre outrosadjetivos, nada civilizados, para protestantes pelo direito de não protestar.

As baratas, elas se camuflam e falam mal do sistema, apontam sobre termos elegido líderes cruéis, sobre sentimentos alheios – oh sim, eles erguem a bandeira como uma marca de sua humanidade – sobre ter empatia, sobre compreensão, sobre diálogo, sobre tolerância, mas assim que veem algo que consideram errado, usam e abusam dos meios mais vis ainda, em horda, mas o mais peculiar é que nenhum deles falou diretamente com Vladmir; oh não, isto não aconteceu, resolveram se reunir e julgar de longe, pois assim, pareceriam mais heroicos, mais bravos.

Se Vladmir errou? Talvez sim, pois não se perde tempo com baratas, ratos e porcos... Talvez não, pois a liberdade de expressão vem com a liberdade de resposta, tanto quanto o que estou lhes contando está sujeito perfeitamente à esta liberdade e com toda certeza eu teria prazer em responder sem chamar uma horda para crucifica-lo, fique à vontade para criticar minha gastronomia.

Vladmir era um canalha, não nego, e se julgassem as críticas dele da mesma forma que ele julga restaurantes, eu não ficaria chocado, mas ainda estou tentando compreender, depois que ouvi toda a história diretamente dele, que ria, como as baratas têm comportamentos estranhos.

Deixe-me entender: não pode ter opiniões, afinal, “se não gosta da comida, não coma”, mas pode ter a opinião para jogar tomates em quem criticar...

Entendido.

Não se pode ser rude, pois é um dos crimes capitais, sendo assim, resta ser rude com quem julgam rude, desde que seja pelas costas...

Entendido também.

Não se mete na vida alheia, mas a horda se mete na questão que não lhes desrespeita, pois a barata se intitulou uma vítima, então está liberado a intromissão...

Entendido.

Não pode criticar diretamente alguém, pois é feio, mas pode se juntar baratas para fazer o mesmo sobre outra pessoa, sem ser diretamente para ela. Nome disso é hipocrisia, acredito.

Baratas são covardes, hipócritas, revanchistas que se transvestem de bravas justiceiras, quando não possuem o menor dos argumentos válidos para revidar algo que facilmente seria confrontado cara a cara com o diálogo que elas tanto fingem prezar.

Este pequeno pulgueiro sujo, com lanches coberto de cabelos e pouca higiene reflete tão bem a sociedade em que estamos inseridos, onde crucificamos um Judas em nome de nossa boa empatia, onde nos tornamos piores que supostos algozes e seguimos cegos, sem jamais pensar sobre nossas atitudes.

O mundo cria seus canalhas mostrando sua real face, a eles.

Os pisoteia, cospe e mata, com armaduras de sarcasmo, de amor, quando na verdade vivemos entre bestas que se desesperam por sangue fresco, não importa qual seja a razão, ocos para qualquer tipo de crítica, emergidos em fantasias de cidadãos pacíficos.

Como selvagens, marcham para encontrar o canalha e se vingam, e criticam, e julgam.

Como considerar avançada uma sociedade que reclamar do reclamar?

Protestar não é humilhar, caso contrário, você não passa de um canalha também, disto não me importo de ser chamado, Vladmir acredito que menos ainda, mas os benfeitores além de canalhas tão sujos quanto quem criticam, se tornam hipócritas de uma pureza que não tem.

Vladmir, seu canalha, você não vale nada, mas ainda assim, você não é umabarata hipócrita, só por isto, espero que venha comer na minha casa quantas vezes quiser.

E você, pessoa correta e de bem, já crucificou algum canalha hoje?

Aposto que fará bem para o seu ego! Experimente da hipocrisia e viva a liberdade de expressão seletiva.

Seu restaurante é horrível e lhe darei nenhuma estrela.

Vladmir estava certo, basta um canalha para criar duzentos outros piores.

Vladmir era um canalha, mas ele era o único?

Envergonhem-se!

14 de Dezembro de 2019 às 15:57 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Billy Who Escritora de originais independentes pelo Clube dos autores, editora BolsiLivros e antologia Carcoma, dividindo o teclado com um alterego que escreve quando da na telha. Leitora e usuária de stand. Escrever é humano, editar é divino, eu sou um troll.

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